O Menino que não podia morrer... Capítulo 4

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

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A carroça atolou na lama. Gilmar pensou em gritar, mas a frustração era mais forte, ele respirou fundo, segurou o ar, e o soltou devagar. Olhou para o menino desconhecido. Será que deveria deixá-lo pelo caminho? Quem sabe alguém não o encontra e lhe oferece uma família... Não. Levariam-no para o abrigo. Faz quase sete anos que não aparecia alguma família para adotar algum deles. Este iria morrer ali, como ele próprio.
Na verdade houve uma ocasião, no passado, em que um homem de trinta e poucos anos aparecera ali no abrigo para conhecer as crianças, e Gilmar descobriu gostar dele. Ele tinha olhos brilhantes, e um sorriso calmo. Era bondoso, e isso sua voz dizia. Falou histórias de marujos, piratas, gênios, tapetes voadores... Ele ia sempre lá, e passava muito tempo com as crianças, particularmente com Gilmar.
Um dia ele disse “vou te contar um segredo: quero que você seja o meu filho”.
Gilmar o abraçou e chorou. O jovem não deveria ter lhe dito isto. Ele tentou adotar, mas tudo parou. Ele começou a ir com menos freqüência, cada vez ficando menos tempo. Gilmar sabia que estava se despedindo. Anos mais tarde, Dona Lira trivialmente dissera “Você quase foi adotado, mas descobri que o homem que o queria vivia com outro homem. Pouca vergonha! Imagine, destruir a sua infância e sua formação como homem.”
Inicialmente, Gilmar pensou que Dona Lira pudesse ter razão, mas a verdade é que Gilmar gostava de comer Hortência, gostava de ouvir a bunda dela batendo em seu corpo, e acima de tudo, ouvi-la gemer. Não iria gostar menos de uma mulher por viver com dois homens que se gostavam. Essa reflexão lhe acendera uma pequena chama de ódio, mas nada capaz de causar-lhe incêndio.
Gilmar sabia escrever o próprio nome, e era tudo o que sabia. Sabia fazer contas nos dedos, tinha lógica para calcular, mas não sabia fazer nada em papel, nem escrever números. Quem sabe como filho de dois veados ele não saberia ler livros inteiros. Era seu sonho, ler um livro, e ele odiava livros com figuras, porque isso o lembrava do quão ignorante ele era.
Quando ficou mais velho e começou a assumir algumas responsabilidades no Lar Cardeal Peregrino, e ir mais à cidade, via como os jovens se vestiam, e cortavam os cabelos, e como falavam. Gilmar sentia vergonha de si mesmo. Sentia raiva do mundo. E sentia pena, porque era pouco provável que aquela criança pudesse ter um destino diferente.
A chuva passara. Ele pegou a bolsa com os medicamentos, segurou o menino no colo, e o colocou sobre o cavalo. Deixou a carroça para trás. Mais tarde ele voltaria para buscar. Partiram.


(PRÓXIMA ATUALIZAÇÃO - DOMINGO, 29/01(DIA DE COMER NHOQUE))
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4 comentários:

Alex Pedro disse...

A/C Thiago Azevedo: EU escrevo nhoque porque eu sou brasileiro, humpf :P kkkkkkkkk

Adilson disse...

1929? A história de Gilmar é muito comtemporânea, por que será que a situação dele me causou constrangimento? Acompanhando o desenrolar... (a pergunta postada é para mim mesmo, no momento certo saberei dar a resposta).

Phê Brito disse...

Continua, continua, continua!


Quantos capítulos mais serão postados?

Alex Pedro disse...

Como eu nao quero encher linguiça, e os personagens ja foram apresentados, acho que será uma média de 10, 12 capitulos no maximo

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