O Menino que não podia morrer... Capítulo 24

domingo, 10 de junho de 2012

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          Padre Onório descobriu que três famílias que haviam adotado crianças daquele orfanato viviam numa cidade a poucos quilômetros de distância. Sem demora partiu para visita-los. O primeiro casal vivia numa casa. Era um dia frio, mas não chovia. Vestiu-se com uma capa, enrolou o rosto em seu cachecol, e cavalgou por pouco mais de trinta minutos.

          Perto do centro ficava a Rua Cipriano, aonde vivia o casal António e Rosaura d’Oliveira, que haviam adotado, a treze anos, o menino Lúcio Ernesto. O padre saltou devagar do cavalo, como o velho que era, e caminhou pela rua em busca do sobrado de número 33. Ele não existia.

          Um cavalheiro transitava, com sua cotidiana indiferença, quando o padre o abordou.

          - Com sua licença, procuro o sobrado de número 33 na Rua Cipriano. Mas para os dois lados da rua, não encontro.

         - Se não encontrou é porque não existe.

         A rispidez do homem fez o padre mudar a respiração. Não precisava de uma grosseria no meio de algo tão sério quanto sua missão.

          - Com todo respeito, o senhor mora nesta rua?

          - Porque quer saber? – ele disse, novamente ríspido.

          - Eu sou padre da paróquia de São Francisco de Borja...

          - E eu com isso? – o homem interrompeu. 

         O padre respirou fundo, a boca já tremendo de fúria. Os olhos piscando incessantes, revelando um tique nervoso que sempre surgia em momentos de raiva. Mas ele falou, calmo.

          - Procuro pelo senhor António d’Oliveira ou sua esposa Rosaura...

          - Ali. – o homem disse, apontando para uma casa. O padre sorriu.

          - Ali que moram? Ora, muito obrigado senhor.

          - Não. Ali que moro eu, padre. Moro aqui desde que nasci, sessenta e seis anos. Nunca morou gente dessa graça nesta vizinhança, e, atrevo a dizer, até mesmo na cidade.

         O padre franziu o cenho, mas não de raiva, era uma frustração imensa que o irritava. Dedicara a manha descobrindo sobre a história da “famiglia Giardini”, e agora, queria algum resultado. Era apenas duas horas da tarde.

          - E o senhor conhece um casal alemão de sobrenome Ebersbach?

          - Primeiro nomes?

          O padre pega de um bolso o papel com os nomes, e veste seus óculos.

         “Manfred e Anita”, diz o padre. “Avenida Luiz de Camões, número  12”.

          - Luiz de Camões fica a dez minutos. Termina esta rua, o senhor segue à esquerda e anda duas quadras.

           O padre agradeceu e montou o cavalo. Seguiu, e achou o numero doze. Sua respiração foi de alívio por um breve instante, quando percebeu que o lugar era um edifício da prefeitura. Amarrou o cavalo, e entrou no prédio. Havia um balcão. Explicou que tinha este endereço, que era da cidade vizinha, e foi novamente um constrangimento. Aproveitando que se tratava da prefeitura, perguntou se o terceiro endereço, o mais distante, era real. E pela primeira vez a resposta foi satisfatória.

          Era uma casa antiga, imensa, abandonada já fazia muitos anos, e o proprietário era exatamente o homem que o padre procurava: Luís Mondego Valência. Era um homem rico, bem relacionado com pessoas do governo e de outros estados, e era isto que se sabia. Havia deixado a cidade fazia anos, e sua casa estava abandonada. Era pra lá que o padre iria.

          Cavalgou ao norte, sempre norte. Havia uma estrela pequena e cintilante do céu do meio daquela tarde, e era em sua direção que ele seguia. Chegou até o vilarejo aonde o casarão de Mondego Valência se localizava. Era deserto, exceto pelas casinhas pequenas, em ruas irregulares e as casas eram todas térreas, e havia lá, isolada, com um campo aberto, aquela casa velha.

          Era imensa.  Quase cem metros longe de todas as outras. Era ela, e nenhuma outra. Muitas janelas, todas com madeiras do lado de dentro. O padre saltou do cavalo. Um rapaz, vinte e poucos anos, loiro, gentil, o abordou.

          - O senhor não é da região. – diferente do outro, este era simpático. – Procura por alguém?

          O velho sorriu.

          - Sim, rapaz, procuro pelo senhor Luís Mondego Valência, mas já soube que não mora mais aqui.

          Foi interessante observar a expressão do rapaz quando falou o nome do homem. Havia um temor desconfortável. 

          - Tenho autorização para entrar na casa – continuou o padre. O rapaz o guiou a uma direção paralela ao destino do padre – disseram-me que a casa tem alguns mistérios...

          - Bem, na verdade, tem. Ele era um homem solteiro. Tinha empregados surdo-mudos. Comia crianças. Até hoje se ouvem gritos na casa.

          - Mas o que aconteceu com ele?

          - Nada. Ele era rico.

          - A quanto tempo que ele deixou a cidade?

          - Tem uns vinte anos...

          - Hum... curioso. E o filho dele?

          - Filho? Que filho? Espere um momento.

          O rapaz correu para sua própria casa, e voltou em alguns instantes, com um lampião aceso.

          - Isto é necessário? – perguntou o padre.

          - Sim, não tem janelas, nem ventilação.

          - Curioso... Nunca ninguém tentou invadir a casa?

          - Nunca foi mexida.

          Caminharam sem conversar até quase aproximarem-se. Passaram por uma cerca baixíssima, quase com função simbólica.

          - Sabe que o padre da nossa cidade nunca quis entrar aqui. Certa vez a policia entrou, mas ninguém aguenta ficar por mais do que três minutos ali dentro. É tenso. Horrível. Certa vez entrei com alguns amigos. Ouvi vozes...

          - E porque está comigo?

          - Porque quero ver a sua reação. Com todo respeito padre.

          Já diante da porta...

          - Se houver algo que possa me impressionar nessa casa, acredite, meu jovem, certamente seria uma resposta a minhas preces.

          O rapaz tocou na imensa maçaneta e empurrou a porta.

          - Ué, a casa é aberta? Em todo esse tempo, nunca foi vandaliza... Santo Deus!

1 comentários:

Adilson disse...

Mistério... envolvente mistério.

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