O Menino que não podia morrer... Capítulo 10

domingo, 4 de março de 2012

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Setembro, dia vinte e quatro, 1929. 

          Estava Laio deitado, febril, num sono inquieto, e em cada lado La cama havia uma pessoa. Tia Rute do Lado esquerdo, e Dona Lira do lado direito. E ambas as senhoras pressentiam que pudesse haver mais alguém em sob os pés da cama.

          Dona Lira trocava compressas, enquanto Rute olhava com silenciosa raiva para o menino trazido por Gilmar.

          - Esse menino tem que sair desse quarto. Ele atrapalha. – disse Tia Rute, com uma voz quase masculina.

          - Não sei se ele deveria ser o único a sair daqui. – diz Dona Lira. Silêncio. As duas olham-se. – Não acha, titia?

          - Eu me pergunto o que tem acontecido com você, Lira. Não tem parecido feliz faz um tempo.

          - Faz um tempo... – disse a si mesma, com olhar perdido. – Lembro-me quando minha mãe era viva, e eu era moça, quisera levar-me para tomar uma vacina, mas sempre tive medo de agulhas. Ela me dissera que iríamos na casa da prima Luiza, que nos convidara para um café com algum bolo. Eu gostava de visitar a prima Luiza, porque tínhamos boa conversa e ela sempre me ensinou muito.

          - Era muito arrogante... – Tia Rute a interrompeu, embora Dona Lira demonstrara não tê-la ouvido.

           - E cozinhava divinamente. O fato é, quando fui tomar a vacina, ela me deu efeito negativo, e adoeci. De fato passamos por prima Luiza e, devido a mina fraqueza, permaneci em sua casa, e com ela conversei. Na ocasião, ela me ensinara palavras de francês, e contara-me muitas histórias. Mas com tudo isso, até hoje meu braço dói, e a doença da qual quiseram me prevenir nem mais existe.

          - E porque diz isso? – indagou a velha, dando pouca importância.

          - Porque às vezes com um prêmio vem alguma cláusula omitida. E podemos nos arrepender.

          Silêncio. Olham-se sem piscar, inexpressivas, por longos segundos.

          - Teme que você possa se arrepender?

          Novamente o silêncio. Uma queria entender a outra, e embora confiassem mutuamente, havia algo errado.

          - Não foi o que eu disse, titia. Temo - - que certas coisas sejam irreversíveis, e muitas escolhas afetam mais do que apenas as nossas vidas. Temo que “nós” possamos nos arrepender.

          Batem na porta. “Entre”, diz Dona Lira. Hortência trás duas canecas com café.

          - Truxe café pra vocês, - diz a moça – ta quentinho. – Serve às senhoras.

          - Agradeço, querida. – disse Dona Lira.

          - Você e o Gilmar depois vão levar esse menino pro quarto com os outros. Eu não sei o que ele tem não quero que passe pra esse. – disse Tia Rute sem desviar os olhos de sua sobrinha.

          - Sim, senhora. ‘Cênça. – e sai do quarto.

          - Você tem dúvidas? – pergunta a mais velha.

          - Absolutamente não. – diz Lira. Toma um gole de café calmamente. O aprecia. - Apenas é um fato, e a senhora mesma deveria ser humilde e reconhecer que pode se arrepender disso.

          - Não se nega os pais, Lira.

          - Precisamente. Se me dá licença, vou preparar o almoço.

          Dona Lira levanta-se do banquinho, passa perto do menino no chão. Abaixa-se e o olha com curiosidade. Respira fundo. Estava cansada. Levanta-se e sai do quarto.

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2 comentários:

Adilson disse...

acompanhando...

Phê Brito disse...

Cada vez que leio um novo capítulo, fico com vontade de reler tudo desdo inicio, mas sem o fim, parece que ainda não é o momento certo.


Ao todo, terão qtos capítulos ?

bjo,
Phê.

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