D.I. Project - CAPÍTULO 4

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

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O ano é 2063.
A humanidade corrompeu-se às delicias do consumismo. Cheia de vícios por tecnologias, drogas sintéticas e fetiches sexuais, o homem caminha para sua fase mais obscura e superficial.



          Havia uma grande aglomeração na Selfridges. No saguão principal, um holograma em quase o triplo de escala com um Johan Marx semi-nu, feito uma estátua de Davi em preto e branco. Menor, uma réplica em três dimensões, também holograma, com Irina Porechenkov, numa plataforma suspensa em roupas íntimas. Uma brisa inexistente agitava sutilmente seus cabelos brilhantes.

          Outros modelos, moças e rapazes, com roupas excêntricas desfilavam entre o público para causar alvoroço e curiosidade, uma vez que Johan não desfilaria, iria apenas ser fotografado ao lado da estilista Natalie Tollousse, que já podia ser vista entre flashes, já sob o contagiante efeito de cocaína e champagne. Dizia ela aos amigos que cocaína tornava o champagne mais saboroso, mais intenso.

          Um Rolls Royce parou diante da imensa loja, e muitas câmeras fotográficas subitamente viraram em sua direção. Era o modelo mais caro do mundo. Filho da atriz brasileira Lucia Pinto com o cantor suíço-inglês Ian Marx. A porta se abriu e ele desceu do carro, cercado por seguranças: um homem de um metro e noventa e quatro, musculoso, com seus ombros larguíssimos, peito espadaúdo, de cabelos pretos, curtos, o olhar intenso de seus dois olhos negros, e a pele radiante de uma criança de doze anos em um homem de vinte e nove.

          Johan Marx estava ali. Gritos ensandecidos de garotas e rapazes. Flashes... Ele era desejado. Todos o queriam. Ele amava saber disso. Era para ele um prazer quase erótico saber que todos o olhavam com desejo e acreditar que podia escolher a pessoa que teria o privilégio de tê-lo como amante.

          Aquele sorriso, sempre o mesmo sorriso auto-confiante, debochado e presunçoso que provocava a ira dos que ouviam não dele. Ele tirava fotos com as pessoas atrás de grades, ele era um ídolo. Quando se aproximava, ela apalpado, beijado, e gostava. Jamais se ouviu dizer que tivesse sido rude com um fã.

          Irina Porechenkov também entrava e se deteve para cumprimentá-lo. Muitos flashes e gritos quando ela se aproximou do modelo.

          - Tem planos pra esta noite? – murmurou ela em seu ouvido, tendo seu olhar malicioso captado pelos fotógrafos.

          - Ainda não, - sorriu ele, como se fosse dizer o que ela queria ouvir – vou descobrir lá dentro...

          - Cretino! – disse ela sonoramente. E entrou, irritada. Johan adorava debocha de mulheres oferecidas depois que as tinha.

          Ao passar pela porta, um agente da segurança da loja o abraçou, protegendo-o da multidão. Era um homem branco, entre quarenta e cinco a cinqüenta anos de idade, corpulento, disse-lhe algo, mas ele não entendeu. O homem disse então mais perto do ouvido.

          “A polícia está atrás de você, não resista, nem chame atenção. Confie em mim”. E se afastou. Virou para olhar o homem, intrigado, mas o homem sumiu no meio da multidão.

          O que seria isso?

          De repente, a idéia de todos olharem na direção dele transformou-se na coisa mais assustadora do mundo. Ele precisava agir com naturalidade. Mas quem era aquele homem? Como se nada estivesse acontecendo, ele seguiu andando em direção à Natalie Tollousse, a abraçou, sorriu para fotos. Pegou uma taça de champagne, agradeceu o garçom, o que a deixou ligeiramente surpresa.

          - De repente Johan Marx ficou gentil com vassalos... – Natalie disse, rindo. Johan Marx não era exatamente preconceituoso, pessoas que serviam eram invisíveis para ele, a menos que ele fosse abordado, percebesse tratar-se de um fã.  Geralmente era gentil com fãs, não tinha nojo de mendigos, nem nada disso. Era vaidoso, e gostava de ser amado.  Fazia parte da vaidade ser gentil com as pessoas, e permitir que isso fosse visto.

          Natalie, por outro lado, era uma mulher de trinta e dois anos, racista, xenofóbica, e com dezenas de amantes negros. Era loura, magra, e vivia com ares de embriaguez. Tinha um olhar vidrado, fruto de sua natureza entorpecida, um rosto fino, com traços que seriam belos, não fosse a expressão de constante soberba.

          - Não seja inconveniente. – disse ele, num tom simpático, o que causou ainda mais estranheza à estilista, que convivia com ele já há muito tempo.

          - Johan, quero que vá em meu hotel, faz tempo que não comparece e outros modelos adorariam ganhar o que você ganha.

          - Hoje não posso, Natalie, - disse ele olhando três homens sérios vindo em sua direção – estou com dor de cabeça.

          - Que seja, mas não me faça esperar muito tempo. – e lhe deu as costas.

          Os homens aproximaram-se.

          - Vieram prestigiar Natalie Tollousse, senhores? – disse o modelo, sendo simpático.

          - Na verdade não. Eu sou inspetor Charles Cadogan, - mostrou-lhe discretamente um distintivo. estes são os oficiais Devon Waters e Herbert Schullz. O senhor está convidado para prestar depoimentos e nos ajudar com uma investigação.

1 comentários:

Adilson disse...

Achei esse povo todo muito soberbo.

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