As desventuras de Seu Lili e seus filhos na conflictuosa cidade de Itaxoxota no Norte

quinta-feira, 15 de março de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por suas diferenças sociais. Tinha gente rica, tinha gente bonita e bem sucedida, mas tinha quem não conseguisse sair da merda. Seu Lili era um deles, quase um cogumelo, nascido e crescido na bosta. Seus filhos eram todos boçaizinhos também. Desde crianças adoravam tomar Danone na casa dos vizinhos.

          Seu Lili tinha conta pendurada em quase todos os estabelecimentos da cidade. Alias, adorava quando um novo abria, porque em geral, os outros já não o aceitavam mais. Seu Lili não era vagabundo, ele na verdade era preguiçoso. Seu maior sonho era descobrir o marketing de rede perfeito. 

          Seus filhos eram três. Tinha Lisauvandra uma menina feia na infância, mas que viria a mais tarde se casar com um coronel e se mudaria para Salvador, Eliomar, que era um menino feio na infância, e feio nas demais fases também, e Marlene, que era bonita e futuramente largaria Itaxoxota para trabalhar em São Paulo(honestamente, que seja dito!).

          Eliomar adorava contar vantagem. Ele era um menino que na adolescência era o pegador de seu bairro. Jogava bem futebol, e adorava dar tapa na cabeça dos veadinhos da escola. Ninguém sabia, mas a verdade é que ele sempre achara Miguel, o mais gayzinho da turma, uma coisinha linda. Mas batia sempre.

          Pra felicidade de Miguel, Eliomar cresceu e, se na adolescência já não era bonito, aos vinte e poucos, ele ficara mais feio ainda, espinhento, com alguns quilos a mais, e, aos vinte e cinco anos, sem os dentes da frente(macho como era, não abria mão de uma boa briga).

          Certa noite, alcoolizado, lá pelos dezessete, dezoito anos, Eliomar procurou Miguel, que partiria para morar com a mãe no sul do Brasil, lá no Rio de Janeiro, e declarou sua paixão. Miguel o chamou de bicha, mandou tomar no cú, e nunca mais se falaram.

          Eliomar, chorando, foi consolado por Cleonice. Na época ela tinha doze ou treze anos. Aos vinte e oito engravidou Leôa, filha de Ariovaldo. Na época a moça tinha 14 anos, já tinha o corpo todo ajeitadinho e abusava bem disso. Seu pai obrigou Eliomar a casar com sua filha. Mas isso é outra história.

          Lisauvandra era gorda e feia. Isso é tudo o que se precisa saber sobre ela. Metida que só. Adorava passar o dia na casa das amigas, e criava intimidade fácil. A primeira visita já bastava para deixá-la à vontade o bastante para a abrir a geladeira da casa das pessoas ou fuçar armários a procura de bolachas recheadas. 

          Aos treze anos, Lisauvandra ficou loira. Era agora gorda, feia e loira. Todo mundo achava ela feia de doer. Meio porca. Não penteava bem os cabelos e nem sempre escovava os dentes. Mas se achava tão melhor que as outras meninas, que acabou, pela auto-confiança, ficando popular na escola. 

          Lisauvandra sonhava com Helinho, que era o menino mais bonito da escola. Mas ele, apesar de bonito, tinha bom coração. Ela, despeitada, começou a acusá-lo de ser bicha, e ficou com muita inveja quando soube que ele estava apaixonado por Bonitinha, a filha do prefeito.

          Lisauvandra até entrou pra academia pra tentar conquistá-lo, mas sem sucesso. Em contrapartida, na academia ela conheceu Adamastor, e depois que se exercitou nele, nunca mais quis outro. E esnobe como era, adorava enxotá-lo, e ele com o tempo foi ficando apaixonado. O tempo passou e ela continuou gorda, feia, e soberba. Até que arrumou emprego de faxineira na casa de Coronel Ordônio e engravidou do velho. Mudou-se pra Salvador.

          Marlene era uma grande vítima. Perceba que eu próprio me referi aos filhos de Seu Lili como boçaizinhos, pelo injusto hábito da generalização. Era sempre vítima, pobrezinha. Era a chata da família, a rabugenta, a ranzinza e rancorosa, pelo simples fato de que queria ser alguém na vida. Na infância ela estudou, na adolescência ela estudou, e quando moça, mandou seu pai à merda e partiu para São Paulo.  

          Fora guardete em uma agência de banco por dois anos, até que conseguiu virar professora. Mas seu grande objetivo era descobrir o paradeiro de sua mãe. Apesar de seu pai e seus irmãos nutrirem uma forte raiva por sua mãe desaparecida, ela a via como uma mulher determinada e perseverante: ela própria teria abandonado a família. Com tal pai, seria difícil imaginar que os filhos pudessem crescer e virar qualquer coisa além de medíocres.

          Mas voltando a Seu Lili, as pessoas se comoviam com sua dificuldade, até descobrir que as dividas nas mercearias eram por conta de arroz, feijão, carne, farinha, ovo, cerveja, cachaça, rapadura, bolacha recheada, leite condensado, refrigerante, sorvete, têta-de-nêga, pé-de-moleque, e outras coisas que dá pra viver sem.

          E nunca mudaria? Depois de se decepcionar com tantos marketings de rede, decidiu abrir uma igreja na cidade, pra concorrer com a paróquia de São Jesus Cristinho. Prosperou, mas isso, ah, isso é outra história.

2 comentários:

texturizada disse...

O final ficou estranho pra mim.
Não sei se vc tá falando do pai que tem dividas ou da Marlene, a que se faz de vitima [interpretação de texto nota zero, hauahuah]

Phê Brito

Alex Pedro disse...

COnfesso que eu nao estava inspirado. Escrevi meio a força.

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