O menino que não podia morrer... Capítulo 15

domingo, 8 de abril de 2012

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          O padre entrou naquela que era uma das mais suntuosas casas da cidade. Ficava num lugar afastado, quase tanto quanto o orfanato, mas em uma direção totalmente oposta. Fora ali muitíssimo bem recebido pela governanta da casa, uma senhora negra, ex-escrava, com quem tinha uma forte ligação.
          - Anamaria, preciso falar com o Bartô Scheider...
          - Padre Onório, que boas noticia traz o senhor?
          O padre sorriu, e olhou para o papel em sua mão, entregue por Gilmar.
          - Ah, minha  velha amiga, hoje o padre veio em busca de conselhos com o judeu.
          - Vixe! – A senhora riu. – Seu Bartô tá adoentado, mas o padre eu acho que ele recebe. Senta aqui, padre, sinta em casa. – disse ela ao padre, acomodando-o no sofá, e depois gritou para uma empregada – Dorotéia, traz refresco pro padre. – sorriu para o padre. – O senhor me dá licença, vou avisar Sêu Scheider.
          Ela caminha rápida por um corredor. Menos de um minuto ela volta.
          - Padre, o senhor não se incomoda de vim no quarto?
          O padre se levantou e acompanhou Anamaria, que o levou até um quarto de uma decoração sofisticada, apesar de simples. Na cama de casal estava um homem velho, com rugas que denunciavam anos de uma repetida expressão de paciência e humildade. O padre sentou num canto da cama.
          - Obrigado Anamaria. Prepare um café para o padre e eu, sim?
          - Sim senhor, com licença. – ela sai do quarto e fecha a porta. – Padre Onório, sempre me alegra recebê-lo no teto de minha família, no entanto, o feitor me havia adiantado que estava preocupado, e que havia algo de importante a tratar comigo. Como poderia ser útil?
         - Era sobre isto que queria conversar, Senhor Schneider... – disse o Padre, entregando o papel dobrado que havia recebido de Gilmar. – Um paroquiano encontrou uma gravação embaixo da cama de um enfermo, e tratava-se dessas inscrições.
          Senhor Schneider abriu o papel e encontrou ali um texto formando um hexágono, dentro dele outros dois textos. O judeu franziu o cenho. Girava o papel lentamente.
          - Gravado como?
          - No assoalho, a madeira fora gravada com esse texto, que me pareceu hebraico...
          - Sim, é hebraico... Antigo...
          - Em uma enfermaria. Uma criança adormecida por longos meses, alimentada com caldos, banhada com panos. O que me parece é ser uma simpatia pagã, algo do gênero. No entanto, as pessoas que poderiam ter feito isso mal são alfabetizadas em português.
          - Enfermaria? Isto está no ambulatório da cidade? – perguntou Sr. Schneider.
          - Na verdade, não. Sabe aquele orfanato? Um garoto, doze ou treze anos. Uma das senhoras sempre faz de suas mandingas para cuidar das crianças.
          - Isto aqui está sob a cama de uma criança adoecida? – o judeu perguntou, com um olhar sério.
          - Sim. Consegue ler? – indagou o padre.
          - Consigo. Como descobriu isto?
          - O caseiro do orfanato encontrou e me trouxe. Algo incrível aconteceu, Bartô, quando ele me mostrou esta reprodução. Um vento escancarou as portas da igreja e apagou o círio pascal. Isto não é comum, as portas são pesadas, e o senhor bem sabe que a qualidade da cera e do pavio do círio pascal é inquestionável. Mas diga-me, o que está escrito?
          - Aqui diz... – e ele recitou em hebraico, a reprodução que Gilmar fizera da gravação. As cortinas começaram a agitar-se, e uma nuvem cobriu o sol inteiramente. – Em português, em uma tradução improvisada e leviana é algo como:
          “Este espírito é levado para o inferno. Com a mão direita do pai Beliel;  mão esquerda do príncipe Baal, sua alma alimente a fome do pai Beliel, seu espírito receba o espírito do príncipe Baal. Nossa idade para vós, tua sabedoria para nós. Este sangue para Belzebu, esta carne para o Cão.”
          Os dois assustaram-se com o som da bandeja de prata e as xícaras de café que Anamaria derrubara no chão, aterrorizada com o que acabara de escutar.

2 comentários:

Adilson disse...

A ilustração é de dar arrepios.
O texto grava do por Gilmar, nem se fala...
"Bóra lá que tá" ficando bom.

Junior disse...

que medooooooo

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