Essa História de Amor - Cena 4 - Ato 3

sexta-feira, 19 de março de 2010

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Cena da minha peça "Essa história de amor"

CENA 4 – Uma mesa de bar.
Luiza e Cláudia tomam café.

Cláudia: Só vim porque você insistiu.

Luiza: Tá revoltada?

Cláudia: Tô. O homem da minha vida é gay. Ele me mandou uma mensagem no celular dizendo que quer conversar comigo. Mas eu não quero conversar com ele. Não quero vê-lo nunca mais. Eu acho que vou ligar pr'aquele massagista que ficava dando em cima de mim. Ele vem, faz a massagem, dá em cima de mim. Mas dessa vez eu dô pra ele. Cansei disso, Luiza. Cansei de ser boba. De querer tudo certinho.

Luiza: Não querer tudo certinho, não significa fazer tudo erradinho, Cláudia. Você nunca foi promíscua, nunca foi vadia. Nunca foi de jogar charme pra cima de todo homem. Acho que você já tá um pouco velha pra isso. Mudar nesse aspecto não vai resolver o problema.

Cláudia: E o que resolveria?

Luiza: Entender todos os lados do problema, por exemplo. Esfriar a cabeça, e aceitar que as vezes o medo dos outros nos atinge, nos fere, e que vai de nós mesmos perdoar ou não. Ele não é um canalha. É um homem que tem um medo, e você expôs a maior fraqueza dele, o maior segredo dele na frente do melhor amigo dele. Ridicularizou ele na frente do meu irmão. Ele deve estar se sentindo bem menos homem depois disso.

Cláudia: Tá. Mas eu estou me sentindo bem menos mulher depois disso.

Luiza: Ótimo, assim vai ficar ainda mais fácil entender o lado dele. Você está sentindo dele a mesma rejeição que ele sentiu do mundo a vida inteira.

Cláudia: (triste)Eu só queria que você dissesse que ele é um canalha.

Luiza: Imagine que o meu irmão fosse uma mulher. Teria tido toda essa proporção?

Silêncio.

Luiza: Teria sido assim, tão ultrajante?

Cláudia: Não teria. Mas ele é um homem.

Luiza: Você está decepcionada.

Cláudia: Você não ficaria?

Luiza: Sabe o Horácio e o Gilberto?

Cláudia: Eles são?

Luiza: Eu tinha saído com o Gilberto. Tinha sido a maior loucura. Aí eu sai com o Horácio. Outro maravilhoso. Um dia eu embebedei os dois e levei os dois pra cama, e comecei a propor algumas brincadeiras. Os dois estão juntos até hoje.

Cláudia: Tô chocada!

Luiza: Não fique. Olha, primeiro, aceite que essa rejeição toda vem pela cultura na criação dos filhos. No fundo a gente não tem motivo pra sentir esse preconceito, esse nojo em ver dois homens se beijando.

Cláudia: Eu nunca tinha feito sexo oral. Foi com ele a primeira vez. Eu estava apaixonada por ele. Por ele eu estava mudando um monte de coisas em mim. Eu adoro o cheiro dele. O humor dele. O jeito dele de olhar.

Luiza: Mas ele ama outra pessoa.

Cláudia: É. O seu irmão.

Luiza: Pelo amor de Deus, Cláudia. Amar é querer que a pessoa seja feliz, não é? Foi o que você me disse faz o que, uns dez anos? Se ele é maravilhoso, inteligente, carinhoso, gentil, bonito, ele merece ser feliz, não é?

Cláudia: Merece. Só queria que fosse ao meu lado.

Cláudia toma um pouco de suco.

Cláudia: O parte mais estranha disso é que essa outra pessoa é alguém que eu gosto.

Luiza: É, isso foi um tapa na minha cara, também. Nunca que eu poderia imaginar uma situação como essa. Eu até tento me colocar no seu lugar, mas não consigo.

Cláudia: Mas de qualquer forma, você sempre foi mais ousada e desprendida do que eu. Eu preciso pedir desculpas pro Tom. Eu gosto tanto dele, não acredito que fiz isso. Será que ele está com raiva de mim?

Luiza: Está decepcionado. Mas meu irmão nunca foi uma pessoa rancorosa.

Cláudia: Mas e o Eduardo, como que eu vou conversar com ele? Com que cara?

Luiza: Com a sua. Mas no seu lugar eu estaria morrendo de medo. Ele é um homem bom, e não faria mal, mas você foi muito dura. Você emasculou ele na nossa frente.

Cláudia: Eu sei. De verdade? Eu queria que ele me desse um soco. Que me quebrasse o nariz.

Luiza: Ai, minha amiga. Se ele te perdoar, já estará de bom tamanho.

Cláudia: Sabe, se ele me perdoasse e me quisesse de volta, eu acho que aceitava.

Luiza: Pelo amor de Deus. Ele é apaixonado por outra pessoa. Você criou uma situação tão violenta, que forçou ele a encarar isso. Se ele não se resolver como homem, ele será covarde, mas você será egoísta, por permitir que ele engane a si mesmo, e se acostume a mentir para si.

Silêncio.

Luiza: É... bom...

Luiza tira da bolsa uma caixinha e mostra para Cláudia, que abre e vê a aliança.

Cláudia: O jantar era pra ele te pedir em casamento? Meu Deus, até pra vocês dois eu preciso pedir perdão...

Luiza: Tsc, relaxe.

Cláudia: Puxa vida, hein? Pelo menos uma de nós está feliz. Você merece. Sabe, eu vejo quanta coisa você abdicou por amor. Você é até mais serena.

Luiza: Impressão sua, continuo sendo a mesma vaca doida de sempre.

Cláudia: Ai, Luiza. O que seria de mim sem você?

Luiza: Monótona.

Cláudia: Sabe, eu sempre achei que você no fundo era bem mais madura que eu.

Luiza: Não fale besteira. Você já viveu coisas que eu não consigo sequer me imaginar resolvendo. Somos diferentes uma da outra, e por isso somos amigas. Porque precisamos uma da outra.

Cláudia: Eu ouço sempre dos outros que sou boa, que tenho bom coração, que sou pura. O Sêu Pereira mesmo, me disse que admirava meu altruísmo. Aí eu acabo acreditando, levando a sério. Aí eu me acostumo a geralmente ter razão quando aconselho ou chamo a atenção de alguém por conta do comportamento, perco a medida. Acho que posso dar broncas nas pessoas ou falar tudo o que penso, achando sempre que eu estou certa, pois meu ponto de vista é sempre justo.

Luiza: É... De repente, nós somos todos a mesma coisa, não é, minha amiga? Cada um de uma cor, de uma forma, de um tamanho, mas a mesma coisa.

As luzes apagam-se.

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