O maconheiro "da hora"

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

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          Em algum lugar no interior da Bahia se escondia a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era conhecida por seus cidadãos defensores da moral e dos bons costumes, da decência... Gente filantropa e, claro, maconheira.

          Nos arredores de Itaxoxota ficava a fazenda de coronel Eleutério, fazenda de cana-de-açúcar, mas era no centro da cidade que vivia seu filho Caio. Rapaz inteligente, ousadíssimo, de personalidade forte, e demonstrava isso para o mundo fumando maconha.

          Caio não trabalhava. Não precisava, papai era rico. Caio era sempre preso por fumar maconha em lugar público, e seu pai, Coronel Eleutério pagava a fiança, dava-lhe uma bronca, cujas ultimas palavras costumavam ser ouvidas a distância. Caio era ousado, e não precisava de conselhos.

          Seu pai, Coronel Eleutério, fora prefeito de Itaxoxota por sete mandatos consecutivos, e já depois de velho, emprenhou uma de suas amantes, teúda e manteúda, e nasceu Caio, mimado que pensava que não era.

          Caio era um menino de atitude, desprendido, que só vestia roupas de surfista de marcas caras. Era bissexual. Não que sentisse desejo por homens, mas basicamente, o que viesse era lucro. Vivia um dia de cada vez, como se fosse o último, ou não.

          Caio namorou certa vez Vanessa, patricinha, filha de uma família importante da cidade de Serro Azul. Conheceram-se numa festa na rua, ao som de Bob Marley, sob as românticas névoas pálidas de seus baseados. O namoro durou pouco mais de um ano. Caio se irritou por perceber que ela apenas queria fumar maconha da boa, e isso ele sempre arrumava de sobra.

          Vanessa o traiu com Judelino, o dono da boca de sua cidade. Fora expulsa de sua casa, e alguns anos mais tarde, virou prostituta. Mas Caio não ficou sozinho muito tempo. Conheceu dois meses depois Carlinhos. Carlinhos fazia chupeta em troca de maconha. Caio o pediu em namoro e o levou pra família conhecer.

          Carlinhos era “da hora”, segundo Caio. Carlinhos mamava que era uma beleza. E os dois fumavam o dia inteiro. Caio gostava de Carlinhos porque os dois tinham pontos de vista culturais e políticos em comum.

          Caio tinha uma opinião política justa e extremamente coerente, segundo ele mesmo, claro.  Caio adorava dizer que políticos eram corruptos, que pessoas passavam fome, que o mundo era cruel, que os animais eram mais confiáveis que os seres humanos... Dizia que era importante salvar a natureza. Tudo isso ele dizia no conforto de sua casa, relaxado, escutando Three Little Birds e acendendo a “bomba”.

          Three Little Birds era “da hora”. Caio as vezes esquecia de tomar banho. Alias, ele as vezes esquecia o próprio sobrenome. Aí alguém o chamava de maconheiro e ele ria. Achava esquecer “da hora”.

          Certa vez Caio e Carlinhos foram visitar o pantanal e Carlinhos foi até o rio fazer cocô, e fora atacado por uma sucuri. Foi comido e levado para dentro do rio. Caio voltou para Itaxoxota do Norte, sabendo que tinha esquecido de alguma coisa. Coronel Eleutério perguntara do genro e Caio emudeceu por um tempo. Carlinhos nunca mais fora visto e ele nunca soube o porque.

          Caio vendia maconha para algumas putas, contra a vontade de dona Satanilda, que não queria oferecer quengas entorpecidas para seus clientes ilustres.

          Caio achava Mahatma Gandhi da hora. Nem sabia muito sobre ele. Bob Marley era da hora também. Nem sabia nada sobre eles. Achava que dava moral ter pôster com a cara deles no quarto.  Eles eram motivadores de seu maior sonho.

          Sim, pois ele era sonhador, e seu sonho era mudar o mundo. transformá-lo num lugar melhor. Certa vez Coronel Eleutério perguntou “Como gostaria de fazer isso?”.

          Ficaram dois minutos, olhando sérios um para a cara do outro sem dizer absolutamente nada.

2 comentários:

Phê Brito disse...

Além de me fazer rir, como sempre, esse texto me fez pensar naquelas pessoas que juram que os atos dela de bondade estão fazendo algo pelo mundo.
É triste, mas o inferno está cheio de boas intenções.
beijo, Phê Brito

Carlos Bispo disse...

Simplesmente genial. Adorei.

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