O pequeno príncipe

sábado, 29 de dezembro de 2012

| | | 1 comentários

Hoje terminei o livro “O Pequeno Príncipe”, e me flagrei no mesmo estado de graça e insatisfação que senti ao assistir “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. A graça por perceber como existem contadores de história sensíveis, maduros, e não obstante, simples, no mundo. E insatisfeito comigo mesmo por não ter me dado ao trabalho de conhecer essa obra há mais tempo.

Claro que como um ser humano no mundo globalizado, eu cresci sabendo que a obra de Antoine de Saint-Exupéry existia, sabia reconhecer os traços de sua arte e, inclusive, conhecia muitas das frases de efeito de sua obra.

Frases de efeito, isto é o pecado que eu percebi ao terminar o livro.

A história, apesar de simples, carrega significados e exemplifica as fragilidades humanas de uma forma que eu só havia “experimentado” ao ler “A História sem fim”, de Michael Ende. Há um livro para aguçar a imaginação fértil das crianças, e uma jornada repleta de revelações para os adultos observarem a si mesmos.

E nisso tudo, sobram o que as pessoas chamam de frase bonita, frase de efeito... Sublinham, passam adiante, sem de fato experimentar a proposta desses respectivos autores: vivenciar algo único, que somente o coração de uma criança é capaz de tornar real, mas contentando-se em usar, de má fé a sensibilidade do contador de histórias como um mero livro de auto-ajuda. Deixe a auto-ajuda pra quem não sabe contar histórias.

Muitas pessoas choram com o final. Particularmente, achei natural a forma como tudo acontece. É lindo, deixa saudade, mas é feliz.

A morte do Papai Noel

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

| | | 1 comentários

Em algum lugar no interior da Bahia se escondia a discreta cidade de Itaxoxota do Norte. Povoada por dois mil habitantes, Itaxoxota era conhecida por histórias de superação. Natalino Ventura fora um sobrevivente: Tinha dois filhos que passavam o dia sozinhos no sitio em que morava, e certa vez, em época de natal viajou até Itabuna para trabalhar em um comércio.

Com a mesma falta de sorte que lhe trouxera uma mulher que engravidara de gêmeos e desapareceu após seu nascimento, Natalino esbarrou com Cristino Gomes, conhecido por Corisco, cangaceiro famoso e perigoso que estava à paisana pelas bandas de Itabuna. Após uma discussão por motivo fútil, Corisco lhe agrediu com violência.

 Ninguém jamais soube que o homem que o espancara e o deixara desacordado pela rua era o cangaceiro, a não ser este que vos fala. O fato é, Natalino, com vinte e três anos, acordara sem se lembrar de seu nome, seu lar, exceto lembrar-se que tinha alguém à sua espera.

Seus filhos cresceram, com momentos ora de tristeza, ora raiva. Jamais saberiam o que tinha acontecido até que quando completaram sessenta anos, Indaiara, a moça, agora senhora, por quaisquer forças do destino o encontrara pedindo esmolas em uma praça de Itabuna, com uma barba que passava a altura da cintura, cabelos longos, cinzas e embaraçados, e uma marca de espancamento, como um carro amassado, no cocuruto do velho.

Bastaram três dias para que ele estivesse devidamente asseado, e arrumaram-lhe um trabalho. Um shopping de Itaxoxota, que mais parecia uma pequena galeria, precisava de um velho barbudo para representar o Papai Noel.

Lá estava Natalino. Um velho que não calculava informações. Não assimilava o mundo. Uma alma infeliz, por ansiava por reencontrar coisas que já tinha recuperado e não podia reconhecer. Falava, pensava, mas era vazio. Sentia calor com a roupa vermelha, e a poltrona do Papai Noel, embora parecesse bonita, era dura e desconfortável. E então uma menina se sentou em seu colo.

Ele fez como o dono do Shopping orientara, conversava com a menina, e dera-lhe um doce. Houve uma iluminação em sua mente ao olhar tão próximo do rosto da menina.

“Minha filha...” pensou ele, como quem faz a maior descoberta do mundo. Ele tinha duas crianças. As havia deixado para trabalhar. Esta era a causa de sua angústia. O senso de responsabilidade por seus filhos jamais havia desaparecido, e não lembrar que existiam tornara todos os sessenta anos terrivelmente sufocantes.

Seu coração acelerou. Ele precisava procurar, mas onde estariam.

- Qual o seu nome, meu filho? – perguntou ele para outra criança.

- Enoque. – respondeu o menino.

Era o nome de seu filho. Enoque e Indaiara. De repente tudo voltou à tona. Ele sabia quem era, de onde viera, lembrou-se do diabo loiro que o agredira. Mas não se esquecera dos anos que se passaram.

Sentou-se outra criança. Mas sua aflição apenas se atenuava a cada segundo que passava.

“Meu Deus, aquela moça é minha filha. Onde ela está?” ele pensou, lembrando-se do rosto da mulher Indaiara que o havia resgatado das ruas de Itabuna.

Começou a sentir a boca seca.

- Eu passei de ano! – exclamou um menino, orgulhoso. Olhou para o menino, simpático, tentando parecer calmo, embora surgissem pequenas luzes em seus olhos que piscavam incessantes.

Esticou o braço esquerdo para pegar um pirulito, e o doce caiu de sua mão que formigava. Ele abria e fechava, aflito. A boca, mais seca a cada instante, e de repente ele gritou um breve “Ah!”, e derrubou o menino no chão, e caiu em cima dele. Morto.

Um trovão cortou todo o som que havia na cidade. Um raio havia partido a maior árvore da praça principal, que ficava diante do shopping e da igreja. Também o som da árvore fora um estrondo arrepiante.

E as crianças, que eram muitas começaram a gritar. Umas choravam de medo, outras uivavam e apontavam para o velho morto.
“Papai Noel morreu”, gritavam elas.

E a chuva começou. Densa, tornando a manhã ensolarada em uma noite surgida de modo inesperado. Pessoas corriam pelo shopping e gritavam nas ruas que o Papai Noel havia morrido. Uma hora depois, estavam Indaiara e Enoque ao lado de oficiais que retiravam o corpo de Natalino.

Quando o corpo fora levado, todo mundo soube que o nome do homem se chamava Natalino, e que ele era um milagre. Pois não chovia em toda a região fazia quase seis meses. A chuva levou horas, e toda a cidade saiu, sem guarda-chuvas, para senti-la, fria, abundante e abençoada.

Indaiara e Enoque jamais souberam que seu pai se lembrara deles antes da morte, e fora a dor de tê-los deixado esperar tanto tempo, que lhe tomou a vida. 

A Solução de Rodrigo

domingo, 16 de dezembro de 2012

| | | 2 comentários

 "A solução de Rodrigo", conto de minha autoria, foi originalmente publicado no jornal lusitano Horizonte, em 26 de outubro de 2012

         Era parte da rotina de Rodrigo chegar em casa após a escola e encontrar seu pai, Luís, sentado diante da televisão com o controle remoto na mão direita. Mas às vezes ele não estava em casa.

          Às vezes a casa estava sem o ruído  da televisão alta, e isto não era um bom sinal.

          Nestes dias, Rodrigo ia para o quintal e se deitava no chão do quintal, para observar as nuvens. Chicão, o cachorro da raça pastor alemão, lambia-lhe a cara e depois deitava apoiado no peito do garoto.

          As vezes até dormia. E sua mãe, Leila, que trabalhava como cozinheira em casa de família, chegava em casa todos os dias as oito, e o acordava no quintal. Rodrigo alimentava Chicão, tomava banho e começava a estudar. Eis que começava, sempre na mesma ordem:

         Ouvia as correntes que prendiam o portão mexerem; Chicão latindo, furioso; um barulho irritante do portão sacudindo; seu pai gritando seu nome, ou o nome de sua mãe, precedendo sempre uma palavra rude.

          Rodrigo corria em direção à garagem, mas as vezes Leila já estava lá para abrir o cadeado para o marido, que a empurrava com força para que saísse do caminho. Estava bêbado.

          Na última vez, ele agredira Leila com tanta violência, que ela deixara de ir para o trabalho por quase duas semanas. Inventara uma doença qualquer para a patroa. Rodrigo, por sua vez, ligou em segredo para Sílvia, a patroa de sua mãe, para lhe dizer a verdade.

          Com um bolo de cenoura nas mãos, Sílvia viera visitar Leila, e ofereceu-lhe ajuda. Leila agradeceu, porém disse que não seria necessário, pois nada era o que parecia. Sentiu-se traída pelo filho.

          Rodrigo fora repreendido por sua mãe.

          Desta vez Rodrigo olhava para os modos do pai, para as súplicas da mãe, e pensava. Foi até seu quarto e fechou a porta. Leila o chamava. Era sempre assim...

          Ela chamava o filho para apartar a briga. Ele vinha, separava. A mãe chorava, o pai saía outra vez, ou se trancava no quarto.

          Rodrigo tinha 15 anos, e já estava cansado. Foi até a cozinha, onde o pai batia em sua mãe, mas não separou. Olhou a situação e, com um misto de indiferença e raiva, abriu a porta do quintal para que Chicão entrasse.

          Como um raio, o animal entrou casa adentro e voou na perna de Luís, que caiu e tentou dar socos no cão, mas fora novamente mordido, desta vez no braço. Os dentes afundaram na carne do homem, que gritou. A mãe pegara uma vassoura para bater no animal, mas Rodrigo a deteve.

          Colocou o cão no quintal. Seus pais, horrorizados, olhavam-no em silêncio.

          - Se me dão licença, - disse o garoto – preciso estudar.

          E voltou para seu quarto.


Sobre amor, esperança, e o cupido...

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

| | | 1 comentários
Seria o coração um tolo,
ou o cupido filho da puta?

Que diferença faz agora?
O coração é tolo, ele sabe.
Conhece o temperamento do cupido,
Conhece seu senso de humor cruel...
E lá está ele.

Dureza é: a flechada, ainda que doa,
traz uma esperança quase libertadora.
Mas dói porque, sabe ele, o coração,
que a esperança é a ultima que morre.



Morre antes dela a lógica,
Morre antes dela o bom senso,
e antes de ambos, às vezes,
morre até o amor próprio.

E a esperança, quando morre, morre deixando o buraco de todo o resto, porque ela impedia o coração de perceber tudo o que perdeu pelo caminho.

Mas quer saber? Foda-se. Ter esperança faz bem, porque a esperança só acaba depois que a própria morte chega.

D.I. Project - Capítulo 7

sábado, 8 de dezembro de 2012

| | | 0 comentários
O ano é 2063.
A humanidade corrompeu-se às delicias do consumismo. Cheia de vícios por tecnologias, drogas sintéticas e fetiches sexuais, o homem caminha para sua fase mais obscura e superficial.
Isabel viu o homem andar de porta em porta, sem fazer perguntas, exterminando todos os indivíduos que via. Escondeu-se atrás de uma estátua. Acreditou que ele talves a tivesse visto, mas aparentemente a ignorou. Ele subiu as escadas, sendo alvejada por muitas balas. 0Detivera-se por um momento ao receber o impacto da bala de uma arma de grosso calibre. Ela não queria acreditar no que vira.
No andar de cima o caos havia se instalado. Muitos viram o homem que subia as escadas sendo quase que ininterruptamente baleado e sem sofrer danos aparentes, e corriam por saídas de emergências.
Johan Marx levantara as percianas do escritório de Cadogan e vira longe o homem espantoso. Quatro homens jogaram-se em cima dele. Como se três fossem moscas que voavam inofensivamente ao seu redor posando ora em seu rosto, ora no corpo, concentrou-se em apertar a cabeça do quarto com duas mãos, num “cloque” sonoro quer pode ser ouvido de qualquer parte. Agarrou outro pelo pescoço e em poucos instantes quebrara as vértebras do homem deixando-o cair molemente no chão. Um correu, o outro, no chão, ergueu as mãos.
“Procuro por Charles Cadogan”, dissera o assassino.
- ALIIIIIIIIII! LA ESTÁ ELE! - gritou atterrorizado o homem apontando para o Inspetor distante. No exato momento o assassino ergueu a arma para Cadogan, que jogou-se no chão.
Johan sacudia a maçaneta freneticamente, num estado de terror alucinado.
- Puta que pariu!
Charles jogara-se contra uma das saidas de emergência, ao notar que era o alvo do assassino.
O corredor estava apenas ele, ligeiramente sem fôlego devido à surpresa. Apoiou-se na parede de uma quina e esperou o homem entrar no corredor.
Carregou sua pistola, e esperou. Lá estava ele, passando pelo batente sem pressa. Monstruosamente musculoso e sobrenaturalmente inexpressivo. Cadogan, num golpe de extrema agilidade, apontou a arma para a cabeça do homem.
Teria sido fatal. Mas a cabeça do homem fora empurrada para trás com demasiada força, no entanto, voltou a posição anterior em menos de quatro segundos. Cadogan correu. E a luz fora cortada, restando somente as lanternas de emergência.
“Droga-droga-droga...” reclamou ele, encurralado ao bater-se contra a porta emperrada no fim do corredor.

Johan estava encolhido no chão do escritório, tentando manter a cabeça fria. Levantou-se, num momento de inspiração emergencial, pegou uma cadeira para atira-la contra o vidro, mas antes que isto acontecesse, muitos tiros foram detidos contra o vidro do escritório: era blindado.
Aquele mesmo homem que o havia alertado pouco mais de uma hora antes, estava disparando tiros, para depois, lançar contra o vidro uma cadeira, que o dilacerou.
- Venha, não temos tempo a perder.
E os dois desceram correndo, pelo edifício que estava em um estado de caos onde nenhum fora percebido, a não ser por Isabel McClanahan