A respeito de Neuza...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

| | | 0 comentários

Neuza tinha 38 anos. Neuza tinha cinco filhos, e Neuza teve cada um com um pai diferente. Neuza era empregada doméstica, e Neuza era frequentemente questionada sobre as razões que a levavam a ter posto no mundo tantos filhos com homens diferentes.

Neuza é irresponsável, todos pensavam, todos diziam. “Neuza não deve se importar com seus filhos, do contrário, cuidaria bem de um ou dois, e não pessimamente de cinco”. Neuza achava que as pessoas tinham razão, mas também achava que elas deviam cuidar mais de suas próprias vidas, pois ela própria já estava ocupada demais consigo mesma.

Neuza contava com ajuda programas sociais do governo para o orçamento de sua casa e algumas pessoas chamavam Neuza de oportunista. “Neuza está recebendo esmola do governo, pra isso pôs tantos filhos no mundo”. Primeiro que Neuza sinceramente não se importava com o que diziam a seu respeito. Segundo que se fosse uma acomodada, não seria doméstica. 

Verdade seja dita, só Neuza sabia da dor que sentia nas costas pelos anos passando pano em chão, limpando privadas e passando roupa. Alias, Neuza detestava passar roupas, mas sempre pagavam algo a mais se ela passasse. Neuza tinha dor nas costas, e já começava a apresentar alguns problemas renais e intestinais. Trabalhava tanto que se esquecia de beber água durante o dia.

Neuza era namoradeira, sim, e isso irritava muita gente. Irritava, porque muitas pessoas vivem oprimidas por outras pessoas, relacionamentos instáveis, ou mesmo oprimidas pelos pais e Neuza não tinha medo de recomeços. Às vezes ela lamentava secretamente ter tomado uma ou outra decisão por impulso, mas sabia que certas decisões na vida são tomadas apenas uma vez.

Amava seus filhos, mas não sabia como ser uma mãe melhor. Afinal, quando menina, Neuza começou a trabalhar para ajudar na renda da família e quando tivera sua própria família, acostumada com trabalho, jamais curtiu a infância de algum de seus filhos. Apenas trabalhara, dia após dia.

Já quando notou seus filhos e filhas ficando moços, percebia-os, vez e outra, fazendo coisas que reprovava. Era o preço que pagava por ser ausente. Mas sua ausência era também causada pela preocupação com o futuro deles. Neuza realmente tinha escolhas difíceis em sua vida. E as fazia. Com o passar dos anos, dos cinco filhos de Neuza, dois se formaram e tornaram-se importantes, um tinha um emprego modesto, um era dependente e preguiçoso e o outro usava drogas.

Neuza envelheceu sendo ajudada pelos filhos por quem mais pode fazer na juventude e dedicando-se àqueles que não tinham capacidade de coisa alguma.  De cinco, três estavam bem. A conta era simples e isto a fazia sentir-se resignada a encerrar sua vida cuidando dos outros, sabendo que alguns de seus filhos, tendo ou não orgulho dela, teriam uma vida melhor e poderiam ser pais muito melhores do que ela foi algum dia.


Publicado no jornal português "Horizonte".

Quando foi que assisti Chaves pela primeira vez?

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

| | | 0 comentários
Quando foi que assisti Chaves pela primeira vez?


Não tenho a menor ideia. E não tenho ideia sobre quando foi a última, e quando verei pela última vez em minha vida. Isto acontece porque Chaves, para a minha geração é algo que faz parte da vida. Já existia, e quando eu morrer, certamente continuará existindo.

Chaves é uma piada quando o assunto é televisão: O que o Silvio Santos vai fazer quando a audiência deste ou daquele programa cair? Chaves. Chaves funciona. Chaves é como Os Trapalhões. Mas sem sexo. É incrível observar que algo da década de setenta que abusa de tantos recursos dos primeiros grandes filmes de cinema, com um humor que parece fácil, durar tanto.

Eu nasci e Chaves já passava. Meus irmãos viram. Talvez minha sobrinha, filhos que eu possa ter, também assistam.
Roberto quem? Ele é o Chaves, e o Chaves se foi. Não vai mais sair do barril. Ouviremos por ai muito “Pipipipipipipi”, “Ué, ué, ué, ué”, mas eu prefiro que a gente abafe esse som com os aplausos e risadas tão características na obra de Roberto Bolaños.


Chaves, não vá embora triste. Ninguém vai gritar “Ladrão” desta vez. Desta vez você vai partir ao som dos aplausos, risos e assovios. Muito obrigado, e descanse em pança.

21/02/1929 - 28/11/2014


ROBIN WILLIAMS - SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

| | | 0 comentários
          Em memória do ator Robin Williams, de quem permanecerei um grande fã, decidi assistir alguns filmes com ele que sempre foram referências, e que eu mesmo me perguntava porque ainda não tinha assistido. O primeiro é:

Sociedade dos Poetas Mortos

          Basicamente, o filme saiu três anos depois que eu nasci, e a fase consolidada de Robin Williams no cinema aconteceu paralelo ao meu crescimento. “Bom dia, Vietnã” saiu nos cinemas um ano depois do meu nascimento, e provavelmente levou 3 ou 4 anos para chegar no home vídeo. Logo, os anos noventa, com Hook, Jumanji, Uma babá quase perfeita, e etc definitivamente são filmes da minha geração. Robin Williams faz parte da minha vida cultural, e fico feliz de ter reservado alguns de seus trabalhos mais preciosos para a minha vida adulta, como é o caso deste, que nunca havia assistido.

          Vamos ao filme.

          Não assisti fazendo anotações, nem pretendo fazer uma crítica. Apenas compartilhar minhas impressões. O primeiro frame do filme começa com uma pintura de jovens estudantes. Uma boa forma de se introduzir o tema, seguindo por uma apresentação da escola, e a rigidez de seu método.

          E ai vem insegurança pra todo lado, jovens confiantes, mas intimidados pelos pais. Sei bem como é isso. É bem clara a relação em que os jovens crescem aparentemente felizes e bem resolvidos, conformados de que não realizarão sonhos. É interessante que a gente observe que o fato de a história se passar nos anos 50, não faz diferença alguma no conceito social da história. Isso acontece hoje, e acontecerá por décadas.

         Mas ai começam as aulas. E é tudo chato, perfeito, curricular. Cursos, estudos. Basicamente o conceito que funciona para se criar homens capazes de grandes coisas. Mas não necessariamente felizes. Até que surge John Keating, e suas primeiras lições realmente falaram comigo.

          Primeiro, que me senti imensamente grato quando ele pede para os alunos rasgarem a introdução do livro. Me senti grato por isto. Pois basicamente, eu escrevo com ou sem inspiração. E há uma diferença absoluta entre o que faço em cada situação. Quando faço sem inspiração, busco idéias, referências, e executo, para alguma finalidade específica. Quando crio algo inspirado, não procuro referência de linguagem, estética ou o que quer que seja: eu apenas abro o coração e aquilo sai.

          E isso é percebido por quem lê. Porque eu percebo quando leio isso em alguém. Já li livros repetidas vezes, livros que nem me causaram tanta emoção, ao passo que recomecei a leitura de livros que me causaram lagrimas ou surpresas, e me deparava com uma escadinha de fórmulas para se contar uma história, e me percebia deixando de lado. Aquilo não tinha alma, era algo produzido em série. Não era um bolo feito pela minha avó, mas um bolo pullman absolutamente sem graça quando começamos a comer o segundo pedaço.

          Rasgar as regras é uma forma de se libertar dos preceitos que as pessoas que não tem habilidade encontram de “codificar e decodificar” algo que simplesmente é uma manifestação da alma humana, a fim de “tentar” reproduzir. É o ator sem talento que defende que qualquer um pode ser um bom ator por buscar técnica. É o cara que faz um curso de desenho e diz a si mesmo que é um artista. É o cara que leu O Herói de Mil Faces, ou qualquer coisa do McKee, reproduz as ditas fórmulas que eles sugerem, e de dizem escritores ou cineastas.

          Os estudos são fundamentais para o desenvolvimento de um artista, seja qual for sua arte. Porque ele precisa descobrir o que já foi feito, para elevar sua autoestima sobre o que ele faz. Descobrir novas maneiras, “fórmulas”, e quem sabe, descobrir o que ainda não fora realizado por ninguém, e quem sabe, ser pioneiro. 

          Pessoas comuns podem sim se tornar escritores, atores, pintores competentes. Mas, pensando em um pintor, ele saberá reproduzir o rosto de alguém, ou fazer uma caricatura, ou replicar uma maçã, mas será apenas isto. Uma foto. Pra haver o brilho, a emoção na arte, ela vem de dentro, não de fora. Vem da alma, da vida que vivemos, não dos cursos que fazemos ou livros que lemos.

          Os verdadeiros professores no mundo das artes não ensinam como fazer alguma coisa. Não afirmam, eles estimulam, e apenas isto. E ali temos uma explicação consistente para a poesia. Segundo John Keating, médicos, advogados, todos amam, todos sofrem, todos sonham. A poesia(ou a arte), é a única maneira que o homem encontra de explicar, seja para si mesmo, ou para o mundo, o que ele sente. Isso não se aprende com métodos e teorias, mas com exercícios sobre si mesmo.

          Temos então um momento tocante, ao qual eu já havia feito em minha vida por inúmeras vezes. Os alunos são postos diante de fotografias de turmas de outrora. Quem eram eles? O que pensavam? O que desejavam e sonhavam? Quem amavam? Qual a sabedoria que o tempo e a vida lhes dera?

          O nosso próprio tempo vai acabar passando, estejamos nós vivendo a vida ou não. Um dia temos 12, no outro celebramos 40 anos. Carpe Diem. Aproveite o dia. O tempo vai passar de qualquer maneira. Estejamos nós fazendo o que desejamos ou não. Podemos ter um sonho que levaria 5 anos para se tornar realidade. Pensando de hoje para o futuro, cinco anos é tempo demais. Então desistimos.

          Mas aí os cinco anos se passam sem que tenhamos arriscado, ou praticado. O tempo que precisamos para realizar qualquer coisa que seja sempre vai passar, estejamos nós fazendo por merecer ou não. Essa é uma lição que infelizmente as pessoas costumam aprender tarde demais.

          Mas voltando ao Carpe Diem, ah, isso é tão mal interpretado pelas pessoas. Aproveitar o momento não significa fazer escolhas idiotas, ou “só se arrepender daquilo que não fez”. Mas entender que só se vive esta vida uma vez. Temos o livre arbítrio, mas as grandes decisões só podem ser tomadas uma única vez. Não tem a ver com impulsividade, mas com paz de espírito, e com a busca. 

          Atrevo a complementar Carpe Diem com “Follow your bliss”, o lema de Joseph Campbell. Busque sua felicidade. Requer sacrifícios, e não é sábio tentar viver algo que não foi vivido. Carpe Diem, o que não foi vivido ontem, não deve ser vivido hoje. Vamos aproveitar o hoje com o hoje, sem usá-lo pra reparar o passado. É perder tempo.

          Viver a adolescência nos 20, para viver os 20 nos 30, os 30 nos 40, e perder-se da própria personalidade. Temos que aceitar o que não tivemos e seguir. Isto nos torna mais sábios, e capazes de aproveitar as delicias da fase da vida em que nos encontrarmos.

          “Carpe Diem”, “Follow your bliss”, ou, mais moderno e irreverente “Continue a nadar!”, lema da peixinha Dory de “Procurando Nemo”. O filme segue com seus exemplos através dos jovens rapazes, culminando na trágica história de Neil, que sonhava ser ator, e no mesmo dia em que brilhara no palco, aplaudido e reconhecido por todos seus amigos, suicida-se. Salta de um extremo ao outro.

     
    É exatamente assim que acontece. É difícil demais viver de algo que basicamente é o resultado da ebulição da própria alma. As pessoas raramente entendem. As pessoas não percebem, que pena, que são todas artistas asfixiadas. Todo ser humano nasce pronto para ser poeta, ator, cantor, contador de histórias.
Todos já disseram que a própria vida daria um livro.

          Quantos escrevem? Todos já ouviram uma música e se imaginaram num palco cantando e dançando, todos já contaram uma passagem da própria vida, interessante, e gostaram da concentração daqueles que escutavam. Todos já se imaginaram fazendo algum discurso, todos já se imaginaram sendo entrevistados.

          Mas poucos fazem tudo isso. É o medo de que a poesia da própria vida não seja interessante para os outros, como vemos na cena em que o tímido aluno se recusa a recitar algo de sua autoria, até que o professor lhe tape os olhos e o faça descrever aquilo que vê.

          Impossível que exista algum ser humano cuja poesia não seja interessante. Seja ela sensível, divertida, erótica, profana, religiosa, não importa. Todos trazem dentro de si poesias fascinantes, que são sufocadas pela falta de fé em si mesmos, e a falta de professores que estimulem mais e ensinem menos.

          Tinha esperanças de que Neil fugisse de casa, mas não foi este o final que teve. Uma pena. Gosto de imaginar que, com todo o clímax do filme, todos aqueles jovens que subiram na mesa para ver o mundo por um novo ângulo, possam ter mantido, até o fim de suas vidas, a poesia viva.

          Parabéns a quem escreveu, a quem dirigiu, aos então jovens atores, e especialmente ao tal comediante cuja graça, definitivamente, estava em sua humanidade, muito mais do que em seu senso de humor.

A Fábula do Marimbondo

terça-feira, 22 de julho de 2014

| | | 1 comentários

Sempre tive medo de marimbondo.
Desde pequeno.
Uma vez em que brincava com meu primo lavando o quintal.
Ouvi aquele zumbido alto,
um som que não parecia vir de asas,
Mas feito, quem sabe, por uma boca.
A coisinha veio, atrevida, 
Voando perto do meu rosto.
Por reflexo,
e um tanto de ingenuidade eu dei um tapa.
O tempo parou.
Desviado de sua rota,
a criatura fora empurrada pouco mais de um metro.
O marimbondo, arisco, sentiu-se profundamente ofendido.
Sei lá eu por que cargas d’água procuram água,
Não fiz por mal.
Ele veio, eu o ofendi, e apesar de pequeno
(quem sabe até por esta razão)
Ele pareceu ficar transtornado.
Veio diretamente em meu rosto,
E desta vez não por um passeio distraído.
Por ira!
Ai de mim.
Meu coração acelerou.
Eu devia ter por volta de onze anos,
e percebi algo notável:
O marimbondo, tomado por raiva, parecia três, quatro vezes maior
Novamente, e desta vez não por reflexo, mas por medo,
Dei outro tapa.
A criatura voltou furiosa em outra investida,
levou outro tapa,
E então me despistou.
Passou por entre as minhas pernas e posou em minha cabeça.
Sua raiva fora então descarregada em uma ferroada rápida e certeira.
Dedicado a penetrar seu pequeno e poderoso ferrão em minha pele,
Distraiu-se, pobrezinho.
Eu dei outro tapa.
Desta vez ele estava fraco.
Derrubei-o. Caiu no chão. Eu pisei.

Não uma pisada violenta e brutal,
Mas a pisada frágil típica de uma criança assustada.
E ele,
com seu traseiro imenso esmagado, 
agonizava.
Encarei a pequena criatura.
Teria sido o tapa o motivo de sua ira?
Teria o marimbondo,
Quem sabe?,
já saído de sua colmeia
a procura de um confronto que pudesse lhe dar fim à vida?
Teria esta batalha sido o grande momento de sua breve existência?
As asinhas batiam assustadas quando,
Por compaixão,
O esmaguei.
O marimbondo morreu,
E eu acredito,
Sabendo que havia deixado na minha pele um ferrão,

E na minha história este breve incidente.

A lenda do velho que ria, Parte 3

sábado, 3 de maio de 2014

| | | 1 comentários
Arte de Tácio Melo Maciel
Era apenas terça-feira para a maioria das pessoas, exceto para senhor Polidoro que, com seus 93 anos, perdera sua esposa para um assaltante violento, que a baleara, e naquela tarde, ela fora enterrada. Sem que tivessem tido filhos, ele sentia mágoa, ódio, e não conseguia dormir.

Era doloroso que tenham tentado ter filhos por tantas vezes sem nunca terem tido sucesso. Agora, no fim da vida, ele olhava para trás e podia reconhecer: toda aquela história de amor de repente deixaria de existir quando ele morresse. Ele era a única testemunha viva daquela aventura particular entre ele e Emerenciana, sua falecida esposa.

Mas evidentemente que esta história de amor era seu ponto de vista sobre 68 anos de um casamento de sucessivas brigas, em que ele a traira por diversas vezes. Ela, Polidoro tinha certeza, sabia de seus deslizes e o perdoara. Em parte porque era seu dever de mulher, mas também porque lhe admirava. Ele era quase um pai para ela.

Tinham raiva dos amigos e irmãos que tiveram filhos e inevitavelmente, sua inveja, visível por todos, os fizera afastar das pessoas. E agora, não tinha ninguém. Poderia de repente, solitário, se reaproximar daqueles que rejeitara. Mas eles o estranhariam, e ele não iria gostar de saber que no final das contas ele precisaria daqueles a quem tanto rejeitou.

Frustrado, sentindo-se humilhado pela própria desgraça, levantou no meio da noite, e pôs-se a andar.

Desejara aquela bênção que era morrer. Já ouvira tantas histórias de que casais unidos pelo amor sobrevivente, quando separados pela morte na velhice, com ligeiro atraso, a própria morte tratava de uní-los novamente. Desejara isto, e rezava para que Deus o retribuísse os anos de comunhão dominical com este advento. Mas Deus não gostava dele. Deus era o pai de todos os outros, o pai daqueles que ele julgou errado por toda a vida e que agora, teria de procurar para curar-se da solidão. Deus era um patife miserável como todos eles. Não era misericordioso, era irônico e sagaz. Era como Polidoro pensava enquanto andava pelas ruas do centro, com o coração amargurado, pulsando ódio do mundo e pena de si mesmo.

Polidoro se sentou na calçada, na Avenida São João, em frente ao número 615 e chorou. Porque Emerenciana tinha de morrer primeiro? Existem mais viúvas que viúvos no mundo, talvez porque as mulheres sejam mais dispostas a viver com sofrimento, talvez já sejam solitárias no matrimônio. Foi então que, no meio da madrugada, algo terrível aconteceu.

Como se do meio do ar se abrisse uma cortina invisível, entre os véus transparentes surgiram um ser pálido, de pele lisa como a cera de uma vela. Era um homem jovem. Ele se apresentou para Polidoro. Era aquele de muitos nomes e muitas caras, e que poderia oferecer a Polidoro um desejo, contanto que não fosse a morte, e Polidoro, em troca, lhe daria sua mortalidade. Polidoro sentiu-se tentado, e negou-o. Mas a criatura branca dissera-lhe o que ele gostaria de ouvir: que melhor maneira de debochar de Deus, que segundo seu entendimento, só lhe causara sofrimento injustificável, do que interferir nos processos do homem, sua criatura?

Polidoro se esforçou para levantar da sarjeta, para então ajoelhar-se diante da criatura maliciosa, e então desejou reencontrar Emerenciana, no esplendor em que ela estaria em sua existência na eternidade. E viu.

Em uma terra de trevas, lama e lamentação, ela estava, com as mesmas vestes que vestia quando fora baleada. Suja, gritando e espraguejando, tal qual estava ele em vida. Sentia ódio dele, ódio pelos anos que passou ao lado dele, engolindo as traições, o ressentimento, os achincalhes e o comodismo que a fizeram viver uma existência servil e rancorosa. Sentia ódio de Polidoro, de Deus, e pena de si mesma.

A criatura começou a dar gargalhadas. A pele de Polidoro começou a tornar-se branca e lisa como a da criatura de muitos nomes enquanto ela ganhava a forma do corpo de Polidoro, dando gargalhadas de incomensurável prazer ao contemplar a desgraça do velho.

Sob a forma de Polidoro, a criatura riu até que o coração do corpo parasse e ela morresse. Polidoro, tomado por ódio, percebeu a ironia, e gritou. Sua boca tornara-se uma coisa medonha, rangando até o fim dos maxilares, com dentes compridos, finos, e brilhantes feito agulhas.

Polidoro se tornou uma criatura medonha, errante, com um propósito real desconhecido, a perambular aquele mesmo lugar por anos e anos. E a família enterrou o corpo da criatura pensando ser Polidoro, com a idéia de que o amor teria unido aqueles dois velhinhos na eternidade.

Continua...

DEIXE UM COMENTÁRIO. EU ESTAVA NA DÚVIDA SE REVELAVA A ORIGEM DELE OU NÃO, ENTÃO, QUEM LEU OS OUTROS, POR FAVOR, QUERO SABER O QUE ACHOU. :)

A lenda do velho que ria, Parte 1

A lenda do velho que ria, Parte 2

Ensaio sobre as trevas dos que não dormiram

sábado, 1 de fevereiro de 2014

| | | 1 comentários
          Uma amiga minha, que apresentarei como Susana, certa vez havia acabado de se formar e buscava seu primeiro emprego. Recebera uma ligação de um escritório de contabilidade, no número 225 da Avenida Nove de Julho. Era um prédio amarelo e feio, do qual ela até então nunca tinha ouvido falar.

          Susana não tinha religião. Apesar de ter sido batizada quando nascido, achava que Deus era um Saci Pererê universal. Uma lenda comum que justificava subjetividades incompreendidas pelo ser humano em toda a parte do mundo, e apenas isto.

          Parou seu carro no estacionamento, e colocou para fora do carro primeiro seu pé direito. Queria que sua vida profissional começasse do jeito certo. Uma superstição idiota para alguém que não acredita em nada(ou que quer acreditar que não acredita). Fizera sua entrevista.

          “Espero que não se incomode com o lugar...” seu futuro chefe dissera, e ela riu. Disse que tivera uma ótima impressão. Isto o deixara feliz, pois tinha dificuldades em conseguir funcionários.

          Susana começou na segunda feira seguinte. Tinha que conhecer o que havia dos principais clientes, e sua tarefa se estenderia para além do período normal de expediente. O dia correra silencioso, dado à quantidade de documentos que deveria tomar conhecimento.

          Ela trabalhou até que, por volta das 23:00 horas adormeceu. Dez minutos depois ouviu um som de tambor. Firme e forte. Bum, bum, bum-bum-bum... Ela acordou, e percebeu que aquele som vinha dos andares inferiores. Havia gritos, que pareciam ritos festivos. Tinha alegria.

          Bum, bum, bum-bum-bum. Ela começou a descer pelas escadas de emergência quando abriu a última porta e deparou-se com uma fogueira, muitos homens rindo, havia realmente uma festa. Havia um pelourinho, com um homem negro preso a ele, gritando de terror, conforme lhe davam pancadas com uma barra de ferro. O chão era de terra, quem diria, e manchado de carmim, sob a cabeça de um outro negro que, ainda vivo, tremia o corpo em grunhidos. Ela não entendeu o que via.

          Ela estava no ano de 2014, não tinha explicação para aquilo. Ouviu os gritos de uma mulher que era arrastada pelos cabelos. Os homens começaram a violenta-la, enquanto o homem preso assistia e gritava. Susana escondeu-se na saída de emergência por onde havia entrado, mas um negro musculoso, cujo corpo parecia sair do chão a agarrou pelas pernas implorando que ela o ajudasse. Seus olhos estavam furados. Ela correu.

          Mas encontrou no mesmo corredor por onde viera, um homem, branco, jovem, bonito, com bigodes, que estava acorrentado à uma parede. “Me solte”, ele dizia. Ela mexeu nas correntes. Perguntou-lhe o que estava acontecendo. Ele disse que o lugar era atormentado, que precisava fugir. Então chegaram as três mulheres ensanguentadas, que tentaram despir Susana.

          Susana desvencilhou-se e desatinou a subir as escadas. As paredes começaram a descascar, e ela começou a sentir cheiro de carne queimada, e então gritos. Ela abriu a porta do corredor do andar em que trabalhava, mas ouviu gemidos, gritos, grunhidos, sussurros e outros sons aterrorizantes. Havia fogo, e pessoas derretidas que caminhavam em sua direção. Ela se trancou no escritório, mas as pessoas batiam nas portas, e gritavam.

          O fogo entrou no escritório, e ela abriu saltou para a pequena sacada do prédio. A fumaça vinha de todos os lados, e as pessoas haviam derrubado a porta do escritório, e corriam em direção à porta de vidro, com os braços esticados implorando por ajuda. Susana, sentindo que o calor já fazia sua pele queimar, sem muito pensar, lançou-se do prédio. Numa imensa altura.
       
          É claro que ela atingiu a rua. E neste momento cujo impacto violento lhe tirara a vida, ela despertou.
Havia baba nos documentos. Recolheu suas coisas e saiu do escritório. Já no corredor, percebera que uma pessoa cruzara o corredor. Uma pessoa transparente, cujos pés não existiam. Ela partiu em silêncio, misturando “Pai nosso” com “Ave Maria”, e desejando não ter vivenciado o horror que testemunhara naqueles breves instantes de um sono de 5 minutos, que havia levado 40 minutos para acabar.
       
          Susana não desistiu do emprego. Ao contrário. Decidiu ajudar quem estava preso naquele lugar. Mas esta é uma outra história.

--------- // ---------

FATO CURIOSO: Semana passada eu escrevi um conto para a história do Fantasma da Cantareira, e fiquei contente que, apesar de fazer tempo que não atualizava o blog, em um dia já tinha 100 visitas. Me deixou animado para fazer outra lenda urbana. Acabei escolhendo falar sobre o Edifício Joelma, e quando comecei a fazer pesquisas, descobri queno dia seguinte se celebraria 40 anos deste episódio tão triste. Fiquei inicialmente impressionado com a ideia desta coincidência, e talvez por causa dela, espero que, apesar de retratar o horror das almas que penam, ter respeitado o sofrimento das vítimas e suas famílias, e particularmente a história do solo do lugar, que antes que o prédio fosse erguido(em 1971) já havia abrigado muitas outras tragédias desconhecidas da maioria das pessoas.

--------- // ---------

GOSTOU, DEIXE UM COMENTÁRIO PRA ME INCENTIVAR!   :)

Lenda Urbana: O Fantasma da Cantareira

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

| | | 0 comentários
        Foi no começo da década de 70, quando um homem, cujo nome não me recordo, levou sua noiva para uma trilha na serra da Cantareira e ali a retalhou selvagemente. Após mutilar sua noiva por razões desconhecidas, suicidou-se. Dias depois uma senhora, em suas caminhadas matinais pelas trilhas do parque, teria sido surpreendida com partes de membros humanos pelo mato e chamado a polícia, que prontamente surgiu para investigar o caso.

        Este seria um crime convencional não fosse o rumor de que durante as investigações teriam descoberto que o homem, no momento do assassínio teria mutilado a si mesmo! Sim! Retalhou a mulher e distribuiu seus pedaços pela mata, e teria, inexplicavelmente, feito a mesma coisa consigo próprio. Isto é o que teria acontecido, segundo contam.

        Sim. Teria. Dizem. Contam. Essas coisas... Segundo os rumores acerca desta história pitoresca, o homem teria, como fez com a noiva, retalhado seu próprio corpo com uma peixeira afiada encontrada no local. Cortara partes de seu corpo de maneira grosseira, e espalhado pela floresta.

        Ora, qual o sentido em um ser humano sair cortando vigorosamente partes de seu próprio corpo e largar pela mata em locais distantes entre si? No entanto, esta versão, embora seja pitoresca e questionável, é a versão oficial, encontrada na delegacia da região, nos arquivos de um caso sem solução.

        Mas vem mais coisa por aí: a policia teria encontrado primeiramente as partes do corpo da mulher. Recolheram tudo em um saco, e levaram. Mas houve um incidente...

        Quando os policiais e bombeiros reuniram as partes do corpo do homem, e a colocaram em um saco preto, ele se levantou, como uma visão demoníaca, um monstro ensacado, fedendo a carne podre e pingando vermes. Segurando a peixeira do fatídico crime, ele cortou cabeças e membros de todos que estavam ali presentes e desapareceu.

        Apesar dos rumores, lendas e versões, uma coisa é certa: ninguém nunca mais o viu. Mas há que se pensar: diz-se que ninguém nunca mais o viu, porque decerto,  aqueles que o viram é que nunca mais foram vistos.

O Fantasma da Cantareira é uma lenda urbana criada por mim em 2008, para um video caseiro de humor. A história era essa, mas contada com modos menos cuidadosos. Se tiver curiosidade em assistir ao vídeo, leve em conta a descontração e seja feliz :)  http://alex-pedro.blogspot.com.br/2010/04/o-fantasma-da-cantareira.html

GOSTOU? DEIXE UM COMENTÁRIO!