Este era aquele palhaço...

terça-feira, 12 de junho de 2012

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          Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida pela alegria de seu povo contagiante. O palhaço Bagulinho era um herói entre as crianças. Bagulinho trazia o rosto pintado o tempo inteiro, e a verdade é que ninguém jamais o vira sem maquiagem.
         Bagulinho era conhecido por pessoas intimas como Joca, pessoas intimas que ele amava, e que nunca mais viu em toda sua vida. Bagulinho acordava todos os dias às quatro e meia da manhã. Lavava o rosto, escovava os dentes, tomava café com um pão francês amanhecido, e sentava-se diante do espelho.

          Durante os primeiros dez minutos ele olhava para seus olhos no reflexo, quase sem piscar.  Observava as linhas de expressão que surgiram ano após ano. A pele que se ressecava um pouco mais a cada dia, e depois olhava seus olhos castanhos e, dentro deles, aquela pupila que cristalizava uma fotografia de si mesmo, e lhe entregava que ele não era feliz.

          Em seguida ele olhava para um retrato na parede, com sua mãe e seu pai, pintados a mão em cima da foto. Respirava fundo, e afundava o dedo na tinta branca. Geralmente pintava o rosto de branco olhando para aquele retrato tosco, costume tradicional da região.  Olhava no espelho e, branco, via um fantasma triste, não um palhaço. Pegava um pincel e o lambuzava carinhosamente na tinta preta.

          Lá no meio da testa ele pintava duas sobrancelhas finas em arcos inclinados um em direção ao outro. Nessa hora ele ria. Porque ele pintava a sobrancelha assim?

          Era a cara de seu pai. Ele sempre trazia aquela sobrancelha que misturava tristeza com dúvida e não trazia qualquer profundidade a sua expressão. O pai de Joca não fora um homem feliz, e mesmo quando estava morto, aquela cara de merda permanecia no cadáver.

          Jacinta surgia quando Joca enfiava o pincel na tinta vermelha, e contornava da maneira mais feia seus lábios, e surgia a boca de sua mãe. Aquela boca que só lamentava das coisas.

          E quando Joca colocava o pincel no pó azul, e pintava dos olhos às sobrancelhas, fazia sardas vermelhas nas bochechas e as cobria com um leve pó que enrubescia sua pele e fazia uma bolinha vermelha pequena na ponta do nariz... Nessa hora surgia a esperança que carregava o rosto de Juvândia, sua irmã, que ele não tinha nenhum registro do rosto, além de suas próprias lembranças. Era nessa hora que nascia o palhaço Bagulinho.

          Bagulinho sempre começava seu show arrastado por alguém, porque estava morto. As pessoas precisavam rir para que ele ressuscitasse. Quanto mais riam, mais ele se contorcia, despertando do mundo sobrenatural daqueles que morrem, e acordava. Queria ter podido experimentar com seu pai. Elas riam porque pensavam que ele era dorminhoco. Coitadas...

         Bagulinho tirava da sua bolsa lanches invisíveis para comer e os oferecia para o publico, que ria das caretas. O palhaço Bagulinho estava sempre com fome, e roubava pipoca ou o que quer que alguém aparecesse comendo perto dele. Aquilo era engraçado. Mas o palhaço não ria, olhava sem entender para as pessoas que riam mais alto, como se perguntasse porquê fazia aquilo.

         Bagulinho tirava um pente gigante de sua bolsa e dava para uma pessoa. Um livro, e dava para outra, depois tirava um bebê de sua bolsa e entregava para uma pessoa. Virava a bolsa do avesso, e ficava feliz. Era surreal e as pessoas riam. Mas aquele bebê era ele que sua mãe deixou para uma amiga cuidar quando resolveu tentar a vida em São Paulo.

          Ele passava a bolsa aberta e as pessoas jogavam alguns trocados para ele. Aí ele voltava até a pessoa que entregou o bebê e o pedia de volta. Mas isto sua mãe nunca fez.

          Jacinta o deixou para uma amiga cuidar, quando ele tinha oito anos. A mulher morreu quando ele tinha onze. Um circo itinerante passou por Itaxoxota, e ele fugiu escondido. Quando o dono do circo o encontrou, ficara furioso, mas o pequeno Joca era prestativo, e tornara-se praticamente escravo do circo.

          O lado bom é que o mágico fora como um pai, como os trapezistas, os palhaços, e ele aprendeu tudo o que todos faziam. Aos dezesseis anos era ele a principal atração.

          Aos dezessete voltou para Itaxoxota, e lá recebera a notícia de que tinham avisado que sua mãe havia morrido no desabamento da favela em que morava. Mas e Juvândia? Ele não sabia por onde começar. E era pobre. Deveria esperar por ela? Teria algum dia uma noticia dela, que era a única expressão de esperança que havia em seu passado?

          Transformaria em risos as suas tristezas, até que a hora chegasse. E ela haveria de chegar.

1 comentários:

Adilson disse...

eita, acho que comentei no lugar errado.

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