O Menino que não podia morrer... Capítulo 28

domingo, 8 de julho de 2012

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          Gilmar andou pela mata, silencioso, seguia mais a sua intuição do que a rastros propriamente ditos. Era sorrateiro. Enxergava meramente três metros a seu redor naquele bosque de arvores de cume tão fechados. Com o tempo, já não notava rastro algum. Apenas percebeu um vulto imenso diante dele, algo que não era ruim, tampouco era bom. Mas era poderoso. Era aquele macaco.

          Ele guiava o rapaz mata adentro, por um caminho jamais feito por ele. Andara em seus passos de pernas compridas por mais de uma hora até que a criatura desaparecesse. Quando isso aconteceu, Gilmar não temeu, pois percebera luz adiante, e reforçou a camisa cobrindo a luz emitida por seu braço. E então viu algo surpreendente.

          Havia um circulo com crianças mortas numa área descampada. Estavam degoladas. Entre os corpos estavam as cabeças. No meio, uma fogueira apagada há pouco tempo, havia alguns ossos de criança entre as brasas. Atrás da fogueira, uma pedra que parecia um altar e deitado sobre ela, um bode vivo, acordado e amarrado. Um facão afiadíssimo que costumava ser usado como utensílio de cozinha A luz branca da lua brilhava naquele circulo não muito amplo.

          Gilmar ouviu vozes, e voltou a esconder-se no mato. Eram as velhas, e elas traziam o ultimo garoto adotado. Parecia estar inconsciente. Vestiam um manto vermelho, feio e simples. O macaco estava ao seu lado, imenso. Dona Lira parecia agir de maneira mecânica. Tia Rute, por outro lado, estava resoluta, imponente e inspirada.

          Dona Lira trouxera uma bacia de latão que estava por perto, e tia Rute, segurou a cabeça pelos chifres com a mão direita, e com a esquerda pegou o facão e começou a cortas a cabeça do animal que gritou. Não houve um golpe certeiro, mas um corte, pressionando a lâmina entre os pelos, rompendo a pele, cortando a carne do animal vivo, indo e vindo, até que pudesse puxar a cabeça para afastar do corpo.

          O menino, ajoelhado diante do altar, recebeu a enxurrada de sangue que vinha abundante do animal cujo coração ainda batia e a cabeça ainda perdia a consciência. O menino banhou-se naquele sangue que brilhava, hora vermelho, hora negro, sob a luz da lua.

          Dona Lira atirou a cabeça do animal no chão, com bastante indiferença e aproximou o balde de latão para recolher mais sangue, e derramá-lo sobre o garoto logo em seguida. Tia Rute pegou, com a ajuda de uma pá, cinzas da fogueira, e jogou sobre ele.  As duas empurraram o corpo do bode para fora do altar e deitaram o garoto lambuzado.

          “Quero que não façam mais isso”, Gilmar ouviu em sua própria cabeça, “Eles morrem mas não deixam a floresta...”.

          Tia Rute cantava algo em uma língua estranha, e ergueu a mão esquerda com a faca e, de um golpe, apunhalou o coração da criança. Caiu no chão, e ficou ofegante, desesperada.

          “MEXERAM NO GAROTO!”.

1 comentários:

Adilson disse...

"MEXERAM NO GAROTO!"
Frase intrigante...

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