A moderna zona de conforto

domingo, 11 de janeiro de 2015

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Crowndfunding no Brasil ainda não é uma modalidade de captação de recursos muito assimilada por empreendedores. Eu atribuo isto, além de zonas de conforto, à auto-estima do empreendedor criativo. Neste artigo, eu usarei como exemplo a produção teatral, e as comparações ficam a cargo do freguês.

Me lembro de certa vez assistir a uma entrevista em que Fernanda Montenegro dizia que lá no início da carreira, teria feito, ao lado de alguns amigos parceiros, empréstimos nos bancos para montar peças de teatro, e que teriam pago os empréstimos com o dinheiro da bilheteria.


Em tempo: falamos dos anos 50, 60, 70. Nesta época, as peças de teatro tinham apresentações de terça, quarta, quinta, sexta-feira. No sábado, faziam duas apresentações, e mais uma no domingo. Na segunda-feira os atores descansavam. As vezes na terça-feira. Mas o tempo passou, e o teatro acabou diminuindo seu público. Logo, como trabalhar se em nosso tempo as apresentações não bastam para sequer bancar as montagens, quiçá gerar lucro para os trabalhadores?

Editais!

Os editais acabam surgindo aí como uma promessa dourada de que é possível ser artista, é só aprender os macetes para ser contemplado. Na prática, é mesmo! Com um projeto aprovado, mantendo o exemplo do teatro, você coloca o orçamento que pague quem escreveu, quem dirige, o transporte de todos envolvidos para ensaios, compra de equipamentos, alimentação e todo o resto. Então, na prática, todo mundo trabalha ganhando desde o primeiro dia.

Claro que ao dizer isso, subtraímos o fato de que alguém passou horas, dias, semanas, ou até mesmo meses, criando, escrevendo, planejando e montando o projeto até que ele fosse inscrito na lei de incentivo em questão.

Há, porém, um fator determinante que arruína o senso empreendedor nesta cultura de edital: os valores éticos, morais e artísticos.

Em 2014, durante o 1º Congresso de Dramaturgia, ouvi algo interessante de Marici Salomão. Marici compartilhou com o congresso que, certa vez em que participou da comissão de avaliação de um edital para dramaturgos, um dramaturgo colocou como contrapartida que faria um evento aonde serviria comes e bebes aos convidados.

Sua indignação com a situação era: o dramaturgo estuda, investe tempo, anos. Tudo aquilo que lê, assiste, vive e observa, tudo é referência na hora de sua criação. Logo, a seu ver, o prêmio do edital era um pagamento justo e merecido pelo trabalho do artista.

No entanto, temos o hábito de não dar o devido valor a nossas habilidades, e quando pedimos dinheiro para alguém a quem outras milhares de pessoas também irão pedir, sofremos do hábito de desvalorizar nossas habilidades, na tentativa de que a humildade nos faça merecedores deste ou daquele valor.


Então, quando pensamos em editais, temos artistas se submetendo a critérios de pessoas que muitas vezes nem sequer entendem do trabalho de um profissional criativo, portanto, incapaz de dar o reconhecimento justo pelo processo criativo, e os artistas, por sua vez, já convencidos de que o teatro não se paga, submete-se à esta atual realidade.

Já concluindo, porque acredito que, como eu, você também tem coisas pra fazer, esta “atual realidade” só pode ser mudada quando toda a categoria se mostrar com auto-estima elevada, valorizando seu trabalho, e fazendo o resto da sociedade(seu público, que está ocupado com o facebook), volte a valorizar seu trabalho.

Neste ponto, o crowdfunding é muito mais interessante do que qualquer edital. Quem está bancando a realização é justamente o público que está interessado em contemplar a obra. Logo, você não se esforça para agradar pessoas que trabalham num escritório e muitas vezes não entendem das dificuldades de seu trabalho, mas desenvolve um projeto que deva primordialmente ser interessante para o público.

Escritor, ator, desenhista, programador, empreendedor: é com você que estou falando. Seu talento vale dinheiro e seus esforços e sacrifícios merecem respeito. Se Nelson Rodrigues ou Henrik Ibsen fossem depender de editais em seus dias, suas peças jamais teriam sido montadas. Por tanto, se os brasileiros ainda não se acostumaram a bancar projetos audaciosos de profissionais verdadeiramente criativos, é hora de pormos as mãos na massa. Ensinar o consumidor que, com a ajuda dele, podemos ser infinitamente mais criativos, e que quem mais ganha com isto é justamente ele.


Qual sua opinião sobre o assunto? Deixe um comentário e vamos debater o assunto.

O MENINO QUE NÃO PODIA MORRER - O Caso de Luciana Reis

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Dia 8 de janeiro fez 3 anos que publiquei o primeiro capítulo de O Menino que não podia morrer. Para celebrar, vou publicar uma das histórias do prólogo do livro, ainda em fase de revisão. Espero que gostem.

O CASO DE LUCIANA REIS


2007, PORTO ALEGRE. 

O lilás do início da manhã refletia-se no rosto pálido de Luciana, anunciando que a madrugada já chegava ao fim. Enquanto ela andava por aquela estrada de terra cercada por uma mata selvagem. Olhou no céu à procura daquela visão suprema: as estrelas da noite, com a lua e a luz do sol que começava a rabiscar no céu os teus raios.

Andando, sem ter alguma razão em especial para isto, Luciana se deteve ao perceber que as folhas das árvores, todas elas, estavam orvalhadas com sangue. Percebeu-se observada por uma criatura de quase três metros de altura, que se aproximava. Corpulenta, fedida e vinda das sombras das árvores. Tropeçou, assustada.

“... a esquecer seu rosto de vez. E acho que é tão normal”. 

Tocava Kid Abelha em seu despertador. Seis horas. “Que sonho estranho”, pensou ela, enquanto se levantava a caminho do banheiro.

Luciana tinha estudado enfermagem em sua cidade natal, Passo Fundo, e ia começar agora um emprego como enfermeira em um asilo em Porto Alegre e agora estava em um ônibus a caminho de seu novo trabalho.

Luciana era uma moça comum, sem grandes ambições. Nunca sonhara fazer parte de qualquer coisa de importância. Apenas vivia, buscava estabilidade, para um dia se aposentar, e esperar a morte chegar. Quando criança, sonhava ser médica, ser Mulher-Maravilha, mas cresceu uma pessoa comum, que sequer era capaz de lembrar da própria infância.

Lá no trabalho, procurou Ricardo, que seria seu superior. Ricardo era um rapaz não tão bonito, embora houvesse algo de impulsivo em seu jeito entusiasmado de falar que deixava Luciana tímida toda vez que lhe dirigia a palavra.

- Venha. Hoje tu vai apenas me acompanhar. Amanhã tu acompanha Marina, e depois já te passo o que fazer, porque ela já terá saído na licença dela. – dizia ele enquanto andavam pelo corredor. Luciana torcia para que ele não reparasse que ela tinha um dente a mais na boca. Ela não gostava de sorrir, embora desejasse que ele a notasse.

- E por onde vamos começar, Ricardo?

- Pode me chamar de Rick. 

- Por onde começaremos, Rick? – perguntou, desconfortável pela intimidade.

- Pelo homem mais velho do mundo! – brincou ele, enquanto passavam por um corredor com muitos quartos. Luciana reparava a tinta fresca nas paredes, os móveis que se pareciam novos, e a decoração, por sinal, tinha certa sofisticação. – Você conhecerá o Sêu Luís.

- Quantos anos tem o Sêu Luís? – perguntou Luciana, a enfermeira novata.

- Todos! – riu Ricardo. – Ele é uma pessoa agradável, mas estranho. Ninguém sabe a idade dele. Alias, não fale nenhuma bobagem. 

Abriu a porta. Um homem bem velho estava sentado na cama, com um caderno, rabiscando algo.

- Bom dia, Sêu Luís. O senhor dormiu bem?

- Sim, dormi como um uma criança, Ricardo. 

- Esta aqui é Luciana. Ela vai ficar no lugar da Marina enquanto ela sai de licença maternidade.

- Seja bem vinda, querida. – disse o velho. Ele tinha uma voz gentil, e um ritmo cansado no jeito de falar.

- Obrigado, Senhor Luís. – disse ela, tímida.

A enfermeira se aproximou, curiosa e reparou. O velho era enrugado, mas tinha a pele lisa, parecia emborrachada, como um corpo embalsamado. Havia algo estranho, e ele olhou nos olhos dela. Seus olhos eram cinza, tomados por catarata, mas mesmo assim, ele os olhava nos olhos. A menina sentiu um calafrio. O velho sorriu.

- Um homem velho como eu se sente acanhado por ser observado por uma moça tão bonita.

- Luciana é novinha, tem 19 anos. – disse o enfermeiro. - Não tem muita cortesia. Mas tem boa vontade.

- Desculpe-me, senhor. – ela disse acanhada.

- Não se desculpe, querida. Algumas pessoas idosas ficam especialmente feias com o passar dos anos. – disse Sêu Luís, dando um sorriso que mais assustava do que descontraía.

Luciana se aproximou para tirar a pressão dele. Então ela viu uma coisa que a deixou surpresa. No pequeno caderno em que o paciente usava para rabiscar idéias, estavam escritos ideogramas japoneses, com desenhos estranhos. O velho, percebendo que a moça olhava para seu caderno, fechou-o.

- O senhor que escreveu isso? – perguntou ela.

Ricardo olhou-a com censura.

- Sim. Acordei inspirado. – e então abriu o caderno e contemplou os rabiscos incompreensíveis e os acariciou com a ponta dos dedos. - Um poema, escrito em um estilo japonês ao qual não me lembro o nome, sobre um menino que não podia morrer.

Ela parou de olhar para o estetoscópio que usava para ouvir as pulsações do velho.

- Não podia morrer porque era imortal? Ou não podia morrer porque alguém precisava dele vivo? – perguntou Luciana, deixando a timidez de lado.

- Ainda não terminei de escrever. Mas pode ser uma coisa, ou outra. Ou até mesmo as duas. 

O homem tinha pele morena, e entre os cabelos grisalhos, alguns fios negros sobreviventes do tempo. Ele não parecia de maneira alguma ter traços orientais que justificassem saber ler e escrever japonês. Certamente era um homem intelectual. Porque estava ali? Algo a fez imediatamente se desapegar da estranheza da aparência dele e se perguntar porque ele estaria ali. Pessoas inteligentes assim costumam ficar ricas. Luciana anotou a pressão dele, e saíram.

Assim que fecharam a porta, Ricardo se aproximou dela.

- Luciana, ele mesmo paga sua estadia, e ele não tem documentos. Ele fala várias línguas. Uns suspeitam que tenha sido nazista, outros que seja alguém com outros tipos de segredo. O fato é que ele é uma pessoa de quem nada se sabe. Então não faça perguntas. Não é gentil.

Uma semana depois, Luciana já estava feliz trabalhando no asilo, sentindo-se em casa. E aquela timidez que sentia por conversar com Ricardo desapareceu. Na verdade, ela passou a ser indiferente ao rapaz. Ela ficava ansiosa pelas pequenas oportunidades que surgiam para que pudesse conversar com o velho Luís. Não que ele parecera menos estranho, mas aquela estranheza de sua aparência talvez pudesse ser justamente um artifício moral, pensava ela. Pois numa primeira impressão tinha uma visão sinistra, mas com a convivência, descobria um ser humano com assuntos inacabáveis. 

Ricardo sentia ciúmes.

Luís Mondego Valência, era como apresentava-se em seus registros.

- Mondego é espanhol, não é – perguntou Luciana.

- Sim, Luciana. Eu nasci na Espanha, não sei ao certo quando nem onde. Porque meus pais se mudaram pra Lisboa, e ali vivemos até que os dois morressem. – e pareceu surpreso consigo mesmo. - Antes que eu completasse 10 anos. 

- Puxa vida. Eu perdi meu pai quando tinha 12 anos. Minha mãe morreu ano passado. Foi tão difícil. Mal posso imaginar em como deve ter sofrido. Tão novo. Morreram de quê?

- Foi no terremoto. Nunca encontrei o corpo deles. Todo mundo perdeu alguém aquele dia. – e calou-se. Seu olhar passou pelo piso, e subiu pelas paredes até parar na janela aberta. – Cresci criado em um mosteiro, até que vim para o Brasil, já adulto.

- Por isso o senhor gosta tanto de falar sobre religião? – ela perguntou, curiosa.

- É possível, minha querida. Na solidão da orfandade, encontrei paz na religião. Entre monges e padres. Foi bom. Cresci rodeado por pessoas afetuosas e sábias. Estimulado a entender a minha existência.

- E hoje o senhor é uma pessoa que vive bem, tem uma velhice tranquila e honesta. – disse ela, como uma neta orgulhosa de seu avô.

Ele a encarou com aqueles olhos que pareciam cegos.

- Nem tudo é o que parece, minha filha. Toda busca é justa, e algumas perguntas tem respostas que nos custam muito caro.

- Do que o senhor está falando?

- Ah, minha querida, da incessante busca do homem por entender a si mesmo. Eu gostaria de ter sido mais moderado, sabe? – e sorriu, aquele sorriso que antes parecia medonho e agora trazia a pureza daquele homem. – Descobrir, e me dar tempo de digerir cada novidade, com menos ansiedade. Hoje sou isto que sou, e estou exausto.

E segurou na mão dela. As mãos dele eram sempre frias.

- Não quero mais conversar. Pensei em coisas que havia esquecido, e não me lembrava de como me sentia grato por tê-las esquecido.

- Desculpe, Senhor Luís. Não quis magoá-lo.

Novamente um sorriso.

“Eu sei”.

Ela saiu, e fechou a porta do quarto dele. Ricardo a esperava lá fora. Parecia ansioso em dar-lhe uma notícia. Marina, a enfermeira contratada, retornaria no dia seguinte, e ela estava dispensada do trabalho. 

Foi só quando chegou em casa que, por curiosidade, decidiu procurar na internet o que havia de histórias sobre terremotos em Portugal, e soube que o mais recente havia acontecido em 1969. Isso significaria que o senhor Luís deveria ter menos de cinquenta anos. Ela riu.

“Ninguém pode ser tão acabado assim.”

Ainda no assunto, descobriu outros “sismos” em solo português onde teriam morrido, nove, quarenta pessoas. Nenhum número que justificasse o “todo mundo perdeu alguém aquele dia”. Até que viu números nos terremotos de ocorridos em 1755 e 1531...

Abriu a calculadora do Windows, e fez suas contas. Permaneceu inexpressiva, calada, confusa. Ergueu sua sobrancelha esquerda.

“Não, ninguém pode ser tão velho.”

A respeito de Neuza...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

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Neuza tinha 38 anos. Neuza tinha cinco filhos, e Neuza teve cada um com um pai diferente. Neuza era empregada doméstica, e Neuza era frequentemente questionada sobre as razões que a levavam a ter posto no mundo tantos filhos com homens diferentes.

Neuza é irresponsável, todos pensavam, todos diziam. “Neuza não deve se importar com seus filhos, do contrário, cuidaria bem de um ou dois, e não pessimamente de cinco”. Neuza achava que as pessoas tinham razão, mas também achava que elas deviam cuidar mais de suas próprias vidas, pois ela própria já estava ocupada demais consigo mesma.

Neuza contava com ajuda programas sociais do governo para o orçamento de sua casa e algumas pessoas chamavam Neuza de oportunista. “Neuza está recebendo esmola do governo, pra isso pôs tantos filhos no mundo”. Primeiro que Neuza sinceramente não se importava com o que diziam a seu respeito. Segundo que se fosse uma acomodada, não seria doméstica. 

Verdade seja dita, só Neuza sabia da dor que sentia nas costas pelos anos passando pano em chão, limpando privadas e passando roupa. Alias, Neuza detestava passar roupas, mas sempre pagavam algo a mais se ela passasse. Neuza tinha dor nas costas, e já começava a apresentar alguns problemas renais e intestinais. Trabalhava tanto que se esquecia de beber água durante o dia.

Neuza era namoradeira, sim, e isso irritava muita gente. Irritava, porque muitas pessoas vivem oprimidas por outras pessoas, relacionamentos instáveis, ou mesmo oprimidas pelos pais e Neuza não tinha medo de recomeços. Às vezes ela lamentava secretamente ter tomado uma ou outra decisão por impulso, mas sabia que certas decisões na vida são tomadas apenas uma vez.

Amava seus filhos, mas não sabia como ser uma mãe melhor. Afinal, quando menina, Neuza começou a trabalhar para ajudar na renda da família e quando tivera sua própria família, acostumada com trabalho, jamais curtiu a infância de algum de seus filhos. Apenas trabalhara, dia após dia.

Já quando notou seus filhos e filhas ficando moços, percebia-os, vez e outra, fazendo coisas que reprovava. Era o preço que pagava por ser ausente. Mas sua ausência era também causada pela preocupação com o futuro deles. Neuza realmente tinha escolhas difíceis em sua vida. E as fazia. Com o passar dos anos, dos cinco filhos de Neuza, dois se formaram e tornaram-se importantes, um tinha um emprego modesto, um era dependente e preguiçoso e o outro usava drogas.

Neuza envelheceu sendo ajudada pelos filhos por quem mais pode fazer na juventude e dedicando-se àqueles que não tinham capacidade de coisa alguma.  De cinco, três estavam bem. A conta era simples e isto a fazia sentir-se resignada a encerrar sua vida cuidando dos outros, sabendo que alguns de seus filhos, tendo ou não orgulho dela, teriam uma vida melhor e poderiam ser pais muito melhores do que ela foi algum dia.


Publicado no jornal português "Horizonte".

Quando foi que assisti Chaves pela primeira vez?

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

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Quando foi que assisti Chaves pela primeira vez?


Não tenho a menor ideia. E não tenho ideia sobre quando foi a última, e quando verei pela última vez em minha vida. Isto acontece porque Chaves, para a minha geração é algo que faz parte da vida. Já existia, e quando eu morrer, certamente continuará existindo.

Chaves é uma piada quando o assunto é televisão: O que o Silvio Santos vai fazer quando a audiência deste ou daquele programa cair? Chaves. Chaves funciona. Chaves é como Os Trapalhões. Mas sem sexo. É incrível observar que algo da década de setenta que abusa de tantos recursos dos primeiros grandes filmes de cinema, com um humor que parece fácil, durar tanto.

Eu nasci e Chaves já passava. Meus irmãos viram. Talvez minha sobrinha, filhos que eu possa ter, também assistam.
Roberto quem? Ele é o Chaves, e o Chaves se foi. Não vai mais sair do barril. Ouviremos por ai muito “Pipipipipipipi”, “Ué, ué, ué, ué”, mas eu prefiro que a gente abafe esse som com os aplausos e risadas tão características na obra de Roberto Bolaños.


Chaves, não vá embora triste. Ninguém vai gritar “Ladrão” desta vez. Desta vez você vai partir ao som dos aplausos, risos e assovios. Muito obrigado, e descanse em pança.

21/02/1929 - 28/11/2014


ROBIN WILLIAMS - SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

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          Em memória do ator Robin Williams, de quem permanecerei um grande fã, decidi assistir alguns filmes com ele que sempre foram referências, e que eu mesmo me perguntava porque ainda não tinha assistido. O primeiro é:

Sociedade dos Poetas Mortos

          Basicamente, o filme saiu três anos depois que eu nasci, e a fase consolidada de Robin Williams no cinema aconteceu paralelo ao meu crescimento. “Bom dia, Vietnã” saiu nos cinemas um ano depois do meu nascimento, e provavelmente levou 3 ou 4 anos para chegar no home vídeo. Logo, os anos noventa, com Hook, Jumanji, Uma babá quase perfeita, e etc definitivamente são filmes da minha geração. Robin Williams faz parte da minha vida cultural, e fico feliz de ter reservado alguns de seus trabalhos mais preciosos para a minha vida adulta, como é o caso deste, que nunca havia assistido.

          Vamos ao filme.

          Não assisti fazendo anotações, nem pretendo fazer uma crítica. Apenas compartilhar minhas impressões. O primeiro frame do filme começa com uma pintura de jovens estudantes. Uma boa forma de se introduzir o tema, seguindo por uma apresentação da escola, e a rigidez de seu método.

          E ai vem insegurança pra todo lado, jovens confiantes, mas intimidados pelos pais. Sei bem como é isso. É bem clara a relação em que os jovens crescem aparentemente felizes e bem resolvidos, conformados de que não realizarão sonhos. É interessante que a gente observe que o fato de a história se passar nos anos 50, não faz diferença alguma no conceito social da história. Isso acontece hoje, e acontecerá por décadas.

         Mas ai começam as aulas. E é tudo chato, perfeito, curricular. Cursos, estudos. Basicamente o conceito que funciona para se criar homens capazes de grandes coisas. Mas não necessariamente felizes. Até que surge John Keating, e suas primeiras lições realmente falaram comigo.

          Primeiro, que me senti imensamente grato quando ele pede para os alunos rasgarem a introdução do livro. Me senti grato por isto. Pois basicamente, eu escrevo com ou sem inspiração. E há uma diferença absoluta entre o que faço em cada situação. Quando faço sem inspiração, busco idéias, referências, e executo, para alguma finalidade específica. Quando crio algo inspirado, não procuro referência de linguagem, estética ou o que quer que seja: eu apenas abro o coração e aquilo sai.

          E isso é percebido por quem lê. Porque eu percebo quando leio isso em alguém. Já li livros repetidas vezes, livros que nem me causaram tanta emoção, ao passo que recomecei a leitura de livros que me causaram lagrimas ou surpresas, e me deparava com uma escadinha de fórmulas para se contar uma história, e me percebia deixando de lado. Aquilo não tinha alma, era algo produzido em série. Não era um bolo feito pela minha avó, mas um bolo pullman absolutamente sem graça quando começamos a comer o segundo pedaço.

          Rasgar as regras é uma forma de se libertar dos preceitos que as pessoas que não tem habilidade encontram de “codificar e decodificar” algo que simplesmente é uma manifestação da alma humana, a fim de “tentar” reproduzir. É o ator sem talento que defende que qualquer um pode ser um bom ator por buscar técnica. É o cara que faz um curso de desenho e diz a si mesmo que é um artista. É o cara que leu O Herói de Mil Faces, ou qualquer coisa do McKee, reproduz as ditas fórmulas que eles sugerem, e de dizem escritores ou cineastas.

          Os estudos são fundamentais para o desenvolvimento de um artista, seja qual for sua arte. Porque ele precisa descobrir o que já foi feito, para elevar sua autoestima sobre o que ele faz. Descobrir novas maneiras, “fórmulas”, e quem sabe, descobrir o que ainda não fora realizado por ninguém, e quem sabe, ser pioneiro. 

          Pessoas comuns podem sim se tornar escritores, atores, pintores competentes. Mas, pensando em um pintor, ele saberá reproduzir o rosto de alguém, ou fazer uma caricatura, ou replicar uma maçã, mas será apenas isto. Uma foto. Pra haver o brilho, a emoção na arte, ela vem de dentro, não de fora. Vem da alma, da vida que vivemos, não dos cursos que fazemos ou livros que lemos.

          Os verdadeiros professores no mundo das artes não ensinam como fazer alguma coisa. Não afirmam, eles estimulam, e apenas isto. E ali temos uma explicação consistente para a poesia. Segundo John Keating, médicos, advogados, todos amam, todos sofrem, todos sonham. A poesia(ou a arte), é a única maneira que o homem encontra de explicar, seja para si mesmo, ou para o mundo, o que ele sente. Isso não se aprende com métodos e teorias, mas com exercícios sobre si mesmo.

          Temos então um momento tocante, ao qual eu já havia feito em minha vida por inúmeras vezes. Os alunos são postos diante de fotografias de turmas de outrora. Quem eram eles? O que pensavam? O que desejavam e sonhavam? Quem amavam? Qual a sabedoria que o tempo e a vida lhes dera?

          O nosso próprio tempo vai acabar passando, estejamos nós vivendo a vida ou não. Um dia temos 12, no outro celebramos 40 anos. Carpe Diem. Aproveite o dia. O tempo vai passar de qualquer maneira. Estejamos nós fazendo o que desejamos ou não. Podemos ter um sonho que levaria 5 anos para se tornar realidade. Pensando de hoje para o futuro, cinco anos é tempo demais. Então desistimos.

          Mas aí os cinco anos se passam sem que tenhamos arriscado, ou praticado. O tempo que precisamos para realizar qualquer coisa que seja sempre vai passar, estejamos nós fazendo por merecer ou não. Essa é uma lição que infelizmente as pessoas costumam aprender tarde demais.

          Mas voltando ao Carpe Diem, ah, isso é tão mal interpretado pelas pessoas. Aproveitar o momento não significa fazer escolhas idiotas, ou “só se arrepender daquilo que não fez”. Mas entender que só se vive esta vida uma vez. Temos o livre arbítrio, mas as grandes decisões só podem ser tomadas uma única vez. Não tem a ver com impulsividade, mas com paz de espírito, e com a busca. 

          Atrevo a complementar Carpe Diem com “Follow your bliss”, o lema de Joseph Campbell. Busque sua felicidade. Requer sacrifícios, e não é sábio tentar viver algo que não foi vivido. Carpe Diem, o que não foi vivido ontem, não deve ser vivido hoje. Vamos aproveitar o hoje com o hoje, sem usá-lo pra reparar o passado. É perder tempo.

          Viver a adolescência nos 20, para viver os 20 nos 30, os 30 nos 40, e perder-se da própria personalidade. Temos que aceitar o que não tivemos e seguir. Isto nos torna mais sábios, e capazes de aproveitar as delicias da fase da vida em que nos encontrarmos.

          “Carpe Diem”, “Follow your bliss”, ou, mais moderno e irreverente “Continue a nadar!”, lema da peixinha Dory de “Procurando Nemo”. O filme segue com seus exemplos através dos jovens rapazes, culminando na trágica história de Neil, que sonhava ser ator, e no mesmo dia em que brilhara no palco, aplaudido e reconhecido por todos seus amigos, suicida-se. Salta de um extremo ao outro.

     
    É exatamente assim que acontece. É difícil demais viver de algo que basicamente é o resultado da ebulição da própria alma. As pessoas raramente entendem. As pessoas não percebem, que pena, que são todas artistas asfixiadas. Todo ser humano nasce pronto para ser poeta, ator, cantor, contador de histórias.
Todos já disseram que a própria vida daria um livro.

          Quantos escrevem? Todos já ouviram uma música e se imaginaram num palco cantando e dançando, todos já contaram uma passagem da própria vida, interessante, e gostaram da concentração daqueles que escutavam. Todos já se imaginaram fazendo algum discurso, todos já se imaginaram sendo entrevistados.

          Mas poucos fazem tudo isso. É o medo de que a poesia da própria vida não seja interessante para os outros, como vemos na cena em que o tímido aluno se recusa a recitar algo de sua autoria, até que o professor lhe tape os olhos e o faça descrever aquilo que vê.

          Impossível que exista algum ser humano cuja poesia não seja interessante. Seja ela sensível, divertida, erótica, profana, religiosa, não importa. Todos trazem dentro de si poesias fascinantes, que são sufocadas pela falta de fé em si mesmos, e a falta de professores que estimulem mais e ensinem menos.

          Tinha esperanças de que Neil fugisse de casa, mas não foi este o final que teve. Uma pena. Gosto de imaginar que, com todo o clímax do filme, todos aqueles jovens que subiram na mesa para ver o mundo por um novo ângulo, possam ter mantido, até o fim de suas vidas, a poesia viva.

          Parabéns a quem escreveu, a quem dirigiu, aos então jovens atores, e especialmente ao tal comediante cuja graça, definitivamente, estava em sua humanidade, muito mais do que em seu senso de humor.

A Fábula do Marimbondo

terça-feira, 22 de julho de 2014

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Sempre tive medo de marimbondo.
Desde pequeno.
Uma vez em que brincava com meu primo lavando o quintal.
Ouvi aquele zumbido alto,
um som que não parecia vir de asas,
Mas feito, quem sabe, por uma boca.
A coisinha veio, atrevida, 
Voando perto do meu rosto.
Por reflexo,
e um tanto de ingenuidade eu dei um tapa.
O tempo parou.
Desviado de sua rota,
a criatura fora empurrada pouco mais de um metro.
O marimbondo, arisco, sentiu-se profundamente ofendido.
Sei lá eu por que cargas d’água procuram água,
Não fiz por mal.
Ele veio, eu o ofendi, e apesar de pequeno
(quem sabe até por esta razão)
Ele pareceu ficar transtornado.
Veio diretamente em meu rosto,
E desta vez não por um passeio distraído.
Por ira!
Ai de mim.
Meu coração acelerou.
Eu devia ter por volta de onze anos,
e percebi algo notável:
O marimbondo, tomado por raiva, parecia três, quatro vezes maior
Novamente, e desta vez não por reflexo, mas por medo,
Dei outro tapa.
A criatura voltou furiosa em outra investida,
levou outro tapa,
E então me despistou.
Passou por entre as minhas pernas e posou em minha cabeça.
Sua raiva fora então descarregada em uma ferroada rápida e certeira.
Dedicado a penetrar seu pequeno e poderoso ferrão em minha pele,
Distraiu-se, pobrezinho.
Eu dei outro tapa.
Desta vez ele estava fraco.
Derrubei-o. Caiu no chão. Eu pisei.

Não uma pisada violenta e brutal,
Mas a pisada frágil típica de uma criança assustada.
E ele,
com seu traseiro imenso esmagado, 
agonizava.
Encarei a pequena criatura.
Teria sido o tapa o motivo de sua ira?
Teria o marimbondo,
Quem sabe?,
já saído de sua colmeia
a procura de um confronto que pudesse lhe dar fim à vida?
Teria esta batalha sido o grande momento de sua breve existência?
As asinhas batiam assustadas quando,
Por compaixão,
O esmaguei.
O marimbondo morreu,
E eu acredito,
Sabendo que havia deixado na minha pele um ferrão,

E na minha história este breve incidente.

A lenda do velho que ria, Parte 3

sábado, 3 de maio de 2014

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Arte de Tácio Melo Maciel
Era apenas terça-feira para a maioria das pessoas, exceto para senhor Polidoro que, com seus 93 anos, perdera sua esposa para um assaltante violento, que a baleara, e naquela tarde, ela fora enterrada. Sem que tivessem tido filhos, ele sentia mágoa, ódio, e não conseguia dormir.

Era doloroso que tenham tentado ter filhos por tantas vezes sem nunca terem tido sucesso. Agora, no fim da vida, ele olhava para trás e podia reconhecer: toda aquela história de amor de repente deixaria de existir quando ele morresse. Ele era a única testemunha viva daquela aventura particular entre ele e Emerenciana, sua falecida esposa.

Mas evidentemente que esta história de amor era seu ponto de vista sobre 68 anos de um casamento de sucessivas brigas, em que ele a traira por diversas vezes. Ela, Polidoro tinha certeza, sabia de seus deslizes e o perdoara. Em parte porque era seu dever de mulher, mas também porque lhe admirava. Ele era quase um pai para ela.

Tinham raiva dos amigos e irmãos que tiveram filhos e inevitavelmente, sua inveja, visível por todos, os fizera afastar das pessoas. E agora, não tinha ninguém. Poderia de repente, solitário, se reaproximar daqueles que rejeitara. Mas eles o estranhariam, e ele não iria gostar de saber que no final das contas ele precisaria daqueles a quem tanto rejeitou.

Frustrado, sentindo-se humilhado pela própria desgraça, levantou no meio da noite, e pôs-se a andar.

Desejara aquela bênção que era morrer. Já ouvira tantas histórias de que casais unidos pelo amor sobrevivente, quando separados pela morte na velhice, com ligeiro atraso, a própria morte tratava de uní-los novamente. Desejara isto, e rezava para que Deus o retribuísse os anos de comunhão dominical com este advento. Mas Deus não gostava dele. Deus era o pai de todos os outros, o pai daqueles que ele julgou errado por toda a vida e que agora, teria de procurar para curar-se da solidão. Deus era um patife miserável como todos eles. Não era misericordioso, era irônico e sagaz. Era como Polidoro pensava enquanto andava pelas ruas do centro, com o coração amargurado, pulsando ódio do mundo e pena de si mesmo.

Polidoro se sentou na calçada, na Avenida São João, em frente ao número 615 e chorou. Porque Emerenciana tinha de morrer primeiro? Existem mais viúvas que viúvos no mundo, talvez porque as mulheres sejam mais dispostas a viver com sofrimento, talvez já sejam solitárias no matrimônio. Foi então que, no meio da madrugada, algo terrível aconteceu.

Como se do meio do ar se abrisse uma cortina invisível, entre os véus transparentes surgiram um ser pálido, de pele lisa como a cera de uma vela. Era um homem jovem. Ele se apresentou para Polidoro. Era aquele de muitos nomes e muitas caras, e que poderia oferecer a Polidoro um desejo, contanto que não fosse a morte, e Polidoro, em troca, lhe daria sua mortalidade. Polidoro sentiu-se tentado, e negou-o. Mas a criatura branca dissera-lhe o que ele gostaria de ouvir: que melhor maneira de debochar de Deus, que segundo seu entendimento, só lhe causara sofrimento injustificável, do que interferir nos processos do homem, sua criatura?

Polidoro se esforçou para levantar da sarjeta, para então ajoelhar-se diante da criatura maliciosa, e então desejou reencontrar Emerenciana, no esplendor em que ela estaria em sua existência na eternidade. E viu.

Em uma terra de trevas, lama e lamentação, ela estava, com as mesmas vestes que vestia quando fora baleada. Suja, gritando e espraguejando, tal qual estava ele em vida. Sentia ódio dele, ódio pelos anos que passou ao lado dele, engolindo as traições, o ressentimento, os achincalhes e o comodismo que a fizeram viver uma existência servil e rancorosa. Sentia ódio de Polidoro, de Deus, e pena de si mesma.

A criatura começou a dar gargalhadas. A pele de Polidoro começou a tornar-se branca e lisa como a da criatura de muitos nomes enquanto ela ganhava a forma do corpo de Polidoro, dando gargalhadas de incomensurável prazer ao contemplar a desgraça do velho.

Sob a forma de Polidoro, a criatura riu até que o coração do corpo parasse e ela morresse. Polidoro, tomado por ódio, percebeu a ironia, e gritou. Sua boca tornara-se uma coisa medonha, rangando até o fim dos maxilares, com dentes compridos, finos, e brilhantes feito agulhas.

Polidoro se tornou uma criatura medonha, errante, com um propósito real desconhecido, a perambular aquele mesmo lugar por anos e anos. E a família enterrou o corpo da criatura pensando ser Polidoro, com a idéia de que o amor teria unido aqueles dois velhinhos na eternidade.

Continua...

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A lenda do velho que ria, Parte 1

A lenda do velho que ria, Parte 2