O Menino que não podia morrer... Capítulo 22

terça-feira, 29 de maio de 2012

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          Padre Onório relia seus livros, ansioso. Mas tudo o que via eram Mitos. Não sabia mais do que Gilmar lhe dissera, e sequer podia teorizar.

          Baal era um deus pagão, antigo, desde antes de se falar em Javé, assim como Beliel. Por vezes, confundidos. Paralelos, por exemplo no caso de Baal para muitos estudiosos, a Cronos, como Javé a Zeus... Ao passo que sacrifícios de animais, e mesmo humanos, eram freqüentes entre os seguidores “tribais” destas entidades, Javé, ou Jeová não fugia disto. Não se relatava nas escrituras perseguições dos “baais” contra os seguidores do deus de Abraão. Embora o contrário fosse injustificavelmente enaltecido. Injustificavel, alias, é um termo gentil.

           As escrituras dos filhos de Abraão eram claras. Rezar para outro deus era um crime pelo fato de ser uma ingratidão com o deus de nossos pais, que criou o universo, e nos libertou do Egito. Pois os outros não existiam, logo, jamais atenderiam prece alguma.

          Jeová cobrava gratidão porque fazia com que aquilo que plantassem crescesse, o que a ciência hoje credita a ciclos naturais, cuidados manuais e dedicação. “Deus ex machina”. Padre Onório pudera reconhecer isto, embora jamais confessasse isto quem quer que fosse. O deus de Abraão não era o Criador, mas um deus pagão que assumia mérito de absolutamente todas as coisas, e endemonizava aquele que discordasse. Cobrava, como registram as próprias escrituras, que matasse aquele que discordava diante de todos, para que servisse como exemplo. Que matassem quem os ouvisse também, pois também serviriam de exemplo.

          Era o deus de Abraão, e não de Noé, pois o padre pudera encontrar o mito de Noé em muitas civilizações com muitos nomes diferentes: Utnapishtin, Atrahasis, Gilgamesh... Lendas que contam a mesma história, porém em registros anteriores às primeiras revisões do Gênesis, Bereshith, ET Cetera. A origem “monoteísta” era uma origem com muitos deuses. Vaidosos como em quaisquer mitologias.

          Padre Onório era um padre pelo prazer em ser ouvido, e acreditava no exemplo de Jesus, mas questionava um pouco além do que as religiões lho permitiam. Tinha uma visão ainda imparcial e desesperadamente concentrada em entender a origem através da ciência, sabendo, por suas próprias experiências, que havia mistérios, e que os olhos eram matérias cujo poder não calculava tudo o que poderia estar ao seu redor.

          A mesma bíblia que dizia que deuses pagãos não existiam, que não havia lógica para se devotar a qualquer um deles, contradir-se-ia alguns capítulos a seguir chamando-os de demônios, com passado ligado à criação do mundo, e traição do criador. Algum dos dois raciocínios do livro sagrado mentia, para na outra omitir-se. Isto sempre soube, era inquestionável. Se os deuses pagãos não existiam, como poderiam ser algozes? Se eram demônios, antagonistas, como poderia o senhor dizer-se traído pelos “baais” por rezarem para algo imaterial inexistente?

          O padre, quando rapaz, confrontara-se com o que lhe parecia uma possessão, e até sua velhice, lembrava-se de tudo como se fosse recente. E suas duvidas sempre ansiaram por respostas. Desejava, reconhecendo o próprio egoísmo, que realmente o orfanato pudesse ter alguma ligação demoníaca com Baal, Beliel, ou qualquer outra entidade que pudesse chamar de demônio.

          Resolveu investigar a história do orfanato. Conversou com tabeliões, delegados, moradores antigos... Eis o que, em poucas horas, conseguiu descobrir.

          “O sítio fora comprado a quase sessenta anos. Por um italiano chamado Giuseppe Giardini e sua esposa Denise. Vieram para o Brasil antes da grande imigração italiana. Pouco se sabe de suas origens e sua família.

          “Jovens, Giuseppe e Denise compraram o terreno com o sonho de plantar uvas, para fazer vinho. Poucos anos depois, tomou a guarda de Rute, filha do pai de Giuseppe com uma mulher brasileira. Seus pais teriam morrido em um acidente desconhecido. A vinda de Rute teria representado uma ajuda importante, pois poucos anos depois, começaram, em um tempo curto, a enriquecer. Ergueram uma casa maior, na época, suntuosa, porém, pouco tempo depois, Giuseppe morreu.

          “Meses após a morte do marido, Denise deu a luz à Lira. Devido a dificuldades e inexperiência, não souberam gerir os negócios e ficaram pobres. Quando Lira tinha por volta de doze anos, dona Denise Giardini adoeceu gravemente, embora relatos digam que devido a gravidade de seu estado, era uma grande surpresa que Denise tenha vivido mais quatro anos nesta condições, sendo cuidada pela cunhada e sua filha Lira.

          “Denise morrera na manhã em que Lira completou dezesseis anos. Poucos meses depois de sua morte, Rute e Lira transformaram a casa em um orfanato. Era o que se sabia, sem muitos pormenores, como oficial.

          Para ele não bastou. Ele ficou intrigado. E as adoções? Era o próximo passo. A legalidade do orfanato.

    

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