O Menino que não podia morrer... Capítulo 22

terça-feira, 29 de maio de 2012

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          Padre Onório relia seus livros, ansioso. Mas tudo o que via eram Mitos. Não sabia mais do que Gilmar lhe dissera, e sequer podia teorizar.

          Baal era um deus pagão, antigo, desde antes de se falar em Javé, assim como Beliel. Por vezes, confundidos. Paralelos, por exemplo no caso de Baal para muitos estudiosos, a Cronos, como Javé a Zeus... Ao passo que sacrifícios de animais, e mesmo humanos, eram freqüentes entre os seguidores “tribais” destas entidades, Javé, ou Jeová não fugia disto. Não se relatava nas escrituras perseguições dos “baais” contra os seguidores do deus de Abraão. Embora o contrário fosse injustificavelmente enaltecido. Injustificavel, alias, é um termo gentil.

           As escrituras dos filhos de Abraão eram claras. Rezar para outro deus era um crime pelo fato de ser uma ingratidão com o deus de nossos pais, que criou o universo, e nos libertou do Egito. Pois os outros não existiam, logo, jamais atenderiam prece alguma.

          Jeová cobrava gratidão porque fazia com que aquilo que plantassem crescesse, o que a ciência hoje credita a ciclos naturais, cuidados manuais e dedicação. “Deus ex machina”. Padre Onório pudera reconhecer isto, embora jamais confessasse isto quem quer que fosse. O deus de Abraão não era o Criador, mas um deus pagão que assumia mérito de absolutamente todas as coisas, e endemonizava aquele que discordasse. Cobrava, como registram as próprias escrituras, que matasse aquele que discordava diante de todos, para que servisse como exemplo. Que matassem quem os ouvisse também, pois também serviriam de exemplo.

          Era o deus de Abraão, e não de Noé, pois o padre pudera encontrar o mito de Noé em muitas civilizações com muitos nomes diferentes: Utnapishtin, Atrahasis, Gilgamesh... Lendas que contam a mesma história, porém em registros anteriores às primeiras revisões do Gênesis, Bereshith, ET Cetera. A origem “monoteísta” era uma origem com muitos deuses. Vaidosos como em quaisquer mitologias.

          Padre Onório era um padre pelo prazer em ser ouvido, e acreditava no exemplo de Jesus, mas questionava um pouco além do que as religiões lho permitiam. Tinha uma visão ainda imparcial e desesperadamente concentrada em entender a origem através da ciência, sabendo, por suas próprias experiências, que havia mistérios, e que os olhos eram matérias cujo poder não calculava tudo o que poderia estar ao seu redor.

          A mesma bíblia que dizia que deuses pagãos não existiam, que não havia lógica para se devotar a qualquer um deles, contradir-se-ia alguns capítulos a seguir chamando-os de demônios, com passado ligado à criação do mundo, e traição do criador. Algum dos dois raciocínios do livro sagrado mentia, para na outra omitir-se. Isto sempre soube, era inquestionável. Se os deuses pagãos não existiam, como poderiam ser algozes? Se eram demônios, antagonistas, como poderia o senhor dizer-se traído pelos “baais” por rezarem para algo imaterial inexistente?

          O padre, quando rapaz, confrontara-se com o que lhe parecia uma possessão, e até sua velhice, lembrava-se de tudo como se fosse recente. E suas duvidas sempre ansiaram por respostas. Desejava, reconhecendo o próprio egoísmo, que realmente o orfanato pudesse ter alguma ligação demoníaca com Baal, Beliel, ou qualquer outra entidade que pudesse chamar de demônio.

          Resolveu investigar a história do orfanato. Conversou com tabeliões, delegados, moradores antigos... Eis o que, em poucas horas, conseguiu descobrir.

          “O sítio fora comprado a quase sessenta anos. Por um italiano chamado Giuseppe Giardini e sua esposa Denise. Vieram para o Brasil antes da grande imigração italiana. Pouco se sabe de suas origens e sua família.

          “Jovens, Giuseppe e Denise compraram o terreno com o sonho de plantar uvas, para fazer vinho. Poucos anos depois, tomou a guarda de Rute, filha do pai de Giuseppe com uma mulher brasileira. Seus pais teriam morrido em um acidente desconhecido. A vinda de Rute teria representado uma ajuda importante, pois poucos anos depois, começaram, em um tempo curto, a enriquecer. Ergueram uma casa maior, na época, suntuosa, porém, pouco tempo depois, Giuseppe morreu.

          “Meses após a morte do marido, Denise deu a luz à Lira. Devido a dificuldades e inexperiência, não souberam gerir os negócios e ficaram pobres. Quando Lira tinha por volta de doze anos, dona Denise Giardini adoeceu gravemente, embora relatos digam que devido a gravidade de seu estado, era uma grande surpresa que Denise tenha vivido mais quatro anos nesta condições, sendo cuidada pela cunhada e sua filha Lira.

          “Denise morrera na manhã em que Lira completou dezesseis anos. Poucos meses depois de sua morte, Rute e Lira transformaram a casa em um orfanato. Era o que se sabia, sem muitos pormenores, como oficial.

          Para ele não bastou. Ele ficou intrigado. E as adoções? Era o próximo passo. A legalidade do orfanato.

    

O Surpreendente Caso de Oswaldo Carvalho

sexta-feira, 25 de maio de 2012

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          Quando Oswaldo Lúcio de Carvalho deixou o Rio de Janeiro, o que ficou para trás fora muito mais que as frustrações de um homem em busca de mudanças. Havia o peso de uma história que ninguém jamais viria saber, não fosse esta carta encontrada anos depois . Eis o que diz:

          “O homem entrou em minha casa, munido de um lampião e uma foice. Eu o vi pela janela, perambulando, como se achasse que estávamos dormindo. Sai da casa, e fiquei escondido atrás de uma arvore no jardim. A mais próxima da porta dos fundos. Quando ele passou, eu peguei um pedaço de pau e bati com força na cabeça dele. Ele tombou. Teria morrido?

          “Não. Ele deu uma risada como um caiçara entretido, indiferente à minha pancada, e até mesmo indiferente à minha presença. Ele entrou como se nada tivesse acontecido. Foi direto até o quarto de minha filha Elisa. Eu o puxava, o forçava, empurrava e batia. Ele dava aquele riso descontraído, indiferente, e dizia alguma coisa em uma língua estranha. Parecia tupi.  Ergueu a foice e com brutalidade passou a lamina pelo pescoço da garota de 12 anos. Eu gritei. Dei-lhe outra pancada. Ele caiu no chão, desacordado por dez segundos, até que aquele riso maldito recomeçou.

          “E o infeliz falava comigo. O que ele queria dizer, eu não sabia. Mas ele parecia justificar o que fazia. A menina estava morta na cama, com a cabeça cortada, embora não havia nenhuma gota de sangue sido derramada. Eu gritei de dor. Segurei-o pelos braços, bati nele, derrubei no chão, o chutei. Ele levantou e, desvencilhando-se de minhas agressões foi até o quarto onde Lucita, a empregada, dormia.  Ela estava acordada. Não o viu. Em pé, ele deslizou a foice pelo ombro direito dela até atingir o coração, e ela caiu no chão, morta.

         “Gritei, num uivo de ódio e desespero. Maldito seja. Ele ria, e me explicava como se aquilo fosse natural, o que quer que estivesse dizendo com aquela cara cínica. E na porta ao lado, entrou no quarto de minha mãe. Quando levantou a foice para o golpe mortal, eu a arranquei da mão dele, e resolvi matá-lo. Ela atravessou a superfície de sua pele, como se nem ao menos existisse. Ele riu e me explicou o que acontecera. Derrubei a foice. Ele a pegou do chão e foi explicando sua rotina. Tinha pressa.

        “Matou minha mãe! Ele matou minha mãe, que ficou ali, inocente em um sono dos anjos. Chegou até a porta do quarto meu e de minha esposa. Ele estalou os dedos, como se quisesse chamar minha atenção para alguma coisa. Apontou para Luciana, minha mulher, que levantava da cama, lentamente, com olhos quase fechados, sentindo muito sono. Mas não a matou.

          “Fiquei surpreso. O homem deu as costas para nosso quarto e caminhou em direção a cozinha. Eu o segui. Ele chegou perto do fogão, e apontou para o próprio nariz. Me aproximei. O gás do fogão estava aberto. Desesperadamente, tentei girar o botão, mas não havia força que pudesse fazê-lo girar. Olhei para o homem, ele sorriu com um olhar de pesar, e ergueu a foice. Quando minha mulher chegou  na cozinha, ela tocou no interruptor da luz. Ao passo que seus dedos ligavam a luz, a foice caia sobre ela que, num susto, morreu.

         “Eu acordei no meu escritório, após dormir diante de minha máquina de escrever, e soube horas depois que minha casa havia explodido e a morte levado toda a minha família.

 Seu passado
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O que é que a gente precisa pra ser feliz?

quarta-feira, 23 de maio de 2012

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Será que um grande amor?
Será que muito dinheiro?
Será que as duas coisas?
Amigos de verdade?
Conforto?
Tempo?
Chocolate?
Sexo selvagem?
Sexo com carinho?
Viajar pra Paris?
Verão na Grécia?
Sorvete Häagen-Dasz?
Massagem nas costas?
Caricia nos cabelos?
Beijos demorados?
Aplausos?

Afinal, felicidade não existe. O que existem são momentos felizes, espalhados por um amontoado de situações caóticas e imprevisíveis que a gente chama de vida.

O Menino que não podia morrer... Capítulo 21

segunda-feira, 21 de maio de 2012

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          Tia Rute, com seus olhos já pouco confiáveis, aproximou-se para ver o menino de perto. Era uma criança linda, de pele radiante, olhos tão pretos que não se distinguia íris de pupila, sobrancelhas ligeiramente grossas, que emolduravam um olhar sério, mais penetrante do que poucos adultos.

          - Tudo bem? – perguntou a velha, numa curiosidade quase infantil. O menino estava silencioso. – Eu sou a tia Rute. Qual o seu nome?

         Ele permaneceu em silêncio olhando nos olhos dela. Atrás de Tia Rute surgiu Hortência na porta, que emitiu um ruído de surpresa, que atraiu a atenção de Dona Lira, e das crianças que estavam ali, e que começaram a correr, ansiosas, chamando as outras, e Gilmar. Todos olhando para o menino, silencioso. Olhava aparentemente sem expressão, embora seu olhar escondesse uma força muito grande. Ele olhou para Gilmar.

          Na cama, Laio sentou-se e olhou para tia Rute. Aproximou-se dela e a segurou pelo pescoço. A velha, sem força alguma cedeu e despencou morta.

          Não, isto não aconteceu. Ela estava sozinha com o menino. Angustiada. Laio estava deitado na cama como sempre estivera. Aquilo parecera tão real. Mas era sua imaginação.

          O menino a olhava com aquele olhar terrivelmente intimidador. Diante dele ela viu-se sendo apenas uma velha, frágil e deveras ignorante.

          - Mikail.

          - Você sabe quem são seus pais?

          - Eles não existem mais.

          - Morreram?

          - Muitas vezes.

          Silêncio. Encolheu-se, tensa.

          - Só se morre uma vez. – disse ela, quase impondo um conceito.

          - Isto também é verdade.

          Ele não piscava, e seus olhos mantinham-se vivos e brilhantes. Ela se sentia acuada.

          - E de onde você veio?

          - Isso eu não sei dizer. – ele disse, inexpressivo.

          A velha ficou olhando pra ele esperando dizer algo, mas ele nada dizia. Ela sentiu uma sombra atrás de si e ali estava Laio olhando para ela. A velha gritou, e tropeçou. Olhou para Mikail, e o menino estava adormecido, como sempre esteve. Laio estava na cama. Dormia.

          A velha saiu, como se tivesse anos a menos, aos tropeços. Mikail, sentado, a olhava com censura.    

O amorzinho perfeito e chato de Bunitinha e Helinho

quarta-feira, 16 de maio de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida pelo clima tropical, que deixava no ar aquela brisa suave que erotizava os mais velhos, e apaixonava os mais jovens. Assim era com Dona Bunitinha e Helinho.

          Hélio era um menino bonzinho. Todo mundo achava ele um menino bonito. Todo mundo admirava suas notas na escola. Todo mundo dizia que seus dentes eram bonitos. Todo mundo dizia que ele seria doutor. Hélio era um menino bonzinho.

          Bunitinha era uma menina boazinha.Todo mundo achava ela bonita. Todo mundo admirava suas notas na escola. Todo mundo dizia que seus dentes eram bonitos. Todo mundo dizia que ela seria doutora. Bunitinha era uma menina boazinha.

          Helinho era popular na escola. Todas as meninas queriam ficar com ele. Ele era um menino que gostava de esportes, então tinha um corpo bonito e as meninas mais assanhadas tentavam seduzi-lo de formas libidinosas, sempre sem sucesso, o menino era doce, puro e gentil,e não cedia à sem-vergonhices.

          Bunitinha era popular na escola. Todos os meninos queriam ficar com ele. Ela era uma menina que gostava de esportes, então tinha um corpo bonito e os meninos mais assanhados tentavam seduzi-la de formas libidinosas, sempre sem sucesso, a menina era doce, pura e gentil, e não cedia à sem-vergonhices.

          Certa manhã de uma primavera, Bunitinha saiu para passear. Na praça, comprou algodão doce, e andava, balançando o bracinho esquerdo, feliz e sorridente, toda perfeitinha.

          Certa manhã de uma primavera, Helinho saiu pra passear. Na praça, comprou pipoca e andava, balançando o bracinho direito, feliz e sorridente, todo perfeitinho. Mas algo aconteceu. Acidentalmente sua mão direita bateu delicadamente na mão esquerda de Bunitinha, que olhou para ele, em câmera lenta.

          Um vento forte bateu no florido ipê da praça, e as flores rosa voaram ao redor deles, como numa chuva. Era a hora da missa, e o sino da igreja começara a tocar. Os dois ficaram se olhando, e sabiam que tinham encontrado o amor da vida.

          O menino mais perfeito encontrara a mais perfeita menina. O que poderia ser mais sem graça do que isso?

          E era aquele namoro sem graça, bobo, sem tesão, sem afeto, e repleto de “nhê-nhê-nhê”. Todo mundo tinha inveja, o que era uma tolice. Fizeram amor no terceiro ano do namoro.

          Eles não se acariciavam. Deram um abraço, insosso, com ela apoiada em pé numa árvore, e ele começou a encaixar o pênis na garota. Estavam no mato. Ele enfiou. Ela gemeu, e ele tirou imediatamente, com medo de tê-la ferido. Ela o empurrou no chão e sentou no cacete do menino e começou a rebolar feito uma doida. Não parava mais.

          “Oxi, minha Bunitinha, que meu pau ta ardendo.”

          “Ai, Helinho, é bom dimais”.

          E foi a primeira vez que ele a agarrou pela cintura, com vontade e fungou no pescoço dela. Foi a primeira vez que ela sentiu algum prazer ao beijá-lo.

          Acharam tão bom, mas tão bom, ela começou a dar pra todo mundo. Helinho começou a desvirginar tantas meninas quanto pode. Alguns pais o juraram de morte, e ele resolveu fugir. Bunitinha fugiu com ele.

          Em Salvador, começaram a assaltar bancos, e dar golpes em turistas desavisados. Foi em Salvador que os dois, outrora o menino perfeito e a menina perfeita, tiveram suas primeiras experiências homossexuais.

          Sim, as primeiras, porque no Rio de Janeiro essas experiências já eram incrivelmente avançadas. Helinho não podia olhar um rapaz musculoso que já começava a engolir seco. Adorava homens negros com suas malas avantajadas.

          Bunitinha, por sua vez, no Rio de Janeiro, havia cortado os cabelos curtos, usava desodorantes masculinos, tinha brincos e piercings e parecia um moleque skatista. Era mais macho que Helinho.

          Helinho virou ator, e foi por anos o amante de um diretor de telenovelas., ficou famoso, e foi um galã cobiçadíssimo, muito amigo de Jennifer Cristinny. Bunitinha começou a cantar MPB, e acabou ganhando destaque da mídia. Adorava mulheres mais velhas, e seduziu todas as apresentadoras de televisão quanto pode. “Lingüinha de veludo”, era seu apelido no meio artístico.

          O casal perfeito, no fim, realmente deu certo na vida. Os perfeitinhos, chatinhos, nada mais eram do que vulcões ativos que esperavam pela primeira oportunidade de lambuzar o mundo com sua lava quente, úmida, e devassa.

O Menino que não podia morrer... Capítulo 20

segunda-feira, 14 de maio de 2012

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          Padre Onório entrou em seu quarto e trancou a porta. Abriu seu armário, e retirou alguns livros, um a um, jogando-os sobre sua cama. Uma bíblia comum, numa edição até um pouco recente, seguida por uma Torá, Corão, um antigo testamento em latim e um grimório sem capa que ele havia resgatado em uma missão quando esteve na Espanha.

          Padre Onório era um homem do sudeste do Brasil, mas desde novo demonstrara suas vocações eclesiásticas. Aos dezoito já completava seu terceiro ano na Itália, e, já com a devida formação, o jovem padre era enviado para trabalhos missionários em regiões remotas. Seu superior o convidara para uma volta pelas ruelas de Lanciano, e ali ele olhara para os olhos do jovem rapaz com um olhar perfurante como jamais ele recebera na vida, e perguntou “Até que ponto acreditas no Senhor?”

          O rapaz entendera a pergunta, mas não foi fácil responder, pois havia certamente um questionamento mais espiritual do que filosófico naquela pergunta.

           “Isto depende das experiências que tive. Sou grato pela minha vida, aprendi a crescer pelas dificuldades e limitações, e isto tudo me tornou, acredito, mais forte do que já fui um dia. Hoje, acredito com toda a minha determinação.

           “Entretanto, sem saber a motivação de sua pergunta, também poderia ser justo dizer que não acredito. Qual o intento?

          - Sabe, meu filho, há mais cousas entre o céu e a terra do que determina nossa pobre filosofia.

          - Shakespeare? 

          - Shakespeare. Disseram isto antes dele, mas merece o crédito. – riu. – O que é que Padre Aragonés costuma dizer sobre ele?

          - Que ele é um homem que pensava. Que pensar é perigoso...

          - Exato, Onório, - disse o superior, com seu sotaque grego. – Para alguns, na religião, o perigo é por desafiar a Deus. Mas a meu ver, o perigo de se pensar é muito pior...

          - O que seria, irmão Napadopoulos?

          - Você cair na armadilha da tua própria criatividade. A imaginação e o excesso de informações consumirem sua lógica, e você pode se perder entre a realidade e a loucura. Descobrir algo que não se é capaz de entender, meu filho, esse é o grande perigo. Expor-se a possibilidades sobre Deus, nosso Senhor Jesus, e perder-se de si.

          - E existe algum conhecimento que possa causar isso?

          - Há, - o padre respirou fundo. – Muitos. Alguns que podem fazê-lo perder o respeito pela doutrina. No entanto, estes mesmos podem aproximá-lo muito mais da figura de Cristo. Há muitos dilemas complexos dos quais só se entende, ou não, na maturidade. 

          - Onde desejas chegar?

          - Desejas ser tentado? Testado? Instigado?

          - Contra Deus? – indagou o jovem rapaz.

          - Aí que o gato sai do saco, meu rapaz. Pode-se interpretar como contra Deus, mas pode-se tambémr como uma oportunidade de testar as certezas.

          - Eu quero!

          Quatro dias depois, o jovem viajava para a Espanha. Alegrou-se por saber que estava em uma estrada do famoso caminho de Santiago, perto de Portugal, embora desviaram depois de pouco mais de 6 horas para uma vila, hoje inexistente, aonde havia pouco mais de cem moradores. Ali ele era esperado em uma estalagem, aonde encontraria o Padre Alvarez.

          Por dois dias ele esperou, ocioso, pela vinda do padre. No amanhecer do terceiro dia, frustrado, começou a investigar. Disseram que o padre havia partido fazia vinte e três dias para a casa de um homem chamado Gonzalo Casamajor. Perguntou para quem pode, mas as pessoas temiam falar sobre o lugar.

          Uma mulher velha o surpreendera quando comprava uma maçã, e lhe apontou uma estrada escura. “Casamajor...”. O jovem a olhou sério, e olhou para o lugar. Sentiu medo pela primeira vez. Seguiu em sua direção.

          Era sobrenatural, era maligno. Ele caminhava naquela estrada escura, fria, úmida, e sentia-se observado, não por animais, ou pessoas, era como se fosse visto por cima. Estava vulnerável. Sabia disto.

          Deixou uma medalha grande de São Bento pendurada no pescoço, e tirou do bolso a cruz estranha que havia ganhado dias antes do padre Napadopoulos. De prata. Media quase vinte centímetros, e abaixo dos pés de Jesus havia um crânio com dois ossos atrás dele formando um X.

          Havia uma casa pequena na frente. Ao se aproximar vira uma mulher com o pescoço quebrado, caída no chão. Estava diante da porta. A cabeça estava completamente virada para trás. Havia dois olhos em suas mãos.

          Onório, aterrorizado, passou por cima dela, e entrou na casa. Um cheiro de podre insuportável. Viu próximo à porta um homem deitado. Um camponês. Tinha os olhos arrancados das órbitas. As mãos estavam sujas de sangue, e havia uma faca em seu peito. Quem a havia cravado fora uma terceira pessoa, um homem alto, moreno, de meia idade, que vestia uma batina. O rapaz ficara aterrorizado. Ouviu um gemido vindo da direção de onde estava o padre, mas o padre estava realmente morto. Era outra pessoa quem gemia.

          No meio de uma sala estava um menino com os membros virados ao contrário. Os olhos brancos, com pálpebras vibrantes. Tinha seis anos. Estava de quatro, como uma aranha, e a cabeça pendurada como se não tivesse ossos no pescoço. Aquela boca arreganhada que agonizava, e fazia sons de gemidos que pareciam de prazer.

          “Me mate”, ele pensou dentro de sua cabeça. Arrancou o punhal do peito do camponês e foi em direção a criança, que levantou a cabeça de forma grotesca e disse.

          “Liberate tutemae ex inferis”.

         Ele arrepiou todo o corpo. Sentia seu coração pulsando em todo o seu corpo no meio do pânico. Quando preparou-se para a grande apunhalada, aquela criatura disse, entre gemidos inexpressivos.

          “Não é o diabo. É o seu pai”.

          - Meu pai era um homem bom.

          - Mas o outro não. O outro pede mais sacrifícios que eu. – e começou a rir de forma bizarra. – matam mais pelo seu pai que pelo diabo.

          Ele não conseguia rezar. Ergueu a cruz de prata. Era incompreensível se causava algum efeito na criatura. Não sabia nenhuma oração. Não se lembrava sequer do pai nosso.

          Como se uma nuvem inesperada cobrisse o sol, uma escuridão tomou o lugar. A criatura se moveu em sua direção, sem sair do lugar.

          - Não pode me matar. Pode matar a criança. Estará sacrificando ela pra mim. Ou para seu pai. O que não vem pra mim vai pra ele. – e riu.

          O rapaz chorou de ódio. Apertou a faca em sua mão.

          - Em nome de Jesus Cristo. – fez sinal da cruz. – Em nome do Espírito Santo.

         A criatura ria asmática, ao passo que os gemidos pareciam vir da criança.

          - Em nome de Javé, o pagão! – riu a criatura.

         O Padre correu e apunhalou o corpo da criança no coração. Quando a lamina perfurou o coração, os olhos castanhos surgiram e o encararam cheios de ódio.

          “Tolo”. E caiu no chão.

          Ao lado do padre havia um livro. Ele o recolheu e saiu da casa, sem qualquer fôlego, sem qualquer disposição. Como se estivesse à dias sem beber água, como se estivesse a dias sem comer. Como um homem que não dorme à semanas, como um pobre coitado que carrega o mundo nas costas. Voltou para a vila.

Um grito no fundo do abismo eterno do mar sem fim

segunda-feira, 7 de maio de 2012

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Isto já aconteceu faz quarenta e dois anos. É uma história ingênua, fala sobre um homem do estado do Acre que certa vez adormeceu com as costas apoiadas em uma seringueira. Seu desvio de septo o fazia respirar quase que assoviando, e ao fazer isso, inconscientemente e sem qualquer pretensão, ele entrou em um estado de alfa que o fazia canalizar a energia de seu corpo, amplificada pelos poderes pouco conhecidos da árvore em questão, e ele percebeu-se sendo possuído por um ser cujo tamanho era gargantuano, maior até que um continente, e anterior à própria formação do mundo.E aquele ser dormia. Apenas seu sono interagia com o sono do homem e, pobre criatura, o homem não poderia ter outro destino senão a morte.
 
Uma coisa é o sonho e o pesadelo de um homem, mas dentro de um homem não cabe o sonho(ou pesadelo) de algo etéreo tão poderoso e indubitavelmente  maligno. Aquele ser, pensava em coisas confusas. E o homem via. O homem via uma cidade aonde as pessoas eram boas e o chão esquentava ao ponto de matar tudo o que havia acima dele. Era aquele ser cósmico que causava aquilo. As pessoas morreriam, mas não era a morte o seu desejo, então elas sentiam a morte, seu desespero,mas ela jamais vinha. E nesta insuportável ausência de um fim, gritavam, loucas. Tiravam com as unhas a pele do rosto, arrancavam seus próprios olhos, mutilavam as línguas com os dentes, num êxtase terrível aonde os edifícios derretiam como gelo sob o sol.


Percebeu o homem que dormia apoiado na seringueira que nada daquilo acontecia de fato, mas que as pessoas acreditavam, e era a imaginação que interagia com aquele ser Elemental. Ele era o ser Elemental. Ele era aquela força maligna nascida nos confins do universo. Ele era aquele poder que alucinava. Não. Ele não era. Ele não percebeu que não era, porque num momento confuso, ele próprio começou a dilacerar o próprio rosto com suas garras, e forçava para que sua mandíbula se deslocasse e, com tanta força que a loucura lhe dava, arrancou-a com violência do rosto.  Gritava, enquanto destruía a si mesmo, numa queda livre súbita. Enquanto era sugado pela boca gigantesca daquele ser incomensurável.
Ninguém jamais ouviu seu grito, pois estava oculto pelo rosto sereno de um homem que morrera de maneira gentil, com as costas apoiadas numa velha seringueira.



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O Menino que não podia morrer... Capítulo 19

sábado, 5 de maio de 2012

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          Na enfermaria, dois olhos se abriram. O menino vindo do céu sentou-se. Parecia inconsciente. Não. Havia consciência. Surgia pouco a pouco. Havia dor naqueles olhos. Ele respirou fundo. Lembrava-se de algo vago. Havia escuridão profunda. Havia rancor, e havia tristeza. Uma nuvem de mágoas que flutuava entre paredes de madeira, e ali dentro o que fora uma pessoa séculos antes.

          Sua aparência era o acumulo do que sentia. Seus olhos traziam a mais profunda dor, a mais incompreensível solidão. Não tinha pele, era apenas uma superfície lisa, escura, sem qualquer semelhança com algo vivo. Não havia brilho em na superfície de seu corpo. Era opaco, e aquele rosto, quase uma fumaça homogênea portadora de um semblante triste. Não havia olhos, no entanto, havia aquelas duas fendas. Dentro delas havia uma luz fraca. Um orifício deformado por onde se ouvia um gemido triste, um lamento interminável. O menino entrara naquele mesmo ambiente.

          A criatura encolheu-se, como se tentasse esconder-se dentro de si mesma. A presença do garoto lhe causava dor. O menino sentiu-se triste ao notar isso. Mas precisava fazer algo.

          - Quem é você?

          A criatura ficou encolhida, fazendo um som que lembrava um choro. Não um choro real, mas aquele forçado, em que o coração quer transbordar, mas o corpo não deixa. O menino tentou se aproximar, mas o espírito urrou. Não queria ser perturbado.

          - Não tenha medo de mim.

          O espírito não o temia. Apenas sentia raiva. Uma raiva fecunda, vinda da menor partícula de sua existência. Queria ficar sozinho. Queria ser deixado em paz dentro de seu próprio ressentimento, dentro de sua tristeza.

          - Eu vim buscar você.

          O espírito gemeu, mas era um gemido de raiva, era um ódio triste. Ele se virou para o menino, e o encarou. O menino viu aquele semblante vazio. A humanidade fora esquecida pouco a pouco naquela criatura. Como as rugas que registram os risos ou amarguras no humano, aquele espírito fora assimilando pouco a pouco as feições do que sentia, e eram apenas elas que lhe registravam a face.

          Era a tristeza e o ódio personificados. Ele arreganhou aquela boca disforme e gritou. Ficou gigante. E gritava, como se o teto fosse intangível. O menino o olhava, mas sem intimidação. Sentira um desejo irresistível de chorar.

          Ali, naquele colchão, ele lembrara disso. E esta mesma tristeza lhe abatia.  
  
          “Não desta vez...” pensou.

          Ele olhou para a porta. Tia Rute entrara no quarto e o olhava com surpresa.

Paím Zémaria e seu cambono Djalma

sexta-feira, 4 de maio de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida pela diversidade religiosa. Entre padres e pastores, havia Paím Zémaria. Um senhor de pouco mais de cinqüenta anos, bastante afeminado, gentil, doce, e extremamente vingativo.

          Vivia com Djalma, seu cambono. Djalma era um negrão de um metro e noventa e oito, musculoso, massudo, beiçudo e faludo. Era cobiçado por muitas mulheres e, cônscio disto, Paím Zémaria estava sempre alerta.

          Certa vez no açougue Luzinete, uma das quengas de dona Satanilda viera conversar com Djalma.

          - Óli, hômi, tu sabe que sô bem da carinha, num sabe?

          O negão era simpático,e olhou para ela com um sorriso gentil. Ela continuou.

         - Sabe, um nêgo desses precisa nem cartão de credito. Paga com o...

         - Dé-jalma... – disse alto e manso o pai de santo. – Vem cá mais eu ségurá a sacola.

         O rapaz voltou até o pai de santo, e o auxiliou. Luzinete pegou sífilis naquela mesma semana.

         Dona Cambira, era beata, esposa de um fazendeiro. Certa vez, desconfiada que seu esposo a traía, resolveu apelar para o pai de Santo.

          - Paím Zémaria, meu marido ta me traínu.

          - Oxi, minha frô, tu sabe como?

          - Jader num voltcha mais antes que dá dez da noite.

          - Minha nêga, as veiz o homi tá trabalhano. As veiz o homi ta ocupadjo.

          A mulher ficou muda.

          - Jogue os búzios, Paím, joga que eu quero sabê é já.

          Paím jogou os búzios.

          - Óli, nêga, dicóráção. As veiz o homi ta ocupadjo e tu, ociosa em tua casa, comendo biscoitcho, fica pensando bobagem. Se ele estivesse te traindo. O que tu ia fazer, separar dele? Pra ficar na merdja?

           - Hum... Mas eu bem que pudia mandar dar uma coça na vagabunda.

           - Oxi, e o que tem haver o cú cas calça, fia? O safado é o hômi que tem a mulé em casa esperandjo com cumida quente e vontade de dá... Se ele te trai, o que tu vai fazer?

           - Nada. O que o búzios diz, paím?

           - Que teu marido é um santo.

          Sem dizer mais nada, a mulher pagou, e foi embora.

          - Do pau oco. – e riu preguiçosamente. – Dé-jalma... Venhe cá, nêgo. To aprecisado de um cadinho de amô...

          Seu Eriberto, marido de Dona Cambira, era um cliente antigo de Paím Zémaria. Recorria justamente para quebrar feitiços de inveja, e manter sua aura aberta para atrair coisas boas(mulheres). Era um cliente de Dona Satanilda.

          Dona Satanilda, alias, vinha, de tempo em tempo, fazer contribuições com o terreiro de Paím Zémaria. Não se aconselhava com ele, apesar de tê-lo como amigo. Certa vez lhe pedira para defumar Dona Quixota, seu bordel.

          Ele foi e Djalma o acompanhara. Que euforia houve naquele recinto. Entrou o homem negro, imenso, espadaúdo, como que em câmera lenta. As quengas pararam de conversar. Os olhos de paím Zémaria brilharam de raiva. Dona Satanilda percebeu e se assustou. Djalma não recriminava ninguém. Nem as mulheres nem os homens. Ele sabia que era gostoso, e que não tinha culpa de causar esse efeito, e era compreensivo com quem se abatia por sua aparência.

         - Dé-jalma, feche essa camisa, sim, meu nêgo?

         O negão fechou os botões. As quengas se aquietaram um pouco, embora não pudessem conter-se a olhar para os braços musculosos, ou para o volume de sua calça folgada. Nem pudessem deixar de perceber o gingado folgado ali na calça, que deixava claro que o rapaz não usava cuecas.

          - Dona Satanilda, Dé-jalma é um moço de respeitcho e eu não quero vadia niúma ofendendo meu menino. Manda essas pombajira sair daqui, sim?

          - Maínha tá enciumada... – uma delas murmurou a outra, debochando. Tropeçou e quebrou o a perna. Dona Satanilda se assustou e quis ajudar

          - Segure o defumador, deixe que as outras cuidam dela.

          Foi o que Satanilda fez.

          Paím Zémaria recebia o preto velho Pai Mané de Aruanda.

          Pai Mané era um escravo que a duzentos anos fora libertado, e viveu até os cento e vinte anos de idade, e teve cento e vinte netos. E teve cinqüenta e dois filhos.

          Paím Zémaria sofria, porque Pai Mané as vezes incorporava seu cavalo e saia, cabra macho que era, a procura de uma moça jeitosa pra fornicar. E pai Mané sabia fazer o serviço. Zurema, moça nova, bonita, vivia no terreiro, a espera que Pai Mané pegasse Paím Zémaria desprevenido e traçasse a moça. Pai Mané, em suas aventuras no corpo de Paím Zémaria, fizera sei filhos. 

          - Que nojo de minha boca... – dizia Paím – Dé-jalma, traz pra mim a cândida pra gargaréjá.

          Paím odiava Zurema, mas sabia que Pai Mané gostava dela. Olhava pra ela e se imaginava lambendo... “Deus quime-livre, gostcho nem de imaginá. Dé-jalma, venhe cá e tire a roupa que eu to carécendo de meu nêgo”.

          Paím Zémaria sofria com essa jornada sexual dupla, mas já estava acostumado. Não gostava das crianças que Pai Mané fizera. Achava que eram feias e só podiam ser filhos de preto velho. Djalma não gostava do preto velho, mas não se metia.

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