O pequeno príncipe

sábado, 29 de dezembro de 2012

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Hoje terminei o livro “O Pequeno Príncipe”, e me flagrei no mesmo estado de graça e insatisfação que senti ao assistir “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. A graça por perceber como existem contadores de história sensíveis, maduros, e não obstante, simples, no mundo. E insatisfeito comigo mesmo por não ter me dado ao trabalho de conhecer essa obra há mais tempo.

Claro que como um ser humano no mundo globalizado, eu cresci sabendo que a obra de Antoine de Saint-Exupéry existia, sabia reconhecer os traços de sua arte e, inclusive, conhecia muitas das frases de efeito de sua obra.

Frases de efeito, isto é o pecado que eu percebi ao terminar o livro.

A história, apesar de simples, carrega significados e exemplifica as fragilidades humanas de uma forma que eu só havia “experimentado” ao ler “A História sem fim”, de Michael Ende. Há um livro para aguçar a imaginação fértil das crianças, e uma jornada repleta de revelações para os adultos observarem a si mesmos.

E nisso tudo, sobram o que as pessoas chamam de frase bonita, frase de efeito... Sublinham, passam adiante, sem de fato experimentar a proposta desses respectivos autores: vivenciar algo único, que somente o coração de uma criança é capaz de tornar real, mas contentando-se em usar, de má fé a sensibilidade do contador de histórias como um mero livro de auto-ajuda. Deixe a auto-ajuda pra quem não sabe contar histórias.

Muitas pessoas choram com o final. Particularmente, achei natural a forma como tudo acontece. É lindo, deixa saudade, mas é feliz.

A morte do Papai Noel

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

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Em algum lugar no interior da Bahia se escondia a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era conhecida por histórias de superação. Natalino Ventura fora um sobrevivente: Tinha dois filhos que passavam o dia sozinhos no sitio em que morava, e certa vez, em época de natal viajou até Itabuna para trabalhar em um comércio.

Com a mesma falta de sorte que lhe trouxera uma mulher que engravidara de gêmeos e desapareceu após seu nascimento, Natalino esbarrou com Cristino Gomes, conhecido por Corisco, cangaceiro famoso e perigoso que estava à paisana pelas bandas de Itabuna. Após uma discussão por motivo fútil, Corisco lhe agrediu com violência.

 Ninguém jamais soube que o homem que o espancara e o deixara desacordado pela rua era o cangaceiro, a não ser este que vos fala. O fato é, Natalino, com vinte e três anos, acordara sem se lembrar de seu nome, seu lar, exceto lembrar-se que tinha alguém à sua espera.

Seus filhos cresceram, com momentos ora de tristeza, ora raiva. Jamais saberiam o que tinha acontecido até que quando completaram sessenta anos, Indaiara, a moça, agora senhora, por quaisquer forças do destino o encontrara pedindo esmolas em uma praça de Itabuna, com uma barba que passava a altura da cintura, cabelos longos, cinzas e embaraçados, e uma marca de espancamento, como um carro amassado, no cocuruto do velho.

Bastaram três dias para que ele estivesse devidamente asseado, e arrumaram-lhe um trabalho. Um shopping de Itaxoxota, que mais parecia uma pequena galeria, precisava de um velho barbudo para representar o Papai Noel.

Lá estava Natalino. Um velho que não calculava informações. Não assimilava o mundo. Uma alma infeliz, por ansiava por reencontrar coisas que já tinha recuperado e não podia reconhecer. Falava, pensava, mas era vazio. Sentia calor com a roupa vermelha, e a poltrona do Papai Noel, embora parecesse bonita, era dura e desconfortável. E então uma menina se sentou em seu colo.

Ele fez como o dono do Shopping orientara, conversava com a menina, e dera-lhe um doce. Houve uma iluminação em sua mente ao olhar tão próximo do rosto da menina.

“Minha filha...” pensou ele, como quem faz a maior descoberta do mundo. Ele tinha duas crianças. As havia deixado para trabalhar. Esta era a causa de sua angústia. O senso de responsabilidade por seus filhos jamais havia desaparecido, e não lembrar que existiam tornara todos os sessenta anos terrivelmente sufocantes.

Seu coração acelerou. Ele precisava procurar, mas onde estariam.

- Qual o seu nome, meu filho? – perguntou ele para outra criança.

- Enoque. – respondeu o menino.

Era o nome de seu filho. Enoque e Indaiara. De repente tudo voltou à tona. Ele sabia quem era, de onde viera, lembrou-se do diabo loiro que o agredira. Mas não se esquecera dos anos que se passaram.

Sentou-se outra criança. Mas sua aflição apenas se atenuava a cada segundo que passava.

“Meu Deus, aquela moça é minha filha. Onde ela está?” ele pensou, lembrando-se do rosto da mulher Indaiara que o havia resgatado das ruas de Itabuna.

Começou a sentir a boca seca.

- Eu passei de ano! – exclamou um menino, orgulhoso. Olhou para o menino, simpático, tentando parecer calmo, embora surgissem pequenas luzes em seus olhos que piscavam incessantes.

Esticou o braço esquerdo para pegar um pirulito, e o doce caiu de sua mão que formigava. Ele abria e fechava, aflito. A boca, mais seca a cada instante, e de repente ele gritou um breve “Ah!”, e derrubou o menino no chão, e caiu em cima dele. Morto.

Um trovão cortou todo o som que havia na cidade. Um raio havia partido a maior árvore da praça principal, que ficava diante do shopping e da igreja. Também o som da árvore fora um estrondo arrepiante.

E as crianças, que eram muitas começaram a gritar. Umas choravam de medo, outras uivavam e apontavam para o velho morto.
“Papai Noel morreu”, gritavam elas.

E a chuva começou. Densa, tornando a manhã ensolarada em uma noite surgida de modo inesperado. Pessoas corriam pelo shopping e gritavam nas ruas que o Papai Noel havia morrido. Uma hora depois, estavam Indaiara e Enoque ao lado de oficiais que retiravam o corpo de Natalino.

Quando o corpo fora levado, todo mundo soube que o nome do homem se chamava Natalino, e que ele era um milagre. Pois não chovia em toda a região fazia quase seis meses. A chuva levou horas, e toda a cidade saiu, sem guarda-chuvas, para senti-la, fria, abundante e abençoada.

Indaiara e Enoque jamais souberam que seu pai se lembrara deles antes da morte, e fora a dor de tê-los deixado esperar tanto tempo, que lhe tomou a vida. 

A Solução de Rodrigo

domingo, 16 de dezembro de 2012

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 "A solução de Rodrigo", conto de minha autoria, foi originalmente publicado no jornal lusitano Horizonte, em 26 de outubro de 2012

         Era parte da rotina de Rodrigo chegar em casa após a escola e encontrar seu pai, Luís, sentado diante da televisão com o controle remoto na mão direita. Mas às vezes ele não estava em casa.

          Às vezes a casa estava sem o ruído  da televisão alta, e isto não era um bom sinal.

          Nestes dias, Rodrigo ia para o quintal e se deitava no chão do quintal, para observar as nuvens. Chicão, o cachorro da raça pastor alemão, lambia-lhe a cara e depois deitava apoiado no peito do garoto.

          As vezes até dormia. E sua mãe, Leila, que trabalhava como cozinheira em casa de família, chegava em casa todos os dias as oito, e o acordava no quintal. Rodrigo alimentava Chicão, tomava banho e começava a estudar. Eis que começava, sempre na mesma ordem:

         Ouvia as correntes que prendiam o portão mexerem; Chicão latindo, furioso; um barulho irritante do portão sacudindo; seu pai gritando seu nome, ou o nome de sua mãe, precedendo sempre uma palavra rude.

          Rodrigo corria em direção à garagem, mas as vezes Leila já estava lá para abrir o cadeado para o marido, que a empurrava com força para que saísse do caminho. Estava bêbado.

          Na última vez, ele agredira Leila com tanta violência, que ela deixara de ir para o trabalho por quase duas semanas. Inventara uma doença qualquer para a patroa. Rodrigo, por sua vez, ligou em segredo para Sílvia, a patroa de sua mãe, para lhe dizer a verdade.

          Com um bolo de cenoura nas mãos, Sílvia viera visitar Leila, e ofereceu-lhe ajuda. Leila agradeceu, porém disse que não seria necessário, pois nada era o que parecia. Sentiu-se traída pelo filho.

          Rodrigo fora repreendido por sua mãe.

          Desta vez Rodrigo olhava para os modos do pai, para as súplicas da mãe, e pensava. Foi até seu quarto e fechou a porta. Leila o chamava. Era sempre assim...

          Ela chamava o filho para apartar a briga. Ele vinha, separava. A mãe chorava, o pai saía outra vez, ou se trancava no quarto.

          Rodrigo tinha 15 anos, e já estava cansado. Foi até a cozinha, onde o pai batia em sua mãe, mas não separou. Olhou a situação e, com um misto de indiferença e raiva, abriu a porta do quintal para que Chicão entrasse.

          Como um raio, o animal entrou casa adentro e voou na perna de Luís, que caiu e tentou dar socos no cão, mas fora novamente mordido, desta vez no braço. Os dentes afundaram na carne do homem, que gritou. A mãe pegara uma vassoura para bater no animal, mas Rodrigo a deteve.

          Colocou o cão no quintal. Seus pais, horrorizados, olhavam-no em silêncio.

          - Se me dão licença, - disse o garoto – preciso estudar.

          E voltou para seu quarto.


Sobre amor, esperança, e o cupido...

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

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Seria o coração um tolo,
ou o cupido filho da puta?

Que diferença faz agora?
O coração é tolo, ele sabe.
Conhece o temperamento do cupido,
Conhece seu senso de humor cruel...
E lá está ele.

Dureza é: a flechada, ainda que doa,
traz uma esperança quase libertadora.
Mas dói porque, sabe ele, o coração,
que a esperança é a ultima que morre.



Morre antes dela a lógica,
Morre antes dela o bom senso,
e antes de ambos, às vezes,
morre até o amor próprio.

E a esperança, quando morre, morre deixando o buraco de todo o resto, porque ela impedia o coração de perceber tudo o que perdeu pelo caminho.

Mas quer saber? Foda-se. Ter esperança faz bem, porque a esperança só acaba depois que a própria morte chega.

D.I. Project - Capítulo 7

sábado, 8 de dezembro de 2012

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O ano é 2063.
A humanidade corrompeu-se às delicias do consumismo. Cheia de vícios por tecnologias, drogas sintéticas e fetiches sexuais, o homem caminha para sua fase mais obscura e superficial.
Isabel viu o homem andar de porta em porta, sem fazer perguntas, exterminando todos os indivíduos que via. Escondeu-se atrás de uma estátua. Acreditou que ele talves a tivesse visto, mas aparentemente a ignorou. Ele subiu as escadas, sendo alvejada por muitas balas. 0Detivera-se por um momento ao receber o impacto da bala de uma arma de grosso calibre. Ela não queria acreditar no que vira.
No andar de cima o caos havia se instalado. Muitos viram o homem que subia as escadas sendo quase que ininterruptamente baleado e sem sofrer danos aparentes, e corriam por saídas de emergências.
Johan Marx levantara as percianas do escritório de Cadogan e vira longe o homem espantoso. Quatro homens jogaram-se em cima dele. Como se três fossem moscas que voavam inofensivamente ao seu redor posando ora em seu rosto, ora no corpo, concentrou-se em apertar a cabeça do quarto com duas mãos, num “cloque” sonoro quer pode ser ouvido de qualquer parte. Agarrou outro pelo pescoço e em poucos instantes quebrara as vértebras do homem deixando-o cair molemente no chão. Um correu, o outro, no chão, ergueu as mãos.
“Procuro por Charles Cadogan”, dissera o assassino.
- ALIIIIIIIIII! LA ESTÁ ELE! - gritou atterrorizado o homem apontando para o Inspetor distante. No exato momento o assassino ergueu a arma para Cadogan, que jogou-se no chão.
Johan sacudia a maçaneta freneticamente, num estado de terror alucinado.
- Puta que pariu!
Charles jogara-se contra uma das saidas de emergência, ao notar que era o alvo do assassino.
O corredor estava apenas ele, ligeiramente sem fôlego devido à surpresa. Apoiou-se na parede de uma quina e esperou o homem entrar no corredor.
Carregou sua pistola, e esperou. Lá estava ele, passando pelo batente sem pressa. Monstruosamente musculoso e sobrenaturalmente inexpressivo. Cadogan, num golpe de extrema agilidade, apontou a arma para a cabeça do homem.
Teria sido fatal. Mas a cabeça do homem fora empurrada para trás com demasiada força, no entanto, voltou a posição anterior em menos de quatro segundos. Cadogan correu. E a luz fora cortada, restando somente as lanternas de emergência.
“Droga-droga-droga...” reclamou ele, encurralado ao bater-se contra a porta emperrada no fim do corredor.

Johan estava encolhido no chão do escritório, tentando manter a cabeça fria. Levantou-se, num momento de inspiração emergencial, pegou uma cadeira para atira-la contra o vidro, mas antes que isto acontecesse, muitos tiros foram detidos contra o vidro do escritório: era blindado.
Aquele mesmo homem que o havia alertado pouco mais de uma hora antes, estava disparando tiros, para depois, lançar contra o vidro uma cadeira, que o dilacerou.
- Venha, não temos tempo a perder.
E os dois desceram correndo, pelo edifício que estava em um estado de caos onde nenhum fora percebido, a não ser por Isabel McClanahan

Pobre Letícia... - para o jornal Horizonte

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

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O conto à seguir foi originalmente publicado no jornal Horizonte, do distrito de Viseu, em Portugal, em 26 de junho de 2012.


Letícia era forte.  Letícia aos treze anos cuidava de três irmãos. Letícia aos quinze anos tornara-se mulher da vida, mas Letícia, aos vinte, encantou um homem.

Letícia fora uma menina delicada, mas Letícia se tornara uma mulher de poucos risos. Era aquele enigma de seus olhos que lhe trazia o sustento, pois Letícia nem mesmo era dona de tanta beleza assim.

Talvez aqueles olhos carregassem mais experiências do que se esperaria em alguém de sua juventude. Afinal, Letícia confiava apenas em sua intuição. O mérito desta sabedoria era conseqüência de sua própria história.

Letícia sempre quis dar conforto a seus irmãos, e lamentava que isto não pudesse acontecer por um trabalho de advogada ou médica. Letícia queria que seus irmãos fossem alguém nessa vida. Doutores em alguma coisa... Quem sabe artistas? Artistas mudam o mundo, trazem riso e fazem pensar. Teria se orgulhado.

Mas a verdade é que seus irmãos na adolescência passaram a envergonhar-se dela. A partir deste dia, nada mais pôde fazer por eles. Apesar de aceitarem seu sustento, rejeitavam seus meios. Ela própria os achava cruéis, mas o que poderia fazer? No final das contas, ela própria não teria se orgulhado de sua mãe se esta se deitasse com homens para sustentar os filhos. Embora se lembrasse que sua mãe havia desistido de viver por não poder sustentá-los.

Frustrada exatamente como sua mãe era, porém, que culpa tinha ela e que culpa teriam eles? Fracasso não enche barriga. Precisavam de comida e carinho, sendo ela feliz ou não.

Quando um homem percebeu que aquele olhar que para o mundo parecia sensual, nada mais era do que uma janela para a tristeza incalculável, não poderia oferecer no mundo nada que pudesse valer ver aqueles dois olhos negros brilharem felizes.

Como poderia ela acreditar que aquele homem sentia algo terno por ela, se ela própria não conhecia esse tipo de encanto?

Ao passo que ela abaixou uma alça de seu sutiã, ele a colocava de volta. Ao invés de se encantar, ela sentiu medo. Pobre homem, que levou tantos meses até que ela se permitisse ver a si mesma como uma boa companhia. Ele lhe pagava para que não dormisse com outros homens. 

Pouco a pouco, pobre Letícia, fora descobrindo que ainda era jovem, e isto não fora nada fácil. Não é simples entender que pode haver vida boa adiante, se não houve vida boa no passado. Nem é fácil descobrir-se alguém especial para os outros se nunca soube ser especial para si mesma.

Conhecê-lo a tornou feliz, de alguma forma. Mas seus irmãos não acreditavam. E o homem apesar de ter uma vida boa, apenas era um trabalhador bem sucedido, não um homem rico. Certo dia seus irmãos partiram. Não haviam sequer despedido dela. Afinal, eles eram do mundo, não eram?

O homem cresceu em seu trabalho, e precisou ir para outro país. Ela se despediu dele. Mas ele nunca se despediu dela. Ela partiu em seu encontro alguns meses depois. Sempre pensando em seus irmãos em toda a viagem, e em todos os anos que se seguiram.

Sempre pensou neles. Nunca mais os viu. Mas foi uma mulher muito amada por seu homem, e uma mãe muito amada pelos filhos que teve.

A lenda do velho que ria, Parte 2

sábado, 24 de novembro de 2012

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Pomba-Gira, por Caio de Figueiredo
                Maria Cristina vivia em um apartamento na Avenida São João fazia quatro anos. Quando o comprou, queria convencer seu namorado, Jorge, a casar-se com ela. Ele, por sua vez, após cinco anos com Maria Cristina, decidiu terminar com o relacionamento. Ela não gostou.

                Ela era divorciada, 52 anos. Jorge tinha 28 anos, era bonito, vigoroso e atlético. Ela, após os trinta passara a ganhas alguns quilos por ano e, agora, estava decidida a buscas ajuda espiritual para manter seu relacionamento.

                Mãe Ciníra de Oxossi era uma macumbeira bastante conhecida. Começara com os trabalhos espirituais por volta dos 12 anos e agora aos 70 era uma mulher rica, guru de pessoas bem-sucedidas e, de fato, muito habilidosa no que se propunha a fazer.

                Quando Maria Cristina procurou Mãe Ciníra, já sabia que ia fazer algo tanto moral, quanto espiritualmente errado. Haveria um despacho, seria em uma encruzilhada, e a sexta-feira mais próxima era curiosamente num dia 13.

                Na noite em questão, Maria Cristina sentia medo e constrangimento. Não queria ser vista por vizinhos fazendo despachos e oferendas. Foi por volta da uma e quarenta da manhã que Mãe Ciníra, já enfurecida, intimidou Maria Cristina a descer e fazer o trabalho.

                Começou com sua chegada na grande avenida. Carregavam uma sacola com um alguidar pequeno, uma garrafa de champagne, cigarros, sete rosas vermelhas, e um par de brincos com um colar. Andariam até a esquina da Avenida São João com a Rua Conselheiro Crispiniano, o cruzamento de três vias mais próximo.

                Antes que chegassem ao Largo do Paissandú, porém, algo aconteceu...

                Como que de uma porta invisível surgida no meio da calçada, surgira um velho bem alto, todo branco com uma bengala e um chapéu Panamá.

                “Minha Nossa Senhora!”, exclamou Maria Cristina. Mas Mãe Ciníra, por sua vez, assustou-se, começou a chiar feito uma panela de pressão e a girar até que, de uma gargalhada, parou e o encarou.

                Maria Cristina olhava assustada para o velho, que aparentemente, a ignorava. Olhava apenas para as sacolas com as oferendas. Mãe Ciníra, com a Pomba-Gira incorporada, batera o pé esquerdo no chão, como se desafiasse o velho. O que Maria Cristina não podia ver era como o velho e a pomba-gira enxergavam um ao outro...

                Havia a avenida, repleta por brumas, com edifícios e postes esmaecidos. Duas mulheres quase imperceptíveis e uma gloriosa negra de cabelos longos e armados, trajando apenas uma imensa saia vermelha, com os seios grandes e belos à mostra. De frente para ela estava a criatura.

                Parecia um tipo de aranha com um corpo hominídeo pendurado próximo ao chão, mas suspenso no que parecia uma teia nebulosa branca que chegava até o céu e se expandia por toda direção. O corpo era de um velho monstruoso, não com braços, mas com muitos tentáculos, e aquele semblante de homem idoso, cuja pele parecia feita de cera de vela.

                Permaneceram encarando-se por quase um minuto, até que a Pomba-Gira bateu o pé esquerdo outra vez. O velho se enfureceu e a agarrou com um de seus tentáculos, apertando-a na altura do estômago e do pescoço. E depois ele riu aquela gargalhada não parecia vir de câmaras de uma garganta, mas de corredores de pedra de alguma caverna nas profundezas do mundo.

                Maria Cristina pôs-se a correr. A Pomba-Gira sumiu, e Mãe Ciníra caiu no chão, morta num enfarto fulminante.

                                                                                                        Continua...

D.I. Project - CAPÍTULO 6

domingo, 4 de novembro de 2012

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O ano é 2063.

A humanidade corrompeu-se às delicias do consumismo. Cheia de vícios por tecnologias, drogas sintéticas e fetiches sexuais, o homem caminha para sua fase mais obscura e superficial.

                Ninguém percebera que aquela viatura que discretamente levava Johan Marx para o departamento de polícia era também escoltada por outros automóveis, escuros e desconhecidos. Quando Johan desceu do carro, no estacionamento ao redor do Departamento de Polícia, poucas pessoas que movimentavam o acesso dos fundos daquele sóbrio edifício de dois andares o perceberam, e isto lhe trouxera uma sensação de imenso alívio. Mas Isabel McClanahan, que estava em sua Range Rover, o notara.

                Temerosa e sem saber exatamente o que fazer, ela amassou seus cabelos num coque, ajeitou a gola de sua camisa social. Pegou um outro agasalho de moletom com capuz, números maior, e levou no braço. Como Johan, entrou no Departamento pelos fundos.

                Seu coração batia aceleradamente, como alguém que não tem certeza se está fazendo a coisa certa ou meramente seguindo uma diretriz. Ela entrou, e viu que Johan era acompanhado, inconscientemente escoltado, para o andar de cima.

                O Departamento de Polícia, embora fosse um edifício de apenas um andar acima do térreo, havia o subsolo, e o prédio em si era grande. Havia um átrio, logo após a portaria, e um amplo corredor com muitas portas para salas pequenas, e depois, um saguão com uma grande escada que levava para o andar superior. Não havia elevadores naquele edifício. Johan fora levado para cima.

                Por mais que se sentisse observada como uma possível intrusa, sua postura cínica a fazia parecer que sabia onde estava indo e quem procurava. Havia câmeras por toda parte e sua ansiedade a fazia sentir como se elas fossem vivas e a cheirasse de algum modo.

                No andar superior, a escadaria levava para um saguão cheio de cubículos e dois longos corredores nos cantos, que levavam a muitas portas nos lados extremos. Viu Johan Marx entrar em uma sala, e ficou ansiosa, passou por um cubículo onde estavam os outros dois oficiais que haviam chegado ao Departamento junto de Johan e o que estava na sala com ele.

                “Não, daqui ele vai direto pra lá e não sairá mais...”, disse um deles, “o modelão esfaqueou o velho, o gordinho estava aqui com uma gravação...”

                E Isabel seguiu andando. Sorte o alvoroço entre tantos oficiais que conversavam e pessoas que andavam para lá e para cá esperando receber algum tipo de assistência. Ela olhou para todo lado, e decidiu descer. Tinha que pensar em como iria tirá-lo daquele lugar.

                “Mas será que devo?”, ela se perguntava a todo o momento. Ele fora flagrado matando um homem. E se fosse um erro atender ao pedido daquela mensagem? Sua intuição lhe dizia para tentar. No andar inferior, no mesmo saguão em que havia a grande escada que levava ao andar de cima havia um bebedouro.

                Leigamente, ela disfarçou com o copo de plástico, tomando água e olhando para todos os lados. Ficou pensando na saída do estacionamento. Era menos vigiada por oficiais. Embora, todas soberbamente filmadas. Pegou seu celular. Acionou o motor de seu carro, e delimitou uma rota, para que o automóvel, no momento em que ela quisesse, surgisse em sua frente.

                Agora vinha o mais difícil, como fugiria daquele lugar com Johan Marx?

                Fora tirada de seus pensamentos com a chegada de um homem de um metro e oitenta e cinco, musculoso, vestido com calça jeans, sobretudo de couro e óculos escuros que passara pela entrada principal.

                - Com licença. Preciso encontrar Charles Cadogan. – disse ele na recepção, com cada vogal profundamente bem pronunciada.

                - Sobre o que seria? – perguntou o oficial encarregado do atendimento.

                - Preciso conversar com o oficial Charles Cadogan sobre assuntos de seu interesse. - disse o homem, com uma voz inexpressiva.

                - Qual seu nome? – o oficial perguntou já parecendo irritado com o tom indiferente do homem.

                - Preciso de Charles Cadogan. - repetiu sem demonstrar intenções em sua voz.

                - Qual é o teu nome?

                O homem puxou de um bolso uma beretta e deu um tiro na testa do recepcionista. Dois oficiais apontaram armas mas o homem, com uma precisão e rapidez extraordinários, acertou-os na testa.

                Isabel McClanaham, sem pensar demais, jogou-se no chão e teve poucos instantes para pensar no que fazer.

A lenda do velho que ria, Parte 1

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

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                Na Avenida São João, no quarteirão entre o Largo do Paissandu e a Avenida Ipiranga, dizem os moradores de rua, boêmios e prostitutas que um velho branco sinistro aparece em toda noite de dia 13 e nas madrugadas de todos os santos. Sempre entre as duas e três horas da manhã.

                Com uma capa branca encardida, camisa e calça sociais e um chapéu panamá, sua aparência curiosa põe medo em quem já o encontrou. Aquela figura de um metro e noventa, muito magra, tem um rosto pálido, e com uma pele quase artificial similar à textura lisa e brilhante de uma cera de vela.

                O sorriso macabro, de muitas rugas que pareciam parênteses nos cantos da boca até quase o meio das bochechas, era visto por quem o cumprimentasse, embora ele ficasse sempre com a boca fechada, andando como um corcunda, com uma bengala de madeira preta.

                Contam que ele anda de lá pra cá, como se esperasse por algo, ou alguém. Atravessa a avenida e anda ora numa calçada, ora noutra, ora pelo meio da rua. Os transeuntes contam histórias. O mendigo Zé que dorme na largo do Paissandu, próximo à estátua da Mãe Preta, disse que o viu pela primeira vez, e inicialmente se assustou.

                O velho carrancudo e sério lhe fixou dois olhos de órbitas vazias, com um branco profundo. O cachaceiro ofereceu-lhe bebida, o velho sorriu sinistra e simpaticamente, e negou com a cabeça. Zé ouviu aquela risada de boca fechada e seguiu seu caminho.

                Nesta mesma noite, Pâmela, uma travesti que trabalhava na região passou por ali. Inicialmente vendo o velho de longe, pensou ser um potencial cliente, mas ao se aproximar, e ver aqueles olhos brancos, teve vontade de gritar. Contemplou a expressão absurdamente enrugada, sem pensar, perguntou se o velho não gostaria de uma companhia.

                O velho riu, aquele riso medonho que enrugava toda sua face sobrenatural, que parecia uma máscara viva com um sorriso generoso estranhamente maligno. Mas um rapaz jovem, transeunte, que cruzara o caminho do velho não tivera a mesma sorte.

                Luiz andava pela Avenida São João, levemente embriagado, quando viu aquele homem que andava de bengala, e se aproximou, dando um chute na bengala. Por mais apoiado que o velho parecesse, ele não caiu. Ficou intacto. Entretanto, a bengala do chão, levitou-se até a mão do velho, e isto assustou o rapaz.

                Sentindo-se fuzilado por aqueles olhos terríveis, gritou algo que ofendeu ainda mais o velho, que ergueu a bengala e, como se esta fosse uma lança, enfiou-lha no estômago do rapaz, que caiu no chão, gritando de dor e aflição. O velho então escancarou a boca que abria até o meio das bochechas e deu aquela gargalhada de muitas vozes infernais, exibindo dentes longos e pontiagudos que pareciam vidro.

                Enquanto girava e torcia a bengala pelas vísceras do rapaz, aproximou-se até que pudesse puxá-lo pelo pescoço para então, de uma única mordida arrancar seu ombro e engoli-lo. O rapaz caiu no chão, levantou-se e saiu correndo.

                Nada daquilo tinha de fato acontecido.

                Todos relataram suas experiências, sem que quaisquer ouvintes acreditassem, pois demorava até que o velho que ria fosse visto outra vez. 

                Durante anos histórias grotescas de encontros eram repercutidas pelas ruas do centro de São Paulo. Por anos, pessoas foram ameaçadas, cumprimentadas e açoitadas pelo velho que ria. Mas era fato, as histórias mais impressionantes eram justamente aquelas que ninguém nunca ouviu falar.

                                                                                                              Continua... 

D.I. Project - CAPÍTULO 5

domingo, 21 de outubro de 2012

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O ano é 2063.
A humanidade corrompeu-se às delicias do consumismo. Cheia de vícios por tecnologias, drogas sintéticas e fetiches sexuais, o homem caminha para sua fase mais obscura e superficial.




          Fora difícil despistar todos e sair sem que fossem percebidos. Johan acompanhou os oficiais sem perguntar demais. Johan não gostava de problemas com policiais ou políticos. E, ao chegarem discretamente no escritório de Charles Cadogan, no Departamento de Polícia, notou que era aguardado com certa apreensão.

          - Senhor Marx, o motivo de não ter dito nada até este momento – disse Cadogan, quando já estavam no escritório com porta trancada. – É que se trata de uma investigação cheia de pormenores complexos e, para isto, precisamos contar com sua discrição. – e mudou o tom, de trivial, para algo aparentemente ainda mais indiferente. - O senhor conhece Edwin Von Anken?

          - Conheci.

          - Hum... Conheceu ou conhece?

          “Droga”, pensou Johan.

          - Conheci, porque nunca tive muito contato. Esse velho asqueroso ofereceu um jantar a alguns modelos de uma agência para a qual trabalhei, e me assediou insistentemente.

          - Ele assediava apenas você, ou outros modelos também?

          - Ele assedia qualquer homem bonito que seja popular. Gosta de nos colecionar. Mas não transo com homem. Pra não dizer que nunca fiz, quando fui contratado pela minha primeira agência, fui amante do dono por um tempo. Mas apenas nesta ocasião. Tenho nojo. Disse isso para ele.

          Charles Cadogan levou sua caneca com café quente até a boca, tomou alguns goles, sem nenhuma pressa.

          - Como ele aceitava isso?

          - Da pior maneira. Ele é uma criança rica, feia, mimada. Tem tudo o que quer. Tudo sempre teve um preço, e mesmo aquilo que parece intangível para alguns, para ele são apenas alguns zeros a mais.

          - Então Edwin Von Anken lhe ofereceu dinheiro?

          Johan hesitou.

          - Sim, muitas vezes.

          - Quanto? – perguntou  Cadogan.

          - Isto tem mesmo alguma finalidade investigativa ou meramente uma invasão de privacidade, porque honestamente, não gosto de dar importância pra esse tipo de idiota.

          - É importante que eu entenda como Edwin Von Anken agia com relação à sua pessoa, Johan Marx.

          - Não, ele não agia, ele age, e vai agir sempre. Ele me acha irresistível. Se você faz questão de saber, ele me ofereceu quinhentas mil libras. Me senti ofendido. Se é para me tratar como um mero artigo de luxo, ele paga mais de 5 milhões em um carro, haveria de me dar o mesmo valor. Pois foi o que fez. Me ofereceu seis milhões de libras.

          O inspetor engasgou com o café, derramando na roupa.

          - Puta que pariu! E foi aí que você aceitou ser amante dele?

          - Claro que não! – exclamou Johan, parecendo ofendido.

          O inspetor pegou uma flanela pra apalpar o café na roupa.

          - Você quer que eu acredite que não aceitou 6 milhões de libras para dormir com alguém? Pela metade disso eu usaria até lingerie, senhor Marx.

          - Com merchandising, produtos sob licença do meu nome, tive este ano mais de 150 milhões de libras esterlinas de lucro. Não preciso transar com velhos mimados e carentes pra ter luxo, inspetor.

          Charles adorava essa sensação de olhar para um mentiroso sabendo da verdade. Era um prazer maior que até que a satisfação sexual.

          - O que acontece, Johan Marx, é que Edwin Von Anken fora assassinado há pouco mais de cinco horas atrás.

          Um silêncio sobrenatural se espalhara como a fina nuvem de fumaça de incenso que se dissipa pelo ambiente, impregnando seu perfume, bom ou ruim, em cada canto ou partícula contida no ar.

          - Edwin era idiota e tinha seus caprichos, mas porque alguém o mataria?

          - É exatamente o que eu gostaria de saber... – murmurou inspetor Cadogan como quem pensa alto.

         - Se sugere que eu pudesse ter algum motivo para matá-lo, inspetor McCallum, eu particularmente acho divertido dizer não a quem não sabe ouvi-lo. A Edwin Von Anken tenho apenas indiferença.

          O inspetor virou seu monitor lentamente e quanto mais Johan via, mais pálido ficava. No vídeo, um ângulo entranho, do alto, o mostrava apoiado numa parede, nu, com o traseiro empinado para trás e o homem com o rosto entre suas nádegas. Devorava-o vigorosamente. Com um toque da ponta dos dedos na tela, o inspetor mudou de imagem:

          Johan estava deitado, nu, inexpressivo, olhando para o rosto do homem que estava sentado sobre ele, empalado, rebolando alucinado sobre o falo do modelo. Inspetor Cadogan parecia intrigado em ver como nas imagens, o modelo parecia absolutamente indiferente ao prazer que proporcionava ao homem gordo sobre ele.

          - Então, Johan Marx, nunca teve nada com ele? – o inspetor perguntou, com um divertimento cínico.

          - Eu não falarei mais nenhuma palavra sem a presença de meus advogados. – Johan parecia mais enfurecido e enojado com as imagens do que ameaçado. – Eu jamais deixei que esse asqueroso encostasse em mim.

          - Hum, claro... – e tocou novamente na tela. O vídeo mudou. Johan estava estrangulando e esfaqueando Edwin Von Anken.

          “Como pude não ter chamado um advogado para me acompanhar a um interrogatório?” ele se perguntava ininterruptamente, olhando perplexo para as imagens.

          - ... O senhor realmente vai precisar de um advogado...

          Tiros, tiros e mais tiros dentro imensa delegacia.

D.I. Project - CAPÍTULO 4

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

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O ano é 2063.
A humanidade corrompeu-se às delicias do consumismo. Cheia de vícios por tecnologias, drogas sintéticas e fetiches sexuais, o homem caminha para sua fase mais obscura e superficial.



          Havia uma grande aglomeração na Selfridges. No saguão principal, um holograma em quase o triplo de escala com um Johan Marx semi-nu, feito uma estátua de Davi em preto e branco. Menor, uma réplica em três dimensões, também holograma, com Irina Porechenkov, numa plataforma suspensa em roupas íntimas. Uma brisa inexistente agitava sutilmente seus cabelos brilhantes.

          Outros modelos, moças e rapazes, com roupas excêntricas desfilavam entre o público para causar alvoroço e curiosidade, uma vez que Johan não desfilaria, iria apenas ser fotografado ao lado da estilista Natalie Tollousse, que já podia ser vista entre flashes, já sob o contagiante efeito de cocaína e champagne. Dizia ela aos amigos que cocaína tornava o champagne mais saboroso, mais intenso.

          Um Rolls Royce parou diante da imensa loja, e muitas câmeras fotográficas subitamente viraram em sua direção. Era o modelo mais caro do mundo. Filho da atriz brasileira Lucia Pinto com o cantor suíço-inglês Ian Marx. A porta se abriu e ele desceu do carro, cercado por seguranças: um homem de um metro e noventa e quatro, musculoso, com seus ombros larguíssimos, peito espadaúdo, de cabelos pretos, curtos, o olhar intenso de seus dois olhos negros, e a pele radiante de uma criança de doze anos em um homem de vinte e nove.

          Johan Marx estava ali. Gritos ensandecidos de garotas e rapazes. Flashes... Ele era desejado. Todos o queriam. Ele amava saber disso. Era para ele um prazer quase erótico saber que todos o olhavam com desejo e acreditar que podia escolher a pessoa que teria o privilégio de tê-lo como amante.

          Aquele sorriso, sempre o mesmo sorriso auto-confiante, debochado e presunçoso que provocava a ira dos que ouviam não dele. Ele tirava fotos com as pessoas atrás de grades, ele era um ídolo. Quando se aproximava, ela apalpado, beijado, e gostava. Jamais se ouviu dizer que tivesse sido rude com um fã.

          Irina Porechenkov também entrava e se deteve para cumprimentá-lo. Muitos flashes e gritos quando ela se aproximou do modelo.

          - Tem planos pra esta noite? – murmurou ela em seu ouvido, tendo seu olhar malicioso captado pelos fotógrafos.

          - Ainda não, - sorriu ele, como se fosse dizer o que ela queria ouvir – vou descobrir lá dentro...

          - Cretino! – disse ela sonoramente. E entrou, irritada. Johan adorava debocha de mulheres oferecidas depois que as tinha.

          Ao passar pela porta, um agente da segurança da loja o abraçou, protegendo-o da multidão. Era um homem branco, entre quarenta e cinco a cinqüenta anos de idade, corpulento, disse-lhe algo, mas ele não entendeu. O homem disse então mais perto do ouvido.

          “A polícia está atrás de você, não resista, nem chame atenção. Confie em mim”. E se afastou. Virou para olhar o homem, intrigado, mas o homem sumiu no meio da multidão.

          O que seria isso?

          De repente, a idéia de todos olharem na direção dele transformou-se na coisa mais assustadora do mundo. Ele precisava agir com naturalidade. Mas quem era aquele homem? Como se nada estivesse acontecendo, ele seguiu andando em direção à Natalie Tollousse, a abraçou, sorriu para fotos. Pegou uma taça de champagne, agradeceu o garçom, o que a deixou ligeiramente surpresa.

          - De repente Johan Marx ficou gentil com vassalos... – Natalie disse, rindo. Johan Marx não era exatamente preconceituoso, pessoas que serviam eram invisíveis para ele, a menos que ele fosse abordado, percebesse tratar-se de um fã.  Geralmente era gentil com fãs, não tinha nojo de mendigos, nem nada disso. Era vaidoso, e gostava de ser amado.  Fazia parte da vaidade ser gentil com as pessoas, e permitir que isso fosse visto.

          Natalie, por outro lado, era uma mulher de trinta e dois anos, racista, xenofóbica, e com dezenas de amantes negros. Era loura, magra, e vivia com ares de embriaguez. Tinha um olhar vidrado, fruto de sua natureza entorpecida, um rosto fino, com traços que seriam belos, não fosse a expressão de constante soberba.

          - Não seja inconveniente. – disse ele, num tom simpático, o que causou ainda mais estranheza à estilista, que convivia com ele já há muito tempo.

          - Johan, quero que vá em meu hotel, faz tempo que não comparece e outros modelos adorariam ganhar o que você ganha.

          - Hoje não posso, Natalie, - disse ele olhando três homens sérios vindo em sua direção – estou com dor de cabeça.

          - Que seja, mas não me faça esperar muito tempo. – e lhe deu as costas.

          Os homens aproximaram-se.

          - Vieram prestigiar Natalie Tollousse, senhores? – disse o modelo, sendo simpático.

          - Na verdade não. Eu sou inspetor Charles Cadogan, - mostrou-lhe discretamente um distintivo. estes são os oficiais Devon Waters e Herbert Schullz. O senhor está convidado para prestar depoimentos e nos ajudar com uma investigação.

D.I. Project - CAPÍTULO 3

sábado, 29 de setembro de 2012

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O ano é 2063.
A humanidade corrompeu-se às delicias do consumismo. Cheia de vícios por tecnologias, drogas sintéticas e fetiches sexuais, o homem caminha para sua fase mais obscura e superficial.


          Isabel McClanahan estava esparramada no sofá de couro branco em sua kitnet, assistindo à PS, durante toda aquela tarde. Sua Pele de Projeção praticamente se mantinha eternamente na programação de documentários de história. Particularmente, era fascinada em tudo que se referia á Terceira Grande Guerra, ou “Guerra do Fim dos Tempos” ou ainda, “O Exseros”.

          Isabel era fascinada pela variedade de religiões que havia no passado e como elas perderam a força no fim da segunda década do século XXI. Exseros era o nome que os professores de grandes universidades adotaram para se referir a um dos mais importantes aspectos da grande guerra: a religião.

          A famigerada Guerra do Fim dos Tempos começou com pequenos conflitos nos tempos em que os judeus formavam o estado de Israel, apossando-se de territórios palestinos, e com isso, provocando o desafeto da comunidade islâmica.

          Tendo posse de uma bomba nuclear, manteve a intimidação dos países vizinhos pelo tempo que pode, até que o primeiro oponente desenvolveu tal tecnologia e, com isso, a guerra começou.

          Israel não se atreveria, até segunda ordem, a usá-la, correndo o risco de sofrer a agressão da mesma arma. E a Terceira Guerra começou.

          Inicialmente, milhares de jovens morreram em sangrentas batalhas, civis dizimados em invasões por terra, até que um dedo Judeu apertou o botão que dizimou centenas milhares de muçulmanos de uma grande cidade, e assim, todo o mundo Islâmico, diferentes nações e ramificações religiosas, se uniram contra o inimigo comum. Israel.

          Israel apenas quis defender-se, evidentemente, mas países da Europa e América envolveram-se. Outros sem tomar partido, fizeram grande lucro com isto, como foi o caso dos então chamados Brics, outros afundaram-se completamente.

          Grandes cidades da mundo árabe, da Europa, dos Estados Unidos, foram pelos ares, e por fim, a Terra Santa fora dizimada por uma bomba, e este fora o fim da guerra.

          No fim, o balanço deste longo capítulo da humanidade fora milhões de mortes e, ao passo que antes da guerra, o Islamismo e protestantismo abraçavam mais adeptos a cada dia, as batalhas sangrentas e explosões atômicas desmotivaram convertidos de todas as religiões abraâmicas, o que restou foram alguns dos cristãos, judeus e muçulmanos de nascença.

          Alguns, porque também muitos fiéis nativos abandonaram, questionando-se que linhas de pensamento as doutrinas permitiam que a humanidade tomasse. O abandono de religiões durante e após a guerra, a isto se referiam por Exseros.

          Surpreendentemente, ao passo que a expectativa era que o ateísmo predominasse, foram doutrinas como Budismo, Espiritismo e segmentos de Nova Era que tomaram a vez.

          Isabel era ateísta. Sonhava conhecer a Amazônia, mas não sabia se aconteceria algum dia. Naquele tempo, a natureza era presente na sociedade. Havia jardins de inverno por toda parte, mas nenhum contato com o mundo selvagem. Ela temia que jamais pusesse os pés em uma floresta tropical.

          Seu documentário fora interrompido quando sua pulseira começara a vibrar, e seu pai lhe havia mandado uma mensagem. Sem tira-lo do braço, apenas tocou um botão e ouviu uma frase curta e objetiva: 

          “Não deixe que Johan Marxs seja assassinado”.

D.I. Project - CAPÍTULO 2

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

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O ano é 2063.
A humanidade corrompeu-se às delicias do consumismo. Cheia de vícios por tecnologias, drogas sintéticas e fetiches sexuais, o homem caminha para sua fase mais obscura e superficial.


          Charles Cadogan era inspetor de polícia de Londres, do setor central. Naquela noite de 13 de outubro, havia sido convidado por seus filhos para comemorar o aniversário de sua esposa Sophie no restaurante Nonna Ambrosia. No entanto, Charles fora carregado de investigar o assassinado de Edwin Von Ancken.

          Havia visitado a cena do crime, e o que encontrara fora uma poça de sangue, um corpo completamente rasgado, picado, estraçalhado, e a faca sem nenhuma impressão digital. O assassino tinha feito algo para ocultar informações. Era profissional.

          No hotel, nenhuma gravação de câmeras de segurança para contar a história. O crime fora descoberto por uma denuncia, para o espanto do Inspetor Cadogan, da empresa que cuidava da segurança, e era justamente um representante dela, Johnson Rhymes, que o inspetor aguardava.

          A porta abriu ao som dos guizos de Sophie, e entrou Edouard, um oficial assistente.

          - Inspetor Cadogan, o Analista Sênior da Kidemonas, Senhor Johnson Rhymes acaba de chegar. Trouxe equipamentos para o senhor.

          - Hum, perfeito, mande-o entrar. – disse Cadogan.

          O oficial escancarou a porta, e gesticulou para que Sr. Rhymes entrasse. Era um homem de no máximo quarenta anos, gordo, bem vestido, e aparentemente, assustado.

           - Inspetor Charles Cadogan, - disse o homem estendendo a mão direita e cumprimentando o analista.  – Eu espero que o senhor me traga informações relevantes, caso o contrário sua companhia sofrerá conseqüências graves.

          - Inspetor Cadogan, com todo respeito, o senhor não está mais preocupado com isto do que eu estou. Vou contar-lhe como soubemos do homicídio.

          O homem antes de sentar, serviu-se de café. Havia uma preocupação alarmante na expressão comprimida do rapaz, embora ele parecia demonstrar um grande esforço para manter a calma e não perder a perspicácia.

          “O edifício Queen’s Sight é absolutamente seguro. É seguro desde o momento em que era um projeto ousado de parcerias entre banqueiros europeus, como no caso da Família Von Ancken, como de xeiques árabes e marajás. É um edifício para privilegiados. É um edifício para ser visto de qualquer cume da cidade de Londres. Fora construído para fins absolutamente ostensivos.

          “Com esta pretensão, minha companhia, Kidemonas, à qual faço parte há quatorze anos, ofereceu seu mais ousado e inteligente sistema de segurança. “Argos 3”. É nosso serviço mais caro, porque é o único que oferece extrema segurança, e equiparável privacidade.

          “Temos uma legião de homens capacitados que vigiam constantemente câmeras de shopping centers, e milhares de grandes resultados quer seja com delitos, quer seja violência, mas Argos 3 tem uma proposta diferente. Demanda uma mensalidade caríssima, para custear as despesas altas do equipamento e sua sigilosidade.

          Cadogan percebera, já de princípio, que o homem era apaixonado pelo que fazia, e acreditava em cada palavra que dizia. Sentia-se, evidentemente, útil.

            “Argos 3 se compõe em micro-câmeras de altíssima definição que capta imagens e as trata simultaneamente, reconhecendo gases, vapores, fluidos, e o mais importante: Temperatura.

          “Nosso sistema observa em tempo integral as imagens, e grava os menores acontecimentos. Argos 3 reconheceria uma barata. Neste momento a imagem começa a gravar. Um acidente noutro lugar estoura uma tubulação de gás, e o gás entra no campo da câmera, ela começa a gravar.

          “Alguns pormenores são irrelevantes, mas Argos três já impediu incêndios e radiações em áreas de risco que demandavam rigorosa segurança e restrição com imagens. As imagens não são vistas. A menos que seja necessário.

          O inspetor se levantou. Entediado.

          - Com todo respeito, Sr. Rhymes, sua tecnologia não me parece algo revolucionário. Criativo talvez, mas nada que mereça minha atenção, particularmente numa noite como esta. Seja objetivo ou serei obrigado a pô-lo para fora de minha sala.

          “Desculpe. Como disse, Argos 3 grava temperatura, e reconhece relação sexual, tensão, e o mais importância, violência. As imagens são traduzidas por um software inteligente que reconhece ira e medo. O sistema entra em alerta, e num caso extremo, como facadas, por exemplo, reconhece fluidos como sangue.

          - Fascinante! – exclamou inspetor Cadogan, sem conter a surpresa.

          “Exatamente. Sem que nós, humanos, tomássemos nota de que Edwin Von Ancken fora assassinado brutalmente, Argos 3 contatou a polícia. As imagens foram gravadas e armazenadas na mais absoluta segurança. São gravadas e registradas de modo aleatório para que não possam ser rastreadas, reconhecidas e vistas em seqüência.

          “Quando fomos avaliá-las, o Departamento de Segurança Contra Invasão da Kidemonas contatou o meu setor para dizer que arquivos de gravação e dados por extenso dos mesmos vídeos, estavam sendo apagados do sistema. Eu não estou preocupado com a morte de Edwin Von Ancken, inspetor Cadogan. Vim aqui por que quero abrir um inquérito. Porque nosso sistema é o sistema mais seguro do mundo, e alguém o invadiu.

          - Então não é o sistema mais seguro do mundo. – debochou o inspetor, pensando que a esta hora sua família comia pizza enquanto ele estava ali falando sobre uma maricona bilionária.

          - Definitivamente não. Inspetor. Argos 3 é, e continuará sendo impenetrável. Quero uma investigação, porque é impossível que quebrassem a encriptação, e algo muito pior que um mero assassinato esta sendo oculto aqui. Acho que alguém nos traiu.

         Isso sim era interessante. Os olhos enrugados de Cadogan brilharam neste momento.

         - A imagem primordial, do ato do assassinato, foi tudo o que restou, inspetor. E ela é assustadora. – disse Johnson, empalidecendo.

          Passou seu pen drive, uma caricatura de Darth Vader com uma espécie de unha para fora.

          Cadogan ligou ao seu monitor e viu, seminu, Johan Marx transformando o homem em pasta no chão da cozinha.

          - Este telefone... não está na cena do crime...          

A/C Matheus

sábado, 15 de setembro de 2012

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Pra que morrer?
Ou quem sabe, pra que viver?

Este tempo que passa em que sonhamos com os braços cruzados,
Eles tornam a vida amarga.

Mas o tempo em que estamos justamente olhando nos olhos brilhantes das pessoas que gostam da gente, esses fazem a vida valer a pena.

Os cheiros da infância, as histórias, risos, lágrimas, esses adoçam tanto a vida quanto a morte. Veja, quanto mais transbordantes as recordações, no final das contas, quantos momentos dourados prevalecem no coração daquele que vai, e dos que ficam?

Também, veja... Se ainda há uma longa estrada, estas lembranças que acalmam são justamente as que fortalecem o homem que segue seu caminho.

O que é a vida, senão um monte de experiências que nos enobrecem, ou às vezes nos desvanece.

Será que devemos chorar? Eu acho que sim. Porque sinceramente, eu não gostaria esperar tanto tempo para ouvir certas vozes, olhar para certos risos, nem ganhar certos abraços. Mas o que se pode fazer?

Não acho que as coisas aconteçam como Deus quer, nem sempre como “deveriam” acontecer. Elas acontecem porque... Acontecem.

Como acontecem despedidas bruscas, ou pior, perdas sem merecidas despedidas, acontecem também aquelas experiências mágicas que o coração guarda pra sempre.

Pessoas especiais tem esse papel nas nossas histórias.
Pessoas especiais são inesquecíveis, viram estrelas no céu, enchem nossos olhos de lágrima, e vivem pra sempre no nosso coração.

Fica uma parte do coração cheia de lembranças, e outro espaço onde o coração esperava por outros momentos especiais.

O conforto está em saber, justamente, que o tempo passa para todos nós, e que é só uma questão de tempo, tempo que passa, para nos vermos outra vez.

Seu lugar, Matheus, como sempre, será vivendo no nosso coração.

Vá em paz, meu primo.


D.I. Project - CAPÍTULO 1

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

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O ano é 2063.
A humanidade corrompeu-se às delicias do consumismo. Cheia de vícios por tecnologias, drogas sintéticas e fetiches sexuais, o homem caminha para sua fase mais obscura e superficial.


O CAPÍTULO A SEGUIR CONTÉM SEXO


          Londres.

          Havia um campo de flores, gérberas, de variadas cores, misturadas, e entre as flores dançava nua aquela mulher de cabelos ruivos esvoaçantes. Seus seios eram fartos, de textura macia como a casca de um pêssego, e sua pele branca permitia que aqueles mamilos rosa se destacassem. Havia os pelos pubianos, poucos, vermelhos e delicados, entre as pernas roliças que se começavam logo após aqueles quadris largos.

          Johan estava sentado, tomando champagne sentado em um divã de couro, de olhos abertos, olhando para a stripper que dançava num pequeno pedestal, em uma sala de paredes brancas, e vestia-se com suas habituais roupas apertadas, e com a “Coroa”, um Simulador Estimulador, acomodado em sua cabeça, que lhe iludia com sensações físicas e emocionais, e adicionava ao que acontecia novos elementos visuais e sensoriais.

          A stripper era nada menos que a modelo russa Irina  Porechenkov, top internacional, um dos corpos femininos mais desejados de sua geração, e com um preço alto, mas fixo. Ela transava por dinheiro, não por oportunidades de carreira. E estava a muito tempo de olho em Johan Marx, que se fazia de difícil apenas por ter conhecimento do desejo da modelo por ele.

          Quando, no meio de sua dança, viu Johan colocar para fora seu falo grande e ereto, não se conteve e ajoelhou-se ao lado do divã para servi-lo devotamente.

          Empolgada e erotizada pelo efeito de drogas sintéticas, e por estar diante daquele falo enorme que mal cabia em sua boca, ela lambia, louca, e tentava engoli-lo inteiro, enquanto aquele pau grosso e reto babava em sua lingua. Ela alisava a barriga musculosa do modelo, que a segurava firmemente pelos cabelos volumosos, e sorria com cara de deboche.

          Um som de telefone. Era o aparelho de Johan. Tirou do pulso uma chapa comprida que instantaneamente ficou reta, e a colocou próximo à orelha direita. Sem largar dos cabelos da modelo, ele atendeu:

           “Não estou ocupado, pode falar...” disse ele, prático. Parecia ouvir uma longa explicação. Enquanto isso, mexia na cabeça da modelo de acordo com seu prazer.

          “Diga que não tiro mais fotos de cuecas por menos de três milhões.” E intensificou-se “espere, você não recebe para negociar favorecendo o  out... que gostoso, amor...” disse ele, serrando os olhos e fazendo bico olhando para a modelo, enquanto ela segurava firme o grande falo e esfregava a língua no frênulo.

           “Não, nada, continue Charlie... Não ponha os dentes, querida...” e ri, “desculpe, Charlie, Ivana está me fazendo uma gentileza... Sim, a própria!”.

          Ivana Porechenkov parou de chupá-lo, ofendida com o deboche, e levantou-se. Começou a recolher suas roupas do chão. Johan riu mais.

          “Charlie, depois nos falamos”. Desligou o fone e colocou-o novamente no pulso.

           “Filho da puta!” exclamou ela, furiosa em um inglês carregado de sotaque.

          Ele segurou com uma mão em seu saco e e com a outra balançou o falo ereto. Olhando sério nos olhos dela. Ivana olhou-o com desprezo, mas ele era rápido, e gostoso demais para resistir: Puxou-a pelo braço, levantou-a do chão, ela o abraçou e, pendurada em seus ombros largos, encaixou-se nele, trançou suas pernas nas pernas dele, e esqueceu de todo o resto.

          Johan a colocou contra a parede, penetrando-a enquanto mordia seu pescoço, lambia seus seios perfeitos, e seu rosto. Ela lhe agarrara pelos cabelos, e gemia, com os olhos girando dentro das órbitas. Há muito tempo que ansiara por este momento.


*  Coroa: Um espécie de diadema que se encaixava na altura da testa e cocoruto, que captava e emitia informações ao cérebro. Estimulando sensações como cheiro, temperatura, gosto, e simulando imagens. Simulador Estimulador. Um modelo, para um produto de diversos métodos.