O Menino que não podia morrer... Capítulo 14

domingo, 1 de abril de 2012

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          Dona Lira andava devagar pela Estrada de terra, com Tia Rute pendurada em seu braço. Ambas estavam suadas, cansadas, e com cabelos levemente bagunçados. Tia Rute parecia frustrada, irritada por qualquer razão, enquanto Dona Lira apenas parecia indiferente. Uma indiferença nascida da tristeza. Era uma mulher cansada. 

          “Alguma coisa deu errado...”, murmurou Tia Rute para si mesma. Dona Lira apenas seguia seu passo lento. “Alguma coisa deu errado...”.

          Quando chegaram até o orfanato, Hortência descascava batatas para o jantar, e Gilmar estava trocando algumas telhas de sua casinha. Ao que parecia, tudo estava normal. Tia Rute largou o braço de dona Lira e fora ver o pequeno Laio. Ajoelhou-se ao lado do menino, bateu duas palmas na altura da boca e murmurou algo. 

          - Por aqui ficou tudo tranqüilo enquanto estivemos fora? – perguntou Dona Lira à Hortência, na cozinha.

          - Sim, dona Lira. Os meninos dormiram quase que a tarde toda. Deve ser o calor. E como foi o menino, já ficou com o pai, então?

          - Oi? Ah, sim. Claro.

          - Esse povo vem buscar vocês duas, mas nem se dão ao trabalho de trazê-las até a porta. Acho um desrespeito isso.

          - É porque eles já tem o que querem...

          - Quando eles tem o que precisam da gente, a gente já não importa mais... – murmurou a garota.

          Dona Lira a olhou, como alguém que percebe ouvir mais do que fora dito.

          - Tem razão. – tocou no ombro de Hortência. - Querida, vá descansar um pouco, eu termino de preparar o jantar.

          - Muito obrigada.

***

          A noite estava escura, fria, e a luz branca da lua tornava o quarto de Gilmar, claro e com paredes pálidas. Havia passado das dez horas da noite e, como de costume, todos já estavam em suas camas. Gilmar estava deitado, inquieto, incomodado. Algo o perturbava. Algo o deixava confuso. Ouviu passadas macias no jardim. Caminhou silencioso até sua janela e, por uma fresta, vira três pessoas andarem em passos calmos. Eram duas mulheres de vermelho, e o terceiro tinha três metros e andava como se fosse...

***

          Gilmar estava na floresta. Havia ele, a luz da lua que sacrificava-se para alcançar o solo, cortando as silhuetas das milhares de folhas e galhos. Raro era o lugar em que a luz alcançava o chão. Ele caminhava, e seguia o homem grande. Um macaco que andava feito homem, com pouco mais de dois metros. Ele seguia a criatura, que jamais olhava para traz.

          O Macaco então chegou a um campo, aonde a luz branca da lua cheia marcava o solo batido. No centro havia uma pedra e havia um circulo de crânios de crianças. Sombras vibravam no chão branco. Sombras de aves. Não, eram crianças mortas. Voavam em círculos.

***

          Um menino caía do céu. Ele o vira cair. Sim, não fora uma confusão, ele realmente caiu do céu.

***

          - Aaaaarh! – gritou Gilmar, caindo em sua cama, como se estivesse flutuando sobre ela. Sentou-se, assustado.

          Foi até a “Casa das Crianças”, que era aonde dormiam os garotos e as mulheres. Laio dormia, O Menino dormia,as demais crianças dormiam. E um ronco audível vinha do quarto onde dormiam as duas senhoras. Voltou para sua casinha, e tentou dormir.

6 comentários:

Adilson disse...

Intrigante... Me confundo com as visões de Gilmar, se são reais se são coisas de sua cabeça... E a riqueza de detalhes descritos no texto me fazem quase estar no cenário da história, isso que é envolver o leitor, rs. Me senti assim somente uma vez na vida. Que venham os demais capítulos.

Anônimo disse...

esta caverinha me assustou, mas o texto me segurou kkkk

Anônimo disse...

esta e a marisa donald comentando acima, so foi assim q consegui comentar rsrsrs

Alex Pedro disse...

Sério que se impressionou com o cranio?
Eu achei tão bonita. Apesar de se tratar do crânio de uma criança, tem esse efeito de passagem de tempo, umidade, fungos, achei a imagem até bem poética.

Phê Brito disse...

essa caveira não me fez pensar na passagem do tempo.

Phê Brito disse...

Com relação a história em si, eu fiquei bem assustada, mas pelo menos já acho que minha teoria sobre o Menino foi por água abaixo.
As imagens iniciais de cada texto, tem influenciado muito a minha leitura.

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