O Menino que não podia morrer... Capítulo 16

domingo, 15 de abril de 2012

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          Naquela manhã Gilmar tomara café no quintal, cuidando das galinhas, sem falar com ninguém. Naquela manhã, Hortência não sentara na mesa para tomar café. Andava com a caneca de um lado para o outro. Naquela manhã dona Lira servia as crianças na mesa, inquieta e pensativa. Naquela manhã tia Rute não tomara café.

          Não que não tivesse fome. Tia Rute estava incomodada. Alguma coisa estava dando errada. Ela olhava pra Hortência, que parecia ter acordado angustiada por alguma notícia triste. Não tinha nunca reparado se tinha afeição pelo menino adotado. Poderia ser um pesadelo. E tinha aquele Gilmar, que parecia cuidar de sua própria vida. E tinha também sua própria inquietação. Ela saiu da casa devagar.

          Gilmar percebeu a velha vindo com sua habitual lentidão, e fez que não notou. Foi para mais distante, cortar lenha. Apoiara tocos e mais tocos na árvore serrada de um metro.

          Gilmar partia a lenha em machadadas únicas. Partiu uma, duas, três. A velha chegou. Sentou-se no toco de uma árvore serrada, como se o desafiasse. Ele cortou a letra passando o machado a centímetros do corpo da senhora, que lhe olhava fixamente. Ela sorriu-lhe com os lábios, apesar dos olhos inexpressivos.

          - Você não parece bem, Gilmar.

          - Não, tia Rute. Não estou bem. – disse ele, com naturalidade.

          - Algo que eu possa ajudar? – ela disse. Seu sorriso permanecia inerte. Ele olhou para sua boca. Faltava-lhe muitos dentes e os dentes eram já curtos e gastos pelos anos.

          - Não sei. Talvez sim. Sabe, ando com dores de cabeça. Sinto alguns enjôos as vezes.

          - Veja pelo lado bom, se fosse mulher, eu diria que era um problema de gravidez.

          - Se fosse isso não seria um problema. Crianças são bênçãos, não?

          Os dois riram discreta e falsamente.

          - É verdade. – ela disse simpática. – Por isso que incentivamos e facilitamos adoções.

          Gilmar apoiou o machado no ombro.

          - Então porque não fui adotado?

          - Acredite, rapaz, foi melhor pra você.

          Permaneceram em silêncio, olhando olhos nos olhos, sem expressão. O sorriso dela desaparecera, mas no lugar não havia expressão de tensão, raiva, ou coisa parecida. Apenas uma expressão vazia.

          - Gilmar? Seja sincero. Em que condições encontrou aquele garoto?

          - Eu estava na carroça quando o vi caindo do céu e o trouxe.

          Ela permaneceu olhando para ele, até que começou a rir. E aquele riso era sinistro, mas profundamente sincero. Gilmar rira. Jamais rira com ela. Ela, por sua vez, não devia rir a muitos, muitos anos.

          Ela se levantou do toco, deu-lhe um tapa no ombro.

          - Termine aí, meu filho, e depois tome o café decentemente. – e virou-se para a entrada que levava à cozinha. Dona Lira olhou para a cena sem entender. Quando a velha chegou na cozinha, olhou para Lira. Ainda ria com alegria, mas cessou o riso num momento rápido. – Esse menino não deveria estar mais aqui, Lira, e agora é tarde demais. 
 

1 comentários:

Adilson disse...

De onde teria vindo o menino? Que surpresas ainda é reservado para cada um do orfanato?
Aguardo o próximo capítulo. rs
Está boa a história, Alex.
Ora nos brinda com uma carga de suspense pesada, ora nos faz voltar aos níveis normais de adrenalina, "bóra lá", falta muito para sab/dom??? rs

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