O Menino que não podia morrer... Capítulo 26

terça-feira, 26 de junho de 2012

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          O padre levantou-se, tossindo incontrolavelmente. Aproximou-se do buraco causado pela queda do lustre. Havia um alçapão aonde o garoto estava segundos antes, que era a entrada para o ambiente escondido revelado pelo buraco. O padre ergueu o alçapão, recolheu o lampião, e desceu as escadas para o lugar escuro.

          Do meio da escada para o fim, havia em cada degrau um crânio de criança. Em cima deles, uma vela grossa. O cheiro de podridão era forte. No fundo, havia uma sala ampla. Muito maior que as dimensões do resto da casa, e o chão era terra escura e úmida. O lustre caíra próximo ao centro do grande ambiente quadrado. O padre resolveu acender tantas velas quanto pode. Não se atemorizava com crânios. Crânios, ossos, caveiras, nada mais representavam do que a morte. E morte mais lhe causava introspecção e reflexão, do que temor propriamente dito.

          Havia pelo ambiente quadrado muitos castiçais de ossos, e o padre, com a ajuda de um graveto, e o fogo de sua lanterna, acendeu-os um a um. Aquela luz laranja tremeluzente deixava aquele salão com chão de terra, teto de madeira grossa, e fazia sombras de um negro absoluto e uma profundidade sem medidas.

          Tinha uma estátua de um anjo no fundo oposto à escada. Tinha asas imensas abertas. Segurava uma espada e a apontava para baixo, com o braço erguido alto. Seu rosto era misterioso. Poderia ser Gabriel, Miguel. Não era uma estátua bonita. Era uma escultura tosca de madeira, úmida, condenada. Próximo a ela havia uma gravação em madeira que reproduzia um demônio de muitas cabeças similar a gravuras de William Blake. Uma parede moderadamente grande com o que parecia ser uma biblioteca. O padre começou a folhear um livro. Era escrito a mão. Grego. Outro em latim. Outro tinha escritos em aramaico, hebraico, árabe. Uma coisa o padre percebeu. Tudo havia sido escrito pela mesma mão.

          Tinha coisas que ele entendia, outras não. Havia anotações, e estas eram sempre feitas em espanhol. O que ele percebeu, a cada hora que se passou, nas três em que investigou aquele conteúdo, é que eram conhecimentos codificados, raros, com conceitos raramente conhecidos sobre alquimia, magia, feitiçaria e bruxaria. Eram possivelmente mensagens sugeridas inconscientemente ao homem que as anotava. Pois ao que parecia, ele próprio as estudava e fazia anotações posteriores.

          Havia data nas prateleiras. 1885 era a primeira prateleira. E a ultima, inferior, 1922. Havia um rato imenso que dormia ao lado do ultimo livro. Ele puxou e a criatura correu aos guinchos. Estava em latim. Os olhos do padre, infelizmente não tinham tempo para apreciar todo seu conteúdo, mas um passeio rápido o permitiu entender.

          Luís Mondego Valência havia feito um acordo com um grupo de entidades. Em troca de sacrifícios de animais e algumas oferendas humanas, segundo o espanhol, que podiam ser adultos, e malfeitores, lhe presenteariam com os conhecimentos primordiais que, segundo eles, um dia pertenceu a todos os humanos, quando os humanos eram poucos e sábios.

          Segundo o ultimo livro, que era um diário, ele revela que pode materializar o que quisesse, e pôde dominar os dons da cura, clarividência, e o dom da praga. E o deus Belial diante dele lhe revelara que precisavam de um homem entre os homens. Que ele estava incumbido de encontrar o casulo para que ele acordasse entre os homens.

          Luís sentiu medo. Mas os deuses começaram a perturbá-lo, e lhe disseram que esta era sua missão, que ele não podia abandoná-la. Outrossim, poderia passar a missão para outra pessoa de boa vontade. Encontrou a família Giardini e apresentou à Giuseppe algumas vantagens, e a família aderiu a sua nova religião.

          Quando Giuseppe Giardini morreu, e a esposa adoeceu, os deuses começaram a interagir com elas, e deram sabedoria e abriram seus olhos para as fronteiras, e isto as seduziu. Ajudariam a trazer o deus para o mundo dos homens, matariam quantas crianças fossem necessárias para que ele fosse poderoso. Luís partiria.

          A missão das mulheres era matar em ciclos astrológicos específicos uma criança. E preparar, por um longo período, o corpo de outra, com inalações de ervas específicas, raízes, banhos, e algumas cerimônias para abrir o corpo e assimilar o espírito da criança com o deus. Não haveria possessão ou encarnação, mas um tipo de simbiose.

          Não existia um orfanato. Havia um abatedouro. E as influências de forças ocultas tornando legalidades possíveis. Se Gilmar e Hortência estavam vivos, ou eram úteis, ou alguém intercedeu por eles.

          Luís completou as ultimas páginas dizendo que não sabia se esse Beliel-Homem seria bom ou mal. Que premeditadamente pode ser visto como anti-cristo, mas que por outro lado pode sim salvar o mundo, caso as suspeitas da fraude de Javé forem verdadeiras. Mas que pode ser terrível como nada no mundo. Deve ser morto antes de acordar.

          O padre pegou o lampião e correu. Deixou o lampião aceso na porta da casa, partiu em seu cavalo, noite adentro. Tinha que encontrar Gilmar. 

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