Seu Inácio e sua famosa barraca de Cocô Gelado

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por seus 365 dias de verão. E este clima era perfeito para um dos comerciantes mais tradicionais da cidade, seu Inácio, com sua barraca de “Cocô Gelado”.

          Não que ele vendesse fezes, era apenas um erro gramatical supostamente pensado para efeito de marketing. Mentira, evidentemente. Seu Inácio escrevia errado seu próprio nome.

          Sua barraca ficava na praça principal, entre a igreja e o prédio da prefeitura. Um lugar privilegiado para um expectador da vida alheia como ele. Para ele, “a vida é um cinema”, e ele adorava assistir a dos outros. Costumavam ter mais mentiras, reviravoltas e, evidentemente, muito mais sexo do que a dele.

          Seu Inácio era muito amigo das beatas da Igreja, pois eram uma ótima fonte de informação, embora estas se incomodassem com as constantes gentilezas com as quengas de Dona Satanilda. Isso ele fazia na esperança de algum dia ganhar uma cortesia na casa noturna. Pobre coitado. Em contra partida, jamais deu um único côco para o Mendigo.

          Sem deixar barato, o Mendigo por sua vez, em uma briga atirou de suas fezes no telhado da barraca. Seu Inácio tentou fazer com que fosse preso, mas não conseguiu. O mendigo era tão fofoqueiro quanto ele, e sempre passava informações para o delegado.

          - ‘dia, prefeito! – ele dizia todas as manhãs, e em seguida olhava para seu relógio, e depois anotava que horas vira o prefeito entrar na prefeitura. Ninguém sabia ao certo que horas a banca fechava, nem que horas abria, porque ele sempre estava atento.

          Quem sabia aonde ele morava era dona Creuza, chefe da Liga das Senhoras Distintíssimas de Itaxoxota do Norte. Por saber algum podre de seu passado, sempre que ia ou vinha da igreja, ali passava para tomar coco como cortezia, e o ameaçava cada vez que o via dar cocos para as quengas de Dona 
Satanilda.

          O fato é que ele tinha alguma carta na manga, e os dois blefavam entre si na frente das pessoas. O que dona Creuza sabia sobre seu Inácio era um mistério, mas a verdade é que a velha tinha muita gente na mão.


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O Menino que não podia morrer... Capítulo 9

domingo, 26 de fevereiro de 2012

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ATENÇÃO, NOS DOIS PRIMEIROS PARÁGRAFOS A UMA SEQUÊNCIA DE SEXO BASTANTE DESCRITIVA, POR TANTO, PARA NÃO OFENDER ALGUÉM QUE GOSTE DA HISTÓRIA MAS NÃO TOLERE TEXTOS PICANTES, AVISO DADO. DO TERCEIRO EM DIANTE TA PRA FAMÍLIA, RISOS.

          Hortência estava nua dentro da tina com água morna. Em pé, derramava água quente pelos seios, e a espuma escorria pelas curvas de seu corpo, que se arrepiava sob o toque da menor brisa. E fora esta a visão de Gilmar ao chegar assustado da floresta. Ele arrancou a própria camisa sem desabotoar, e ajoelhou-se diante da garota. Beijou-lhe os pêlos pubianos, e esticou a língua para, com um único movimento, tocá-la em sua intimidade.

          A barriga de Hortência contraiu-se e, acompanhado por este gesto, um sopro intenso de sua respiração ofegante. Ele mergulhou com sua língua e saliva na garota, enquanto suas mãos acariciavam suas pernas e seus seios. Ela agarrou os cabelos enrolados de Gilmar com as duas mãos e contorceu-se. Ela se agachou e, tendo-o entre as pernas, empalou-se.

          Enquanto ele a pressionava com seus braços, ela o arranhava nas costas, e seus beijos, longos, intensos, interrompidos por sussurros e gemidos, eram observados pela janela por quatro garotos, silenciosos, ansiosos.

          Quarenta minutos depois, Gilmar estava deitado, e Hortência com a cabeça em seu ombro, o corpo sobre o dele, ficaram em silêncio. Gilmar queria falar sobre suas experiências, e sobre como encontrara o menino. Hortência queria falar sobre o que havia acontecido quando movera a cama.

          - E elas não mudaram a cama? – perguntou o rapaz. Hortência, irrequieta, sentou-se na cama, enrolada no lençol, e começou a falar

          - Ai, Gilmar, isso é tão estranho. Elas não quiseram de forma alguma. Não entendo. Saíram assim que você partiu. Decidi mudar. Aconteceu algo estranho. Estavam dois dos meninos comigo. Era como se tivesse mais alguém no quarto. Adulto, entende? Quando arrastamos a cama com o Lélio em cima, encontramos um negocio no chão. O Júlio me disse “Ponha a cama no lugar”. Alias, ele me deu uma ordem, e olhou pra mim como eu nunca vi alguém olhar. Ele repetiu, como se me ameaçasse, era como se me tocassem no ombro, e alguma coisa aconteceu com o Mauricio. Ele começou a gritar de um jeito esquisito. Eu bati no Júlio, e era como se ele estivesse desligado quando falou comigo.

          - E você sentiu medo?

          - Isso é estranho. Eu não senti medo, mas senti que deveria ter sentido...

          - E o que tinha no chão?

          - Era alguma mandinga de alguma das velhas. Pra curar o menino, acho. Mas foi um negócio tão forte que eu senti. Como se o quarto escurecesse... Era coisa escrita no chão, formando um desenho.

          - Hortência, será que não era alguma coisa ruim não?

          - Ruim ‘cê diz, coisa do diabo? – arrepiou-se a moça, que passou as mãos nos braços para conter os pelos que se haviam arrepiado. – Acho que não. Elas cuidam da gente. As vezes é coisa de Deus. Deus é mal as vezes, não é? E a gente não entende, porque o propósito dele é maior que o saber da gente...

          - Deus é bom, o diabo que é ruim.

          - Não, Gilmar, eu não quis dizer disso. Deus às vezes não é fácil de entender, entende? Como quando Jesus fala que ele é generoso e nos dá liberdade, mas pede pra Abraão matar o filho pra provar que é fiel. Se ele conhece a gente, devia saber da fé do Abraão sem isso, então, devia ter jogo que a gente não entende no meio disso tudo. Parece coisa diferente, mas é porque a gente não entende. Tipo quando ele mandou matar não lembro que povo porque pecava demais. Ele é misericordioso, né? Quem sabe não era pelo povo que ele fez, mas por algum outro motivo. Afinal, ele perdoa e entende a gente melhor que a gente mesmo... Não é?

          - Não sei. Como você disse, a gente não entende. Talvez até seja melhor assim... Quero ver o que tem debaixo da cama. Tem alguma coisa errada acontecendo.
[CONTINUA NO PRÓXIMO DOMINGO, 04/03]
[QUARTA MAIS UM CONTO DA BAHIA]

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A Fascinante Jornada de Dona Satanilda

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

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ATENÇÃO: ESTE CONTO TEM LINGUAGEM E HUMOR APELATIVOS E PODE OFENDER UM LEITOR DESAVISADO. DADO O RECADO, BOA LEITURA!

         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por suas opções de lazer. A mais famosa era, evidentemente, a casa noturna Dona Quixota.

         Administrada por Dona Satanilda, Dona Quixota propunha-se a oferecer as baianas mais quentes de todo o Brasil. O que evidentemente era um choque para o povo da cidadezinha. De fato, as únicas baianas bonitas da cidade eram as meretrizes de Dona Satanilda. Negras de traseiros imensos e coxas roliças, outras mais claras, peitudas e estonteantes.

         Dona Satanilda não era puta... Mas podia ser. Tinha cor de café com leite, e desfilava seus peitos grandes, já um pouco moles, mas não menos cobiçados por isso, e suas coxas... Que coxas... Que mulher de quase cinqüenta tem pernas como as de Dona Satanilda?

          “Muié boua..., delícia... Descascava e chupava todinha...” diziam os cabras itaxoxotenses.

          “Vagabunda, ordiária, desavergonhada, despudorada, vendida, demoníaca”, diziam as distintas senhoras de Itaxoxota.

         Ela não era bem aceita, e as mulheres, grandes religiosas, sofreram muito ao dotar-se do conhecimento de que a casa noturna Dona Quixota dizimava a maior contribuição mensal para a paróquia de São Jesus Cristinho.

          “Como o senhor aceita dinheiro da filha do diabo?”, era o que o Padre ouvia, das paroquianas.

         O Padre tinha suas crenças, mas a igreja tinha suas necessidades, então ele fazia vista grossa para os rumores...

         Quando jovem, a família de Satanilda fora vitima de cangaceiros. Ela fez pacto com o diabo, e matou todos os cangaceiros. Desapareceu, voltou, e trouxe consigo algumas vadias estradeiras.

         Organizada como era, ela administrava o que as vadias recebiam, e em menos de três meses elas deixaram de transar embaixo de arvores ou bancos de praça para alugar uma casa pequena.

         Empreendedora, essa é Marinilda de Souza Cavalcante Mendonça de Silva e Carvalho, posteriormente chamada de Satanilda.

         E as putas eram oito. Seis morreram, porque eram encrenqueiras e tomaram tiro de mulher casada, outra virou crente e desapareceu. A outra, era Marivalda Ivonete de Santos, que virou sócia de Satanilda, e adotou o nome de Dona Consugrelo, cuida do Recanto do Marido Feliz, centro de lazer que possui em sociedade com Satanilda na cidade de Serro Azul.

         Aos poucos conseguiram putas que não fossem feias, e progrediram.

          “Nem as praia de Salvadô é mais paraíso que as minhas menina!”


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O Menino que não podia morrer... Capítulo 8

domingo, 19 de fevereiro de 2012

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          Hortência varria a casa, contra gosto. Gilmar havia partido para buscar a carroça e as duas senhoras pareciam preocupadas por qualquer razão.Julio e Maurício ofereceram-se para ajuda Hortência. Dona Lira se aproximou e bagunçou os cabelos dos garotos.

          - Eu e a Tia Rute vamos caminhar. Limpe a cozinha, pois ao voltarmos, prepararemos o jantar.

          Que mal havia em ajeitar a cama para perto do canto do quarto, para que pudessem colocar o colchão com o menino recém trazido de forma mais adequada?

          - Sim, Senhora.

          As velhas cochichavam sob o batente da porta, e Hortência as vigiava escondida. Partiram.

          Hortência subiu até a parte de cima da casa e, pelas janelas, viram as duas senhores desaparecerem entre as árvores.  Chamou Julio e Mauricio até a enfermaria.

          Os meninos seguraram a cama de ferro, leve como era, cada um de um lado ela levantou a cabeceira. O chão era de madeira, não queria riscar. Quando a puseram ao lado, percebeu algo embaixo da cama. Havia um desenho gravado com uma faca, embaixo da cama. Ela chegou perto, e percebeu que estava na altura do paciente. Os meninos indagaram, mas ela não soube responder. Aproximou-se e viu que eram letras que formavam o desenho. Sentiu ódio de si mesma por não saber ler.

          Hortência arrepiou-se. Havia um adulto atrás de si. Grande. Olhou assustada, mas não viu ninguém. Tocou com a ponta dos dedos na madeira gravada. Era uma caligrafia bonita, e havia letras da língua deles, e outras, dentro do desenho, que ela não conhecia. Sentiu um arrepio percorrer por seu corpo. Não havia outro adulto no quarto, no entanto, aquela impressão horrível a perturbava. Era como se tocassem seu ombro.

          “Põe a cama no lugar”, murmurou o menino olhando sério nos olhos dela.

          “Júlio?”, ela disse, mas o menino apenas repetiu, sem expressão. “Ponha a cama no lugar.”

          Mauricio espremeu os olhos e tapou os ouvidos. Gritou agudo. Hortência agarrou-o.

           “Calma, Mauricio, calma. Calma... tá tudo bem... Ta tudo bem.”

          Chegaram outras cinco crianças, assustadas e Júlio a olhava fixamente, sem piscar.

          - Vamos, me ajudem a colocar a cama no lugar. – disse ela, olhando para Júlio.  – Vamos, me ajude!

          Ele estava inerte. Ela deu-lhe um tapa na cara. Ele se assustou. Me ajudem a colocar a cama no lugar.

          Colocaram, e ela chamou as outras crianças para dentro e fechou a porta.

           “Não quero que falem sobre o que aconteceu aqui”.

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[CONTINUA NO PRÓXIMO DOMINGO, 25/02]
(e na quarta, um conto diferente)

O Menino que não podia morrer... Capítulo 7

domingo, 12 de fevereiro de 2012

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          Com o passar dos anos, Gilmar aprendera a se irritar com as reações de Dona Lira e tia Rute, como acontece com os filhos quando os pais começam a ter manias de gente velha. Particularmente quando não havia qualquer razão aparente para alguma determinada reação.

          Enquanto cavalgava até a carroça, abandonada no caminho, ele pensou, incomodado. Porque não aceitaram que mudasse a posição da cama? Seria mais fácil cuidar de ambos os garotos.

          Quando encontrou carroça, desceu do cavalo, e olhou para a estrada. Era quase noite. Voltou para o cavalo e cavalgou até o lugar em que encontrara o garoto.

          O céu estava limpo, com muitas estrelas, embora ainda não fosse noite. Ele olhou pela direção aonde havia a elipse formada pela imaginada queda da criança. Havia uma estrela, que ficava à leste do cruzeiro do sul. Ele caminhou até o ponto em que o garoto estava deitado, horas antes.

          O mato estava mais escuro do que o céu, tamanha distância do cume de algumas árvores, mas em poucos passos, o rapaz surpreendeu-se com uma luz que lhe pusera medo. Vinha de onde havia encontrado o garoto horas antes. Era de um prateado intenso, como se houvesse uma prata mágica cujo brilho da lua causava uma fosforescente radiação.

          Havia a cavidade de circunferência perfeita, com o solo alterado pela queda do garoto, no entanto, sem que a vida sobre ele sofresse qualquer dano com o impacto. Abaixo do mato, brilhava um pó dourado. Quando Gilmar, de fora da cavidade, esticou o braço direito na direção do buraco, o pó levantou-se inteiro, e grudou em todo seu antebraço e sua mão, que brilhou sob a luz da lua.

          Assustado, sacudiu o braço, e mas o pó não caiu. Ele trouxe para perto do peito o braço e subitamente a luz se apagou, e seu braço estava nu. Quando o estendeu outra vez, lentamente na direção do buraco, a luz da lua o fez reluzir outra vez. Gilmar admirou-a com temor e perplexidade. O que haveria de ser isso?

           Num ruído suspeito, olhou para a frente. Quatro metros dele havia um macaco de duas vezes seu tamanho olhando-o sério. Como que inconsciente, o rapaz olhou para o braço novamente, e então dera-se conta da criatura, mas olhou novamente e não havia nada.

          Estava cansado. Devia ser obra de sua imaginação. Como fora a luz, e depois a criança encontrada adormecida, num lugar aonde um pó que brilha sob a luz da lua grudara em seu braço direito?

          Gilmar procurou a criatura.

          “Não é o momento”, ouviu em sua mente. “Parta!”.

           Tomado por temor, ele correu até a carroça, prendeu no cavalo e partiu com pressa. O braço que brilhava como um artefato de prata, fora coberto com um pano velho.
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[CONTINUA NO PRÓXIMO DOMINGO, 19/02]

O Menino que não podia morrer... Capítulo 6

domingo, 5 de fevereiro de 2012

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         Na noite que antecedeu o encontro de Gilmar com o menino perdido no meio do mato, Tia Rute tivera um sonho que a deixara inquieta. Neste sonho, ela caminhava por um bosque, e havia sangue orvalhando as folhas das árvores, e pequenas poças, de um escarlate brilhante e escuro no chão. Era uma manhã clara. Ela não estava mais jovem do que era, no entanto, não andava com toda a limitação que tinha nos dias de hoje.

          Quando ela olhou para o Céu, ela percebeu que crianças mortas voavam em círculos, como o vôo dos urubus. E depois, adiante, percebeu uma criatura olhando para ela. Estava furiosa. Seus braços eram longos, e os punhos estavam fechados.

          Era um homem, gigante e peludo, feito um macaco. O que quer ele fosse, era algo Elemental, e sagrado. Ela se ajoelhou diante dele. Ele a segurou pelos braços, e os arrancou do corpo, e depois, com uma única mordida, comeu sua cabeça, e ela acordou.

          A criatura de seu sonho, não era uma lenda, era algo que vivia em todas as florestas, e era o espírito das florestas, e a castigava por algum motivo. Havia uma criança que Gilmar, pobre ignorante, não sabia explicar de onde vinha. E ela sabia que havia algo alienígena ali.

          Ela não era apenas uma mulher velha, era uma pessoa antiga, e isso significa muito.

          E agora ela olhava para uma criança que Gilmar encontrara perdida adormecida no meio do mato. O rapaz era xucro, não haveria de mentir, mas ela sabia que tinha alguma coisa estranha.

          Hortência limpara o corpo do menino recém trazido e vestiu-lhe um pijama limpo. Um papelão fora colocado no chão, e um colchão velho posto em cima dele, para acolher o menino. Tia Rute e Dona Lira não ficaram muito confortáveis com uma segunda criança na enfermaria.

          Tentaram convencê-las de mudar a posição da cama, para que o colchão fosse posto de forma a poder em circular em volta e cuidar dos dois meninos, mas elas, talvez por implicância de gente velha, disseram que não ficaria bom. A tarde já estava dando lugar para o escuro, Gilmar partira para buscar a carroça, e Tia Rute acendeu uma vela ao lado do menino doente, e pediu que a deixassem a sós para orar, e fazer suas simpatias.
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[CONTINUA NO PRÓXIMO DOMINGO, 12/02]

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