O Menino que não podia morrer... Capítulo 5

sábado, 28 de janeiro de 2012

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      Quem olhasse para Tia Rute, veria uma velha de oitenta e poucos anos, arqueada, magra, descascando batatas, laranjas, arrumando camas, e tirando poeira de superfícies, e jamais imaginaria que na realidade se tratava de uma mulher de mais de cem anos, que pouco falava, e carregava histórias complexas, sem quaisquer testemunhas, além de sua prima, Lira.

      Rute não sorria, e só se dirigia à Lira e ocasionalmente à Hortência, sempre dizendo o necessário e nada mais. Gostava de crianças? Isso ninguém tinha idéia. Não se dirigia à elas. Nem demonstrava indiferença. Na verdade, era prestativa, evidentemente, sempre na medida que sua disposição a permitia.

      Naquele dia de chuva forte, ela andava até a cozinha, com suas passadas sobrenaturalmente lentas. Andava devagar, de um modo que as vezes não era sequer percebida por alguém em estado de distração.
Estava Dona Lira, uma mulher de sessenta e alguns, apoiada no batente da porta, observando O pátio molhado, da chuva que cessara fazia poucos minutos Em que pensava? Nada importante, supôs Rute, que tocou seu ombro, fazendo-a tomar um susto.

      “O casulo. Alguma diferença?”

      - Está como deveria estar. – Lira disse. – Estou cansada.

      Saiu da porta, quando ia deixar a cozinha, Rute murmurou algo. Lira voltou até a porta, e viu Gilmar vindo carregando uma bolsa nas costas e alguém nos braços. Correu até ele, para ajudar de algum modo, mas ele logo alcançou a casa.

      Rute observava atenta a criança nos braços de Gilmar.

      “Esta criatura, de onde vem?” murmurou.

      Gilmar a olhou nos olhos. Não soube o que dizer. Não seria capaz de dizer que caíra do céu, porque ele próprio não estava convencido que isto havia de fato acontecido.

      - Estava adormecida, no mato. – ele disse.

      - Leve para o quarto de medicamentos, vou chamar Hortência. – disse Dona Lira, que os deixou. Gilmar levou a criança até o quarto aonde havia uma cama com o menino doente, e um colchão sobrando no chão. Deitou o menino recém encontrado ali. Estava sozinho. Descobriu o menino de seu paletó, e o cobriu com um cobertor. Tinha uma impressão ruim. Não com o menino, mas com sua chegada. Uma mão tocou seu ombro, e ele abalou-se num pequeno susto. Era a velha tia Rute.

      “Porque ele não tem roupas?”

      - Isso é o que devemos perguntar a ele quando acordar.

      Ela abriu um sorriso. Era forçado, porque as rugas ao redor de seus olhos não mudaram em absolutamente nada. Um sorriso faltando dentes, com um olhar duro fixo em seus olhos.

      “O que mais, Gilmar? Como o encontrou?”

      - Foi tudo muito rápido, e sem nada de interessante. Depois vamos à policia ver se dão falta de alguma criança.

      “Exato.", disse ela, com uma voz absolutamente masculina. -Não quero crianças que não sejam trazidas pelo juizado.

      Ela olhou mais uma vez para o menino que dormia irresistivelmente relaxado, e partiu, vagarosamente. Ela não o queria ali, Gilmar notou, e essa decisão era muito apreciada por ele.
(CONTINUA NO PRÓXIMO DOMINGO, 05/02)

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O Menino que não podia morrer... Capítulo 4

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

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A carroça atolou na lama. Gilmar pensou em gritar, mas a frustração era mais forte, ele respirou fundo, segurou o ar, e o soltou devagar. Olhou para o menino desconhecido. Será que deveria deixá-lo pelo caminho? Quem sabe alguém não o encontra e lhe oferece uma família... Não. Levariam-no para o abrigo. Faz quase sete anos que não aparecia alguma família para adotar algum deles. Este iria morrer ali, como ele próprio.
Na verdade houve uma ocasião, no passado, em que um homem de trinta e poucos anos aparecera ali no abrigo para conhecer as crianças, e Gilmar descobriu gostar dele. Ele tinha olhos brilhantes, e um sorriso calmo. Era bondoso, e isso sua voz dizia. Falou histórias de marujos, piratas, gênios, tapetes voadores... Ele ia sempre lá, e passava muito tempo com as crianças, particularmente com Gilmar.
Um dia ele disse “vou te contar um segredo: quero que você seja o meu filho”.
Gilmar o abraçou e chorou. O jovem não deveria ter lhe dito isto. Ele tentou adotar, mas tudo parou. Ele começou a ir com menos freqüência, cada vez ficando menos tempo. Gilmar sabia que estava se despedindo. Anos mais tarde, Dona Lira trivialmente dissera “Você quase foi adotado, mas descobri que o homem que o queria vivia com outro homem. Pouca vergonha! Imagine, destruir a sua infância e sua formação como homem.”
Inicialmente, Gilmar pensou que Dona Lira pudesse ter razão, mas a verdade é que Gilmar gostava de comer Hortência, gostava de ouvir a bunda dela batendo em seu corpo, e acima de tudo, ouvi-la gemer. Não iria gostar menos de uma mulher por viver com dois homens que se gostavam. Essa reflexão lhe acendera uma pequena chama de ódio, mas nada capaz de causar-lhe incêndio.
Gilmar sabia escrever o próprio nome, e era tudo o que sabia. Sabia fazer contas nos dedos, tinha lógica para calcular, mas não sabia fazer nada em papel, nem escrever números. Quem sabe como filho de dois veados ele não saberia ler livros inteiros. Era seu sonho, ler um livro, e ele odiava livros com figuras, porque isso o lembrava do quão ignorante ele era.
Quando ficou mais velho e começou a assumir algumas responsabilidades no Lar Cardeal Peregrino, e ir mais à cidade, via como os jovens se vestiam, e cortavam os cabelos, e como falavam. Gilmar sentia vergonha de si mesmo. Sentia raiva do mundo. E sentia pena, porque era pouco provável que aquela criança pudesse ter um destino diferente.
A chuva passara. Ele pegou a bolsa com os medicamentos, segurou o menino no colo, e o colocou sobre o cavalo. Deixou a carroça para trás. Mais tarde ele voltaria para buscar. Partiram.


(PRÓXIMA ATUALIZAÇÃO - DOMINGO, 29/01(DIA DE COMER NHOQUE))
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O que se faz?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

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O que se faz nesta hora?
O que se faz quando um amigo, em seu humor diverte-se com o que lhe frustra e machuca?
O que se faz quando voce não sabe o que responder?
Quando responder inevitavelmente o fará vítima, ou o fará igualmente cruel?
Me calo.
Melhor que prolongar o inevitavel, que é sempre interminável e ainda mais doloroso, é deixar que as coisas esfriem, deixando à minha própria mente um recado: "Não se esqueça que isto aconteceu".

O Menino que não podia morrer... Capítulo 3

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

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                    Hortência esperou por alguns instantes após a saída de Dona Lira, e trocou novamente a compressa do menino.
                    - Pobre diabo, você. Não devia morrer... – tocou-lhe o rosto. – Se crescer vai ficar um homem lindo. – Acariciou o peito do menino – Nem tem pêlos ainda. Tomara que tenha pêlos no peito e nas coxas. – suas mãos desceram pela barriga, e pelas pernas. - Eu gosto de pêlos – disse, indiferente.
                    Ficou em silêncio, a espera de ouvir algo, então se aproximou, lambeu o suor da febre no pescoço do menino e subiu com a língua até suas orelhas. Beijou seu rosto, e foi interrompida por seu próprio grito, ao ouvir um trovão. Molhou o pano na água fria, e continuou a limpar o menino, tranquilamente.
                    Era já um menino crescido, de doze ou treze anos. Era um menino bonito, alto. De fato, se tornaria um homem belo se sobrevivesse à febre que o deixava desacordado sempre. Febre que, alias, ninguém lembrava quando havia começado. Ele sempre esteve assim fazia muito tempo. Esqueceram até seu temperamento.
                    Cobriu-o com um lençol limpo e deixou o quarto. As crianças estavam limpando a casa. Havia dezesseis crianças naquela casa. Aquele era chamado Lar Cardeal Peregrino, mas ninguém se lembrava mais deste nome. Era apenas o “abrigo de crianças”. Lá Hortência crescera, e vira crianças de todas as idades irem e virem.  Ela própria crescera no abrigo, junto a Gilmar, criados por Dona Lira e Tia Rute, que era agora uma velha frágil, que não saia da cozinha.

                    Hortência não gostava nem desgostava do abrigo. Não tinha com o que comparar sua vida, logo, vivia em paz. Monotonamente. Gostava das crianças. Na verdade, não houve nada de extraordinário em sua vida que a fizesse perceber a infância passar, nada além da descoberta do sexo.

                    Nicanor era um homem de um metro e setenta e oito, forte, peludo, e fedido. Era responsável pelo trabalho pesado, há muitos anos atrás, quando Hortência era apenas uma menina de onze anos. Uma menina extraordinária, que com problemas hormonais, aos nove já lhe havia começado a crescer os seios, os quadris e os pelos pubianos. E Nicanor percebera isto.

                    Dissera-lhe Nicanor: “Sabia que já é uma mulher?”. Hortência não entendera. Ele a sentou em seu colo e enquanto acariciava os cabelos, e a envolvia com um de seus braços na cintura, continuou “Isso é uma dádiva, você é uma criança, e é inocente, no entanto, já está pronta para desfrutar do que há de melhor em ser adulto”. Ele a domou. Ela gostava do cheiro forte dele.

                    Ele começou com caricias superficiais, fazendo-a descobrir seu próprio prazer sem tocar em nenhuma parte intima, e assim foi por um mês, até que ele provou do seu corpo com sua boca e seu falo. E ela se entregou feliz. Sempre fora uma menina disposta a essas sensações.

                    Dona Lira percebeu certa vez que a menina não parava de apertar os bicos dos seios e roçar seu sexo com os dedos sempre que pensava estar sozinha, e esperou. Um dia, tarde da noite, ela encontrou Hortência, obediente, cavalgando alucinada sobre o falo de Nicanor, com os dedos agarrados nos pelos do seu peito suado, enquanto ele próprio beliscava-lhe os mamilos. Astuta, percebeu que a menina estava à vontade e não lhes surpreendeu. Quem sabe o choque de descobrir que seu prazer era na realidade um ato de violência não poderia lhe causar danos ainda piores.

                    Na mesma madrugada, Dona Lira e Tia Rute foram até casinha separada, aonde vivia Nicanor, e nunca mais ele fora visto. As crianças acreditaram por um tempo que elas o tivessem matado por alguma razão desconhecida.
(PRÓXIMO CAPÍTULO, NO DOMINGO, 22/01)


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O Menino que não podia morrer... Capítulo 2

sábado, 14 de janeiro de 2012

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Sentada no banquinho de quatro pernas ao lado da cama, Dona Lira bocejava.
“Ele vai morrer”, pensou, olhando para o menino deitado na cama. Parecia o palpite de alguém sem esperança, mas aquela era uma mera questão de intuição.
 - Teve alucinações durante a noite. “Não há descanso...” foi a única coisa que distingui no meio dos resmungos. Gilmar foi buscar medicamentos. Pobre homem, com este temporal por vir. – dissera à Hortência, uma jovem que, sentada na cama, trocava compressas na testa do menino.
 - Precisa tirar as roupas do varal, Dona Lira. Pegaram bastante vento, devem ter secado.
 Esquecera-se completamente. As roupas. Saiu do casarão sem pressa, com uma das mãos sempre apoiada em uma parede, como se precisasse escorar-se. Era apenas um gesto de uma mulher cansada, não propriamente debilitada. Lá fora estavam os varais cheios de lençóis e algumas roupas de crianças.
 Apanhou uma bacia num gesto automático e começou a tirar lençol após lençol sem nenhuma pressa. O céu era escuro. Olhou-o, e dele para a direção por onde a qualquer momento voltaria Gilmar trazendo comida. Distraiu-se com um lençol. Alguma ave havia se empoleirado e feito suas sujeiras. Suas mãos seguraram o lençol, apertaram-no num gesto de ódio, e ela observou seus dedos. Como estavam magros.  Parecia uma arvore seca, com manchas e galhos cheios de nós.
 Nunca tivera mãos bonitas e quando ela própria era jovem e ainda lhe havia alguma beleza, suas mãos já estavam calejadas pelo ofício nada delicado que lhe havia sido imposto por ser mulher. Admirou-as por um instante. Esfregaria novamente o lençol que estava limpo, não fossem as fezes do animal. Sentia pena de si mesma. Concentrada em suas mãos, assustou-se com um trovão alto.
 Arrancou os demais lençóis passou para dentro do casarão. Olhou novamente para a estrada. A chuva havia começado.
  Jamais ela partiu daquele lugar e agora era tarde. Passaria o resto de seus dias e, ao morrer, seria esquecida pelo mundo, e nunca teria existido.
(PRÓXIMO CAPITULO NA QUARTA FEIRA 18/01)
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O Menino que não podia morrer... Capítulo 1

domingo, 8 de janeiro de 2012

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Setembro, dia treze. 1929

Gilmar apoiava-se para cochilar na carroça velha naquele entardecer frio e nublado quando percebeu uma luz tão forte sobre sua cabeça e sentiu um estouro poderoso a menos de quinze metros dele. O chão tremeu, o cavalo correu, e ele próprio desnorteou-se por alguns segundos. Olhou para trás.
Calou-se, contido pelo choque. Sentiu a terra sob seus pés. Estava quente como a tarde de algum verão rigoroso. O céu, cujas nuvens continham uma chuva forte que despencaria a qualquer momento, estava cinza escuro e um buraco, de uma elipse perfeita, permitia que a luz do sol iluminasse uma parte do mato: aonde havia caído algo.
O mato não havia sido queimado, nem sequer amassado: contorcia-se para aconchegar algo, e havia formado no solo uma cavidade redonda perfeita, e no centro havia uma criança pelada, deitada em posição fetal. Uma criança grande, de seis anos, limpa, de cabelos pretos, longos e brilhantes e uma respiração deliciosamente relaxada. Gilmar andou até o buraco. A chuva começara. Ele escorregou ao entrar e aproximou-se da criança. Ajoelhou-se e viu o sexo, era um garoto. Cobriu-o com seu paletó, mas não havia frio. O sol os abrigava. O sol abrigava unicamente aquelas duas pessoas no meio do vento gelado e a chuva fina que começava.
As nuvens começaram a deformar o orifício por onde a luz passava. Gilmar permaneceu silencioso contemplando o céu, misterioso. Depois segurou a criança em seus braços e a levou até a carroça, e seguiu seu caminho.
Estava cansado. Sua vida não mudava, e seria para sempre isso. Já era incapaz de reconhecer a própria juventude. Pousou seus olhos cansados sobre o menino deitado ao seu lado, inconsciente. Quem seria ele? Teria caído do céu? Não. Era apenas um delírio de uma imaginação que sempre implorava por alguma esperança.
Com o corpo molhado da chuva, e resfriado pelo vento forte, ele seguiu seu caminho.
(CONTINUA NO PRÓXIMO DOMINGO – 15/01)
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Atualização - DOMINGO

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

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Domingo eu começarei a postar um conto, dividido em algumas partes. É uma história que eu planejo fazem dez anos, mas não tinha ainda pensado no formato. Mas decidi, será um conto. Não um muito pequeno. Espero que gostem. É bem pessoal.