A Próxima Aventura

domingo, 4 de outubro de 2009

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Segunda-feira, 17 de agosto de 2009, 12 horas e 30 minutos.

Quando era criança, aos doze anos, lembro-me de ter o almoço do dia dez de fevereiro de 1998 interrompido pela chegada abrupta e desolada de minha avó Adelaide, que dizia ter recebido a ligação de um hospital chamando-nos para ver meu avô Antônio.
O dia seguiu normalmente, e eu fui para a escola. No meio da aula de inglês da professora Geovanina a porta se abriu, e Dona Penha, inspetora de alunos, me chamou. Disse que minha outra avó, Angelina, estava lá para me buscar. Fiquei feliz por não ter que ficar até o final do dia na escola.
Quando cheguei em casa ela me disse que meu avô tinha morrido. Não me lembro da sensação, mas me lembro que foi horrível, e que fiquei em silêncio por um segundo antes de traduzir as palavras para entender o que aquilo significava.
Para que eu não ficasse sozinho, ela me levou na casa do meu tio Carlos, e lá estava a cunhada dele, Jacira. Como são todos evangélicos, ela tinha na mão uma bíblia sempre pronta para ser aberta. Ela abriu, da forma mais casual, e eis o que surgiu: Mateus 14:27. Enquanto Jesus caminhava pelas águas, e os apóstolos se assustavam, Jesus Cristo lhes dizia: “Tranqüilizai-vos, sou eu, não tenhais medo”.
Eu acredito que há no mundo muitas coisas que nem todos os livros sagrados de todas as religiões juntos seriam capazes de explicar, tanto quanto tenho certeza de que todos carregam em si uma parte do Todo Inexplicável.
Não era Jesus que trazia meu avô para junto de si, era a lei sagrada que não precisa nem de Deus ou qualquer doutrina para ser explicada: tudo que é vivo morre. Pois vivemos num mundo de matéria. É o único caminho certo que temos.
Quase cinco anos depois que meu avô morreu, foi a vez de meu pai morrer. Alfredo Simões. Ele não era o modelo mais adequado de pai, mas acho que foi perfeito para mim, porque, ainda que eu nunca chegue a lugar algum, foram as adversidades e medos que tive que fizeram-me como sou hoje. E eu não me sinto nem covarde, nem acomodado, nem descrente, ou melhor que ninguém.
Foi a primeira vez que fui a um velório, desde que era muito pequeno. E não derramei sequer uma lágrima por ele. Mas quando vi minha avó Adelaide, mãe dele, chorar, eu pensei e disse à minha mãe que ele teve sorte, pois não viveria sem a mãe dele. E então chorei, pois aquele sim fora um pensamento pesado.
Foi depois de tudo isso que comecei a perceber como a vida tridimensional não combina com o tempo bidimensional, e que logo, nada fazia sentido, para tanto, nada deve ser temido.
Pensei então que nem ele teve sorte, nem minha avó tivera azar. Ele não morreu porque era a hora dele. Mas por problemas de saúde que poderia ter evitado se fosse um homem mais prudente. Assim como vi com muitas pessoas desde então.
Eu percebi que a morte já não me impressionava mais. Não era mais uma sombra desconhecida e temível. Mas uma sombra desconhecida que, já que eu sei que não tenho escolha, espero ser capaz de aceitá-la com boas vindas, para que seja mais fácil. Como professor Dumbledore sabiamente disse, “para a mente bem estruturada a morte é apenas a grande aventura seguinte”, ou “Não há nada a ser temido num cadáver, Harry, assim como não há porquê temer a escuridão. Lord Voldemort, que secretamente teme ambos, discorda.(...) É o desconhecido que nos atemoriza quando lidamos com a morte e o escuro, nada mais que isso.”
Em 2003, alguns meses depois da morte de meu pai, ouvi, num filme, uma música que era a seguinte:

Lay down your sweet and weary head/ Night is falling, you have come to journey's end/ Sleep now and dream of the ones who came before/ They are calling from across a distant shore/ Why do you weep? What are these tears upon your face/ Soon you will see, all of your fears will pass away/ Safe in my arms, you're only sleeping/ What can you see on the horizon? Why do the white gulls call?/ Across the sea a pale moon rises/ The ships have come to carry you home/ And dawn will turn to silver glass/ A light on the water, all souls pass/ Hope fades into the world of night/ Through shadows falling/ Out of memory and time/ Don't say we have come now to the end/ White shore are calling/ You and I will meet again/ And You'll be here in my arms, just sleeping/ What can you see on the horizon? Why do the white gull call?/ Across the sea a pale moon rises/ The ships have come to carry you home/ And all will turn to silver glass/ A light on the water/ Grey ships pass into the west.
Mantenha baixa sua cabeça doce e exausta/ A noite cai, você chegou ao fim da jornada/ Agora durma e sonhe com aqueles que vieram antes/ Eles chamam, de alguma praia distante/ Por que você chora? O que são estas lágrimas em seu rosto?/ Logo você verá, todos seus medos irão passar/ A salvo em meus braços, você apenas apenas dorme/ O que você pode ver no horizonte? Porque as gaivotas brancas cantam?/ Além do mar surge uma lua pálida/ Os barcos vieram para levá-lo para casa/ E a madrugada se tornará um vidro prateado/ Uma luz sobre a água, todas as almas partirão/ A esperança mingua pelo mundo da noite/ Caindo pelas sombras/ Além da memória e do tempo/ Não diga que agora chegamos ao fim/ Ondas brancas nos chamam/ Você e eu nos veremos outra vez/ E você estará aqui em meus braços, apenas dormindo/ O que você pode ver no horizonte? Porque as gaivotas brancas cantam?/ Além do mar surge uma lua pálida/ Os barcos vieram para levá-lo para casa/ E tudo se tornará vidro prateado/ Uma luz sobre a água/ Barcos acinzentados partem para o oeste.

Acho que por hoje é só.
Boa vida, e uma ótima morte a todos nós.
Alex Pedro

2 comentários:

Fernanda disse...

Tenho sorte de ter um amigo como vc. Eu me lembro quando seu pai faleceu, nossa amizade estava se firmando e não me lembro o motivo que me fez não comparecer ao velório, mas meu pensamento ficou o tempo todo em vc.
Te amo muito meu amigo querido.
Ps: essa música é tocante.

Phê Brito disse...

Vim olhar esse post porque vi o nome da Annie Lennox nos marcadores.
E sim, a morte é a próxima aventura...

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