O menino que não podia morrer... Capítulo 23

sábado, 2 de junho de 2012

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          Havia algo errado com Tia Rute, que entrara aos tropeços na cozinha, como se tivesse, por alguns instantes, livrando-se do peso que a idade pusera-lhe nas costas ano após ano. No entanto sentou-se, apoiando-se em Gilmar.

          Gilmar estava arrumando a lenha cortada, enquanto Hortência e tia Lira cuidavam de afazeres do lado de fora da casa. A velha fez um gesto, para que ele lhe trouxesse água. Foi o que fez. Olhava preocupado. Ela nunca, em toda a vida do rapaz, fora vista em momento de fragilidade. Ajoelhou-se e a olhou nos olhos.

           -A senhora está bem?

          - Como encontrou Mikail? – ela murmurou, desviando os olhos para o chão. Assustada.

           - Quem?

          - O menino. Por um momento eu poderia jurar que ele estava acordado. Eu não acho que ele é normal...

          - Porque diz que tem esse nome? – Gilmar sentira medo ao ver a velha assustada.

          - Eu vou tomar um pouco de ar. – ela disse para si mesma, levantando-se da cadeira, indo para o quintal em seus passos habitualmente lentos. Gilmar resolveu ir até o quarto. O menino dormia. Mas havia algo errado. Ele se aproximou do garoto. Sentiu que havia alguém em pé atrás dele. Ao olhar para o chão, percebeu que não havia sombra. Mas havia alguém atrás dele. E era grande. E aquela voz dentro de sua cabeça que ecoava como se viesse de gargantas de pedra gigantes como uma caverna.

          “Não... durma...”. Ecoou, e o som seguiu como numa planície desértica vasta entre os ossos de sua cabeça.

          Ao passo que os pêlos de todo seu corpo arrepiaram-se, o coração acelerava também. Afinal, o que era mal? A quem se apegar? Uma brisa suave balançou seus cabelos enrolados, e o frescor daquele dia o fizera perceber que quem estivesse atrás dele já havia partido. Mas quando veio a noite...

          Ao cair da noite, ele voltou para a enfermaria. “Mikail, ela disse”. As velhas haviam partido. Ele se ajoelhou ao lado de Laio. Que sofrimentos estaria ele enfrentando? Olhou para o garoto que viera dos céus. Sua cabeça estava virada na direção em que ele e Laio estavam.

          - Mikail? – ele chamou. O menino abriu os olhos, e Gilmar desmaiou.
* * *
           Mãos sujas de sangue. Um canto no bosque. Poucas palavras repetidas. Tudo escuro. Gemidos de agonia. Tripas.
* * *
          Era a floresta, escura, e ele caminhava. Havia sangue pelas folhas das árvores, numa finíssima chuva escarlate. O sangue deixava o chão liso como uma neve tenebrosa que refletia a luz daquela lua cheia amarelo-escura, e também as crianças, muitas, que voavam em circulos, como urubus medonhos.
* * *
          Gilmar cortava o pescoço de uma criança. O Macaco segurou sua mão. Queria que Gilmar parasse.
* * *
          Gilmar olhava para Mikail, no exato lugar em que o encontrara adormecido. Estava em pé e sorria. Uma sombra ocultou a lua. Um homem do tamanho de um arranha-céu, aparentemente nu, com o rosto encoberto pelas sombras.
* * *
          Gilmar estava no quarto, no exato instante em que chamara por Mikail. Completamente suado, ofegante e transtornado. Deveria fazer alguma coisa.

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