O Menino que não podia morrer... Capítulo 18

sábado, 28 de abril de 2012

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          Dezoito anos antes, Dona Lira era uma senhora com cabelos louros escuros. Era uma mulher madura, e restava ainda alguma mocidade, apesar de ver a si mesma desde nova como uma mulher cuja frigidez e a insegurança lhe seriam o grande ponto fraco. 

          Ela olhava séria para o homem de cócoras que ria e conversava com o pequeno Gilmar, que naqueles dias tinha sete anos. O menino estava contente. Conversava e mostrava brinquedos feitos com batatas e gravetos no quintal. Tia Rute sorria. Não era um sorriso necessariamente feliz, era um sorriso de êxito.

          - Quero falar com a senhora lá dentro. 

          A velha percebera que havia algo errado. Por outro lado, estava indiferente. Entraram. Caminharam até o quarto em que Lira dormia. Sentaram-se na cama.

          - Não quero que ele leve Gilmar.

          Tia Rute riu.

          - Que capricho esse agora, menina?

          - Não quero.

          - Por quê?

          - Ele é prestativo, e nos respeita. Todas as vezes que contratamos capataz eles nos questionam, nos perturbam. Gilmar crescera um homem forte. Será importante.

          - Lira, você não viu que o Homem o quer? Ele veio, ele o escolheu. O destino do menino não está nas nossas mãos.

          - Tia Rute, não está entendendo. Eu não quero que o Gilmar seja levado.

          A velha ficou séria.

          - Isso não cabe ao seu querer, menina. Tome tento e arrume o que fazer.

          - Não quero que ele leve o Gilmar.

          - Arre! – e rangeu os dentes. – Pra que isto agora?

          - Já disse. Ele sera mais útil com a gente.

          A velha fechou o punho e o pôs diante do rosto de Lira. Não como uma ameaça, mas como uma exclamação física de seu ódio. Lira não queria voltar atrás.

          - Eu quero o menino. Eu o quero para mim. Eu o desejo.

          Aquilo bastou para que os olhos da velha vibrassem ainda mais, e brilhassem com um ódio.

          - Então você o usa para suas insanidades? Sua perversa suja.

          - Cale-se, sua bruxa. Me respeite. Não me julgue, isso eu não permito. Moralidades não estão em questão. Quero-o para mim, e isso não está em negociação.

          Fora a primeira vez que Lira fora absoluta em algo que dissesse à sua tia. E isso intimidara a velha, que impediu que Gilmar partisse.

          Não era verdade que Lira desejasse. Lira o via apenas como uma criança, inocente, e o queria perto dela. O tinha como filho. Amava o menino. Não queria perde-lo. Mas era bem verdade que ele seria o alimento de seus desejos mais luxuriosos muitos anos mais tarde.

          Ali ela o vira como criança. Mas agora o via como um homem. Como um macho se sua espécie. Um macho fértil. Desejava-o. Tocava-se todas as noites pensando em seus músculos.  Roubava-lhe camisas suadas, que esfregava por seu corpo. Sentia inveja de Hortência. Quase raiva. Mas ela não era uma mulher para se desejar, sabia disso. Ela agora observava ele cortando lenha.

          “Há algo de errado com o meu menino...”. Gilmar olhou para ela. Sorriu. Ele tinha muito carinho por ela. E ela gostaria que ele não estivesse ali.

O Menino que não podia morrer... Capítulo 17

sábado, 21 de abril de 2012

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          - Minha nossa Senhora! Sêu Schneider... – murmurou a empregada. 

          - Anamaria, - Bartô Schneider começou – deixe-nos a sós. Limpe isto depois. Obrigado.

          Entendendo a gravidade da conversa, a mulher partiu imediatamente sem pedir licença. Os dois permaneceram em silêncio, refletindo.

          - O que pensa sobre isso, Padre? – indagou Sr. Schneider.

          - Honestamente? Isso é grande demais pra se considerar uma impressão imediata. Teria isto alguma relação com aquelas macumbas africanas?

          - Envolvendo Baal e Beliel? Pouco provável. Me parece mais algo como um...

          - Pacto? – interrompeu o padre. – Não há morte. Ou, não houve. 

          - Mas há uma súplica por conhecimentos obscuros. Uma troca, aparentemente, usando o menino como paga.

          - Pactos não envolvem terceiros!

          - Mas oferendas, sim.

          Um silencio constrangedor abateu aqueles dois homens velhos.

          - Mas se fosse holocausto, ele estaria morto, certo? Como quando matam animais...

          - Padre Onório, não sei dizer. O que sei é que em se tratando de magia negra, cada “ser” tem um valor um poder. Matam aves para uma coisa. Animais de quatro patas, com outros propósitos. As vezes materiais e afetivos... Obsessões. Mas sacrifício humano nunca é para entidades pequenas.

         - Bartô… - ele respire fundo, olhando para a janela. Ainda com o olhar perdido ele segue – então você realmente acredita que pode ser isso? Sacrifício?

          - Não, eu digo que isto poderia ser uma possibilidade. Ademais, o amigo padre deve também considerar que coincidências acontecem, e fogem dos planos do Pai. Esta casa poderia conter tal gravação antes mesmo de haver um orfanato ali. Pode uma coincidência, armada por entidades, ou irrelevante ter feito com que a cama estivesse em cima de tais palavras.

          - De fato. Os demônios são antigos e ardilosos. Podem confundir as pessoas.

          - Particularmente estes. – murmurou o judeu como se pensasse alto.

          - O que tem a dizer sobre eles, Bartô?

          - Honestamente, sempre evitei entende-los. Sou humilde o bastante para entender que são antigos demais, outrossim, sábios e infinitamente mais calculistas, maliciosos, rancorosos e temperamentais do que eu e, sendo mais objetivo, que minha espécie. Tolo é o homem que se acredita capaz de barganhar com eles.

          O padre olhava para os próprios sapatos. Precisava entender o que estava acontecendo.

         - Você me dá licença? – disse ele.

         - Onório, sê cauteloso. Se realmente haver algum sentido em sua suspeita, entenda que se trata dos príncipes.

          Encararam-se. O padre piscou para o amigo e partiu.

O retrato familiar de Dona Lindura e sua filha Coisinha

quarta-feira, 18 de abril de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por seus moradores ricos. Dona Lindura era muito conhecida por sua beneficência, e por abominar aquela “rente” feia da cidade.

          Dona Lindura era alta, bronzeada, com pernas torneadas, cabelos louros platinados e dois lindíssimos seios importados da França. Lindura era a esposa do prefeito da cidade, mãe de duas meninas: Bunitinha e Coisinha.

          Bunitinha nascera com dois lindos olhos azuis quase fosforescentes e cabelos claros. Herança do bisavô holandês, do lado pernambucano da família. Era meiga, carinhosa, gentil e tímida. O xodó da família.

          Mas quando nasceu a segunda filha, a parteira diminuiu a luz do quarto, e entregou o bebê enrolado numa manta, cobrindo o rosto.

          - Dê cá minha minina, cabra velha! – e descobriu o rosto do bebê – Valei-me nosso senhor Jesus Cristo!

          A menininha só não tinha cabelos nos lábios e nas pálpebras. Era zoiúda, com olhos abertos e vesga. Como sua irmã mais velha, puxara o lado pernambucano da família. Mas o que herdou não foram os olhos claros, somente a cabeça grande.

          - Esse negocinho deve sê filhote de Pituca, saiu de mim não! Traz minha filha e devolve esse trocinho pra cachorra.

          Depois de uma semana, os pelos caíram do rosto da criança, mas isso não deixou a mãe mais feliz. Era um bebezinho feio, todo judiadinho. Ah, como sofria dona Lindura olhando aquele bebê cabeçudo, bochechudo e com nariz esborrachado.

          - Não é normal sê feia assim... – ela dizia a si mesma enquanto amamentava a criatura.

          Certa vez a abandonou na porta de um convento. Com a criança, um bilhete: “Senhor, receba com a mesma alegria que me deste”.

          Jurandir, o pai, na época era um rapaz de vinte e poucos anos, a fez buscar o negocinho de volta, pois começava uma carreira política e isso não podia pegar bem. E Lindura buscou a criança.

          Só foi registrada com quase três meses de idade. Sem saber que nome dar, o tabelião sugeriu Coisinha, e foi o que aconteceu.

          Quando completou dois anos, Dona Lindura decidiu que a menina era feia demais para sair na rua. Além de feia era fanha. Mas nos anos seguintes ficou com dó da solidão de Coisinha e, quando esta fez três anos, teve uma grande idéia.

          Inspirando-se em reportagens sobre o oriente médio, Lindura encomendou burcas customizadas, com estampas coloridas e infantis, para sua filha. Eram no geral, aberrações ainda piores que a feiúra da criança.

          Aos vizinhos, dizia que a antiga doença que a impedia de sair na rua(mentira!) havia sido curada graças à promessa que ela fizera à Santo Expedito de cobrir sua beleza(mentira!).

          Na mesma época ela contratara uma fonoaudióloga particular que, com o tempo, passou a ser a única pessoa a ver o rosto de Coisinha. Luzinete era seu nome. Luzinete virou madrinha da menina.

          - Ô, dona Lindura. A senhora não me deixa levar a coisinha no oculista?

          - Oxênte, nem pensar. Não quero ninguém me prócéssando por se assustar com meu trocinho.

          - Oxi, Dona Lindura, mas é malvadeza. E seu eu levar Coisinha num médico em Serro Azul?

          - Dona Luzinete, aprécio sua générósidade, visse, mas desvesgar essa menina não vai dexá menos feia...

          - Mas não ser vesga já é alguma coisa...

          Luzinete foi fazendo o que podia por Coisinha. A menina crescera sem olhar em espelhos.

          “Já teve o azar de nascer feia, “deusquími-livre” se parte um espelho com essa carranca e o azar piora...”, preocupava-se a mãe.

          Quando fez quinze anos, Coisinha pediu aos pais uma festa. Com baile, valsa, um cadete bonito e tudo mais. Recebeu um sonoro “Se endoideceu-se foi?”. Mas aos dezoito, dona Luzinete convencera Jurandir e Lindura a mandar a filha para férias no Rio de Janeiro. E fora a menina e sua madrinha. Três semanas e depois voltaram.

          Dona Lindura ficou três dias sem conseguir dizer palavra. Estava horrorizada: Coisinha não usava mais burca.

          A menina andava pela cidade com o rosto rígido de uma fêmea revoltada e a cidade estava chocada a olhar para seu rosto: Dona Lindura não mentira sobre a promessa. Aquela criança, outrora uma menina feia, era a morena mais jeitosa de toda a cidade.

          E quando voltou do Rio de Janeiro, passou em casa para pegar suas coisas e se mudar para o bordel Dona Quixota, o comercio mais importante de toda a cidade.

          Mulher da vida ela queria ser, mas dona Satanilda disse que ela era “apétitosa dimais”, e que devia ser a mais cara. Ninguém tinha dinheiro para pagar, e Coisinha Mais Linda, como passou a ser chamada, passou a ser a recepcionista desejada e inacessível do bordel mais famoso de toda a Bahia.


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O Menino que não podia morrer... Capítulo 16

domingo, 15 de abril de 2012

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          Naquela manhã Gilmar tomara café no quintal, cuidando das galinhas, sem falar com ninguém. Naquela manhã, Hortência não sentara na mesa para tomar café. Andava com a caneca de um lado para o outro. Naquela manhã dona Lira servia as crianças na mesa, inquieta e pensativa. Naquela manhã tia Rute não tomara café.

          Não que não tivesse fome. Tia Rute estava incomodada. Alguma coisa estava dando errada. Ela olhava pra Hortência, que parecia ter acordado angustiada por alguma notícia triste. Não tinha nunca reparado se tinha afeição pelo menino adotado. Poderia ser um pesadelo. E tinha aquele Gilmar, que parecia cuidar de sua própria vida. E tinha também sua própria inquietação. Ela saiu da casa devagar.

          Gilmar percebeu a velha vindo com sua habitual lentidão, e fez que não notou. Foi para mais distante, cortar lenha. Apoiara tocos e mais tocos na árvore serrada de um metro.

          Gilmar partia a lenha em machadadas únicas. Partiu uma, duas, três. A velha chegou. Sentou-se no toco de uma árvore serrada, como se o desafiasse. Ele cortou a letra passando o machado a centímetros do corpo da senhora, que lhe olhava fixamente. Ela sorriu-lhe com os lábios, apesar dos olhos inexpressivos.

          - Você não parece bem, Gilmar.

          - Não, tia Rute. Não estou bem. – disse ele, com naturalidade.

          - Algo que eu possa ajudar? – ela disse. Seu sorriso permanecia inerte. Ele olhou para sua boca. Faltava-lhe muitos dentes e os dentes eram já curtos e gastos pelos anos.

          - Não sei. Talvez sim. Sabe, ando com dores de cabeça. Sinto alguns enjôos as vezes.

          - Veja pelo lado bom, se fosse mulher, eu diria que era um problema de gravidez.

          - Se fosse isso não seria um problema. Crianças são bênçãos, não?

          Os dois riram discreta e falsamente.

          - É verdade. – ela disse simpática. – Por isso que incentivamos e facilitamos adoções.

          Gilmar apoiou o machado no ombro.

          - Então porque não fui adotado?

          - Acredite, rapaz, foi melhor pra você.

          Permaneceram em silêncio, olhando olhos nos olhos, sem expressão. O sorriso dela desaparecera, mas no lugar não havia expressão de tensão, raiva, ou coisa parecida. Apenas uma expressão vazia.

          - Gilmar? Seja sincero. Em que condições encontrou aquele garoto?

          - Eu estava na carroça quando o vi caindo do céu e o trouxe.

          Ela permaneceu olhando para ele, até que começou a rir. E aquele riso era sinistro, mas profundamente sincero. Gilmar rira. Jamais rira com ela. Ela, por sua vez, não devia rir a muitos, muitos anos.

          Ela se levantou do toco, deu-lhe um tapa no ombro.

          - Termine aí, meu filho, e depois tome o café decentemente. – e virou-se para a entrada que levava à cozinha. Dona Lira olhou para a cena sem entender. Quando a velha chegou na cozinha, olhou para Lira. Ainda ria com alegria, mas cessou o riso num momento rápido. – Esse menino não deveria estar mais aqui, Lira, e agora é tarde demais. 
 

A Lenda do temível Saci de duas pernas

quarta-feira, 11 de abril de 2012

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          Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida pelas lendas folclóricas regionais. O terror da cidade era o violador das donzelas, o temível Sací de duas pernas.

          Sua primeira aparição catalogada foi no meio da década de trinta. A vítima fora Joãozinho. Era um rapaz baixinho, protestante, óculos fundo de garrafa, voz fina, recém formado em advocacia. Ele andava pela cidade, certa vez, meia noite naquela sexta-feira treze, noite de luar, quando olhou para a lua.

          Estava próximo de uma árvore. O paralelepípedo, branco pela luz da lua, mostrava sua silhueta, recortava a sombra retorcida dos galhos da árvore e, de um segundo para o outro, um homem baixo, com duas pernas: uma comprida, com a qual ele se equilibrava, e outra menor e menos grossa, quase colada com a outra, chegava até o meio da coxa, ele olhou para trás.

          “Meu Deus, é um pênis”. O malandro balançou a cobra, pesada que era, e deu uma gargalhada quase infantil.

          Que dilema. Deveria Joãozinho correr do bandido? Joãozinho pensou em correr, mas decidiu por sua vida nas mãos de Jesus, e tapou os olhos. Sentiu um vento forte, e começou a girar, e então... “Ai como dói, meu Deus, pára, pelo amor de Deus, pára, ai que delícia”. O malandro botou a cobra entre as pernas de Joãozinho e depois mandou ver.

          João acordou na manhã seguinte do outro lado da cidade. Disse que correu, mas que o bandido era selvagem, e o perseguira, e o sodomizara contra sua vontade. A descrição era a seguinte: rapaz negro, um metro e oitenta e dois, magro, nu, com apenas a perna esquerda, um pênis imenso e um gorro vermelho.

          Na mesma época, dois anos depois, aconteceu um novo incidente. Dona Juciara, uma senhora de cinqüenta e poucos anos, viúva, tinha saído certa noite de sexta-feira treze para fazer uma simpatia para que seu filho engravidasse sua esposa, depois de quinze anos de casamento. Vivia no bairro, na época chamado de Jardim do Éden. Juciara estava na encruzilhada, deixando a cachaça e fazendo a mandinga quando o rapaz negro apareceu.

          Foi para o seu pênis que ela olhou: “Eita nóis...”.

          - suncê é o capeta?

          Ele riu, segurou a bengala com uma mão e bateu com ela na outra mão. A senhora ouviu o tapa pesado daquilo.

          “Creindeuspai”... E saiu correndo. Ele ficava aparecendo, por todo lado, perseguindo ela, rindo, balançando a caceta. E ela com medo, ele às gargalhadas.

          Então ele apareceu bem na frente dela, em um redemoinho, e ela começou a girar, e a saia voava, e ele puxou sua calcinha de ladinho e, girando, voando, mandou ver.

          Dona Juciara acordou no banco de uma praça, no Jardim do Éden, exausta e cheia de assaduras. Pobre da mulher. Voltou para sua casa mancando. Foi na polícia, e depois de virar piada, mudou de cidade, onde nasceu seu outro filho, um menino pretinho, com uma perna só e, mesmo bebê, uma bengalona imensa.

          Ela o levou para o mato, e imediatamente um redemoinho de areia e folhas secas o levou embora. A mulher se benzeu e nunca falou sobre isso pra ninguém.

          Com o tempo, a freqüência dos ataques foi cada vez maior, e, ao passo que pessoas em noites de sexta feira treze andavam pelas ruas temerosas, havia também os curiosos, turistas e carentes que andavam por aí a espera do ser mítico.

          Após muitos casos, Jardim do Éden mudou para Calça do Saci. Região muito popular da cidade, com suvenires artesanais dos mais curiosos.

          Na década de setenta, o Saci apareceu apenas uma vez. Foi em setenta e dois, numa sexta-feira treze qualquer. Faria dois anos que não se ouvia falar em incidentes(se bem que a verdade é que muita gente transava com o Saci e não contava nada pra ninguém), e Malva fora vitimada.

          Malva era jovem, adolescente. Tinha saído para namorar com o jovem Claudionor, que negou fogo sob o argumento de que casaria virgem. A menina voltava para casa, quando ouviu som de palmadas. Olhou para o lado e viu ele ali, batendo com a estrovenga numa das mãos.

          Ah, ela não perdeu tempo, agarrou o negrinho, e ele começou a girar, e brincaram. E o Saci comeu a menina, na frente e no verso, e tentou deixa-la, mas ela não cansava. Ela não o largava. Ele ficou desesperado. Ela não parava, queria sempre mais. Ele começou a gritar, girava, tentava jogar a garota longe, mas ela ficava agarrada no pinto dele.
          O Saci deu um soco na garota e saiu correndo. Foi para bem longe de Itaxoxota. E por quase dez anos permaneceu desaparecido. Ninguém nunca soube porque.

O menino que não podia morrer... Capítulo 15

domingo, 8 de abril de 2012

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          O padre entrou naquela que era uma das mais suntuosas casas da cidade. Ficava num lugar afastado, quase tanto quanto o orfanato, mas em uma direção totalmente oposta. Fora ali muitíssimo bem recebido pela governanta da casa, uma senhora negra, ex-escrava, com quem tinha uma forte ligação.
          - Anamaria, preciso falar com o Bartô Scheider...
          - Padre Onório, que boas noticia traz o senhor?
          O padre sorriu, e olhou para o papel em sua mão, entregue por Gilmar.
          - Ah, minha  velha amiga, hoje o padre veio em busca de conselhos com o judeu.
          - Vixe! – A senhora riu. – Seu Bartô tá adoentado, mas o padre eu acho que ele recebe. Senta aqui, padre, sinta em casa. – disse ela ao padre, acomodando-o no sofá, e depois gritou para uma empregada – Dorotéia, traz refresco pro padre. – sorriu para o padre. – O senhor me dá licença, vou avisar Sêu Scheider.
          Ela caminha rápida por um corredor. Menos de um minuto ela volta.
          - Padre, o senhor não se incomoda de vim no quarto?
          O padre se levantou e acompanhou Anamaria, que o levou até um quarto de uma decoração sofisticada, apesar de simples. Na cama de casal estava um homem velho, com rugas que denunciavam anos de uma repetida expressão de paciência e humildade. O padre sentou num canto da cama.
          - Obrigado Anamaria. Prepare um café para o padre e eu, sim?
          - Sim senhor, com licença. – ela sai do quarto e fecha a porta. – Padre Onório, sempre me alegra recebê-lo no teto de minha família, no entanto, o feitor me havia adiantado que estava preocupado, e que havia algo de importante a tratar comigo. Como poderia ser útil?
         - Era sobre isto que queria conversar, Senhor Schneider... – disse o Padre, entregando o papel dobrado que havia recebido de Gilmar. – Um paroquiano encontrou uma gravação embaixo da cama de um enfermo, e tratava-se dessas inscrições.
          Senhor Schneider abriu o papel e encontrou ali um texto formando um hexágono, dentro dele outros dois textos. O judeu franziu o cenho. Girava o papel lentamente.
          - Gravado como?
          - No assoalho, a madeira fora gravada com esse texto, que me pareceu hebraico...
          - Sim, é hebraico... Antigo...
          - Em uma enfermaria. Uma criança adormecida por longos meses, alimentada com caldos, banhada com panos. O que me parece é ser uma simpatia pagã, algo do gênero. No entanto, as pessoas que poderiam ter feito isso mal são alfabetizadas em português.
          - Enfermaria? Isto está no ambulatório da cidade? – perguntou Sr. Schneider.
          - Na verdade, não. Sabe aquele orfanato? Um garoto, doze ou treze anos. Uma das senhoras sempre faz de suas mandingas para cuidar das crianças.
          - Isto aqui está sob a cama de uma criança adoecida? – o judeu perguntou, com um olhar sério.
          - Sim. Consegue ler? – indagou o padre.
          - Consigo. Como descobriu isto?
          - O caseiro do orfanato encontrou e me trouxe. Algo incrível aconteceu, Bartô, quando ele me mostrou esta reprodução. Um vento escancarou as portas da igreja e apagou o círio pascal. Isto não é comum, as portas são pesadas, e o senhor bem sabe que a qualidade da cera e do pavio do círio pascal é inquestionável. Mas diga-me, o que está escrito?
          - Aqui diz... – e ele recitou em hebraico, a reprodução que Gilmar fizera da gravação. As cortinas começaram a agitar-se, e uma nuvem cobriu o sol inteiramente. – Em português, em uma tradução improvisada e leviana é algo como:
          “Este espírito é levado para o inferno. Com a mão direita do pai Beliel;  mão esquerda do príncipe Baal, sua alma alimente a fome do pai Beliel, seu espírito receba o espírito do príncipe Baal. Nossa idade para vós, tua sabedoria para nós. Este sangue para Belzebu, esta carne para o Cão.”
          Os dois assustaram-se com o som da bandeja de prata e as xícaras de café que Anamaria derrubara no chão, aterrorizada com o que acabara de escutar.

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