A morte do Papai Noel

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

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Em algum lugar no interior da Bahia se escondia a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era conhecida por histórias de superação. Natalino Ventura fora um sobrevivente: Tinha dois filhos que passavam o dia sozinhos no sitio em que morava, e certa vez, em época de natal viajou até Itabuna para trabalhar em um comércio.

Com a mesma falta de sorte que lhe trouxera uma mulher que engravidara de gêmeos e desapareceu após seu nascimento, Natalino esbarrou com Cristino Gomes, conhecido por Corisco, cangaceiro famoso e perigoso que estava à paisana pelas bandas de Itabuna. Após uma discussão por motivo fútil, Corisco lhe agrediu com violência.

 Ninguém jamais soube que o homem que o espancara e o deixara desacordado pela rua era o cangaceiro, a não ser este que vos fala. O fato é, Natalino, com vinte e três anos, acordara sem se lembrar de seu nome, seu lar, exceto lembrar-se que tinha alguém à sua espera.

Seus filhos cresceram, com momentos ora de tristeza, ora raiva. Jamais saberiam o que tinha acontecido até que quando completaram sessenta anos, Indaiara, a moça, agora senhora, por quaisquer forças do destino o encontrara pedindo esmolas em uma praça de Itabuna, com uma barba que passava a altura da cintura, cabelos longos, cinzas e embaraçados, e uma marca de espancamento, como um carro amassado, no cocuruto do velho.

Bastaram três dias para que ele estivesse devidamente asseado, e arrumaram-lhe um trabalho. Um shopping de Itaxoxota, que mais parecia uma pequena galeria, precisava de um velho barbudo para representar o Papai Noel.

Lá estava Natalino. Um velho que não calculava informações. Não assimilava o mundo. Uma alma infeliz, por ansiava por reencontrar coisas que já tinha recuperado e não podia reconhecer. Falava, pensava, mas era vazio. Sentia calor com a roupa vermelha, e a poltrona do Papai Noel, embora parecesse bonita, era dura e desconfortável. E então uma menina se sentou em seu colo.

Ele fez como o dono do Shopping orientara, conversava com a menina, e dera-lhe um doce. Houve uma iluminação em sua mente ao olhar tão próximo do rosto da menina.

“Minha filha...” pensou ele, como quem faz a maior descoberta do mundo. Ele tinha duas crianças. As havia deixado para trabalhar. Esta era a causa de sua angústia. O senso de responsabilidade por seus filhos jamais havia desaparecido, e não lembrar que existiam tornara todos os sessenta anos terrivelmente sufocantes.

Seu coração acelerou. Ele precisava procurar, mas onde estariam.

- Qual o seu nome, meu filho? – perguntou ele para outra criança.

- Enoque. – respondeu o menino.

Era o nome de seu filho. Enoque e Indaiara. De repente tudo voltou à tona. Ele sabia quem era, de onde viera, lembrou-se do diabo loiro que o agredira. Mas não se esquecera dos anos que se passaram.

Sentou-se outra criança. Mas sua aflição apenas se atenuava a cada segundo que passava.

“Meu Deus, aquela moça é minha filha. Onde ela está?” ele pensou, lembrando-se do rosto da mulher Indaiara que o havia resgatado das ruas de Itabuna.

Começou a sentir a boca seca.

- Eu passei de ano! – exclamou um menino, orgulhoso. Olhou para o menino, simpático, tentando parecer calmo, embora surgissem pequenas luzes em seus olhos que piscavam incessantes.

Esticou o braço esquerdo para pegar um pirulito, e o doce caiu de sua mão que formigava. Ele abria e fechava, aflito. A boca, mais seca a cada instante, e de repente ele gritou um breve “Ah!”, e derrubou o menino no chão, e caiu em cima dele. Morto.

Um trovão cortou todo o som que havia na cidade. Um raio havia partido a maior árvore da praça principal, que ficava diante do shopping e da igreja. Também o som da árvore fora um estrondo arrepiante.

E as crianças, que eram muitas começaram a gritar. Umas choravam de medo, outras uivavam e apontavam para o velho morto.
“Papai Noel morreu”, gritavam elas.

E a chuva começou. Densa, tornando a manhã ensolarada em uma noite surgida de modo inesperado. Pessoas corriam pelo shopping e gritavam nas ruas que o Papai Noel havia morrido. Uma hora depois, estavam Indaiara e Enoque ao lado de oficiais que retiravam o corpo de Natalino.

Quando o corpo fora levado, todo mundo soube que o nome do homem se chamava Natalino, e que ele era um milagre. Pois não chovia em toda a região fazia quase seis meses. A chuva levou horas, e toda a cidade saiu, sem guarda-chuvas, para senti-la, fria, abundante e abençoada.

Indaiara e Enoque jamais souberam que seu pai se lembrara deles antes da morte, e fora a dor de tê-los deixado esperar tanto tempo, que lhe tomou a vida. 

1 comentários:

Adilson disse...

Às vezes, muitos tem a oportunidade de "lembrar" dos filhos enquanto tem a mente sã, e caem no esquecimento... Natalino se foi, mas muitos mereciam ter ido no lugar dele.

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