O Menino que não podia Morrer... Capítulo 29

segunda-feira, 16 de julho de 2012

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          Algo tinha dado terrivelmente errado, e Dona Lira sabia disto e, embora negasse, sabia que tudo começara a mudar no dia em que impedira Tia Rute de sacrificar Gilmar. Gilmar era uma criança gentil, mas isto muitas outras que morreram também eram. Gilmar era carinhoso com ela. Isto também outras crianças eram. Proteger Gilmar foi a forma que ela encontrou de salvar a todas, ainda que de uma maneira tola.
Lira nunca gostou de seu destino, mas nunca soube por onde mudar. Era apenas alguém que obedecia. Um soldado que mata porque mandam. Nunca teve muita escolha. Isto havia começado por amor a sua mãe, mas logo transformou-se num ofício. Lira não era feliz.


          Lira salvara Gilmar porque queria acreditar que através dele as coisas poderiam ser diferentes. Não seriam apenas ela e sua tia. Mas tudo começou a mudar. “Ele” cobrou mais, e tia Rute acabou enfraquecendo-se, e precisaram de alguém mais jovem, de força. Viera Nicanor, que molestara a menina Hortência, e ela perdera a finalidade. Não era pura. Era maliciosa. Outras crianças acabaram perdendo a inocência através do estímulo dela.


          Mas Lira não a julgava, como fazia tia Rute. Gilmar fora estimulado pela menina sem nem ser adolescente. E Hortência, tendo o sexo desde criança, não via mal em tocar crianças mesmo depois de adulta, pois para ela, era um prazer inocente, como qualquer brincadeira. Para tia Rute não. E a velha quis matá-la, como fizera com Nicanor anos antes, mas fora Ele quem a impedira, pois Ele via graça em humanos com comportamentos de aberração.


          Fora um alívio para dona Lira que não tivesse que explicar suas defesas, pois isso irritava a ira de sua tia. E depois que Gilmar crescera, algo mudou dentro dela. Ele era atencioso como um filho, mas não era o amor de mãe que ela sentia. Ela se apaixonara pelo rapaz, mas sabia que jamais o teria como homem.
Tocava-se à noite, ao pensar nele. Sentia-se culpada e suja ao fazer isso, como se traísse o respeito que ele tinha por ela, mas a verdade é que o desejo não era puramente carnal. Ela o amava como homem, e seu amor era sincero e cristalino. Não o queria, nem a nenhuma criança, envoltados por um ambiente de rancor, tristeza, e soberba.


          Dissera-lhe o espanhol, que Ele queria nascer para revelar ao mundo a grande mentira, pois que o pai da mentira não poderia ser outro, senão aquele que afirma dizer a verdade e oprime aos que perguntam. A fala macia vinda da boca daquele homem sábio era confiável, mas até que ponto salvar o mundo matando crianças traria paz para a humaninade?

          “Mas matam todos os dias em nome de Deus, Allah, Javé, e quando isto acontece, questionam o crime, mas jamais a intenção. Afinal, o criminoso pode parecer louco, mas o sacrifício para Ele está feito”, dissera o espanhol.

          Desde que Gilmar chegou com essa criança, tudo ficou estranho. Ela sonhara, na noite anterior a vinda do garoto, com uma criança que vinha do céu. No sonho, a criança vinha para libertá-los. Não lembrava de mais do que a idéia do sonho. Queria que tudo acabasse.

        Ele, o Antigo, precisava de virar um só com o menino, que depois morreria e então Ele poderia encarnar homem, como espírito de homem. Mas algo estava acontecendo. Algo terrível estava por vir, pois Ele era rigoroso, antigo, sábio, bom às vezes, mas terrivelmente mal quando queria. E agora caminhavam uma longa trilha até a casa, aos passos lentos de sua tia, que se apoiava no ombro.

          Algo tinha dado errado, e Ele a havia castigado na hora em que matou o último garoto. Ela estava frágil. A luz da lua, cortada pelas folhas no cume das árvores chegava fraca ao chão. E o caminho ainda era longo...

1 comentários:

Adilson disse...

Cada vez mais próximo do fim...
Preocupo-me com Gilmar.

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