O Menino que não podia morrer... Capítulo 26

terça-feira, 26 de junho de 2012

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          O padre levantou-se, tossindo incontrolavelmente. Aproximou-se do buraco causado pela queda do lustre. Havia um alçapão aonde o garoto estava segundos antes, que era a entrada para o ambiente escondido revelado pelo buraco. O padre ergueu o alçapão, recolheu o lampião, e desceu as escadas para o lugar escuro.

          Do meio da escada para o fim, havia em cada degrau um crânio de criança. Em cima deles, uma vela grossa. O cheiro de podridão era forte. No fundo, havia uma sala ampla. Muito maior que as dimensões do resto da casa, e o chão era terra escura e úmida. O lustre caíra próximo ao centro do grande ambiente quadrado. O padre resolveu acender tantas velas quanto pode. Não se atemorizava com crânios. Crânios, ossos, caveiras, nada mais representavam do que a morte. E morte mais lhe causava introspecção e reflexão, do que temor propriamente dito.

          Havia pelo ambiente quadrado muitos castiçais de ossos, e o padre, com a ajuda de um graveto, e o fogo de sua lanterna, acendeu-os um a um. Aquela luz laranja tremeluzente deixava aquele salão com chão de terra, teto de madeira grossa, e fazia sombras de um negro absoluto e uma profundidade sem medidas.

          Tinha uma estátua de um anjo no fundo oposto à escada. Tinha asas imensas abertas. Segurava uma espada e a apontava para baixo, com o braço erguido alto. Seu rosto era misterioso. Poderia ser Gabriel, Miguel. Não era uma estátua bonita. Era uma escultura tosca de madeira, úmida, condenada. Próximo a ela havia uma gravação em madeira que reproduzia um demônio de muitas cabeças similar a gravuras de William Blake. Uma parede moderadamente grande com o que parecia ser uma biblioteca. O padre começou a folhear um livro. Era escrito a mão. Grego. Outro em latim. Outro tinha escritos em aramaico, hebraico, árabe. Uma coisa o padre percebeu. Tudo havia sido escrito pela mesma mão.

          Tinha coisas que ele entendia, outras não. Havia anotações, e estas eram sempre feitas em espanhol. O que ele percebeu, a cada hora que se passou, nas três em que investigou aquele conteúdo, é que eram conhecimentos codificados, raros, com conceitos raramente conhecidos sobre alquimia, magia, feitiçaria e bruxaria. Eram possivelmente mensagens sugeridas inconscientemente ao homem que as anotava. Pois ao que parecia, ele próprio as estudava e fazia anotações posteriores.

          Havia data nas prateleiras. 1885 era a primeira prateleira. E a ultima, inferior, 1922. Havia um rato imenso que dormia ao lado do ultimo livro. Ele puxou e a criatura correu aos guinchos. Estava em latim. Os olhos do padre, infelizmente não tinham tempo para apreciar todo seu conteúdo, mas um passeio rápido o permitiu entender.

          Luís Mondego Valência havia feito um acordo com um grupo de entidades. Em troca de sacrifícios de animais e algumas oferendas humanas, segundo o espanhol, que podiam ser adultos, e malfeitores, lhe presenteariam com os conhecimentos primordiais que, segundo eles, um dia pertenceu a todos os humanos, quando os humanos eram poucos e sábios.

          Segundo o ultimo livro, que era um diário, ele revela que pode materializar o que quisesse, e pôde dominar os dons da cura, clarividência, e o dom da praga. E o deus Belial diante dele lhe revelara que precisavam de um homem entre os homens. Que ele estava incumbido de encontrar o casulo para que ele acordasse entre os homens.

          Luís sentiu medo. Mas os deuses começaram a perturbá-lo, e lhe disseram que esta era sua missão, que ele não podia abandoná-la. Outrossim, poderia passar a missão para outra pessoa de boa vontade. Encontrou a família Giardini e apresentou à Giuseppe algumas vantagens, e a família aderiu a sua nova religião.

          Quando Giuseppe Giardini morreu, e a esposa adoeceu, os deuses começaram a interagir com elas, e deram sabedoria e abriram seus olhos para as fronteiras, e isto as seduziu. Ajudariam a trazer o deus para o mundo dos homens, matariam quantas crianças fossem necessárias para que ele fosse poderoso. Luís partiria.

          A missão das mulheres era matar em ciclos astrológicos específicos uma criança. E preparar, por um longo período, o corpo de outra, com inalações de ervas específicas, raízes, banhos, e algumas cerimônias para abrir o corpo e assimilar o espírito da criança com o deus. Não haveria possessão ou encarnação, mas um tipo de simbiose.

          Não existia um orfanato. Havia um abatedouro. E as influências de forças ocultas tornando legalidades possíveis. Se Gilmar e Hortência estavam vivos, ou eram úteis, ou alguém intercedeu por eles.

          Luís completou as ultimas páginas dizendo que não sabia se esse Beliel-Homem seria bom ou mal. Que premeditadamente pode ser visto como anti-cristo, mas que por outro lado pode sim salvar o mundo, caso as suspeitas da fraude de Javé forem verdadeiras. Mas que pode ser terrível como nada no mundo. Deve ser morto antes de acordar.

          O padre pegou o lampião e correu. Deixou o lampião aceso na porta da casa, partiu em seu cavalo, noite adentro. Tinha que encontrar Gilmar. 

Isilda Pé-de-cabra: A serial-killer do agreste

quarta-feira, 20 de junho de 2012

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Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por crimes famosos. Anos e mais anos após a era do cangaço surgira Isilda Pé-de-cabra. Paraibana brava, a serial killer mais famosa de todo o norte e nordeste do Brasil.

Isilda Pé-de-cabra era o nome escrito com garranchos em uma série de oito crimes em Itaxoxota e arredores. Severino da Silva foi encontrado com os bagos estraçalhados. Vivo e castrado, nunca mais bateu em sua esposa. Disse que a agressora vestia uma camisa com a bandeira da Paraíba, e uma touca ninja vermelha no rosto.

- Isilda Pé-de-Cabra, a justiceira do agreste dessa vez vai deixar o estrume vivo, mas passa o recado pra frente. Se mais um homem bater numa mulher, ele há de conhecer a justiça de Isilda, que é mulher e é mais brava que a justiça dos homens.

Severino contou para os policiais, que começaram a procurar a mulher baixa, invocada e de sotaque paraibano. Severino ficou traumatizado. Um mês depois, Lilico Pereira deixara a mulher hospitalizada, e, enquanto assistia Vasco e Flamengo na televisão, viu aquela silhueta desengonçada entrar pela sala. Pé-de-cabra na mão.

Esse morreu. Quebrou costelas, a cabeça. E os bagos, evidentemente. Encontraram um bilhete.

“Essa mulher não vai mais bater na outra. Isilda”.

Qual seria o passado dessa mulher vingadora?

Josualdo dos Santos tinha deixado sua namorada com hematomas por ter falado bom dia para outro homem. Em uma madrugada ele voltava para casa, numa estrada de terra isolada, quando surgiu aquela figura exótica em seu caminho.

- Êtcha, qui porra é essa? – disse ele, surpreso.

Ela mostrou o pé-de-cabra. O rapaz não se assustou. Segurou o pé-de-cabra e os dois ficaram rosnando um para o outro. A mulher deu uma cabeçada nele e levantou o pé de cabra. Ele segurou os braços dela e ela soltou seu instrumento. Ele começou a agredi-la, e tentou violentá-la.

Isilda travou buceta pra nada entrar. Ele batia nela e ela ria. Isilda era prevenida. Ela tinha um estilete colado na barriga. Enfiou várias vezes nas costas de Josualdo. Ofegante, o homem tentou fugir, mas Isilda tinha que deixar sua marca. Pegou seu pé-de-cabra e estraçalhou as jóias do homem. Morreu ali na estrada. Ali havia o bilhete.

“Já que vossa senhoria pede cesta básica, eu cobro com sangue e funciona. Esse não bate mais em mulher. Isilda”.

A polícia de toda a Bahia estava em polvorosa. Programas de TV noticiavam que a assassina do pé-de-cabra matava homens com modos rudimentares, sempre esmagando os testículos, com eles vivos, a pancadas.

Uma menina de doze anos vendia a própria dignidade numa estrada próxima a Serro-Azul. Lá estava Isilda, embrenhada no mato, esperando a hora em que a criança voltaria para casa. Lá pelas três da manhã ela viu a menina voltar mata adentro. Acompanhou-a. Chegando em casa, seu pai a esperava, para também possuí-la.

A menina, obediente, já chegava em casa pronta para acariciar o cacete de seu pai, que depois de tudo a fazia preparar-lhe comida para então lavar-se da sujeira de todos os homens que a haviam molestado. Era natural para a menina. Mas logo cedo a menina saíra para voltar à estrada, e Isilda fora visitar seu pai.

O homem assustara-se ao encontrar aquela mulher naqueles trajes estranhos.

“Já ouviu falar de mim?”

Ela mostrou o pé-de-cabra. O homem se assustou.

- Vô matá ocê, toco de amarrá jegue. – ele gritou. Correu agarrar sua espingarda mas ela bateu no braço dele, que gritou.

- Não me matar! Nem vai mais deixar sua filha na estrada.

Ela largou o pé-de-cabra no chão e o atacou com chutes, tantos quanto pode, por todo o corpo. O homem não conseguia fazer nada.

- Larga a mão de ser preguiçoso e usar a filha como mulé, como escrava e como mantedora. Toma vergonha nessa cara seu cabra vagabundo preguiçoso. Isilda Pé-de-cabra ta te vigiando num é de hoje. Se isso não acabá, Isilda arranca seus bago foca cum cê vivinho e te faz ingulí tudo.

Partiu.

Matou outros três. Caçada, investigada, e sempre misteriosa. A última vítima fora um homem velho, que possuía uma menina de oito anos, filha da mulher com quem havia casado a pouco. Era o homem que vinte anos antes a havia violentado pela primeira vez, e que seguiu por anos terríveis ferindo-a, e deixando a pobre garota com um ódio irreprimível e incontrolável.

Isilda era o nome de sua mãe, que morrera enfartando, logo que casou, e a menina, sem família, ficou a mercê do padrasto. Sentia ódio, nojo, mas sempre tivera medo dele. Em seu último encontro, entrou sem preocupar-se em ser discreta. A criança chorava silenciosa, com medo que ele lhe espancasse. A justiceira bateu com o pé-de-cabra nas pernas do velho, que quebraram na hora. A criança saíra correndo.

Ela tirou a máscara e olhou para o velho, que a reconheceu e pela primeira vez temeu.

- Raimundinha, minha frô... faz isso não. – ele suplicou.

Raimunda, ou Isilda Pé-de-cabra pegou seu instrumento, e destruiu o cerne de toda a sua tristeza. Largou o velho sozinho. Ele morreu. Ela virou delegada.

O Menino que não podia morrer... Capítulo 25

sexta-feira, 15 de junho de 2012

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          O padre levou a mão para o rosto, que cheiro terrível. Entrou na casa. O rapaz atrás dele. Era um saguão amplo, e sobrenaturalmente escuro. Nada se via. Percebeu o padre que havia um castiçal alto próximo à porta. Acendeu a vela, e com um pouco mais de luz percebeu que havia muitos outros castiçais em todo o contorno daquele salão e havia algo muito grande no fundo. Parecia uma estátua.

          - O senhor está bem? - Perguntou o rapaz ao padre, quase gaguejando.

          - Psssss. Me ajude a acender as velas.

          - Não. O senhor fica com meu lampião. Sabe onde eu moro. – e partiu.

          O padre acendeu, com a ajuda do fogo do lampião, cada vela, dando a volta lentamente pelo ambiente inteiro. Havia uma estátua no meio. Ela tinha dois metros e meio, e era como um humano deformado. O rosto trazia uma boca grande aberta, com dentes pontiagudos, e dos ombros, um lado havia uma cabeça de sapo, no outro uma cabeça de gato. Todas malignas. Diante dele havia uma criança sentada com as pernas cruzadas.

          - Quem é você?

          - Eu sou quem você acha que sabe quem sou, mas não sabe. – respondeu em latim.

          - E o que eu não sei? – o padre seguiu em latim.

          - Quem eu sou. Sabe quem não sou. Mas não sabe quem eu sou.

          - Você é o diabo?

          - Isto é um ponto de vista. O mal é um ponto de vista. Um homem bom tem uma vida ruim que o torna mal, este homem mal ergue a espada para um bom, e você o surpreende, e o mata. Você o impediu do mal, mas não matou um homem mal, porque o homem nunca é mal. Você matou um homem bom que a vida tornou mal. Vê?

          - E o que você faz com uma criança?

          Era como se aquela estátua atrás do garoto fosse viva. Havia algo terrível vindo dela. E o garoto olhava para o padre sem piscar.

          - A criança fora libertada, porque assim quisemos, mas o homem é um animal fácil de domar. Quereis liberdade?

          - O que fazem com as crianças do abrigo?

          - Alicerces.

           - Elas são sacrificadas? – o padre teve medo.

           - Elas são o rebanho da nova era. Não te ponhas no caminho. Surpreender-vos-ei quando atravessares as fronteiras entre os mundos dos vivos e dos espíritos. Há verdades para as quais o homem não está pronto.

          - Não vou deixá-los matar as crianças. Mas só quem pede morte é teu pai. Quanto se mata por suas regras?

          O padre tirou do bolso aquela velha cruz exorcista. Os olhos do menino brilharam.

          - O Deus de meu Senhor Jesus Cristo é misericordioso!

          - Podre judeu, quis mudar o mundo e não foi mais que um fantoche daquele que quis desmascarar.

          O padre ergueu a cruz e foi se aproximando do garoto. Começou a rezar.

          - Ritual Romano, padre, é para aqueles que não sabem reconhecer-se no escuro.

          Um lustre surgira no ar, despencando diante do padre, que se jogou para traz. O chão da casa abriu-se num imenso buraco. Um vapor abafado dominou aquele salão escuro. O pó brilhava como uma névoa. O cheiro de podre estava mais forte. O garoto havia desaparecido.

Este era aquele palhaço...

terça-feira, 12 de junho de 2012

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          Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida pela alegria de seu povo contagiante. O palhaço Bagulinho era um herói entre as crianças. Bagulinho trazia o rosto pintado o tempo inteiro, e a verdade é que ninguém jamais o vira sem maquiagem.
         Bagulinho era conhecido por pessoas intimas como Joca, pessoas intimas que ele amava, e que nunca mais viu em toda sua vida. Bagulinho acordava todos os dias às quatro e meia da manhã. Lavava o rosto, escovava os dentes, tomava café com um pão francês amanhecido, e sentava-se diante do espelho.

          Durante os primeiros dez minutos ele olhava para seus olhos no reflexo, quase sem piscar.  Observava as linhas de expressão que surgiram ano após ano. A pele que se ressecava um pouco mais a cada dia, e depois olhava seus olhos castanhos e, dentro deles, aquela pupila que cristalizava uma fotografia de si mesmo, e lhe entregava que ele não era feliz.

          Em seguida ele olhava para um retrato na parede, com sua mãe e seu pai, pintados a mão em cima da foto. Respirava fundo, e afundava o dedo na tinta branca. Geralmente pintava o rosto de branco olhando para aquele retrato tosco, costume tradicional da região.  Olhava no espelho e, branco, via um fantasma triste, não um palhaço. Pegava um pincel e o lambuzava carinhosamente na tinta preta.

          Lá no meio da testa ele pintava duas sobrancelhas finas em arcos inclinados um em direção ao outro. Nessa hora ele ria. Porque ele pintava a sobrancelha assim?

          Era a cara de seu pai. Ele sempre trazia aquela sobrancelha que misturava tristeza com dúvida e não trazia qualquer profundidade a sua expressão. O pai de Joca não fora um homem feliz, e mesmo quando estava morto, aquela cara de merda permanecia no cadáver.

          Jacinta surgia quando Joca enfiava o pincel na tinta vermelha, e contornava da maneira mais feia seus lábios, e surgia a boca de sua mãe. Aquela boca que só lamentava das coisas.

          E quando Joca colocava o pincel no pó azul, e pintava dos olhos às sobrancelhas, fazia sardas vermelhas nas bochechas e as cobria com um leve pó que enrubescia sua pele e fazia uma bolinha vermelha pequena na ponta do nariz... Nessa hora surgia a esperança que carregava o rosto de Juvândia, sua irmã, que ele não tinha nenhum registro do rosto, além de suas próprias lembranças. Era nessa hora que nascia o palhaço Bagulinho.

          Bagulinho sempre começava seu show arrastado por alguém, porque estava morto. As pessoas precisavam rir para que ele ressuscitasse. Quanto mais riam, mais ele se contorcia, despertando do mundo sobrenatural daqueles que morrem, e acordava. Queria ter podido experimentar com seu pai. Elas riam porque pensavam que ele era dorminhoco. Coitadas...

         Bagulinho tirava da sua bolsa lanches invisíveis para comer e os oferecia para o publico, que ria das caretas. O palhaço Bagulinho estava sempre com fome, e roubava pipoca ou o que quer que alguém aparecesse comendo perto dele. Aquilo era engraçado. Mas o palhaço não ria, olhava sem entender para as pessoas que riam mais alto, como se perguntasse porquê fazia aquilo.

         Bagulinho tirava um pente gigante de sua bolsa e dava para uma pessoa. Um livro, e dava para outra, depois tirava um bebê de sua bolsa e entregava para uma pessoa. Virava a bolsa do avesso, e ficava feliz. Era surreal e as pessoas riam. Mas aquele bebê era ele que sua mãe deixou para uma amiga cuidar quando resolveu tentar a vida em São Paulo.

          Ele passava a bolsa aberta e as pessoas jogavam alguns trocados para ele. Aí ele voltava até a pessoa que entregou o bebê e o pedia de volta. Mas isto sua mãe nunca fez.

          Jacinta o deixou para uma amiga cuidar, quando ele tinha oito anos. A mulher morreu quando ele tinha onze. Um circo itinerante passou por Itaxoxota, e ele fugiu escondido. Quando o dono do circo o encontrou, ficara furioso, mas o pequeno Joca era prestativo, e tornara-se praticamente escravo do circo.

          O lado bom é que o mágico fora como um pai, como os trapezistas, os palhaços, e ele aprendeu tudo o que todos faziam. Aos dezesseis anos era ele a principal atração.

          Aos dezessete voltou para Itaxoxota, e lá recebera a notícia de que tinham avisado que sua mãe havia morrido no desabamento da favela em que morava. Mas e Juvândia? Ele não sabia por onde começar. E era pobre. Deveria esperar por ela? Teria algum dia uma noticia dela, que era a única expressão de esperança que havia em seu passado?

          Transformaria em risos as suas tristezas, até que a hora chegasse. E ela haveria de chegar.

O Menino que não podia morrer... Capítulo 24

domingo, 10 de junho de 2012

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          Padre Onório descobriu que três famílias que haviam adotado crianças daquele orfanato viviam numa cidade a poucos quilômetros de distância. Sem demora partiu para visita-los. O primeiro casal vivia numa casa. Era um dia frio, mas não chovia. Vestiu-se com uma capa, enrolou o rosto em seu cachecol, e cavalgou por pouco mais de trinta minutos.

          Perto do centro ficava a Rua Cipriano, aonde vivia o casal António e Rosaura d’Oliveira, que haviam adotado, a treze anos, o menino Lúcio Ernesto. O padre saltou devagar do cavalo, como o velho que era, e caminhou pela rua em busca do sobrado de número 33. Ele não existia.

          Um cavalheiro transitava, com sua cotidiana indiferença, quando o padre o abordou.

          - Com sua licença, procuro o sobrado de número 33 na Rua Cipriano. Mas para os dois lados da rua, não encontro.

         - Se não encontrou é porque não existe.

         A rispidez do homem fez o padre mudar a respiração. Não precisava de uma grosseria no meio de algo tão sério quanto sua missão.

          - Com todo respeito, o senhor mora nesta rua?

          - Porque quer saber? – ele disse, novamente ríspido.

          - Eu sou padre da paróquia de São Francisco de Borja...

          - E eu com isso? – o homem interrompeu. 

         O padre respirou fundo, a boca já tremendo de fúria. Os olhos piscando incessantes, revelando um tique nervoso que sempre surgia em momentos de raiva. Mas ele falou, calmo.

          - Procuro pelo senhor António d’Oliveira ou sua esposa Rosaura...

          - Ali. – o homem disse, apontando para uma casa. O padre sorriu.

          - Ali que moram? Ora, muito obrigado senhor.

          - Não. Ali que moro eu, padre. Moro aqui desde que nasci, sessenta e seis anos. Nunca morou gente dessa graça nesta vizinhança, e, atrevo a dizer, até mesmo na cidade.

         O padre franziu o cenho, mas não de raiva, era uma frustração imensa que o irritava. Dedicara a manha descobrindo sobre a história da “famiglia Giardini”, e agora, queria algum resultado. Era apenas duas horas da tarde.

          - E o senhor conhece um casal alemão de sobrenome Ebersbach?

          - Primeiro nomes?

          O padre pega de um bolso o papel com os nomes, e veste seus óculos.

         “Manfred e Anita”, diz o padre. “Avenida Luiz de Camões, número  12”.

          - Luiz de Camões fica a dez minutos. Termina esta rua, o senhor segue à esquerda e anda duas quadras.

           O padre agradeceu e montou o cavalo. Seguiu, e achou o numero doze. Sua respiração foi de alívio por um breve instante, quando percebeu que o lugar era um edifício da prefeitura. Amarrou o cavalo, e entrou no prédio. Havia um balcão. Explicou que tinha este endereço, que era da cidade vizinha, e foi novamente um constrangimento. Aproveitando que se tratava da prefeitura, perguntou se o terceiro endereço, o mais distante, era real. E pela primeira vez a resposta foi satisfatória.

          Era uma casa antiga, imensa, abandonada já fazia muitos anos, e o proprietário era exatamente o homem que o padre procurava: Luís Mondego Valência. Era um homem rico, bem relacionado com pessoas do governo e de outros estados, e era isto que se sabia. Havia deixado a cidade fazia anos, e sua casa estava abandonada. Era pra lá que o padre iria.

          Cavalgou ao norte, sempre norte. Havia uma estrela pequena e cintilante do céu do meio daquela tarde, e era em sua direção que ele seguia. Chegou até o vilarejo aonde o casarão de Mondego Valência se localizava. Era deserto, exceto pelas casinhas pequenas, em ruas irregulares e as casas eram todas térreas, e havia lá, isolada, com um campo aberto, aquela casa velha.

          Era imensa.  Quase cem metros longe de todas as outras. Era ela, e nenhuma outra. Muitas janelas, todas com madeiras do lado de dentro. O padre saltou do cavalo. Um rapaz, vinte e poucos anos, loiro, gentil, o abordou.

          - O senhor não é da região. – diferente do outro, este era simpático. – Procura por alguém?

          O velho sorriu.

          - Sim, rapaz, procuro pelo senhor Luís Mondego Valência, mas já soube que não mora mais aqui.

          Foi interessante observar a expressão do rapaz quando falou o nome do homem. Havia um temor desconfortável. 

          - Tenho autorização para entrar na casa – continuou o padre. O rapaz o guiou a uma direção paralela ao destino do padre – disseram-me que a casa tem alguns mistérios...

          - Bem, na verdade, tem. Ele era um homem solteiro. Tinha empregados surdo-mudos. Comia crianças. Até hoje se ouvem gritos na casa.

          - Mas o que aconteceu com ele?

          - Nada. Ele era rico.

          - A quanto tempo que ele deixou a cidade?

          - Tem uns vinte anos...

          - Hum... curioso. E o filho dele?

          - Filho? Que filho? Espere um momento.

          O rapaz correu para sua própria casa, e voltou em alguns instantes, com um lampião aceso.

          - Isto é necessário? – perguntou o padre.

          - Sim, não tem janelas, nem ventilação.

          - Curioso... Nunca ninguém tentou invadir a casa?

          - Nunca foi mexida.

          Caminharam sem conversar até quase aproximarem-se. Passaram por uma cerca baixíssima, quase com função simbólica.

          - Sabe que o padre da nossa cidade nunca quis entrar aqui. Certa vez a policia entrou, mas ninguém aguenta ficar por mais do que três minutos ali dentro. É tenso. Horrível. Certa vez entrei com alguns amigos. Ouvi vozes...

          - E porque está comigo?

          - Porque quero ver a sua reação. Com todo respeito padre.

          Já diante da porta...

          - Se houver algo que possa me impressionar nessa casa, acredite, meu jovem, certamente seria uma resposta a minhas preces.

          O rapaz tocou na imensa maçaneta e empurrou a porta.

          - Ué, a casa é aberta? Em todo esse tempo, nunca foi vandaliza... Santo Deus!

O amor é um mistério...

quarta-feira, 6 de junho de 2012

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O amor é um mistério. Ele nasce sem ter motivos, sem ser convidado. Acontece. Amor é um sentimento de carinho, não uma obsessão. Mas o amor mal plantado gera uma.
As pessoas são feitas para amar, e o amor tem um impacto impossível de se medir ou enxergar.  Pelo simples fato de que ainda que aquelas duas mãos não estejam tocadas, ele está ali. É um positivo e um negativo, esperando pelo menor contato para a energia(que os dois carregam) flua por aqueles dois corpos como se fossem um só.
O problema é quando não há o contato. Mas quando se percebem. Aí é como um ímã. Tenta grudar, mas outras mãos, as vezes braços de um passado doloroso, seguram, e então, o outro lado em algum momento pode desistir e pender.
Há também outro fato. Quando, embora estas duas pessoas tenham sido feitas para amar, e uma delas não quer. Aí algo terrível acontece. Ao passo que uma faz tudo o que pode para que seus braços toquem a outra, a outra esquiva e, embora seu coração oscile em ceder pelo desejo escondido de ser amado, sua mente, racional(ou meramente condicionada) a diz que não deve ceder por não ter certeza.
Ah, que doloroso é isso, porque aquele que rejeita, acaba as vezes reproduzindo, superficialmente, as razões pelas quais foge do amor, e o outro, permanece mudo. Porque não sabe como entrar no coração do outro para apagar ou aliviar as dores e libertar.
O outro, ainda, se torna previsível, piegas, tolo. Serve-se do consolo do travesseiro, e, com olhos fechados, faz de conta estar com o objeto de sua afeição para logo em seguida perceber-se ingênuo e repudiar a si mesmo.
O resistente é inacessível, mas o resistente atira uma pedra logo que amanhece na janela do quarto do impulsivo, que acorda na mesma melancolia até ver que o outro está ali novamente, para encher seu coração de esperança e, no fim do dia fugir. Feitiço de Áquila?
A vida existe para a felicidade. Corações, para transbordarem amor. Mas no fim, se sobrarem somente as lágrimas, como cresce uma árvore regada com elas? Que gosto terá seus frutos?

São Francisco Morango: Padroeiro de Itaxoxota

segunda-feira, 4 de junho de 2012

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         Em algum lugar da Bahia, escondia-se a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por crendices, folclore, e seus ícones religiosos. Um deles era o vanguardista, o santo, amado unanimemente pela população: São Francisco Morango.

          Francisco era um menino pobre, que vivia para as pessoas. Dedicou a vida aos animais, às crianças, e as mulheres solteiras. Era um amuleto. Tudo começou quando Elenilce Falcão, mulher de meia idade, o chamara para cuidar do jardim de sua fazenda. Certa tarde ensolarada, ela fizera sexo com o menino, na época com 14 anos, e no dia seguinte conheceu um homem rico, com quem se casou.

          O homem morreu alguns meses depois, e Elenilce Falcão novamente resolveu se divertir com o garoto, e novamente conheceu um partidão. Foi quando pensou se não seria o pequeno Chico. Ela falou para uma amiga, Clemilda. Clemilda era feia, precisou oferecer dinheiro. A mulher deu. Nada aconteceu.

          Dona Elenilce ficou intrigada, e tentou argumentar com a amiga frustrada, e debatiam o que haviam feito até que a patroa de Francisco sugeriu que tomasse do leite do rapaz.

          Clemilda dessa vez não quis perder tempo com sexo, e apenas abocanhou o menino. Naquela noite ela não conseguiu dormir. Ansiosa, ao amanhecer, não conseguiu comer, nem nada. Eis que passou mal e fora levada para o hospital, aonde um médico, homem de meia idade, se encantou pela mulher. Casaram-se.

          Clemilda disse que Francisco, um rapaz negro, carregava consigo o morango da sorte. Secretamente, indicou a uma amiga, que indicou para outra. Francisco ficara rico já aos dezoito anos, e comprou uma grande chácara aonde cuidava de crianças carentes e animais abandonados.

          O legado de Francisco Morango é extenso. Certa vez, uma mulher precisava de dinheiro para internar seu filho doente. Fora o leite de Francisco Morango... Ao tomá-lo da fonte, no mesmo dia um homem rico esbarrou em sua pessoa, quase atropelando-a com seu automóvel, e sensibilizou-se com a história da mulher. Pagou o tratamento do filho, e a seguir, deu-a um emprego na casa de sua família.

          Boatos de que uma atriz famosa, hoje veterana da televisão, em sua mocidade, visitara a chácara de Francisco Morango para mamar o jovem santo. Em Salvador, conhecera um diretor da extinta TV Tupi, com quem dormiu e ganhou um papel relevante em uma novela hoje esquecida pelo público.

          Francisco Morango morreu de desnutrição. Mais amamentava o mundo que alimentava a si mesmo. Era um rapaz simples, e quando chegou aos tinta e dois anos, morreu durante o sono. Fora o povo que o beatificara, e havia uma capela ao lado da igreja principal da cidade, aonde em todo o dia 22 de outubro, aniversário de Francisco, oram em romaria.

          Eis a oração dedicada à ele, escrita pelo padre Inácio Coitinho:

Prece à São Francisco Morango

Patriarca Francisco, atendei ao apelo desde que roga.
Derramai pela minha face o leite da salvação,
Livrando-nos do mal-agouro e trazendo-nos o néctar de vossas virtudes.
Deixai-nos beber nas fontes que nos salvam e vos fazem gozar em alegria.
Alimenta-nos com o leite do advento, e recobre-nos com vossos respingos vigorosos.
Glorificado aquele que dá mais que recebe, pois seu gozo será dobrado.
Amém.

O menino que não podia morrer... Capítulo 23

sábado, 2 de junho de 2012

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          Havia algo errado com Tia Rute, que entrara aos tropeços na cozinha, como se tivesse, por alguns instantes, livrando-se do peso que a idade pusera-lhe nas costas ano após ano. No entanto sentou-se, apoiando-se em Gilmar.

          Gilmar estava arrumando a lenha cortada, enquanto Hortência e tia Lira cuidavam de afazeres do lado de fora da casa. A velha fez um gesto, para que ele lhe trouxesse água. Foi o que fez. Olhava preocupado. Ela nunca, em toda a vida do rapaz, fora vista em momento de fragilidade. Ajoelhou-se e a olhou nos olhos.

           -A senhora está bem?

          - Como encontrou Mikail? – ela murmurou, desviando os olhos para o chão. Assustada.

           - Quem?

          - O menino. Por um momento eu poderia jurar que ele estava acordado. Eu não acho que ele é normal...

          - Porque diz que tem esse nome? – Gilmar sentira medo ao ver a velha assustada.

          - Eu vou tomar um pouco de ar. – ela disse para si mesma, levantando-se da cadeira, indo para o quintal em seus passos habitualmente lentos. Gilmar resolveu ir até o quarto. O menino dormia. Mas havia algo errado. Ele se aproximou do garoto. Sentiu que havia alguém em pé atrás dele. Ao olhar para o chão, percebeu que não havia sombra. Mas havia alguém atrás dele. E era grande. E aquela voz dentro de sua cabeça que ecoava como se viesse de gargantas de pedra gigantes como uma caverna.

          “Não... durma...”. Ecoou, e o som seguiu como numa planície desértica vasta entre os ossos de sua cabeça.

          Ao passo que os pêlos de todo seu corpo arrepiaram-se, o coração acelerava também. Afinal, o que era mal? A quem se apegar? Uma brisa suave balançou seus cabelos enrolados, e o frescor daquele dia o fizera perceber que quem estivesse atrás dele já havia partido. Mas quando veio a noite...

          Ao cair da noite, ele voltou para a enfermaria. “Mikail, ela disse”. As velhas haviam partido. Ele se ajoelhou ao lado de Laio. Que sofrimentos estaria ele enfrentando? Olhou para o garoto que viera dos céus. Sua cabeça estava virada na direção em que ele e Laio estavam.

          - Mikail? – ele chamou. O menino abriu os olhos, e Gilmar desmaiou.
* * *
           Mãos sujas de sangue. Um canto no bosque. Poucas palavras repetidas. Tudo escuro. Gemidos de agonia. Tripas.
* * *
          Era a floresta, escura, e ele caminhava. Havia sangue pelas folhas das árvores, numa finíssima chuva escarlate. O sangue deixava o chão liso como uma neve tenebrosa que refletia a luz daquela lua cheia amarelo-escura, e também as crianças, muitas, que voavam em circulos, como urubus medonhos.
* * *
          Gilmar cortava o pescoço de uma criança. O Macaco segurou sua mão. Queria que Gilmar parasse.
* * *
          Gilmar olhava para Mikail, no exato lugar em que o encontrara adormecido. Estava em pé e sorria. Uma sombra ocultou a lua. Um homem do tamanho de um arranha-céu, aparentemente nu, com o rosto encoberto pelas sombras.
* * *
          Gilmar estava no quarto, no exato instante em que chamara por Mikail. Completamente suado, ofegante e transtornado. Deveria fazer alguma coisa.