Atena & Ulisses: Na Gruta

quarta-feira, 15 de abril de 2015

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Atena & Ulisses

terça-feira, 24 de março de 2015

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Olá, meus amigos que acompanham as minhas idéias. Estou aqui para lhes fazer um convite. Acima está o primeiro vídeo do meu canal, "TismegisTV". Assistam, se gostarem, curtam, compartilhes e assinem ao canal.

Espero que gostem. Deu bastante trabalho e vem mais por aí.

O MENINO QUE NÃO PODIA MORRER - O Caso de Luciana Reis

domingo, 11 de janeiro de 2015

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Dia 8 de janeiro fez 3 anos que publiquei o primeiro capítulo de O Menino que não podia morrer. Para celebrar, vou publicar uma das histórias do prólogo do livro, ainda em fase de revisão. Espero que gostem.

O CASO DE LUCIANA REIS


2007, PORTO ALEGRE. 

O lilás do início da manhã refletia-se no rosto pálido de Luciana, anunciando que a madrugada já chegava ao fim. Enquanto ela andava por aquela estrada de terra cercada por uma mata selvagem. Olhou no céu à procura daquela visão suprema: as estrelas da noite, com a lua e a luz do sol que começava a rabiscar no céu os teus raios.

Andando, sem ter alguma razão em especial para isto, Luciana se deteve ao perceber que as folhas das árvores, todas elas, estavam orvalhadas com sangue. Percebeu-se observada por uma criatura de quase três metros de altura, que se aproximava. Corpulenta, fedida e vinda das sombras das árvores. Tropeçou, assustada.

“... a esquecer seu rosto de vez. E acho que é tão normal”. 

Tocava Kid Abelha em seu despertador. Seis horas. “Que sonho estranho”, pensou ela, enquanto se levantava a caminho do banheiro.

Luciana tinha estudado enfermagem em sua cidade natal, Passo Fundo, e ia começar agora um emprego como enfermeira em um asilo em Porto Alegre e agora estava em um ônibus a caminho de seu novo trabalho.

Luciana era uma moça comum, sem grandes ambições. Nunca sonhara fazer parte de qualquer coisa de importância. Apenas vivia, buscava estabilidade, para um dia se aposentar, e esperar a morte chegar. Quando criança, sonhava ser médica, ser Mulher-Maravilha, mas cresceu uma pessoa comum, que sequer era capaz de lembrar da própria infância.

Lá no trabalho, procurou Ricardo, que seria seu superior. Ricardo era um rapaz não tão bonito, embora houvesse algo de impulsivo em seu jeito entusiasmado de falar que deixava Luciana tímida toda vez que lhe dirigia a palavra.

- Venha. Hoje tu vai apenas me acompanhar. Amanhã tu acompanha Marina, e depois já te passo o que fazer, porque ela já terá saído na licença dela. – dizia ele enquanto andavam pelo corredor. Luciana torcia para que ele não reparasse que ela tinha um dente a mais na boca. Ela não gostava de sorrir, embora desejasse que ele a notasse.

- E por onde vamos começar, Ricardo?

- Pode me chamar de Rick. 

- Por onde começaremos, Rick? – perguntou, desconfortável pela intimidade.

- Pelo homem mais velho do mundo! – brincou ele, enquanto passavam por um corredor com muitos quartos. Luciana reparava a tinta fresca nas paredes, os móveis que se pareciam novos, e a decoração, por sinal, tinha certa sofisticação. – Você conhecerá o Sêu Luís.

- Quantos anos tem o Sêu Luís? – perguntou Luciana, a enfermeira novata.

- Todos! – riu Ricardo. – Ele é uma pessoa agradável, mas estranho. Ninguém sabe a idade dele. Alias, não fale nenhuma bobagem. 

Abriu a porta. Um homem bem velho estava sentado na cama, com um caderno, rabiscando algo.

- Bom dia, Sêu Luís. O senhor dormiu bem?

- Sim, dormi como um uma criança, Ricardo. 

- Esta aqui é Luciana. Ela vai ficar no lugar da Marina enquanto ela sai de licença maternidade.

- Seja bem vinda, querida. – disse o velho. Ele tinha uma voz gentil, e um ritmo cansado no jeito de falar.

- Obrigado, Senhor Luís. – disse ela, tímida.

A enfermeira se aproximou, curiosa e reparou. O velho era enrugado, mas tinha a pele lisa, parecia emborrachada, como um corpo embalsamado. Havia algo estranho, e ele olhou nos olhos dela. Seus olhos eram cinza, tomados por catarata, mas mesmo assim, ele os olhava nos olhos. A menina sentiu um calafrio. O velho sorriu.

- Um homem velho como eu se sente acanhado por ser observado por uma moça tão bonita.

- Luciana é novinha, tem 19 anos. – disse o enfermeiro. - Não tem muita cortesia. Mas tem boa vontade.

- Desculpe-me, senhor. – ela disse acanhada.

- Não se desculpe, querida. Algumas pessoas idosas ficam especialmente feias com o passar dos anos. – disse Sêu Luís, dando um sorriso que mais assustava do que descontraía.

Luciana se aproximou para tirar a pressão dele. Então ela viu uma coisa que a deixou surpresa. No pequeno caderno em que o paciente usava para rabiscar idéias, estavam escritos ideogramas japoneses, com desenhos estranhos. O velho, percebendo que a moça olhava para seu caderno, fechou-o.

- O senhor que escreveu isso? – perguntou ela.

Ricardo olhou-a com censura.

- Sim. Acordei inspirado. – e então abriu o caderno e contemplou os rabiscos incompreensíveis e os acariciou com a ponta dos dedos. - Um poema, escrito em um estilo japonês ao qual não me lembro o nome, sobre um menino que não podia morrer.

Ela parou de olhar para o estetoscópio que usava para ouvir as pulsações do velho.

- Não podia morrer porque era imortal? Ou não podia morrer porque alguém precisava dele vivo? – perguntou Luciana, deixando a timidez de lado.

- Ainda não terminei de escrever. Mas pode ser uma coisa, ou outra. Ou até mesmo as duas. 

O homem tinha pele morena, e entre os cabelos grisalhos, alguns fios negros sobreviventes do tempo. Ele não parecia de maneira alguma ter traços orientais que justificassem saber ler e escrever japonês. Certamente era um homem intelectual. Porque estava ali? Algo a fez imediatamente se desapegar da estranheza da aparência dele e se perguntar porque ele estaria ali. Pessoas inteligentes assim costumam ficar ricas. Luciana anotou a pressão dele, e saíram.

Assim que fecharam a porta, Ricardo se aproximou dela.

- Luciana, ele mesmo paga sua estadia, e ele não tem documentos. Ele fala várias línguas. Uns suspeitam que tenha sido nazista, outros que seja alguém com outros tipos de segredo. O fato é que ele é uma pessoa de quem nada se sabe. Então não faça perguntas. Não é gentil.

Uma semana depois, Luciana já estava feliz trabalhando no asilo, sentindo-se em casa. E aquela timidez que sentia por conversar com Ricardo desapareceu. Na verdade, ela passou a ser indiferente ao rapaz. Ela ficava ansiosa pelas pequenas oportunidades que surgiam para que pudesse conversar com o velho Luís. Não que ele parecera menos estranho, mas aquela estranheza de sua aparência talvez pudesse ser justamente um artifício moral, pensava ela. Pois numa primeira impressão tinha uma visão sinistra, mas com a convivência, descobria um ser humano com assuntos inacabáveis. 

Ricardo sentia ciúmes.

Luís Mondego Valência, era como apresentava-se em seus registros.

- Mondego é espanhol, não é – perguntou Luciana.

- Sim, Luciana. Eu nasci na Espanha, não sei ao certo quando nem onde. Porque meus pais se mudaram pra Lisboa, e ali vivemos até que os dois morressem. – e pareceu surpreso consigo mesmo. - Antes que eu completasse 10 anos. 

- Puxa vida. Eu perdi meu pai quando tinha 12 anos. Minha mãe morreu ano passado. Foi tão difícil. Mal posso imaginar em como deve ter sofrido. Tão novo. Morreram de quê?

- Foi no terremoto. Nunca encontrei o corpo deles. Todo mundo perdeu alguém aquele dia. – e calou-se. Seu olhar passou pelo piso, e subiu pelas paredes até parar na janela aberta. – Cresci criado em um mosteiro, até que vim para o Brasil, já adulto.

- Por isso o senhor gosta tanto de falar sobre religião? – ela perguntou, curiosa.

- É possível, minha querida. Na solidão da orfandade, encontrei paz na religião. Entre monges e padres. Foi bom. Cresci rodeado por pessoas afetuosas e sábias. Estimulado a entender a minha existência.

- E hoje o senhor é uma pessoa que vive bem, tem uma velhice tranquila e honesta. – disse ela, como uma neta orgulhosa de seu avô.

Ele a encarou com aqueles olhos que pareciam cegos.

- Nem tudo é o que parece, minha filha. Toda busca é justa, e algumas perguntas tem respostas que nos custam muito caro.

- Do que o senhor está falando?

- Ah, minha querida, da incessante busca do homem por entender a si mesmo. Eu gostaria de ter sido mais moderado, sabe? – e sorriu, aquele sorriso que antes parecia medonho e agora trazia a pureza daquele homem. – Descobrir, e me dar tempo de digerir cada novidade, com menos ansiedade. Hoje sou isto que sou, e estou exausto.

E segurou na mão dela. As mãos dele eram sempre frias.

- Não quero mais conversar. Pensei em coisas que havia esquecido, e não me lembrava de como me sentia grato por tê-las esquecido.

- Desculpe, Senhor Luís. Não quis magoá-lo.

Novamente um sorriso.

“Eu sei”.

Ela saiu, e fechou a porta do quarto dele. Ricardo a esperava lá fora. Parecia ansioso em dar-lhe uma notícia. Marina, a enfermeira contratada, retornaria no dia seguinte, e ela estava dispensada do trabalho. 

Foi só quando chegou em casa que, por curiosidade, decidiu procurar na internet o que havia de histórias sobre terremotos em Portugal, e soube que o mais recente havia acontecido em 1969. Isso significaria que o senhor Luís deveria ter menos de cinquenta anos. Ela riu.

“Ninguém pode ser tão acabado assim.”

Ainda no assunto, descobriu outros “sismos” em solo português onde teriam morrido, nove, quarenta pessoas. Nenhum número que justificasse o “todo mundo perdeu alguém aquele dia”. Até que viu números nos terremotos de ocorridos em 1755 e 1531...

Abriu a calculadora do Windows, e fez suas contas. Permaneceu inexpressiva, calada, confusa. Ergueu sua sobrancelha esquerda.

“Não, ninguém pode ser tão velho.”

A respeito de Neuza...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

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Neuza tinha 38 anos. Neuza tinha cinco filhos, e Neuza teve cada um com um pai diferente. Neuza era empregada doméstica, e Neuza era frequentemente questionada sobre as razões que a levavam a ter posto no mundo tantos filhos com homens diferentes.

Neuza é irresponsável, todos pensavam, todos diziam. “Neuza não deve se importar com seus filhos, do contrário, cuidaria bem de um ou dois, e não pessimamente de cinco”. Neuza achava que as pessoas tinham razão, mas também achava que elas deviam cuidar mais de suas próprias vidas, pois ela própria já estava ocupada demais consigo mesma.

Neuza contava com ajuda programas sociais do governo para o orçamento de sua casa e algumas pessoas chamavam Neuza de oportunista. “Neuza está recebendo esmola do governo, pra isso pôs tantos filhos no mundo”. Primeiro que Neuza sinceramente não se importava com o que diziam a seu respeito. Segundo que se fosse uma acomodada, não seria doméstica. 

Verdade seja dita, só Neuza sabia da dor que sentia nas costas pelos anos passando pano em chão, limpando privadas e passando roupa. Alias, Neuza detestava passar roupas, mas sempre pagavam algo a mais se ela passasse. Neuza tinha dor nas costas, e já começava a apresentar alguns problemas renais e intestinais. Trabalhava tanto que se esquecia de beber água durante o dia.

Neuza era namoradeira, sim, e isso irritava muita gente. Irritava, porque muitas pessoas vivem oprimidas por outras pessoas, relacionamentos instáveis, ou mesmo oprimidas pelos pais e Neuza não tinha medo de recomeços. Às vezes ela lamentava secretamente ter tomado uma ou outra decisão por impulso, mas sabia que certas decisões na vida são tomadas apenas uma vez.

Amava seus filhos, mas não sabia como ser uma mãe melhor. Afinal, quando menina, Neuza começou a trabalhar para ajudar na renda da família e quando tivera sua própria família, acostumada com trabalho, jamais curtiu a infância de algum de seus filhos. Apenas trabalhara, dia após dia.

Já quando notou seus filhos e filhas ficando moços, percebia-os, vez e outra, fazendo coisas que reprovava. Era o preço que pagava por ser ausente. Mas sua ausência era também causada pela preocupação com o futuro deles. Neuza realmente tinha escolhas difíceis em sua vida. E as fazia. Com o passar dos anos, dos cinco filhos de Neuza, dois se formaram e tornaram-se importantes, um tinha um emprego modesto, um era dependente e preguiçoso e o outro usava drogas.

Neuza envelheceu sendo ajudada pelos filhos por quem mais pode fazer na juventude e dedicando-se àqueles que não tinham capacidade de coisa alguma.  De cinco, três estavam bem. A conta era simples e isto a fazia sentir-se resignada a encerrar sua vida cuidando dos outros, sabendo que alguns de seus filhos, tendo ou não orgulho dela, teriam uma vida melhor e poderiam ser pais muito melhores do que ela foi algum dia.


Publicado no jornal português "Horizonte".

Quando foi que assisti Chaves pela primeira vez?

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

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Quando foi que assisti Chaves pela primeira vez?


Não tenho a menor ideia. E não tenho ideia sobre quando foi a última, e quando verei pela última vez em minha vida. Isto acontece porque Chaves, para a minha geração é algo que faz parte da vida. Já existia, e quando eu morrer, certamente continuará existindo.

Chaves é uma piada quando o assunto é televisão: O que o Silvio Santos vai fazer quando a audiência deste ou daquele programa cair? Chaves. Chaves funciona. Chaves é como Os Trapalhões. Mas sem sexo. É incrível observar que algo da década de setenta que abusa de tantos recursos dos primeiros grandes filmes de cinema, com um humor que parece fácil, durar tanto.

Eu nasci e Chaves já passava. Meus irmãos viram. Talvez minha sobrinha, filhos que eu possa ter, também assistam.
Roberto quem? Ele é o Chaves, e o Chaves se foi. Não vai mais sair do barril. Ouviremos por ai muito “Pipipipipipipi”, “Ué, ué, ué, ué”, mas eu prefiro que a gente abafe esse som com os aplausos e risadas tão características na obra de Roberto Bolaños.


Chaves, não vá embora triste. Ninguém vai gritar “Ladrão” desta vez. Desta vez você vai partir ao som dos aplausos, risos e assovios. Muito obrigado, e descanse em pança.

21/02/1929 - 28/11/2014


ROBIN WILLIAMS - SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

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          Em memória do ator Robin Williams, de quem permanecerei um grande fã, decidi assistir alguns filmes com ele que sempre foram referências, e que eu mesmo me perguntava porque ainda não tinha assistido. O primeiro é:

Sociedade dos Poetas Mortos

          Basicamente, o filme saiu três anos depois que eu nasci, e a fase consolidada de Robin Williams no cinema aconteceu paralelo ao meu crescimento. “Bom dia, Vietnã” saiu nos cinemas um ano depois do meu nascimento, e provavelmente levou 3 ou 4 anos para chegar no home vídeo. Logo, os anos noventa, com Hook, Jumanji, Uma babá quase perfeita, e etc definitivamente são filmes da minha geração. Robin Williams faz parte da minha vida cultural, e fico feliz de ter reservado alguns de seus trabalhos mais preciosos para a minha vida adulta, como é o caso deste, que nunca havia assistido.

          Vamos ao filme.

          Não assisti fazendo anotações, nem pretendo fazer uma crítica. Apenas compartilhar minhas impressões. O primeiro frame do filme começa com uma pintura de jovens estudantes. Uma boa forma de se introduzir o tema, seguindo por uma apresentação da escola, e a rigidez de seu método.

          E ai vem insegurança pra todo lado, jovens confiantes, mas intimidados pelos pais. Sei bem como é isso. É bem clara a relação em que os jovens crescem aparentemente felizes e bem resolvidos, conformados de que não realizarão sonhos. É interessante que a gente observe que o fato de a história se passar nos anos 50, não faz diferença alguma no conceito social da história. Isso acontece hoje, e acontecerá por décadas.

         Mas ai começam as aulas. E é tudo chato, perfeito, curricular. Cursos, estudos. Basicamente o conceito que funciona para se criar homens capazes de grandes coisas. Mas não necessariamente felizes. Até que surge John Keating, e suas primeiras lições realmente falaram comigo.

          Primeiro, que me senti imensamente grato quando ele pede para os alunos rasgarem a introdução do livro. Me senti grato por isto. Pois basicamente, eu escrevo com ou sem inspiração. E há uma diferença absoluta entre o que faço em cada situação. Quando faço sem inspiração, busco idéias, referências, e executo, para alguma finalidade específica. Quando crio algo inspirado, não procuro referência de linguagem, estética ou o que quer que seja: eu apenas abro o coração e aquilo sai.

          E isso é percebido por quem lê. Porque eu percebo quando leio isso em alguém. Já li livros repetidas vezes, livros que nem me causaram tanta emoção, ao passo que recomecei a leitura de livros que me causaram lagrimas ou surpresas, e me deparava com uma escadinha de fórmulas para se contar uma história, e me percebia deixando de lado. Aquilo não tinha alma, era algo produzido em série. Não era um bolo feito pela minha avó, mas um bolo pullman absolutamente sem graça quando começamos a comer o segundo pedaço.

          Rasgar as regras é uma forma de se libertar dos preceitos que as pessoas que não tem habilidade encontram de “codificar e decodificar” algo que simplesmente é uma manifestação da alma humana, a fim de “tentar” reproduzir. É o ator sem talento que defende que qualquer um pode ser um bom ator por buscar técnica. É o cara que faz um curso de desenho e diz a si mesmo que é um artista. É o cara que leu O Herói de Mil Faces, ou qualquer coisa do McKee, reproduz as ditas fórmulas que eles sugerem, e de dizem escritores ou cineastas.

          Os estudos são fundamentais para o desenvolvimento de um artista, seja qual for sua arte. Porque ele precisa descobrir o que já foi feito, para elevar sua autoestima sobre o que ele faz. Descobrir novas maneiras, “fórmulas”, e quem sabe, descobrir o que ainda não fora realizado por ninguém, e quem sabe, ser pioneiro. 

          Pessoas comuns podem sim se tornar escritores, atores, pintores competentes. Mas, pensando em um pintor, ele saberá reproduzir o rosto de alguém, ou fazer uma caricatura, ou replicar uma maçã, mas será apenas isto. Uma foto. Pra haver o brilho, a emoção na arte, ela vem de dentro, não de fora. Vem da alma, da vida que vivemos, não dos cursos que fazemos ou livros que lemos.

          Os verdadeiros professores no mundo das artes não ensinam como fazer alguma coisa. Não afirmam, eles estimulam, e apenas isto. E ali temos uma explicação consistente para a poesia. Segundo John Keating, médicos, advogados, todos amam, todos sofrem, todos sonham. A poesia(ou a arte), é a única maneira que o homem encontra de explicar, seja para si mesmo, ou para o mundo, o que ele sente. Isso não se aprende com métodos e teorias, mas com exercícios sobre si mesmo.

          Temos então um momento tocante, ao qual eu já havia feito em minha vida por inúmeras vezes. Os alunos são postos diante de fotografias de turmas de outrora. Quem eram eles? O que pensavam? O que desejavam e sonhavam? Quem amavam? Qual a sabedoria que o tempo e a vida lhes dera?

          O nosso próprio tempo vai acabar passando, estejamos nós vivendo a vida ou não. Um dia temos 12, no outro celebramos 40 anos. Carpe Diem. Aproveite o dia. O tempo vai passar de qualquer maneira. Estejamos nós fazendo o que desejamos ou não. Podemos ter um sonho que levaria 5 anos para se tornar realidade. Pensando de hoje para o futuro, cinco anos é tempo demais. Então desistimos.

          Mas aí os cinco anos se passam sem que tenhamos arriscado, ou praticado. O tempo que precisamos para realizar qualquer coisa que seja sempre vai passar, estejamos nós fazendo por merecer ou não. Essa é uma lição que infelizmente as pessoas costumam aprender tarde demais.

          Mas voltando ao Carpe Diem, ah, isso é tão mal interpretado pelas pessoas. Aproveitar o momento não significa fazer escolhas idiotas, ou “só se arrepender daquilo que não fez”. Mas entender que só se vive esta vida uma vez. Temos o livre arbítrio, mas as grandes decisões só podem ser tomadas uma única vez. Não tem a ver com impulsividade, mas com paz de espírito, e com a busca. 

          Atrevo a complementar Carpe Diem com “Follow your bliss”, o lema de Joseph Campbell. Busque sua felicidade. Requer sacrifícios, e não é sábio tentar viver algo que não foi vivido. Carpe Diem, o que não foi vivido ontem, não deve ser vivido hoje. Vamos aproveitar o hoje com o hoje, sem usá-lo pra reparar o passado. É perder tempo.

          Viver a adolescência nos 20, para viver os 20 nos 30, os 30 nos 40, e perder-se da própria personalidade. Temos que aceitar o que não tivemos e seguir. Isto nos torna mais sábios, e capazes de aproveitar as delicias da fase da vida em que nos encontrarmos.

          “Carpe Diem”, “Follow your bliss”, ou, mais moderno e irreverente “Continue a nadar!”, lema da peixinha Dory de “Procurando Nemo”. O filme segue com seus exemplos através dos jovens rapazes, culminando na trágica história de Neil, que sonhava ser ator, e no mesmo dia em que brilhara no palco, aplaudido e reconhecido por todos seus amigos, suicida-se. Salta de um extremo ao outro.

     
    É exatamente assim que acontece. É difícil demais viver de algo que basicamente é o resultado da ebulição da própria alma. As pessoas raramente entendem. As pessoas não percebem, que pena, que são todas artistas asfixiadas. Todo ser humano nasce pronto para ser poeta, ator, cantor, contador de histórias.
Todos já disseram que a própria vida daria um livro.

          Quantos escrevem? Todos já ouviram uma música e se imaginaram num palco cantando e dançando, todos já contaram uma passagem da própria vida, interessante, e gostaram da concentração daqueles que escutavam. Todos já se imaginaram fazendo algum discurso, todos já se imaginaram sendo entrevistados.

          Mas poucos fazem tudo isso. É o medo de que a poesia da própria vida não seja interessante para os outros, como vemos na cena em que o tímido aluno se recusa a recitar algo de sua autoria, até que o professor lhe tape os olhos e o faça descrever aquilo que vê.

          Impossível que exista algum ser humano cuja poesia não seja interessante. Seja ela sensível, divertida, erótica, profana, religiosa, não importa. Todos trazem dentro de si poesias fascinantes, que são sufocadas pela falta de fé em si mesmos, e a falta de professores que estimulem mais e ensinem menos.

          Tinha esperanças de que Neil fugisse de casa, mas não foi este o final que teve. Uma pena. Gosto de imaginar que, com todo o clímax do filme, todos aqueles jovens que subiram na mesa para ver o mundo por um novo ângulo, possam ter mantido, até o fim de suas vidas, a poesia viva.

          Parabéns a quem escreveu, a quem dirigiu, aos então jovens atores, e especialmente ao tal comediante cuja graça, definitivamente, estava em sua humanidade, muito mais do que em seu senso de humor.