A incontestável fé de Dona Creuza

quarta-feira, 4 de abril de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida pela religiosidade de seus cidadãos. Dona Creuza, beata, carola, líder da Liga das Senhoras Distintíssimas de Itaxoxota era uma senhora de 70 anos, com muita fé, paz de espírito, amor no coração, e assassinatos em seu passado.

          Creuza era viúva. Creuza não tinha filhos. Creuza era mulher direita. Creuza tinha sido uma criança feliz.

          Lá no sertão do Ceará, lá longe, tinha nascido aquela menina. Bonitinha, meiga, cabeça grande. Era Creuza. Creuza queria ler e escrever. Seus pais não queriam que Creuza fosse uma sertaneja sofrida como eles, que assinavam com o polegar. Queriam que Creuza fosse médica, “adevogada”, professora, alguma dessas profissões que dão dinheiro.

          Aos  nove anos, certa vez, Creuza estava na cidade com maínha mais paínho, quando surgiu por todos os lados um bando de cangaceiros violentos.

          - Miniiiiina! – gritou maínha, quando viu a filha correr ao som dos primeiros tiros. Creuza vira um menino, talvez mais novo que ela, cair no chão com um tiro na testa e se escondeu.

          Ouviu tiros, tiros e mais tiros. Não acabavam mais. Gritos agudos, gritos graves. Gemidos, gargalhadas. Súplicas. Para ela, fora setenta horas ou mais, mas para aquela vila, não foi mais do que três horas até que todos estivessem mortos e todas as casas e comércios fossem saqueados. 

          Creuza depois de tudo saiu de seu esconderijo, semi enterrada sob um assoalho da igreja, entre a terra e a madeira. Andava entre mortos de todas as idades. Tomaram água, e derrubaram na terra seca também. Beberam vinho e água ardente, levaram o que podiam, e boa parte do que não consumiram fora desperdiçada em vandalismo. 

          Creuza ficou três semanas naquela vila fantasma, uma criança louca no meio de corpos que apodreciam, sentindo fome e cede, até que encontrou um jovem, que chegara cavalgando um jegue, e que após inspecionar tudo, a encontrou naquele mesmo esconderijo. Arisca e temerosa.

         Era um menino do Pernambuco. De 14 anos, armado até os dentes. Tião Carcará é como ele viria a ser conhecido anos mais tarde. Naquela época em que ele encontrou Creuza, uma cearensezinha delicada, suja e triste, ele era apenas Bastião.

          Bastião levou a menina consigo, e por anos estiveram juntos. Ele deu o primeiro carinho que o rosto dela recebeu, o primeiro selinho, e o primeiro beijo de língua. Foi o primeiro menino que segurou a mão dela. Foi a única carne que ela sentiu entre suas pernas, fora o filho que tivera dele, nascido meses depois de seu assasinato. Mas isso vem a seguir.

          Bastião tinha perdido seus pais numa pendenga com o cangaceiro Foice Branca, terror da Bahia em sua época, e cresceu treinando tiros e matando bandidos. Era o herói dos fracos e oprimidos. Fora Foice Branca quem matou seus pais, e fora ele também o responsável pela chacina que vitimara os pais de Creuza.

          Creuza e ele, para combater, começaram a aliar forças com outros jovens que desejavam vingança, mas a verdade é que, pouco a pouco, começaram a perder-se de sua verdadeira missão e, após matar Foice Branca, assumiram seu reino de horror no nordeste, e ele fora assassinado por uma jovem rapariga que tivera os pais mortos pelas mãos dele.

          Sim, meus caros, falamos de Dona Satanilda. Dona Creuza está em Itaxoxota porque desejara vingar-se, e Satanilda, mulher empreendedora que é, foca-se no trabalho, e não tem idéia do que é armado contra ela. Seu Inácio, dono da barraca de côco da praça principal conhece a história, e o padre, no confessionário disse que ela e seu finado esposo perderam-se pela cobiça, e ele atraiu para si o destino de seu algoz, e ela jamais descansaria se isso fosse consumado. 

          Isso a atormentava. Ela largou o filho nas mãos de outra cangaceira sobrevivente, que refugiara-se no sudeste. Nunca mais teve notícias dele.

          Ela não sabia se Satanilda tinha ou não feito pacto com o diabo, mas sabia que uma coisa não era uma lenda: Marinilda de Souza Cavalcante Mendonça de Silva e Carvalho matara um a um do bando de Tião Carcará. Foram quarenta e oito mortos. Não quis ser cangaceira nem ser assassina. Consumou a vingança que prometera a si mesma e seguiu sua vida. 

          Creuza por sua vez vivia num dilema. Tornara-se uma assassina apenas por ser necessário para estar ao lado do amor de sua vida. O que era apenas um desejo de vingança por uma criança ferida por uma atrocidade, tornara-se uma mera trivialidade.

          Na religião ela encontrou ética e rigor. Na sua fé ela encontrou regras a serem seguidas e obedecidas. Uma opinião sobre certo e errado além do que sua vida, regada de sangue, havia lhe mostrado. Tinha um passado obscuro, tinha desejos tenebrosos, mas sua fé definitivamente, não era falsa. 

2 comentários:

Adilson disse...

Pois é, nem a fé de um assassino pode ser questionada, pois a fé não costuma falhar.
P.S.: Senti falta da trilha.

Alex Pedro disse...

EU também senti falta. Ja providenciei

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