A lenda do velho que ria, Parte 1

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

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                Na Avenida São João, no quarteirão entre o Largo do Paissandu e a Avenida Ipiranga, dizem os moradores de rua, boêmios e prostitutas que um velho branco sinistro aparece em toda noite de dia 13 e nas madrugadas de todos os santos. Sempre entre as duas e três horas da manhã.

                Com uma capa branca encardida, camisa e calça sociais e um chapéu panamá, sua aparência curiosa põe medo em quem já o encontrou. Aquela figura de um metro e noventa, muito magra, tem um rosto pálido, e com uma pele quase artificial similar à textura lisa e brilhante de uma cera de vela.

                O sorriso macabro, de muitas rugas que pareciam parênteses nos cantos da boca até quase o meio das bochechas, era visto por quem o cumprimentasse, embora ele ficasse sempre com a boca fechada, andando como um corcunda, com uma bengala de madeira preta.

                Contam que ele anda de lá pra cá, como se esperasse por algo, ou alguém. Atravessa a avenida e anda ora numa calçada, ora noutra, ora pelo meio da rua. Os transeuntes contam histórias. O mendigo Zé que dorme na largo do Paissandu, próximo à estátua da Mãe Preta, disse que o viu pela primeira vez, e inicialmente se assustou.

                O velho carrancudo e sério lhe fixou dois olhos de órbitas vazias, com um branco profundo. O cachaceiro ofereceu-lhe bebida, o velho sorriu sinistra e simpaticamente, e negou com a cabeça. Zé ouviu aquela risada de boca fechada e seguiu seu caminho.

                Nesta mesma noite, Pâmela, uma travesti que trabalhava na região passou por ali. Inicialmente vendo o velho de longe, pensou ser um potencial cliente, mas ao se aproximar, e ver aqueles olhos brancos, teve vontade de gritar. Contemplou a expressão absurdamente enrugada, sem pensar, perguntou se o velho não gostaria de uma companhia.

                O velho riu, aquele riso medonho que enrugava toda sua face sobrenatural, que parecia uma máscara viva com um sorriso generoso estranhamente maligno. Mas um rapaz jovem, transeunte, que cruzara o caminho do velho não tivera a mesma sorte.

                Luiz andava pela Avenida São João, levemente embriagado, quando viu aquele homem que andava de bengala, e se aproximou, dando um chute na bengala. Por mais apoiado que o velho parecesse, ele não caiu. Ficou intacto. Entretanto, a bengala do chão, levitou-se até a mão do velho, e isto assustou o rapaz.

                Sentindo-se fuzilado por aqueles olhos terríveis, gritou algo que ofendeu ainda mais o velho, que ergueu a bengala e, como se esta fosse uma lança, enfiou-lha no estômago do rapaz, que caiu no chão, gritando de dor e aflição. O velho então escancarou a boca que abria até o meio das bochechas e deu aquela gargalhada de muitas vozes infernais, exibindo dentes longos e pontiagudos que pareciam vidro.

                Enquanto girava e torcia a bengala pelas vísceras do rapaz, aproximou-se até que pudesse puxá-lo pelo pescoço para então, de uma única mordida arrancar seu ombro e engoli-lo. O rapaz caiu no chão, levantou-se e saiu correndo.

                Nada daquilo tinha de fato acontecido.

                Todos relataram suas experiências, sem que quaisquer ouvintes acreditassem, pois demorava até que o velho que ria fosse visto outra vez. 

                Durante anos histórias grotescas de encontros eram repercutidas pelas ruas do centro de São Paulo. Por anos, pessoas foram ameaçadas, cumprimentadas e açoitadas pelo velho que ria. Mas era fato, as histórias mais impressionantes eram justamente aquelas que ninguém nunca ouviu falar.

                                                                                                              Continua... 

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