Paím Zémaria e seu cambono Djalma

sexta-feira, 4 de maio de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida pela diversidade religiosa. Entre padres e pastores, havia Paím Zémaria. Um senhor de pouco mais de cinqüenta anos, bastante afeminado, gentil, doce, e extremamente vingativo.

          Vivia com Djalma, seu cambono. Djalma era um negrão de um metro e noventa e oito, musculoso, massudo, beiçudo e faludo. Era cobiçado por muitas mulheres e, cônscio disto, Paím Zémaria estava sempre alerta.

          Certa vez no açougue Luzinete, uma das quengas de dona Satanilda viera conversar com Djalma.

          - Óli, hômi, tu sabe que sô bem da carinha, num sabe?

          O negão era simpático,e olhou para ela com um sorriso gentil. Ela continuou.

         - Sabe, um nêgo desses precisa nem cartão de credito. Paga com o...

         - Dé-jalma... – disse alto e manso o pai de santo. – Vem cá mais eu ségurá a sacola.

         O rapaz voltou até o pai de santo, e o auxiliou. Luzinete pegou sífilis naquela mesma semana.

         Dona Cambira, era beata, esposa de um fazendeiro. Certa vez, desconfiada que seu esposo a traía, resolveu apelar para o pai de Santo.

          - Paím Zémaria, meu marido ta me traínu.

          - Oxi, minha frô, tu sabe como?

          - Jader num voltcha mais antes que dá dez da noite.

          - Minha nêga, as veiz o homi tá trabalhano. As veiz o homi ta ocupadjo.

          A mulher ficou muda.

          - Jogue os búzios, Paím, joga que eu quero sabê é já.

          Paím jogou os búzios.

          - Óli, nêga, dicóráção. As veiz o homi ta ocupadjo e tu, ociosa em tua casa, comendo biscoitcho, fica pensando bobagem. Se ele estivesse te traindo. O que tu ia fazer, separar dele? Pra ficar na merdja?

           - Hum... Mas eu bem que pudia mandar dar uma coça na vagabunda.

           - Oxi, e o que tem haver o cú cas calça, fia? O safado é o hômi que tem a mulé em casa esperandjo com cumida quente e vontade de dá... Se ele te trai, o que tu vai fazer?

           - Nada. O que o búzios diz, paím?

           - Que teu marido é um santo.

          Sem dizer mais nada, a mulher pagou, e foi embora.

          - Do pau oco. – e riu preguiçosamente. – Dé-jalma... Venhe cá, nêgo. To aprecisado de um cadinho de amô...

          Seu Eriberto, marido de Dona Cambira, era um cliente antigo de Paím Zémaria. Recorria justamente para quebrar feitiços de inveja, e manter sua aura aberta para atrair coisas boas(mulheres). Era um cliente de Dona Satanilda.

          Dona Satanilda, alias, vinha, de tempo em tempo, fazer contribuições com o terreiro de Paím Zémaria. Não se aconselhava com ele, apesar de tê-lo como amigo. Certa vez lhe pedira para defumar Dona Quixota, seu bordel.

          Ele foi e Djalma o acompanhara. Que euforia houve naquele recinto. Entrou o homem negro, imenso, espadaúdo, como que em câmera lenta. As quengas pararam de conversar. Os olhos de paím Zémaria brilharam de raiva. Dona Satanilda percebeu e se assustou. Djalma não recriminava ninguém. Nem as mulheres nem os homens. Ele sabia que era gostoso, e que não tinha culpa de causar esse efeito, e era compreensivo com quem se abatia por sua aparência.

         - Dé-jalma, feche essa camisa, sim, meu nêgo?

         O negão fechou os botões. As quengas se aquietaram um pouco, embora não pudessem conter-se a olhar para os braços musculosos, ou para o volume de sua calça folgada. Nem pudessem deixar de perceber o gingado folgado ali na calça, que deixava claro que o rapaz não usava cuecas.

          - Dona Satanilda, Dé-jalma é um moço de respeitcho e eu não quero vadia niúma ofendendo meu menino. Manda essas pombajira sair daqui, sim?

          - Maínha tá enciumada... – uma delas murmurou a outra, debochando. Tropeçou e quebrou o a perna. Dona Satanilda se assustou e quis ajudar

          - Segure o defumador, deixe que as outras cuidam dela.

          Foi o que Satanilda fez.

          Paím Zémaria recebia o preto velho Pai Mané de Aruanda.

          Pai Mané era um escravo que a duzentos anos fora libertado, e viveu até os cento e vinte anos de idade, e teve cento e vinte netos. E teve cinqüenta e dois filhos.

          Paím Zémaria sofria, porque Pai Mané as vezes incorporava seu cavalo e saia, cabra macho que era, a procura de uma moça jeitosa pra fornicar. E pai Mané sabia fazer o serviço. Zurema, moça nova, bonita, vivia no terreiro, a espera que Pai Mané pegasse Paím Zémaria desprevenido e traçasse a moça. Pai Mané, em suas aventuras no corpo de Paím Zémaria, fizera sei filhos. 

          - Que nojo de minha boca... – dizia Paím – Dé-jalma, traz pra mim a cândida pra gargaréjá.

          Paím odiava Zurema, mas sabia que Pai Mané gostava dela. Olhava pra ela e se imaginava lambendo... “Deus quime-livre, gostcho nem de imaginá. Dé-jalma, venhe cá e tire a roupa que eu to carécendo de meu nêgo”.

          Paím Zémaria sofria com essa jornada sexual dupla, mas já estava acostumado. Não gostava das crianças que Pai Mané fizera. Achava que eram feias e só podiam ser filhos de preto velho. Djalma não gostava do preto velho, mas não se metia.

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