O Surpreendente Caso de Oswaldo Carvalho

sexta-feira, 25 de maio de 2012

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          Quando Oswaldo Lúcio de Carvalho deixou o Rio de Janeiro, o que ficou para trás fora muito mais que as frustrações de um homem em busca de mudanças. Havia o peso de uma história que ninguém jamais viria saber, não fosse esta carta encontrada anos depois . Eis o que diz:

          “O homem entrou em minha casa, munido de um lampião e uma foice. Eu o vi pela janela, perambulando, como se achasse que estávamos dormindo. Sai da casa, e fiquei escondido atrás de uma arvore no jardim. A mais próxima da porta dos fundos. Quando ele passou, eu peguei um pedaço de pau e bati com força na cabeça dele. Ele tombou. Teria morrido?

          “Não. Ele deu uma risada como um caiçara entretido, indiferente à minha pancada, e até mesmo indiferente à minha presença. Ele entrou como se nada tivesse acontecido. Foi direto até o quarto de minha filha Elisa. Eu o puxava, o forçava, empurrava e batia. Ele dava aquele riso descontraído, indiferente, e dizia alguma coisa em uma língua estranha. Parecia tupi.  Ergueu a foice e com brutalidade passou a lamina pelo pescoço da garota de 12 anos. Eu gritei. Dei-lhe outra pancada. Ele caiu no chão, desacordado por dez segundos, até que aquele riso maldito recomeçou.

          “E o infeliz falava comigo. O que ele queria dizer, eu não sabia. Mas ele parecia justificar o que fazia. A menina estava morta na cama, com a cabeça cortada, embora não havia nenhuma gota de sangue sido derramada. Eu gritei de dor. Segurei-o pelos braços, bati nele, derrubei no chão, o chutei. Ele levantou e, desvencilhando-se de minhas agressões foi até o quarto onde Lucita, a empregada, dormia.  Ela estava acordada. Não o viu. Em pé, ele deslizou a foice pelo ombro direito dela até atingir o coração, e ela caiu no chão, morta.

         “Gritei, num uivo de ódio e desespero. Maldito seja. Ele ria, e me explicava como se aquilo fosse natural, o que quer que estivesse dizendo com aquela cara cínica. E na porta ao lado, entrou no quarto de minha mãe. Quando levantou a foice para o golpe mortal, eu a arranquei da mão dele, e resolvi matá-lo. Ela atravessou a superfície de sua pele, como se nem ao menos existisse. Ele riu e me explicou o que acontecera. Derrubei a foice. Ele a pegou do chão e foi explicando sua rotina. Tinha pressa.

        “Matou minha mãe! Ele matou minha mãe, que ficou ali, inocente em um sono dos anjos. Chegou até a porta do quarto meu e de minha esposa. Ele estalou os dedos, como se quisesse chamar minha atenção para alguma coisa. Apontou para Luciana, minha mulher, que levantava da cama, lentamente, com olhos quase fechados, sentindo muito sono. Mas não a matou.

          “Fiquei surpreso. O homem deu as costas para nosso quarto e caminhou em direção a cozinha. Eu o segui. Ele chegou perto do fogão, e apontou para o próprio nariz. Me aproximei. O gás do fogão estava aberto. Desesperadamente, tentei girar o botão, mas não havia força que pudesse fazê-lo girar. Olhei para o homem, ele sorriu com um olhar de pesar, e ergueu a foice. Quando minha mulher chegou  na cozinha, ela tocou no interruptor da luz. Ao passo que seus dedos ligavam a luz, a foice caia sobre ela que, num susto, morreu.

         “Eu acordei no meu escritório, após dormir diante de minha máquina de escrever, e soube horas depois que minha casa havia explodido e a morte levado toda a minha família.

 Seu passado
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