Um grito no fundo do abismo eterno do mar sem fim

segunda-feira, 7 de maio de 2012

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Isto já aconteceu faz quarenta e dois anos. É uma história ingênua, fala sobre um homem do estado do Acre que certa vez adormeceu com as costas apoiadas em uma seringueira. Seu desvio de septo o fazia respirar quase que assoviando, e ao fazer isso, inconscientemente e sem qualquer pretensão, ele entrou em um estado de alfa que o fazia canalizar a energia de seu corpo, amplificada pelos poderes pouco conhecidos da árvore em questão, e ele percebeu-se sendo possuído por um ser cujo tamanho era gargantuano, maior até que um continente, e anterior à própria formação do mundo.E aquele ser dormia. Apenas seu sono interagia com o sono do homem e, pobre criatura, o homem não poderia ter outro destino senão a morte.
 
Uma coisa é o sonho e o pesadelo de um homem, mas dentro de um homem não cabe o sonho(ou pesadelo) de algo etéreo tão poderoso e indubitavelmente  maligno. Aquele ser, pensava em coisas confusas. E o homem via. O homem via uma cidade aonde as pessoas eram boas e o chão esquentava ao ponto de matar tudo o que havia acima dele. Era aquele ser cósmico que causava aquilo. As pessoas morreriam, mas não era a morte o seu desejo, então elas sentiam a morte, seu desespero,mas ela jamais vinha. E nesta insuportável ausência de um fim, gritavam, loucas. Tiravam com as unhas a pele do rosto, arrancavam seus próprios olhos, mutilavam as línguas com os dentes, num êxtase terrível aonde os edifícios derretiam como gelo sob o sol.


Percebeu o homem que dormia apoiado na seringueira que nada daquilo acontecia de fato, mas que as pessoas acreditavam, e era a imaginação que interagia com aquele ser Elemental. Ele era o ser Elemental. Ele era aquela força maligna nascida nos confins do universo. Ele era aquele poder que alucinava. Não. Ele não era. Ele não percebeu que não era, porque num momento confuso, ele próprio começou a dilacerar o próprio rosto com suas garras, e forçava para que sua mandíbula se deslocasse e, com tanta força que a loucura lhe dava, arrancou-a com violência do rosto.  Gritava, enquanto destruía a si mesmo, numa queda livre súbita. Enquanto era sugado pela boca gigantesca daquele ser incomensurável.
Ninguém jamais ouviu seu grito, pois estava oculto pelo rosto sereno de um homem que morrera de maneira gentil, com as costas apoiadas numa velha seringueira.



Licença Creative Commons
Um grito no fundo do abismo eterno do mar sem fim de Alex Pedro é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Baseado no trabalho em alex-pedro.blogspot.com.
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1 comentários:

Unknown disse...

Você sabe que sou sua fã...

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