O Menino que não podia Morrer... Capítulo 31

domingo, 29 de julho de 2012

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          Poucas pessoas já pararam algum dia para refletir sobre a complexidade da raiz da palavra universo. Sugere que há um plano físico em que vivemos que poderia ser,  quem sabe, o contrário do que realmente existe. Sugere que estamos do lado de fora do que realmente é real. E no universo cabem absurdos inimagináveis que requerem milhares de anos de física para explicar.

          Supõe-se que o universo, repleto de ilimitações possa ter vida inteligente em diversos pontos. Mas dentro de sua magnitude, isso se descobre uma inverdade. Há vida inteligente, há espécies diferentes, mas são poucas. Algumas delas, ligadas através de milhares de anos de história. Outras são meras consciências disformes, espalhadas pelo espaço, o que com a formação de planetas e vida recebeu o nome de Espíritos.

          Espíritos assimilam-se a coisas, como simbiontes. Assim nascem os planetas e a vida se forma, porque eles animam os elementos. Uns possuem inteligência, outros não, e outros a adquirem com o tempo. Alguns espíritos têm habilidade para interferir em elementos, e são inteligentes. Estes são vaidosos. Interferem na imaginação de criaturas materiais, e tornam-se o que chamam de deuses, demônios, anjos...

          Há milhares de anos surgiram os primeiros, e uns eram bons, outros não. Mas todos eram vaidosos. O que faria um ser interferir na evolução de outro e se fazer reconhecido senão a ardência egoísta de algo que se reconhece sobre outros seres? Há um ser supremo, que é um véu espalhado por toda parte, e ele assiste, e sua inteligência nada mais é do que a soma de todas. Não é um deus, pois ele é também os elementos. Mas os deuses...

          Os deuses não poderiam criar o universo, tendo visto que eles próprios são parte dele. Mas os deuses interferiram no mundo. E como pensam e o que desejam está além da compreensão de qualquer outro ser. Isto não se discute.

          No entanto, a evolução é a mais primitiva das leis que regem o Inverso, o Universo, e o Uno. Os seres se desenvolvem e alguns amam verdadeiramente. Estes vigiam a humanidade, e são livres. Não servem a nenhum deus, nenhum espírito, e também raramente interferem nas ações deles, pois um ser pensante não pode intervir por outro sem que seja chamado.

          Existe um lugar distante aonde vivem alguns que foram homens a milhares de anos, e dominam elementos tanto quanto os espíritos antigos. Mas não tão distante, existem homens, próximos de seu mundo, que o visitam regularmente e resgatam espíritos de semelhantes que se corrompem. Levam, às vezes anos de trabalho, mas há casos irrecuperáveis.

          Certa vez alguém impediu que um antigo espírito, anterior a formação do mundo, se assimilasse ao espírito de uma criança, e toda sua ira despencou-se sobre a pessoa, que em pouco tempo após abandonar o mundo material, ele já havia perdido qualquer resquício de humanidade e tornara-se um vapor etéreo composto por meros sentimentos de tristeza e rancor, e nenhuma personalidade.

          Os homens do chamado “Paraíso” levaram este caso aos “Elevados”. Quatro tentaram despertar a criatura, mas nada poderia ser feito. Mikail, velho, poderoso, decidiu lançar-se pelo espaço, cruzando distâncias incalculáveis, retrocedendo no tempo, para resgatar aquela criatura quando ela ainda era humana.

          E outra linha do tempo se formara no instante em que tomara a decisão.

          Voltou décadas do tempo daquele mundo. Cruzando a escuridão profunda em que o tempo não existe, com o corpo esticado como uma flecha, cuja cabeça estava erguida, olhando na direção em que se atirava, pois não havia erros. Ele era antigo. Ele era poderoso.

          Ao cruzar a atmosfera, desacordou-se, e fora lançado no solo, sem que sentisse qualquer impacto. Ele fora resgatado, visto como uma criança. E então chegara ao lugar em que deveria completar sua missão. Nenhuma maldade era irreversível.

          Algo terrível estava prestes a acontecer, e ele sabia disto. Viera preparado. Tudo podia acontecer. Inclusive seu próprio fim.

O Menino que não podia Morrer... Capítulo 30

terça-feira, 24 de julho de 2012

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          Já faz muitas décadas que o principal jornal de uma cidade no interior no estado do Paraná ilustrou sua primeira pagina com uma foto sinistra de uma casa no meio do mato, e a manchete “CHACINA NO CARDEAL PEREGRINO”. A nota era surpreendente:

          "A quase três meses sem quaisquer sinais dos moradores do único orfanato do município e arredores, o Padre Onório resolvera visitar o Lar Cardeal Peregrino, e uma visão chocante o surpreendera: Todos estavam mortos de maneiras surpreendentemente violentas.

          "Segundo o padre, o rapaz Gilmar Castro(que crescera no orfanato) era praticamente a única pessoa que se costumava ver saindo do orfanato. Era responsável por serviços pesados e, ora auxiliado por Hortência Gambrelli(que como ele, era uma órfã interna) ou pelas responsáveis Lira Maria Giardini ou Rute Giardini, periodicamente visitavam a cidade para comprar mantimentos e receber donativos feitos à paróquia.

          "O padre resolvera visitar o orfanato em busca de notícias e encontrou as 12 crianças mortas, umas com facadas no coração, outras degoladas, e os adultos igualmente mortos. “Eu nunca pensei que visitaria uma imagem como esta”, disse o padre, “Só Deus poderia presumir quem seriam aquelas crianças quando crescessem, mas isto já não vai mais acontecer.

         "Padre Onório optou pela discrição, e sem reparar em detalhes, procurou diretamente a polícia para investigar a cena. “Houve um claro confronto com as mulheres,” disse o inspetor Carlos Gianini, “Gilmar possuía a faca e, ao matar a todos no orfanato, tirou a própria vida num ato de extrema covardia”.

          "Segundo o padre, Gilmar sempre apresentou sinais de lucidez e uma fidelidade a suas tutoras que estava fora de discussão. A versão da polícia deveria estar errada. Segundo o padre, poderia haver mais alguém ou, indo além, haver influências demoníacas. O fato é, as crianças haviam sido assassinadas, uma a uma e, aparentemente, Gilmar havia cometido tais mortes, com exceção de Rute Giardini, que parecia ter sido vitima de um confronto com Hortência.

          "Aparentemente, as mortes já aconteceram a pouco mais de dois meses, e os corpos já estavam em estado avançado de decomposição. Investigadores de Curitiba foram enviados para auxiliar nas investigações. A região está isolada, e a anos é dita como assombrada."

          Isto aconteceu há muitos anos e os moradores daquele lugar remoto, por décadas, não conseguiram deixar aquela casa. Tornaram-se coisas. Coisas tristes, coisas isoladas, rancorosas, confusas e temerosas.

          Criança por criança, foram resgatadas num trabalho árduo de resgate. Forças mais antigas e fortes vinham para pacientemente estudá-las, lembrar-lhes de sua própria humanidade, e despertá-las. Mas houve uma que ninguém jamais conseguiu resgatar. Era esta sua missão. Mikail deveria salvar o menino que não podia morrer.

O Menino que não podia Morrer... Capítulo 29

segunda-feira, 16 de julho de 2012

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          Algo tinha dado terrivelmente errado, e Dona Lira sabia disto e, embora negasse, sabia que tudo começara a mudar no dia em que impedira Tia Rute de sacrificar Gilmar. Gilmar era uma criança gentil, mas isto muitas outras que morreram também eram. Gilmar era carinhoso com ela. Isto também outras crianças eram. Proteger Gilmar foi a forma que ela encontrou de salvar a todas, ainda que de uma maneira tola.
Lira nunca gostou de seu destino, mas nunca soube por onde mudar. Era apenas alguém que obedecia. Um soldado que mata porque mandam. Nunca teve muita escolha. Isto havia começado por amor a sua mãe, mas logo transformou-se num ofício. Lira não era feliz.


          Lira salvara Gilmar porque queria acreditar que através dele as coisas poderiam ser diferentes. Não seriam apenas ela e sua tia. Mas tudo começou a mudar. “Ele” cobrou mais, e tia Rute acabou enfraquecendo-se, e precisaram de alguém mais jovem, de força. Viera Nicanor, que molestara a menina Hortência, e ela perdera a finalidade. Não era pura. Era maliciosa. Outras crianças acabaram perdendo a inocência através do estímulo dela.


          Mas Lira não a julgava, como fazia tia Rute. Gilmar fora estimulado pela menina sem nem ser adolescente. E Hortência, tendo o sexo desde criança, não via mal em tocar crianças mesmo depois de adulta, pois para ela, era um prazer inocente, como qualquer brincadeira. Para tia Rute não. E a velha quis matá-la, como fizera com Nicanor anos antes, mas fora Ele quem a impedira, pois Ele via graça em humanos com comportamentos de aberração.


          Fora um alívio para dona Lira que não tivesse que explicar suas defesas, pois isso irritava a ira de sua tia. E depois que Gilmar crescera, algo mudou dentro dela. Ele era atencioso como um filho, mas não era o amor de mãe que ela sentia. Ela se apaixonara pelo rapaz, mas sabia que jamais o teria como homem.
Tocava-se à noite, ao pensar nele. Sentia-se culpada e suja ao fazer isso, como se traísse o respeito que ele tinha por ela, mas a verdade é que o desejo não era puramente carnal. Ela o amava como homem, e seu amor era sincero e cristalino. Não o queria, nem a nenhuma criança, envoltados por um ambiente de rancor, tristeza, e soberba.


          Dissera-lhe o espanhol, que Ele queria nascer para revelar ao mundo a grande mentira, pois que o pai da mentira não poderia ser outro, senão aquele que afirma dizer a verdade e oprime aos que perguntam. A fala macia vinda da boca daquele homem sábio era confiável, mas até que ponto salvar o mundo matando crianças traria paz para a humaninade?

          “Mas matam todos os dias em nome de Deus, Allah, Javé, e quando isto acontece, questionam o crime, mas jamais a intenção. Afinal, o criminoso pode parecer louco, mas o sacrifício para Ele está feito”, dissera o espanhol.

          Desde que Gilmar chegou com essa criança, tudo ficou estranho. Ela sonhara, na noite anterior a vinda do garoto, com uma criança que vinha do céu. No sonho, a criança vinha para libertá-los. Não lembrava de mais do que a idéia do sonho. Queria que tudo acabasse.

        Ele, o Antigo, precisava de virar um só com o menino, que depois morreria e então Ele poderia encarnar homem, como espírito de homem. Mas algo estava acontecendo. Algo terrível estava por vir, pois Ele era rigoroso, antigo, sábio, bom às vezes, mas terrivelmente mal quando queria. E agora caminhavam uma longa trilha até a casa, aos passos lentos de sua tia, que se apoiava no ombro.

          Algo tinha dado errado, e Ele a havia castigado na hora em que matou o último garoto. Ela estava frágil. A luz da lua, cortada pelas folhas no cume das árvores chegava fraca ao chão. E o caminho ainda era longo...

O Menino Ezequiel

terça-feira, 10 de julho de 2012

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Conto escrito especialmente para o jornal português Horizonte Vilacovense de 23 de abril de 2012

          Quando Ezequiel era um menino, vivia sempre junto de Marcos e Nilson. Seus melhores amigos. Viviam em uma favela muito grande na zona norte do Rio de Janeiro. Marcos era filho de mãe solteira, Ezequiel, por sua vez, tinha pai e mãe. Seu pai fora cobrador de ônibus até os quarenta anos, quando levou um tiro de bala perdida e morreu.

          Nesta época, Ezequiel tinha treze anos, um irmão de oito, Ernesto, e uma irmãzinha, Clarice, de seis anos. Sua mãe, dona Gleice, o pediu que deixasse a escola para ajudar trabalhando.  Foi o que aconteceu.

          Ezequiel ajudava feirantes, trabalhava em mercadinhos, vendia picolés na praia. Até que sua mãe adoeceu. Quando isso aconteceu, ele tinha quinze anos. Conseguiu que seu irmão, Ernesto, trabalhasse em um mercadinho, e ele começou a trabalhar também durante a noite.

          Fazia tempo já que não via seus amigos. Não tinha dias de folga, porque não tinha trabalho certo. Dona Gleice estava com pneumonia. Sua irmãzinha era a responsável pelos cuidados e apesar de conseguirem remédios gratuitamente, tinham despesas altas para transportá-la.

          Certa vez, pelo meio do mês, ou comprava um xarope para sua mãe, ou se alimentariam. Optaram por tratar Dona Gleice. Ela tinha sorte, sabia, que tinha filhos gentis e honestos. No resto do mês comeram arroz e “nuggets”, que Ernesto pedira como adiantamento de seu salário.

          Mas então cortaram a luz e a água.

          Ezequiel, sem noticias de seus amigos, ficou surpreso ao ver que Nilson estava na favela exibindo sua moto nova. E era uma moto de respeito. Verde, caríssima. Ezequiel estava a dias dormindo algo entre três e cinco horas, mas ainda cansado, chegando de um dos trabalhos, foi cumprimentar o amigo.

          Nilson gabara-se que agora era rico, e comentara que Marcos havia tomado um tiro e morrido no trabalho. Depois da triste revelação, convidou Ezequiel para trabalhar com ele. Era fácil. Apenas levar drogas para clientes já conhecidos, e ocasionalmente descerem para render algum turista desprevenido.

          Ezequiel olhou para a moto, e pensou na velha Gleice que gemia na cama. Como foi doloroso negar aquela oferta. Mas o fez. Voltou para sua casa, e antes de dormir, sua irmãzinha contou que sua mãe tinha um câncer dentro do pulmão. Sua irmãzinha não demonstrou emoções em lhe dizer o fato.

          Naquela noite ele não dormiu. Passou pouco mais de uma hora deitado, quando ele foi até sua mãe, naquele mesmo cômodo apertado, e se ajoelhou. Ela dormia sentada, com o peito virado em direção ao espaldar da cadeira. Ezequiel colocou seu relógio vagabundo, e saiu. Caminhou sem pressa até o barraco onde Nilson morava.

          Nunca vira uma televisão tão grande.

          “Presente do chefe”, disse ele, feliz.

          Nilson disse que era um dia de sorte. Teriam um trabalho bom, e seriam só os dois. Teria um lucro legal. Fariam uma entrega para alguns playboys da zona sul.

          Estavam em uma ruazinha na região da Lapa. Nilson disse que ele deveria vigiar um dos acessos da rua, para avisar sobre a chegada de policiais. Apesar de pagar propina à polícia.

          Lá ficou Ezequiel, pensando em sua vida. Queria uma namorada. Mas não tinha tempo para isso. Queria tomar banho, mas não tinha nem luz, nem água. Queria comer no Mc Donald. Comera lá pela ultima vez quando fizera onze anos. Nunca mais.

          Barulho.

          Ele olhou para Nilson, Nilson fora baleado, e algumas pessoas corriam, outras eram presas. Ele correu também.

          Longe, ele parou. Pensou se teria culpa pelo tiro que Nilson levara, mas Nilson estava armado também. Quem sabe não teria feito alguma idiotice. Olhou para o relógio, estava no meio do caminho, e a tempo de ir para seu trabalho. Seguiu seu caminho. Dona Gleice iria morrer de qualquer jeito. 

O Menino que não podia morrer... Capítulo 28

domingo, 8 de julho de 2012

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          Gilmar andou pela mata, silencioso, seguia mais a sua intuição do que a rastros propriamente ditos. Era sorrateiro. Enxergava meramente três metros a seu redor naquele bosque de arvores de cume tão fechados. Com o tempo, já não notava rastro algum. Apenas percebeu um vulto imenso diante dele, algo que não era ruim, tampouco era bom. Mas era poderoso. Era aquele macaco.

          Ele guiava o rapaz mata adentro, por um caminho jamais feito por ele. Andara em seus passos de pernas compridas por mais de uma hora até que a criatura desaparecesse. Quando isso aconteceu, Gilmar não temeu, pois percebera luz adiante, e reforçou a camisa cobrindo a luz emitida por seu braço. E então viu algo surpreendente.

          Havia um circulo com crianças mortas numa área descampada. Estavam degoladas. Entre os corpos estavam as cabeças. No meio, uma fogueira apagada há pouco tempo, havia alguns ossos de criança entre as brasas. Atrás da fogueira, uma pedra que parecia um altar e deitado sobre ela, um bode vivo, acordado e amarrado. Um facão afiadíssimo que costumava ser usado como utensílio de cozinha A luz branca da lua brilhava naquele circulo não muito amplo.

          Gilmar ouviu vozes, e voltou a esconder-se no mato. Eram as velhas, e elas traziam o ultimo garoto adotado. Parecia estar inconsciente. Vestiam um manto vermelho, feio e simples. O macaco estava ao seu lado, imenso. Dona Lira parecia agir de maneira mecânica. Tia Rute, por outro lado, estava resoluta, imponente e inspirada.

          Dona Lira trouxera uma bacia de latão que estava por perto, e tia Rute, segurou a cabeça pelos chifres com a mão direita, e com a esquerda pegou o facão e começou a cortas a cabeça do animal que gritou. Não houve um golpe certeiro, mas um corte, pressionando a lâmina entre os pelos, rompendo a pele, cortando a carne do animal vivo, indo e vindo, até que pudesse puxar a cabeça para afastar do corpo.

          O menino, ajoelhado diante do altar, recebeu a enxurrada de sangue que vinha abundante do animal cujo coração ainda batia e a cabeça ainda perdia a consciência. O menino banhou-se naquele sangue que brilhava, hora vermelho, hora negro, sob a luz da lua.

          Dona Lira atirou a cabeça do animal no chão, com bastante indiferença e aproximou o balde de latão para recolher mais sangue, e derramá-lo sobre o garoto logo em seguida. Tia Rute pegou, com a ajuda de uma pá, cinzas da fogueira, e jogou sobre ele.  As duas empurraram o corpo do bode para fora do altar e deitaram o garoto lambuzado.

          “Quero que não façam mais isso”, Gilmar ouviu em sua própria cabeça, “Eles morrem mas não deixam a floresta...”.

          Tia Rute cantava algo em uma língua estranha, e ergueu a mão esquerda com a faca e, de um golpe, apunhalou o coração da criança. Caiu no chão, e ficou ofegante, desesperada.

          “MEXERAM NO GAROTO!”.

Paulão: A Lenda

quarta-feira, 4 de julho de 2012

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          Em algum lugar no interior da Bahia se escondia a distinta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era muito conhecida por pessoas afamadas pelas razões mais surpreendentes. Paulo Henrique Silva era um exemplo: dormiu com todas as mulheres da cidade e foi conhecido por casar virgem.

          O que as pessoas não sabiam era que Paulo Henrique simplesmente era um rapaz discreto, que gostava muito do cheiro que vinha das entranhas de uma fêmea. Mas Paulo Henrique não se importava com o que as pessoas pensavam então simplesmente não falava. Não contava vantagem. Comia e pronto.

          Aos treze anos, Paulo comeu sua prima Rosita. Fora sua primeira vez. Rosita tinha dezesseis, era rodada, mas nunca tinha visto um cacete daquele tamanheza. Ela gostou, ele também, e ele soube que tinha uma raridade entre as pernas. Não restava qualquer dúvida, Rosita repetia demais que o primo Paulinho era um Senhor Paulão, com “Z” maiúsculo.

          Paulão era, naquele tempo, magrelo. Não era muito bonito, mas não era feio não. Ele ficou intrigado. Nunca vira a bengala de outro homem para comparar. Resolveu procurar secretamente uma quenga da boate Dona Quixota. Nicinha viu aquele menino, e tentou despachá-lo. Ele disse que queria saber se o que tinha era grande, ela não quis dar atenção.

          Luxuriado pelo delicioso decote da puta, colocou a bengala para fora, meio dura, meio mole e ela exclamou.

          - Oh, mi’a noss’! Creindeuspai...

          Nicinha era mineira, mas sua história ficará para outro dia. O fato é: o mesmo tesão que ele sentia olhando para os peitões da mulher de quase trinta, ela sentira olhando para aquele instrumento de guerra do rapaz, e o colocou dentro do estabelecimento, escondido, e o levou pro quarto. Colocou na boca, na frente, colocou atrás, entre os peitos... No final, deu ainda alguns trocos para o menino.

          Paulo sentiu-se notável, e transformou-se, no objeto secreto de luxúria de muitas mulheres, de muitas idades. Aos quinze começou a fazer musculação na única academia da cidade, a “Hot Bahia”. Em um ano tinha ficado muito forte. Era um pouco alto. Virou a paixão secreta de muitas fêmeas que cruzavam seu caminho.

          Paulão não sonhava em achar a mulher ideal. Pra ele o mundo era feito de milhares delas. Ele era um leão de muitas fêmeas.  A verdade é que ele amava cada mulher que comia. Ela era a única fêmea do mundo enquanto rebolava sobre ele. Mas ele era uma força da natureza, não podia ser exclusivo. Embora...

          Embora cada mulher que tenha dado para ele acreditava que era fruto de uma experiência casual única e excepcional na vida daquele rapaz sério, responsável, gostosão, e muitíssimo bem servido. Paulão fora ensinado a meter pelas quengas mais requisitadas da Bahia! Não tinha como errar.

          Cacilda, moça crente e supostamente virgem, deu uma vez e ficou viciada. Não saiu do pé de Paulão, pobre rapaz. Acusava-o de ser cafajeste, sem se dar conta que o que o fazia ser cafajeste era o fato de que ela queria ser comida para sempre por ele. Não era ele que era cafajeste, ela é que era uma potranca no cio.

          Pegou uma camisinha, e estraçalhou-a com uma agulha de costura e colocou remédios para dormir e Viagra escondidos em uma bebida certa vez, no bar. Quem tomou foi ela mesma, e Adamastor, a comeu bêbada no bambuzal próximo ao centro da cidade. Ela engravidou. Ficou até feliz. Adamastor era afamado.

          Paulão não sonhava em conhecer uma mulher especial. Mas ele tinha um sonho. Algo até ingênuo e infantil. Paulão tivera infância, fora criança, e tinha televisão em sua casa, e ele era apaixonado por alguém que jamais viria a ter em seus braços. Paulão sempre tocou seu corpo pensando na Xuxa, e isto que o fazia carinhoso com suas presas: era a rainha dos baixinhos que ele acariciava e beijava quando fazia amor.

          Quando tinha vinte e sete anos, conheceu Raimunda. Uma mulata, loira, por quem acabou se apaixonando, e se casou, sem que restassem vestígios de mulheres com quem havia dormido, pois umas desconheciam as histórias das outras. Embora, em seu casamento, dezenas de mulheres choravam enquanto o viam no altar, esperando sua Raimunda, pensando que provavelmente jamais veriam aquela bengala outra vez.

O Menino que não podia morrer... Capítulo 27

segunda-feira, 2 de julho de 2012

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          As duas velhas haviam saído. Hortência tinha se recolhido. Gilmar tomava chá de gengibre e olhava de um menino para o outro. Ao lado de Laio havia um banco de três pés, e uma vela branca acesa. Silencioso, encarou aquela chama laranja e as sombras que ela, a única fonte de luz naquele ambiente, gerava. Abriu as janelas e tomou um susto. A luz da lua brilhou em seu braço. Seu punho parecia brilhar numa espécie de fogo branco. Intrigado, mas sem qualquer receio, caminhou até a vela e a apagou num sopro.
          O braço, que parecia nu, brilhava ao menor contato com a luz da lua. Gilmar resolveu puxar o menino que havia encontrado para o contato com a lua. Algo curioso aconteceu. Aquela poeira não se desprendera de sua mão, mas particular de pó que pareciam sair do corpo do menino brilhavam soltas no vento leve que vinha da janela, acima de seu corpo. Gilmar resolvera arrastar a cama, e tira-la de cima da gravação misteriosa.
          Do momento em que soprara a vela, ao momento em que tirara a cama do lugar, percebeu uma inquietação discreta em Laio.
       “Mikail?” Gilmar murmurou. Ele abriu os olhos. Gilmar ficou assustado. Mas não perdeu a calma. Aproximou-se, respeitoso.
          “O que está acontecendo?” ele perguntou, mas não recebeu resposta. O menino apenas o olhava concentrado, estudando cada poro do rosto do rapaz.
        -Cuidado pra não morrer! – ele disse olhando nos olhos de Gilmar, com seus olhos claros. Gilmar sentiu seu coração pulsar na testa, nas pontas dos dedos e na boca. O que deveria fazer?
          Ele se levantou, sem dizer palavra, e correu, em busca do rastro por onde as velhas podiam ter ido, guiado pela luz em seu punho, semi-oculta por uma camisa enrolada.