O Menino que não podia morrer... Capítulo 19

sábado, 5 de maio de 2012

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          Na enfermaria, dois olhos se abriram. O menino vindo do céu sentou-se. Parecia inconsciente. Não. Havia consciência. Surgia pouco a pouco. Havia dor naqueles olhos. Ele respirou fundo. Lembrava-se de algo vago. Havia escuridão profunda. Havia rancor, e havia tristeza. Uma nuvem de mágoas que flutuava entre paredes de madeira, e ali dentro o que fora uma pessoa séculos antes.

          Sua aparência era o acumulo do que sentia. Seus olhos traziam a mais profunda dor, a mais incompreensível solidão. Não tinha pele, era apenas uma superfície lisa, escura, sem qualquer semelhança com algo vivo. Não havia brilho em na superfície de seu corpo. Era opaco, e aquele rosto, quase uma fumaça homogênea portadora de um semblante triste. Não havia olhos, no entanto, havia aquelas duas fendas. Dentro delas havia uma luz fraca. Um orifício deformado por onde se ouvia um gemido triste, um lamento interminável. O menino entrara naquele mesmo ambiente.

          A criatura encolheu-se, como se tentasse esconder-se dentro de si mesma. A presença do garoto lhe causava dor. O menino sentiu-se triste ao notar isso. Mas precisava fazer algo.

          - Quem é você?

          A criatura ficou encolhida, fazendo um som que lembrava um choro. Não um choro real, mas aquele forçado, em que o coração quer transbordar, mas o corpo não deixa. O menino tentou se aproximar, mas o espírito urrou. Não queria ser perturbado.

          - Não tenha medo de mim.

          O espírito não o temia. Apenas sentia raiva. Uma raiva fecunda, vinda da menor partícula de sua existência. Queria ficar sozinho. Queria ser deixado em paz dentro de seu próprio ressentimento, dentro de sua tristeza.

          - Eu vim buscar você.

          O espírito gemeu, mas era um gemido de raiva, era um ódio triste. Ele se virou para o menino, e o encarou. O menino viu aquele semblante vazio. A humanidade fora esquecida pouco a pouco naquela criatura. Como as rugas que registram os risos ou amarguras no humano, aquele espírito fora assimilando pouco a pouco as feições do que sentia, e eram apenas elas que lhe registravam a face.

          Era a tristeza e o ódio personificados. Ele arreganhou aquela boca disforme e gritou. Ficou gigante. E gritava, como se o teto fosse intangível. O menino o olhava, mas sem intimidação. Sentira um desejo irresistível de chorar.

          Ali, naquele colchão, ele lembrara disso. E esta mesma tristeza lhe abatia.  
  
          “Não desta vez...” pensou.

          Ele olhou para a porta. Tia Rute entrara no quarto e o olhava com surpresa.

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