O Menino que não podia morrer... Capítulo 32

sábado, 11 de agosto de 2012

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          Havia no chão o corpo de Mikail, desacordado, embora estivesse o espírito absolutamente consciente do que acontecia. Perto dele, em passos lentos e temerosos, aproximava-se Gilmar. Soube ele, Mikail, que aquele era o pobre homem que havia tornado-se aquela criatura irrecuperável. Naquele momento soube que tivera êxito. Voltara no tempo para descobrir o que havia acontecido.

          Gilmar o levara para a casa. Ali ele percebeu que tirando a mais velha, todos eram crianças confusas. Mesmo a senhora mais jovem. As crianças eram crianças, e não mais do que isso. Mas quando fora levado para a enfermaria, ali encontrou algo curioso.

          Por mais que parecesse um mortal desacordado, Mikail era um antigo, e já a muito não dependia de matéria sólida, e não contava com os sentidos como visão, audição, tato, para enxergar. Na realidade, imaterial que era, suas faculdades eram outras. Percebia a todo o ambiente ao seu redor, tanto o que olhos de carne viam, como aquilo que estava além de seu processamento. E havia uma criança que flutuava numa nuvem em tom lilás escuro.

          Inicialmente, aquilo parecia algo meramente trivial. Como uma capa posta pelo que chamam de anjo da guarda para proteger um enfermo. Mas aquilo era um véu que o separava de algo terrível.
          A moça jovem inocentemente arrastara a cama onde jazia a criança adormecida, e então Mikail, invisível, percebeu uma criatura grande que surgira atrás dela. Aquela criatura era fruto das primeiras explosões do universo. Antiga. Presente neste mundo, sabia ele, há centenas de milhares de anos interferindo, inclusive, nas evoluções físicas e etéreas de muitas formas de vida. Não era o único a fazer isto.

          Soube Mikail naquele instante, que a criatura queria usar a criança para tornar-se material. Neste momento ele entendeu o que havia acontecido. Séculos antes, no sacrifício final, Gilmar descobrira o que iria acontecer. Sem entender direito, impediu, e a ira do Antigo decaiu-se sobre seu espírito, que jamais conseguiu recuperar-se. Confundido pela criatura, tirou a vida de todos os outros e matou-se.

          Quando a criatura imensa tocou o ombro da moça, Mikail fez-se perceber, e a criatura lhe confrontou.

          “O homem não lhe pertence” ele disse olhando para a criatura.

          Sabia que não lhe responderia. Mas o antigo ficou furioso, e lançou-lhe sua intenção de rancor, mas Mikail a conteve, e aquela nuvem do desejo de ambos, invisível a todos, flutuava naquele ambiente.

          “O homem não lhe pertence”.

          A criatura, poderosa, tornou o quarto coração de um incêndio terrível, mas Mikail mantinha-se poderoso desafiando a criatura. Aquele que parecia uma criança ergueu-se do solo e lançou um raio na criatura, que o conteve, e retribuiu com mais fogo. Mikail atirou fogo azul no Antigo, que apesar de incomodado, manteve-se forte contendo-o longe.

          Seu confronto nunca cessou até o momento a mulher mais velha apunhalou a última criança, que deveria tornar a simbiose do espírito antigo ao da criança mais poderosa. Neste momento ele vacilou. A cama mudara de posição, e os encantamentos foram mal-sucedidos.

          O fogo azul de Mikail, contido por dias, tomou o espírito da criatura, que pela primeira vez cobrira-se de horror, medo, e estrondosa dor. Sensações limitadas a seres errantes, não a poderosos feito eles.

***

          Cavalgando noite adentro vinha o padre, cansado, faminto, com diversas e confusas sensações que reviravam suas entranhas e seus pensamentos. Mal enxergava o caminho diante de si, mas era guiado, provavelmente por sua intuição, e mesmo o cavalo, valente, corria.

          Longa fora a sua viagem até que pudesse ver diante dele a casa, com uma das janelas reluzindo uma luz branca sobrenatural. Desceu do cavalo, e fez os últimos passos a pé. Suas costas doíam, suas pernas também. Suas coxas estavam assadas, e sua cabeça parecia solta do pescoço. Não tinha a juventude de outrora e, outrora jovem, nunca cavalgara jornada tão longa sem descanso. Mas ali seria uma jornada a muito esperada. Aproximando-se da casa nos passos mais ágeis que sua exaustão lhe permitia, ele foi surpreendido pela imagem de uma moça aterrorizada e silenciosa.

          - Padre... Tem luz no corpo do menino... Sai dele, e está em volta dele.

          - Vamos tirar as crianças daqui, pegue a carroça e leve meu cavalo para ajudar.

          Ajudou a moça a acordar as crianças sonolentas. Um barulho de tropeço o assustou, mas tranqüilizou-se ao ver que era Gilmar. Gilmar ofegava, continha choro, horror, raiva, choque.

          - Elas... elas matam as... crianças... pra um demônio... coisa assim... eu vi o espírito da flo... floresta... As crianças morrem... mas não descansam. Temos que matar o menino.

          O padre perdeu a cor. Gilmar correu ajudar Hortência a fugir com as crianças. O padre foi até a cozinha e encontrou uma faca curta sem cabo. Andou em direção ao quarto iluminado. Entrou na enfermaria e encontrou a gravação do assoalho, e a criança que refletia de maneira assustadora a luz da lua. O menino que estava na cama gemia, virando-se de um lado para o outro. O menino da cama levantou-se de um soluço e grito de terror.

          “Faça alguma coisa!” ele gritou.

          O padre segurou a faca firmemente e atingiu com brutalidade o coração da criança iluminada, que abriu os olhos e olhou para ele com terror, agarrando suas mãos.

          “NÃO!” gritou Gilmar demoradamente, olhando pela janela.

            Mas ouve um outro som, outro ruído abafado de carne rompida, seguido pelo grito que não saiu da boca do padre. Uma dor terrível, e um fôlego que nunca foi encontrado.

          Alguém dera-lhe uma facada nas costas.

          - Parabéns, Padre, - disse tia Rute, contendo um riso debochado – você matou a criança errada.

          Dera outras duas facadas nas costas do homem velho, que caiu no chão, morto.

***

          Da criatura enfraquecida surgiu um último vigor que desfez as chamas do fogo azul de Mikail e lançou uma onda de fogo escuro que ardeu sobre seu espírito, e o derrubou.

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1 comentários:

Adilson disse...

Valeu a pena sua revisão. O que esperar para o final? Muito bom...

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