Tem lógica

quinta-feira, 29 de março de 2012

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- Ei, eu acho que você não precisa mais chorar
- Por que não deveria?
- Porque eu descobri que dá pra você voltar a ser feliz!
- Eu acho que não posso.
- Por que não?
- Porque eu não posso voltar no tempo e mudar o passado...
- Mas se você voltasse no tempo, ainda sabendo como terminaria, você iria passar pela mesma coisa, porque você não pode mandar no seu coração.
- É... Tem lógica. Mas como eu poderia ser feliz?
- Simples. Eu descobri que eu sou a sua alma gêmea!
- Mas se isso existisse, ou, se fosse você, eu também teria notado, não teria?
- Então, mas nós já estamos nos falando até agora. Isso pode ser um sinal.
- Mas eu não consigo me esquecer do passado.
- Ah, mas isto é simples. Você não quis esquecer até agora. Alias, por não querer, as pessoas acabavam desistindo de você. E você voltava a pensar na mesma pessoa...
- Verdade. Mas aí que tá, se eu não quis esquecer, porque acha que seriamos almas gêmeas?
- Você se prende a alguém que não te quer como você quer, logo, esta pessoa não pode ser sua alma gêmea.
- Tem lógica. Mas não estou apaixonado por você.
- Isso porque não quer se apaixonar por mais ninguém. É simples, não é?
- Verdade. Mas porque você acha que eu sou sua alma gêmea?
- Por que você espera do mundo o mesmo que eu...
Silêncio constrangedor.
- E...
- Sem chateações, vai. Você escuta cada coisa esquisita...
- Você sempre disse que gostava!
- Exatamente!
Silêncio surpreendente.
- Agora fiquei sem graça... Mas tem lógica... Mas sabe o que acontece? Eu gosto de você, e detestaria te dar uma chance e você descobrir da pior maneira que não somos um só. Não quero magoar você.
- Pois então, aí vem outro sinal. Eu não tenho medo de chorar por sua causa, não apenas por achar que você vale o risco, mas porque eu tenho certeza que é você.
- Mas porque diz isto?
- Porque quando eu acordo a primeira coisa em que penso são seus olhos negros.
- É sério?
Silêncio encantador.
- Juro.
- Então tem lógica. Mas e agora, como a gente faz?
Silêncio sonhador.
- É bem fácil: me dá a sua mão, que até seus cabelos ficarem brancos a estrada é bem longa.

Dona Beuba e sua extraordinariamente irrelevante vida

quarta-feira, 28 de março de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por seus munícipes excêntricos. Dona Beuba era uma mulher famosa. Não havia em Itaxoxota quem não a vira com os peitos pra fora da roupa. Não por ser uma mulher da vida, mas por ser cachaceira mesmo.





       Dona Beuba chamava-se Izildinha de Gonzaga Herculana Conceição Imaculada de Jesus. Chamavam-na de Beuba porque certa vez estava beijando um poste de luz apaixonadamente, “Óli lá! Izildinha ta beuba” gritou alguém. O policial recém chegado em Itaxoxota se aproximou “Dona Beuba, têinha modo sinão vai prêsa”.

          - Eu to beuba, i a sinhora tua mãe ta...

          Bastou. Foi levada presa. Apareceu no noticiário local, ficou famosa na internet. O bordão, repetido pelo povo de São Paulo e do Rio de Janeiro era: “Si to beuba, num sei. Sei qui to feliz! Rá-rá-rá” Olhou pra câmera com olhar obsceno, e é imitada até hoje no sudeste pelo que chamam de “bichas pão-com-ovo”.

          Dona Beuba tinha 33 anos. Era meio barriguda. Tinha dinheiro pra cachaça porque era aposentada por invalidez. A mão esquerda dela fora decepada numa maquina fazer caldo de cana. Foi trágico, mas depois ela até gostou da idéia.

         Com um cotoco, não precisava mais pegar filas, e como era canhota, nunca mais precisou escrever. O que era um alivio pra quem precisasse ler o que Izildinha fosse escrever. Um chimpanzé tinha mais coordenação motora que ela.

          Beuba tinha um sonho. Ver sua filha, Cleonice casada com um bom homem. Se orgulhava muito de sua filha, virgem, e sabia de seus sonhos inocentes com o príncipe encantado. Seu sonho era casar Créu com Helinho, filho de um fazendeiro da região. Créu era bonitinha e meiga. Tinha suas chances.
      
          Beuba não sabia quem era o pai de Créu.

          Beuba, alias, não sabia de muita coisa. Afinal, estava sempre “Beuba”, xingando as latas de lixo da rua, que pareciam segui-la, e chamá-la de pinguça.

         A maior decepção de Beuba era saber que Weliston seu filho, se mudara pra São Paulo, e colocara silicone industrial no corpo, para virar mulher. Beuba não gostava de bichas. Pra ela, as bichas eram obra de Satanás, e ela dizia sempre que podia, para sua filha Cleonice, que “Mulé que chupa grêlo vai pro inferno quâno morre”.

          A verdade é que ela na juventude fugira constantemente para Serro Azul com suas amigas e alugavam quartos em hotéis baratos e interagiam libidinosamente. Beuba não se envergonhava, porque achava que ninguém sabia disso, mas era um engano seu.

          Elinete, filha de dona Creuza, antes de morrer de dengue confessou a sua mãe e ao padre que ela e Izildinha foram namoradas, e que Izildinha era o homem da relação.

          Dona Creuza sempre quis ver Beuba morta, por ter levado sua pobre filha para os caminhos perversos do belzebu-monstro, e feito ela virar um sapatão. Elinete era uma dondoca, e a verdade é que ela havia namorado todas as sapatonas de toda aquela região da Bahia.

          Outrossim, era por isso que Beuba condenava a sapanotagem. Sua antiga namorada a traíra com mulheres muito melhores que ela. Ficou beuba, como qualquer beubo que se vê por aí, pela chifredão da vida...

[QUEM GOSTOU, E PUDER RECOMENDAR O BLOG, E COMENTAR, VAI ME DEIXAR BEM FELIZ. ASSIM EU POSSO INTERAGIR E SABER DAR UM FOCO MELHOR NAS PRÓXIMAS HISTÓRIAS]

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Qual o mistério da felicidade?

terça-feira, 27 de março de 2012

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Qual o mistério da felicidade?
Será que tem algum limite de idade?
Ou está escondida pela cidade?
Dizem que existe, mas não tem veracidade.
Mas a desejo com voracidade.
Fico sempre na vontade.
Ás vezes penso que é vaidade.
Durmo implorando por solidariedade.
Será que ela vem, mesmo, de verdade?
Eu quero ser feliz, e nisso ponho toda a minha vontade.
Mas pro coração só o que sobra é a atrocidade.
Quero alegria, quero prazer. Quero o amor da minha metade.
Basta de solidão. Isso definitivamente é uma barbaridade.
Tudo o que busco, pura e simplesmente, é a minha felicidade.

O Menino que não podia morrer... Capítulo 13

sábado, 24 de março de 2012

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          Tia Rute não gostara nada da saída intempestiva de Gilmar, particularmente porque aquele dia iriam receber uma visita importante. Senhor Heitor viria para buscar o menino Donizete. Partiria com o menino, que a partir de então, chamaria de seu filho.

          O homem chegou em um carro, e nele as duas senhoras subiram com o garoto, e partiram para a cidade. Hortência nunca antes vira um automóvel.  

          Poucos minutos depois da partida, ela percebera um forte alvoroço entre os meninos. Na enfermaria e no quarto, os dois meninos deitados e desacordados suavam, e os membros agitavam-se como se uma corrente elétrica os percorresse de tempo em tempo. Fora assim por um tempo. Desorientada, Hortência corria de um quarto para o outro.

          Laio parara primeiro. E ficou imóvel. Como um espirro de gripe, cuspiu-lhe sangue no rosto. E os músculos do rosto começaram a se contorcer. Lágrimas escorriam pelos olhos fechados daquela criança imutável. Muitas. E o corpo vibrava, como se houvesse uma tentativa de choro contida de algum modo extraordinário.

          “Tia! Tia!” gritou um dos meninos que estavam no quarto com o menino trazido por Gilmar. Angustiada, correu até o outro quarto, e o menino estava de olhos abertos e a olhou com uma força que a arrepiou por inteira. Suas pupilas eram de um negro profundo, e ali ela mergulhara por um deslumbre aterrorizante aonde um Ser imenso a erguia do chão e com os braços, a partia viva, dividindo-a em duas partes. 

          “HORTÊNCIA!”, gritou Gilmar, fazendo-a sair de um estado de choque. Ele olhou e o menino estava olhando para ela. Ela correu até o outro quarto. Laio estava adormecido, calmo. Suado. Ela enxugou sua testa.

          “Os dois começaram a se sacudir juntos...” dissera um menino, apavorado. O orfanato pareceu estar em estado de pânico.

          - Esse sangue? – perguntou o rapaz. Ela tocou no próprio rosto e percebeu o cuspe do garoto. Ela não respondeu. Ficou enxugando Laio, transtornada.

          Gilmar fora até o outro quarto. O menino estava sentado, olhando para os outros, sorrindo, feito qualquer outra criança. Gilmar se agachou, e o encarou. O menino sorriu.

          “Calma, elas não saberão. Todos eles vão dormir daqui a pouco e não se lembrarão de nada.”

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Pessoas estranhas.

quinta-feira, 22 de março de 2012

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Pessoas estranhas usam avatares.
Não importa que sejam especiais, nem importa que sejam notáveis,
Elas temem a si mesmas, se apresentam com mitos, surpreendem o mundo, e se escondem na concha.

Você pode se encantar. Cuidado.
Pessoas estranhas são assim! Elas são como você sempre quis.
Pessoas estranhas nos confundem. Podem ser estranhas para o mundo e perfeitas pra você. Mas elas entendem isso?

Pessoas estranhas são confusas.
Elas são destemidas, determinadas, e buscam seus sonhos.
Algumas realizam, outras fazem de conta que vivem neles, e são de realezas variadas, com coroas reluzentes que mais ninguém vê.

Pessoas estranhas usam avatares.
Isso dói, mas o que se pode fazer?

Os retalhos da controversa história de Jennifer Christinny

quarta-feira, 21 de março de 2012

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Neste episódio da série sobre Itaxoxota do Norte eu não quis usar xilogravura porque o personagem em questão tem poder! riqueza! e glamour!





         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por sua diversidade. Um de seus filhos mais importantes era o menino Joelson, que na vida adulta seria mundialmente conhecido como Jennifer Christinny.

          Joelson era uma bichinha que crescera na Calça do Saci, bairro da zona oeste de Itaxoxota do Norte. Lá Joelson apanhara de muitos moleques desajeitados. Joelson assistia na televisão aos shows de Sarajane, e sabia que um dia iria brilhar.

          Joelson vestia o sutiã de sua mãe, colocava uma cueca embolada em cada lado, segurava o pote de xampu, passava o batom de maínha na boca, nas bochechas e nos olhos, ligava o k7 e “Abre a rodinha por favor, abre a rodinha meu amor”.  Certa vez quatro garotos da escola quebraram a janela, e o flagraram. Atiraram ovos e depois tiraram fotos.

          Joelson, pobre menino, não quis mais ir para a escola. Acabou não indo mesmo. Fugiu pra Salvador, aonde se juntou com uma gangue de crianças malandras. Os meninos foram dar uma surra nele, sem saber que Joelson era um capoeirista desde os 4 anos, e aos doze, com raiva dos meninos que lhe atiraram ovos e chamavam de baitola, ficou macho. Não macho de macho, macho de bravo.

          Joelson sentia tanta raiva, que batia em todo mundo. Certa fez foi assaltar, e havia uma negra importada de algum país da Europa, e estava com uma amiga brasileira. Ele ouviu o nome da negra. Jennifer. Ela era tão bonita que ele não quis roubar. Roubou o nome. Joelson agora era Jennifer. Deixou crescer os cabelos, começou a roubar hormônio na farmácia.

          Nasceram peitinhos. Jennifer roubava agora apenas roupas, maquiagem, comida e hormônios. Ainda ouvia Sarajane, Daniela Mercury e Madonna. Aos 16 ela ficou loira e começou a cantar Axé.

          Macumbeira como era, Jennifer apelou aos orixás pra dar certo, e fez um hit de sucesso, segundo contam, escrito por sua cigana, que ganhou o país, depois fez duetos com Daniela Mercury, cantou com a Xuxa, participou de um especial do Roberto Carlos, gravou ao lado de Fábio Junior(com quem dizem ter tido um romance secreto) e ajudou a alavancar a carreira de Ivete Sangalo com o hit “Tiri-dam-tam-tam”(tiri-dam tam-tam, tiri-dam, tam-tam, córáção acéléra por vócê), composição sua. Jennifer Christinny gravou recentemente o single “Breathless love/Esse amorzinho gostoso da gente“ ao lado da cantora estadunidense Beyoncé.

          Uma grande polemica envolveu seu nome quando certa vez, foi parar em uma delegacia. Segundo contam os rumores, o cantor Léo Santana, seu suposto ex-namorado, numa brincadeira supostamente inocente a chamou de Joelson e teve seu braço esquerdo quebrado pela cantora.  

          Jennifer havia conversado com o presidente Lula, certa vez, num churrasco na Granja do Torto, onde teria perguntado como poderia fazer para comprar a cidade de Itaxoxota do Norte. Seu maior sonho era poder chamar a cidade de sua, e incendiá-la com todo mundo dentro.

[PESSOAL, DÁ UMA COMENTADA PRA EU SABER DA REAÇÃO]
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A imagem é meramente ilustrativa. Trata-se de uma fotografia do cantor inglês Robbie Williams para seu videoclipe "She is Madonna".

O Menino que não podia morrer... Capítulo 12

sábado, 17 de março de 2012

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          Sem muita satisfação, Gilmar montou no cavalo e partiu. Pela estrada, ele percebeu que terra vibrava com as passadas do cavalo, e percebeu as árvores chacoalhando. Ouvira som de urubus. A seu redor, sombras gigantes das aves sob um sol quente.
          Quando olhou para cima, vira onze crianças, aparentemente mortas, voarem como a ave, poucos metros a sua distância, boquiaberto com o choque, uma gota de sangue quente pingou em sua testa e, no susto, sacudira a cabeça. Era apenas uma ilusão.
          Minutos depois ele estava na praça da cidade, a caminho da igreja.
          Estava aberta. Poucos fiéis. O padre estava diante do altar. Ele se aproximou do altar e pela primeira vez abriu seu desenho. Uma corrente de ar forte escancarou as portas da igreja, apagando velas pelo corredor, e o círio pascal, que fez com que o padre imediatamente olhasse para o rapaz e se detivesse no desenho no papel.
          “Isso é hebraico...”, murmurou o Padre, idoso. Olhou para Gilmar, intrigado. “Onde encontrou?”
          - Estava gravado no taco, embaixo da cama do Laio.
          - O menino que não acorda?
          Um coroinha passou pelo altar, cabisbaixo, dobrando a toalha bordada, e recolhendo os castiçais. É o menino que Gilmar recolhera na floresta. Encara-lhe com severidade e vira-se. Gilmar se assusta, e ele olha de volta. Não se tratava da mesma criança. Devia estar ficando louco.
          - O desenho das letras é bonito, não é? – disse o rapaz.
          - Sim, mas eu achava que Tia Rute era apenas uma benzedeira. Gravar oração em hebraico no chão é muito estranho.
          - Mas hebraico não é uma língua boa?
          - Não existe língua boa ou ruim, meu filho. Existem palavras, elas sim têm poder, carregam intenções, e podem ser classificadas de alguma maneira. Não sei o que está escrito aqui, meu filho, mas sei quem pode me ajudar a ler isso aqui. – Olha para o círio pascal, com um suave fio de fumaça. Toca na testa de Gilmar e nela desenha uma pequena cruz. Volta a atenção para o círio pascal, e olha depois nos olhos do rapaz. – Evite a raiva. Evitá-la é uma forma de equilibrar a mente, e neutralizá-la do medo que o mal planta no coração. A ameaça quando vem, vem com a gente tendo medo ou não. Não tê-lo é um passo para que a inteligência fique livre durante a ameaça. Vá com Deus meu filho.
          O padre toma o papel das mãos de Gilmar e se retira. O rapaz olha para a imagem de Nossa Senhora, se curva, e põe-se a rezar, para minutos depois, partir de volta para o Lar.

[SABADO QUE VEM TEM MAIS - 24/03]
PESSOAL, NÃO ESQUEÇAM DE DEIXAR COMENTÁRIOS, PRA EU SABER SE ESTÃO ACHANDO BOM, LEGAL, UMA PORCARIA. PRA EU TER UMA IDÉIA DE ONDE EU ACERTO, ONDE EU ERRO, ENFIM.

As desventuras de Seu Lili e seus filhos na conflictuosa cidade de Itaxoxota no Norte

quinta-feira, 15 de março de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por suas diferenças sociais. Tinha gente rica, tinha gente bonita e bem sucedida, mas tinha quem não conseguisse sair da merda. Seu Lili era um deles, quase um cogumelo, nascido e crescido na bosta. Seus filhos eram todos boçaizinhos também. Desde crianças adoravam tomar Danone na casa dos vizinhos.

          Seu Lili tinha conta pendurada em quase todos os estabelecimentos da cidade. Alias, adorava quando um novo abria, porque em geral, os outros já não o aceitavam mais. Seu Lili não era vagabundo, ele na verdade era preguiçoso. Seu maior sonho era descobrir o marketing de rede perfeito. 

          Seus filhos eram três. Tinha Lisauvandra uma menina feia na infância, mas que viria a mais tarde se casar com um coronel e se mudaria para Salvador, Eliomar, que era um menino feio na infância, e feio nas demais fases também, e Marlene, que era bonita e futuramente largaria Itaxoxota para trabalhar em São Paulo(honestamente, que seja dito!).

          Eliomar adorava contar vantagem. Ele era um menino que na adolescência era o pegador de seu bairro. Jogava bem futebol, e adorava dar tapa na cabeça dos veadinhos da escola. Ninguém sabia, mas a verdade é que ele sempre achara Miguel, o mais gayzinho da turma, uma coisinha linda. Mas batia sempre.

          Pra felicidade de Miguel, Eliomar cresceu e, se na adolescência já não era bonito, aos vinte e poucos, ele ficara mais feio ainda, espinhento, com alguns quilos a mais, e, aos vinte e cinco anos, sem os dentes da frente(macho como era, não abria mão de uma boa briga).

          Certa noite, alcoolizado, lá pelos dezessete, dezoito anos, Eliomar procurou Miguel, que partiria para morar com a mãe no sul do Brasil, lá no Rio de Janeiro, e declarou sua paixão. Miguel o chamou de bicha, mandou tomar no cú, e nunca mais se falaram.

          Eliomar, chorando, foi consolado por Cleonice. Na época ela tinha doze ou treze anos. Aos vinte e oito engravidou Leôa, filha de Ariovaldo. Na época a moça tinha 14 anos, já tinha o corpo todo ajeitadinho e abusava bem disso. Seu pai obrigou Eliomar a casar com sua filha. Mas isso é outra história.

          Lisauvandra era gorda e feia. Isso é tudo o que se precisa saber sobre ela. Metida que só. Adorava passar o dia na casa das amigas, e criava intimidade fácil. A primeira visita já bastava para deixá-la à vontade o bastante para a abrir a geladeira da casa das pessoas ou fuçar armários a procura de bolachas recheadas. 

          Aos treze anos, Lisauvandra ficou loira. Era agora gorda, feia e loira. Todo mundo achava ela feia de doer. Meio porca. Não penteava bem os cabelos e nem sempre escovava os dentes. Mas se achava tão melhor que as outras meninas, que acabou, pela auto-confiança, ficando popular na escola. 

          Lisauvandra sonhava com Helinho, que era o menino mais bonito da escola. Mas ele, apesar de bonito, tinha bom coração. Ela, despeitada, começou a acusá-lo de ser bicha, e ficou com muita inveja quando soube que ele estava apaixonado por Bonitinha, a filha do prefeito.

          Lisauvandra até entrou pra academia pra tentar conquistá-lo, mas sem sucesso. Em contrapartida, na academia ela conheceu Adamastor, e depois que se exercitou nele, nunca mais quis outro. E esnobe como era, adorava enxotá-lo, e ele com o tempo foi ficando apaixonado. O tempo passou e ela continuou gorda, feia, e soberba. Até que arrumou emprego de faxineira na casa de Coronel Ordônio e engravidou do velho. Mudou-se pra Salvador.

          Marlene era uma grande vítima. Perceba que eu próprio me referi aos filhos de Seu Lili como boçaizinhos, pelo injusto hábito da generalização. Era sempre vítima, pobrezinha. Era a chata da família, a rabugenta, a ranzinza e rancorosa, pelo simples fato de que queria ser alguém na vida. Na infância ela estudou, na adolescência ela estudou, e quando moça, mandou seu pai à merda e partiu para São Paulo.  

          Fora guardete em uma agência de banco por dois anos, até que conseguiu virar professora. Mas seu grande objetivo era descobrir o paradeiro de sua mãe. Apesar de seu pai e seus irmãos nutrirem uma forte raiva por sua mãe desaparecida, ela a via como uma mulher determinada e perseverante: ela própria teria abandonado a família. Com tal pai, seria difícil imaginar que os filhos pudessem crescer e virar qualquer coisa além de medíocres.

          Mas voltando a Seu Lili, as pessoas se comoviam com sua dificuldade, até descobrir que as dividas nas mercearias eram por conta de arroz, feijão, carne, farinha, ovo, cerveja, cachaça, rapadura, bolacha recheada, leite condensado, refrigerante, sorvete, têta-de-nêga, pé-de-moleque, e outras coisas que dá pra viver sem.

          E nunca mudaria? Depois de se decepcionar com tantos marketings de rede, decidiu abrir uma igreja na cidade, pra concorrer com a paróquia de São Jesus Cristinho. Prosperou, mas isso, ah, isso é outra história.

O Tempo

segunda-feira, 12 de março de 2012

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Onde nasce o mistério?
Onde começa minha dúvida?
Onde cresce nosso saber?

Ah, o Tempo, tão velho.
Tempo, testemunha silenciosa.
Silencioso, ele observa.
Observador, é indiferente.

Uns nascem, outros morrem,
Uns nascem e tomam o espaço de outros.
Uns são maus, outros não.
Que diferença isto faz para o Tempo?
Velho tempo...
Tempo! Será que existe?

Eu vivi tanta coisa, mas e se não houver testemunhas?
Se eu próprio esquecer de algo?
Terei eu vivido aquilo que se consome pelo esquecimento?
Não seria o esquecimento a incontestável prova de que não há passado nem futuro?

Ah, Tempo calado,
Velho indiferente.
Egoísta? Não, talvés ele saiba de nossa irrelevância.
Talves nos admire pela obsessão em nos registrar por sua pele,
Talves goste de quem consiga, talvés não.
Talvés ele nem exista,
Ou quiçá seriamos nós próprios fruto de sua alucinação.

O que sei é que gosto de Ser.
Sei que o Tempo se não for meu amigo, é então indiferente.
Porque o Tempo ja existia, e o Tempo é a única estrada,
e o Tempo há de continuar quando nossas pernas cansarem.

E quando as pernas cansarem, a única coisa que há de importar é justamente o Tempo,
E tudo aquilo que fizemos com ele.

O Menino que não podia morrer... Capítulo 11

domingo, 11 de março de 2012

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          Quando Dona Lira partira para a cozinha, Tia Rute permanecera no quarto por mais um minuto até respirar fundo, desafiada, e levantar-se, limitadamente, e andar devagar até a porta, cuja mão áspera e enrugada envolvera vagarosamente a maçaneta e a abaixou. Fazia onze dias que ela não saia do quarto, não fosse para banho, e necessidades, sempre sendo rendida por Dona Lira.

          Pelo corredor ela andou lenta, e olhando fixa para a direção da cozinha. Seus passos eram silenciosos, mas o assoalho rangeu, e com isso, Hortência, igualmente sorrateira colocara a cabeça para fora de um dos quartos e vira a velha andando. Angustiada, pelas pontas dos pés, ela andou até a janela do quarto em que estava, e ao passo que as crianças corriam, Gilmar cortava lenha, com péssimo humor. Ela fez-lhe sinal, mas ele não notara. Atirou então um de seus sapatos.

          Gilmar aproximou, e ela apenas moveu os lábios “As duas deixaram o quarto”.

          Ao saber disso, Gilmar correra até sua cabana, pegara um pedaço grande de papel e um giz de cera, e voltara até a mesma janela, e a pulara sorrateiro. Com passos felinos, ele e Hortência cruzaram o corredor deserto e entraram no quarto aonde os dois meninos repousavam.

          O rapaz debruçou-se embaixo da cama, tateou a marca e esticou o papel e começou a, silenciosamente, registrar o baixo relevo na folha que anteriormente havia embalado qualquer alimento. Ao terminar, batera com as costas na cama, e houve um estrondo.

          Da cozinha, Tia Rute e Dona Lira ouvem. Correm até o quarto. Quando Dona Lira se aproxima do batente ela vê: Gilmar se levanta do chão, devagar e nos braços ergue o menino que havia encontrado no mato, e Hortência levantando o colchão. Ele o carrega até outro quarto, com seis camas, e o deita em uma. Hortência lhe entrega o colchão. Ele o acomoda e coloca o menino, quando se levanta, Tia Rute passa pelo batente do quarto.

          - O que é isso que você tem guardado?

          - Como disse? – indagou o rapaz, desconversando.

          - Nas costas. Quero ver.

          - A senhora não iria gostar...

          - Isso cabe a mim julgar.

          - É verdade, mas eu não faço a menor questão de te mostrar. Se me dá licença, preciso cortar mais lenha para o fogão.

          Saiu do quarto. Dona Lira o seguiu.

           - Gilmar, peça desculpas pra tia Rute. – ela parecia preocupada.

           - O que foi que sumiu? – indagou ele, ríspido.

           - Do que fala? – ela não entendeu. Havia uma nota de súplica contida em sua discrição.

           - Ela desconfia de mim, o que sumiu?

            - Não sumiu nada, meu querido. Apenas peça desculpas, não quero que ela fique com raiva de você.
   
           - Não ligo.
  
           Dona Lira tocou no braço de Gilmar.
    
           - Tudo bem, meu querido. Mas não seja ríspido com ela. Ela é velha.
            
          Gilmar saiu da cozinha. Ela olhou para suas costas, musculosas e suadas. Ela o desejava, mas sabia que era velha para ele, e ele era algo que jamais seria seu.

 [A PARTIR DA PRÓXIMA SEMANA O MENINO QUE NÃO PODIA MORRER SERÁ POSTADO AOS SÁBADOS AO INVÉS DE DOMINGOS]
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Mulá Nasruddin e a verdade

quinta-feira, 8 de março de 2012

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“Estas leis não tornam melhores as pessoas”, disse Nasrudin ao Rei; “elas devem praticar certas coisas de forma a sintonizarem-se com a verdade interior, que se assemelha apenas levemente à verdade aparente.”
O Rei decidiu que poderia fazer que as pessoas observassem a verdade – e o faria. Ele poderia fazê-las praticar a autenticidade.
O acesso a sua cidade era feito por uma ponte, sobre a qual o Rei ordenou que fosse construída uma forca.
Quando os portões foram abertos ao alvorecer do dia seguinte, o Capitão da Guarda estava postado à frente de um pelotão para averiguar todos os que ali entrassem.
Um édito foi proclamado: “Todos serão interrogados. Aquele que falar a verdade terá seu ingresso permitido. Se mentir, será enforcado.”
Nasrudin deu um passo à frente.
“Aonde vai?”
“Estou a caminho da forca”, respondeu Nasrudin calmamente.
“Não acreditamos em você!”
“Muito bem, se estiver mentindo, enforquem-me!”
“Mas se o enforcarmos por mentir, faremos com que aquilo que disse seja verdade!”
“Isso mesmo: agora sabem o que é a verdade: a sua verdade!”

texto copiado do blog Inconsciente Coletivo. Vale a visita, vale acompanhar : ) 

A história da Santinha Cleonice, ou simplesmente a Créu dos Solitários

terça-feira, 6 de março de 2012

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ATENÇÃO: ESTE CONTO TEM LINGUAGEM E HUMOR APELATIVOS E PODE OFENDER UM LEITOR DESAVISADO. DADO O RECADO, BOA LEITURA!
 

         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por sua amável população. Entre as bondosas pessoas, havia Cleonice, ou Créu, como diziam os de pouca instrução. Era dita como uma moça “Amada por Deus porque dava com alegria”.

          Créu era uma romântica. Assistia a muitas novelas, e sonhava sempre com os lindos atores que nem imaginava serem gays. Guardava-se para seu príncipe encantado, todavia, preparava-se, incessantemente para a sonhada noite da consumação.

          Créu era virgem. Moça pura e amorável. Créu gostava de ir a missa, Créu gostava de trabalhar com as senhoras bordadeiras, e Créu gostava de chupar um pau. Sim. Créu era moça altruísta.

          Aos 12 anos de idade viu escondida sua mãe com a boca devidamente ocupada e ouviu do açougueiro: “Deus lhe dê sempre saúde, minha frô.” Ele era grato. Aquilo era um gesto de incomparável gentileza, ela percebeu. Porque todos os homens sempre davam tudo de melhor para sua mãe. Nunca lhes faltara nada.

          Mas Créu era especial. Créu não queria apenas ser gentil com os bem sucedidos, como sua maínha. Foi então que decidiu fazer tal gentileza pela primeira vez: Zézim, hoje conhecido como Zelão da Pipoca, era um menino e estudava com Créu na escola da cidade, e ele lhe havia ajudado a estudar. Foi um momento mágico em sua vida. Ajoelhou-se sem nada dizer e abaixou as calças do menino.

          Então, aos 13 anos, já fazia visitas freqüentes no asilo da cidade, e percebeu que os velhos ficavam felizes. Sempre lhe davam algum doce depois. Estes doces ela dava para outras crianças.

          Créu certa vez, já aos 14 anos, viu o mendigo chorando na calçada. Conversou com ele, ouviu suas tristezas, e ofereceu-lhe o serviço. O homem a pediu em casamento. Ela, por sua vez, viu-se obrigada a ir até o fim, visto que já havia começado, mas estando contrariada, a partir daquele dia, passou a exigir que os homens fossem até uma pia e o lavassem antes que ela começasse.

          Ainda aos 14 anos, Créu fora tentada a deitar-se com o jovem Adamastor. Adamastor era muito feio, mas com seus 17 anos, era um moço que provocava muitos suspiros, em parte por ser musculoso, em parte por ser sabido ser dono de um equipamento de tamanho e feições surpreendentes. Era apenas isso que todas queriam dele, e ele sofria.

Então naquela tarde de verão, entre as pedras, Créu acariciou o rosto do rapaz e, absolutamente comovida com sua tristeza, caiu de boca. Pela primeira vez foi difícil. Ela não apenas não conseguia chegar na metade, mas sentira dor no maxilar.

Tendo sido chupado com afeto pela primeira vez em sua vida, Adamastor se apaixonou e quis beijá-la. Créu nunca tinha sido beijada. Era moça pura e ingênua. “Aaaaaaai Adamaxtô...” ela gemeu quando ele chupou seu pescoço. Cheio de carinho e amor, Adamastor lhe respondeu “Deixa eu chupar você também, nêga, deixa?”

Créu deixou. Ah, pobre da menina, teve sirico-ticos, e calafrios. Então ele, carinhoso que era, disse. “Vem meu benzinho, quero comer você, te deixar toda laceadinha!” , naquela hora, no ombro esquerdo um diabinho disse, “Libera pro rapaz, fía, libera que é goxtchoso”. Era pecado, ela tinha que casar virgem, não queria passar a eternidade no inferno. Eis que do lado direito um anjinho murmurou, “libera o bumbum que o selinho continua como tá, fía. Vai na fé!”

Ela se virou, fechou os olhos, e a coisa toda aconteceu. Ah, como foi gostoso, mas Adamastor ficou um pouquinho sujo, mas nada que o incomodasse. Sorte de quem veio depois, pois Créu passou a andar sempre limpa e preparada para qualquer um que precisasse de um pouco de consolo sincero e inocente.

Muitos apreciavam sua generosidade e seus talentos, mas ela ainda sonhava com um príncipe encantado vindo de São Paulo pra casar com ela, e só pra ele ela entregaria sua pureza e castidade.

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