Pobre Letícia... - para o jornal Horizonte

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

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O conto à seguir foi originalmente publicado no jornal Horizonte, do distrito de Viseu, em Portugal, em 26 de junho de 2012.


Letícia era forte.  Letícia aos treze anos cuidava de três irmãos. Letícia aos quinze anos tornara-se mulher da vida, mas Letícia, aos vinte, encantou um homem.

Letícia fora uma menina delicada, mas Letícia se tornara uma mulher de poucos risos. Era aquele enigma de seus olhos que lhe trazia o sustento, pois Letícia nem mesmo era dona de tanta beleza assim.

Talvez aqueles olhos carregassem mais experiências do que se esperaria em alguém de sua juventude. Afinal, Letícia confiava apenas em sua intuição. O mérito desta sabedoria era conseqüência de sua própria história.

Letícia sempre quis dar conforto a seus irmãos, e lamentava que isto não pudesse acontecer por um trabalho de advogada ou médica. Letícia queria que seus irmãos fossem alguém nessa vida. Doutores em alguma coisa... Quem sabe artistas? Artistas mudam o mundo, trazem riso e fazem pensar. Teria se orgulhado.

Mas a verdade é que seus irmãos na adolescência passaram a envergonhar-se dela. A partir deste dia, nada mais pôde fazer por eles. Apesar de aceitarem seu sustento, rejeitavam seus meios. Ela própria os achava cruéis, mas o que poderia fazer? No final das contas, ela própria não teria se orgulhado de sua mãe se esta se deitasse com homens para sustentar os filhos. Embora se lembrasse que sua mãe havia desistido de viver por não poder sustentá-los.

Frustrada exatamente como sua mãe era, porém, que culpa tinha ela e que culpa teriam eles? Fracasso não enche barriga. Precisavam de comida e carinho, sendo ela feliz ou não.

Quando um homem percebeu que aquele olhar que para o mundo parecia sensual, nada mais era do que uma janela para a tristeza incalculável, não poderia oferecer no mundo nada que pudesse valer ver aqueles dois olhos negros brilharem felizes.

Como poderia ela acreditar que aquele homem sentia algo terno por ela, se ela própria não conhecia esse tipo de encanto?

Ao passo que ela abaixou uma alça de seu sutiã, ele a colocava de volta. Ao invés de se encantar, ela sentiu medo. Pobre homem, que levou tantos meses até que ela se permitisse ver a si mesma como uma boa companhia. Ele lhe pagava para que não dormisse com outros homens. 

Pouco a pouco, pobre Letícia, fora descobrindo que ainda era jovem, e isto não fora nada fácil. Não é simples entender que pode haver vida boa adiante, se não houve vida boa no passado. Nem é fácil descobrir-se alguém especial para os outros se nunca soube ser especial para si mesma.

Conhecê-lo a tornou feliz, de alguma forma. Mas seus irmãos não acreditavam. E o homem apesar de ter uma vida boa, apenas era um trabalhador bem sucedido, não um homem rico. Certo dia seus irmãos partiram. Não haviam sequer despedido dela. Afinal, eles eram do mundo, não eram?

O homem cresceu em seu trabalho, e precisou ir para outro país. Ela se despediu dele. Mas ele nunca se despediu dela. Ela partiu em seu encontro alguns meses depois. Sempre pensando em seus irmãos em toda a viagem, e em todos os anos que se seguiram.

Sempre pensou neles. Nunca mais os viu. Mas foi uma mulher muito amada por seu homem, e uma mãe muito amada pelos filhos que teve.

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