O Menino que não podia morrer... Capítulo 21

segunda-feira, 21 de maio de 2012

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          Tia Rute, com seus olhos já pouco confiáveis, aproximou-se para ver o menino de perto. Era uma criança linda, de pele radiante, olhos tão pretos que não se distinguia íris de pupila, sobrancelhas ligeiramente grossas, que emolduravam um olhar sério, mais penetrante do que poucos adultos.

          - Tudo bem? – perguntou a velha, numa curiosidade quase infantil. O menino estava silencioso. – Eu sou a tia Rute. Qual o seu nome?

         Ele permaneceu em silêncio olhando nos olhos dela. Atrás de Tia Rute surgiu Hortência na porta, que emitiu um ruído de surpresa, que atraiu a atenção de Dona Lira, e das crianças que estavam ali, e que começaram a correr, ansiosas, chamando as outras, e Gilmar. Todos olhando para o menino, silencioso. Olhava aparentemente sem expressão, embora seu olhar escondesse uma força muito grande. Ele olhou para Gilmar.

          Na cama, Laio sentou-se e olhou para tia Rute. Aproximou-se dela e a segurou pelo pescoço. A velha, sem força alguma cedeu e despencou morta.

          Não, isto não aconteceu. Ela estava sozinha com o menino. Angustiada. Laio estava deitado na cama como sempre estivera. Aquilo parecera tão real. Mas era sua imaginação.

          O menino a olhava com aquele olhar terrivelmente intimidador. Diante dele ela viu-se sendo apenas uma velha, frágil e deveras ignorante.

          - Mikail.

          - Você sabe quem são seus pais?

          - Eles não existem mais.

          - Morreram?

          - Muitas vezes.

          Silêncio. Encolheu-se, tensa.

          - Só se morre uma vez. – disse ela, quase impondo um conceito.

          - Isto também é verdade.

          Ele não piscava, e seus olhos mantinham-se vivos e brilhantes. Ela se sentia acuada.

          - E de onde você veio?

          - Isso eu não sei dizer. – ele disse, inexpressivo.

          A velha ficou olhando pra ele esperando dizer algo, mas ele nada dizia. Ela sentiu uma sombra atrás de si e ali estava Laio olhando para ela. A velha gritou, e tropeçou. Olhou para Mikail, e o menino estava adormecido, como sempre esteve. Laio estava na cama. Dormia.

          A velha saiu, como se tivesse anos a menos, aos tropeços. Mikail, sentado, a olhava com censura.    

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