A lenda do velho que ria, Parte 2

sábado, 24 de novembro de 2012

| | |
Pomba-Gira, por Caio de Figueiredo
                Maria Cristina vivia em um apartamento na Avenida São João fazia quatro anos. Quando o comprou, queria convencer seu namorado, Jorge, a casar-se com ela. Ele, por sua vez, após cinco anos com Maria Cristina, decidiu terminar com o relacionamento. Ela não gostou.

                Ela era divorciada, 52 anos. Jorge tinha 28 anos, era bonito, vigoroso e atlético. Ela, após os trinta passara a ganhas alguns quilos por ano e, agora, estava decidida a buscas ajuda espiritual para manter seu relacionamento.

                Mãe Ciníra de Oxossi era uma macumbeira bastante conhecida. Começara com os trabalhos espirituais por volta dos 12 anos e agora aos 70 era uma mulher rica, guru de pessoas bem-sucedidas e, de fato, muito habilidosa no que se propunha a fazer.

                Quando Maria Cristina procurou Mãe Ciníra, já sabia que ia fazer algo tanto moral, quanto espiritualmente errado. Haveria um despacho, seria em uma encruzilhada, e a sexta-feira mais próxima era curiosamente num dia 13.

                Na noite em questão, Maria Cristina sentia medo e constrangimento. Não queria ser vista por vizinhos fazendo despachos e oferendas. Foi por volta da uma e quarenta da manhã que Mãe Ciníra, já enfurecida, intimidou Maria Cristina a descer e fazer o trabalho.

                Começou com sua chegada na grande avenida. Carregavam uma sacola com um alguidar pequeno, uma garrafa de champagne, cigarros, sete rosas vermelhas, e um par de brincos com um colar. Andariam até a esquina da Avenida São João com a Rua Conselheiro Crispiniano, o cruzamento de três vias mais próximo.

                Antes que chegassem ao Largo do Paissandú, porém, algo aconteceu...

                Como que de uma porta invisível surgida no meio da calçada, surgira um velho bem alto, todo branco com uma bengala e um chapéu Panamá.

                “Minha Nossa Senhora!”, exclamou Maria Cristina. Mas Mãe Ciníra, por sua vez, assustou-se, começou a chiar feito uma panela de pressão e a girar até que, de uma gargalhada, parou e o encarou.

                Maria Cristina olhava assustada para o velho, que aparentemente, a ignorava. Olhava apenas para as sacolas com as oferendas. Mãe Ciníra, com a Pomba-Gira incorporada, batera o pé esquerdo no chão, como se desafiasse o velho. O que Maria Cristina não podia ver era como o velho e a pomba-gira enxergavam um ao outro...

                Havia a avenida, repleta por brumas, com edifícios e postes esmaecidos. Duas mulheres quase imperceptíveis e uma gloriosa negra de cabelos longos e armados, trajando apenas uma imensa saia vermelha, com os seios grandes e belos à mostra. De frente para ela estava a criatura.

                Parecia um tipo de aranha com um corpo hominídeo pendurado próximo ao chão, mas suspenso no que parecia uma teia nebulosa branca que chegava até o céu e se expandia por toda direção. O corpo era de um velho monstruoso, não com braços, mas com muitos tentáculos, e aquele semblante de homem idoso, cuja pele parecia feita de cera de vela.

                Permaneceram encarando-se por quase um minuto, até que a Pomba-Gira bateu o pé esquerdo outra vez. O velho se enfureceu e a agarrou com um de seus tentáculos, apertando-a na altura do estômago e do pescoço. E depois ele riu aquela gargalhada não parecia vir de câmaras de uma garganta, mas de corredores de pedra de alguma caverna nas profundezas do mundo.

                Maria Cristina pôs-se a correr. A Pomba-Gira sumiu, e Mãe Ciníra caiu no chão, morta num enfarto fulminante.

                                                                                                        Continua...

0 comentários:

Postar um comentário

About me

About Me


Aenean sollicitudin, lorem quis bibendum auctor, nisi elit consequat ipsum, nec sagittis sem nibh id elit. Duis sed odio sit amet nibh vulputate.

Popular Posts

Contact Us

Nome

E-mail *

Mensagem *

Navigation-Menus (Do Not Edit Here!)

My Instagram