O Conto da Vingança

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

| | |

Havia duas crianças que viviam no meio de um bosque. O bosque estava próximo de uma cidade pequena, e todos sabiam que as crianças ali viviam, e nada faziam por elas.

Em tempo: as crianças estavam mortas. Mortas eram as duas crianças que viviam naquele bosque escuro em que as pessoas não ousavam entrar, porque tinham medo.

Viviam, diziam uns, permaneciam, diziam outros, e outros iam além, dizendo que “assombravam”. Pois que aquelas duas crianças, um menino e uma menina, eram transparentes e, embora não envelhecessem, pareciam interagir com uma rotina sobrenatural bastante curiosa: a menina parecia possuir dons de cura, pois era vista geralmente tratando animais desafortunados que se feriam, ou que fossem molestados por seu irmão.

Sim. Embora seja de conhecimento de muitas pessoas que espíritos não possuam habilidade de interferir no chamado “mundo material”, aquele menino conseguia agarrar pássaros e quebrar suas asas, atirar pedras e dar pauladas em pessoas que encontrasse, sem que nada pudesse causar-lhe quaisquer tipos de injúria.

Por isto é que “viviam” no bosque.

Perguntas não faltavam sobre eles. Ninguém nunca soube quando é que chegaram no bosque, e se ao chegarem ali, já fossem aberrações da natureza ou crianças comuns, pois suas vestes não asseguravam a ninguém um palpite de uma época: estavam nus. Pareciam índios, exceto pelos olhos azuis.

Seus olhos, ao contrário do resto do corpo, não eram transparentes. Eram de carne viva, e flutuavam sinistramente encarando quem os encontrasse. Mesmo os olhos da menina. Apesar de haver bondade em seus gestos, ela carregava no semblante uma expressão odiosa e ainda mais sinistra que a indiferença crapulosa do menino.

Certa vez um garoto da cidade, já adolescente, perdera-se pelo bosque. Teve o infortúnio de encontrar o menino pelado. O menino, sem muita dificuldade surpreendera o adolescente e lhe arrancou os braços. O adolescente sangrou muito, mas a menina o encontrou e o curou.


Grato, o menino lhe trouxera frutas. Ela as recebeu com suspeição. Em pouco tempo, tornara-se um hábito ofertar-lhe frutas. Semanalmente estava o garoto da cidade ali para lhe trazer presentes até que, certa vez, a garota permitiu que suas mãos, que antes lhe atravessavam, conhecessem a textura de sua pele.

O adolescente acariciou-a apaixonadamente, e a profanou, rasgando suas entranhas com brutalidade. Acuada em meio ao choque, não conseguiu retomar sua forma imaterial, e entre seus gritos, fora sufocada. Ele apertava seu pescoço.

O rapaz não fora grato por ela ter-lhe recolocado os braços. Sentia ódio das crianças e foi assim que chegou-se ao ensejo de sua vingança. Enforcou-a até a morte, atraindo o outro menino, que tentou dar-lhe pauladas na cabeça, mas o garoto da cidade percebera que no instante em que era agredido, o corpo do menino do bosque tornava-se derrotável.

Puxou-o pelo pulso e enfiou um estilete nos dois olhos  do menino do bosque, e depois rasgou suas bochechas, deixando à mostra a boca arreganhada da criança. Seus gritos agonizantes, inaudíveis para o menino cujo ódio ensurdecia, não deixaram-no notar que a menina, com sangue escorrendo pelas pernas, havia pegado um tronco fino e rígido e empalara, num golpe rápido, o garoto da cidade, que caíra no chão, violado, ferido e aterrorizado.

Enquanto o menino tirava o galho de seu cu, a menina curava seu irmão. Os dois em pé, vigorosamente transparentes, observaram o jovem gemer no chão, chorando, violado, despido. Com o canivete, o menino do bosque fez um corte profundo no pescoço do garoto da cidade, que sangrou até que seu coração parasse de bater. Ninguém jamais o encontrou.

[  GOSTOU? DEIXE UM COMENTÁRIO E RECOMENTE PARA SEUS AMIGOS ;)  ]

2 comentários:

Adilson disse...

Quem com ferro fere, com ferro será ferido. Infelizmente existe a corrupção, no caso de valores, até no mundo paralelo. Como o homem pode ter esse dom maléfico? Agora, o que dizer do conto...? M U I T O B O M ! Bem-vindo de volta Alex Pedro

Bruno Samuel disse...

Muito perfeito!

Postar um comentário