O retrato familiar de Dona Lindura e sua filha Coisinha

quarta-feira, 18 de abril de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por seus moradores ricos. Dona Lindura era muito conhecida por sua beneficência, e por abominar aquela “rente” feia da cidade.

          Dona Lindura era alta, bronzeada, com pernas torneadas, cabelos louros platinados e dois lindíssimos seios importados da França. Lindura era a esposa do prefeito da cidade, mãe de duas meninas: Bunitinha e Coisinha.

          Bunitinha nascera com dois lindos olhos azuis quase fosforescentes e cabelos claros. Herança do bisavô holandês, do lado pernambucano da família. Era meiga, carinhosa, gentil e tímida. O xodó da família.

          Mas quando nasceu a segunda filha, a parteira diminuiu a luz do quarto, e entregou o bebê enrolado numa manta, cobrindo o rosto.

          - Dê cá minha minina, cabra velha! – e descobriu o rosto do bebê – Valei-me nosso senhor Jesus Cristo!

          A menininha só não tinha cabelos nos lábios e nas pálpebras. Era zoiúda, com olhos abertos e vesga. Como sua irmã mais velha, puxara o lado pernambucano da família. Mas o que herdou não foram os olhos claros, somente a cabeça grande.

          - Esse negocinho deve sê filhote de Pituca, saiu de mim não! Traz minha filha e devolve esse trocinho pra cachorra.

          Depois de uma semana, os pelos caíram do rosto da criança, mas isso não deixou a mãe mais feliz. Era um bebezinho feio, todo judiadinho. Ah, como sofria dona Lindura olhando aquele bebê cabeçudo, bochechudo e com nariz esborrachado.

          - Não é normal sê feia assim... – ela dizia a si mesma enquanto amamentava a criatura.

          Certa vez a abandonou na porta de um convento. Com a criança, um bilhete: “Senhor, receba com a mesma alegria que me deste”.

          Jurandir, o pai, na época era um rapaz de vinte e poucos anos, a fez buscar o negocinho de volta, pois começava uma carreira política e isso não podia pegar bem. E Lindura buscou a criança.

          Só foi registrada com quase três meses de idade. Sem saber que nome dar, o tabelião sugeriu Coisinha, e foi o que aconteceu.

          Quando completou dois anos, Dona Lindura decidiu que a menina era feia demais para sair na rua. Além de feia era fanha. Mas nos anos seguintes ficou com dó da solidão de Coisinha e, quando esta fez três anos, teve uma grande idéia.

          Inspirando-se em reportagens sobre o oriente médio, Lindura encomendou burcas customizadas, com estampas coloridas e infantis, para sua filha. Eram no geral, aberrações ainda piores que a feiúra da criança.

          Aos vizinhos, dizia que a antiga doença que a impedia de sair na rua(mentira!) havia sido curada graças à promessa que ela fizera à Santo Expedito de cobrir sua beleza(mentira!).

          Na mesma época ela contratara uma fonoaudióloga particular que, com o tempo, passou a ser a única pessoa a ver o rosto de Coisinha. Luzinete era seu nome. Luzinete virou madrinha da menina.

          - Ô, dona Lindura. A senhora não me deixa levar a coisinha no oculista?

          - Oxênte, nem pensar. Não quero ninguém me prócéssando por se assustar com meu trocinho.

          - Oxi, Dona Lindura, mas é malvadeza. E seu eu levar Coisinha num médico em Serro Azul?

          - Dona Luzinete, aprécio sua générósidade, visse, mas desvesgar essa menina não vai dexá menos feia...

          - Mas não ser vesga já é alguma coisa...

          Luzinete foi fazendo o que podia por Coisinha. A menina crescera sem olhar em espelhos.

          “Já teve o azar de nascer feia, “deusquími-livre” se parte um espelho com essa carranca e o azar piora...”, preocupava-se a mãe.

          Quando fez quinze anos, Coisinha pediu aos pais uma festa. Com baile, valsa, um cadete bonito e tudo mais. Recebeu um sonoro “Se endoideceu-se foi?”. Mas aos dezoito, dona Luzinete convencera Jurandir e Lindura a mandar a filha para férias no Rio de Janeiro. E fora a menina e sua madrinha. Três semanas e depois voltaram.

          Dona Lindura ficou três dias sem conseguir dizer palavra. Estava horrorizada: Coisinha não usava mais burca.

          A menina andava pela cidade com o rosto rígido de uma fêmea revoltada e a cidade estava chocada a olhar para seu rosto: Dona Lindura não mentira sobre a promessa. Aquela criança, outrora uma menina feia, era a morena mais jeitosa de toda a cidade.

          E quando voltou do Rio de Janeiro, passou em casa para pegar suas coisas e se mudar para o bordel Dona Quixota, o comercio mais importante de toda a cidade.

          Mulher da vida ela queria ser, mas dona Satanilda disse que ela era “apétitosa dimais”, e que devia ser a mais cara. Ninguém tinha dinheiro para pagar, e Coisinha Mais Linda, como passou a ser chamada, passou a ser a recepcionista desejada e inacessível do bordel mais famoso de toda a Bahia.


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2 comentários:

Pandumiel Tunmarë disse...

A MELHOR HISTÓRIAAAA!!!!!!!
AMEIIII!!!!!!

Gente, essa foi perfeita!
Tudo, PARABÉNS!!!!!!!

RI DEMAIS! kkkkkkkkkkkkkk

Anônimo disse...

Gostei!!!

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