O milagre de Carlos

quarta-feira, 31 de julho de 2013

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     Carlos Varela, obcecado por mudar de vida, já tinha tentado de um tudo. Desde empregos formais, às mal-faladas pirâmides. Já encheu de hormônio sua horta pra ver se nascia uma abóbora gigante, ou qualquer coisa que fizesse chamar atenção. Mas nada dava certo. Já foi figurante em propaganda na televisão, já foi professor de informática, mas foi quando descobriu o marketing de rede que teve certeza de que sua vida mudaria.

     Era preciso apenas fazer um investimento de 50 mil reais, e seria o pioneiro no Brasil de um negócio vindo da Europa. Mas onde arrumar este dinheiro? Pediu aos amigos que te emprestassem suas poupanças, mas fora em vão. Todos o consideraram louco. Parecia fácil demais ficar rico da noite para o dia, e isso é impossível. Foi então que procurou um traficante de drogas.

     Sim, ele não podia perder esta oportunidade e tinha que arrumar dinheiro em algum lugar. “Manezão” era o dono da enorme favela que avizinhava seu bairro. Manezão arrumou o dinheiro, mas disse que em dois meses ele teria que pagar 80 mil reais. Lógico que Carlos aceitou. Não tinha erro. Ia vender o suco de uma batata que só nascia uma vez por ano no norte do Afeganistão e que, disseram-lhe, curava desde câncer até a própria Aids. Quem não tomaria isso?

     Bom, ninguém tomou.

     Carlos ficou desesperado. Manezão disse que ia “apagar” toda a sua família. Em pânico, ele correu para a igreja rezar. Por mais que fosse protestante, pediu para Santo Expedito, conhecido por solucionar as causas impossíveis, que lhe orientasse. Eis que na saída da igreja ele viu uma loteria. Num impulso de autoconfiança, pegou seus últimos cinco reais e comprou um bilhete. Voltou na igreja.


     “Meu Santo Expedito, se eu ganhar na loteria doo um rim!”, ele disse, com os punhos fechados, espremendo os olhos num ato de profunda devoção.

     Ganhou. 

     Com alguns milhões na conta, Carlos ficou feliz. Pagou suas dívidas, e percebeu que era requisitado. Sabia que as pessoas eram interesseiras, mas gostava de ajudar. Mas gostava de ajudar porque gostava de ser visto como bom, generoso e humilde. Essa fama de humildade e desprendimento o deixava feliz.

     Foram preciso 3 anos para que seu dinheiro acabasse. Teve um câncer em um dos rins. Por descuido ou má vontade, esqueceu-se... Ou não quis mais doar um de seus rins como havia prometido para o santo.

     “Ah, que sofrimento atroz”, dizia ele. Não é fácil ficar rico fácil. Nem é certo dar tudo o que tem por fama de generoso. No final das contas, todos os amigos que surgiram na riqueza tinham sumido. Sem nenhuma expectativa em sua vida, Carlos decidiu escrever uma autobiografia.

     Ela vendeu 250 milhões de cópias no mundo, fora traduzida em 34 idiomas e virou um filme que dirigido por Fernando Meireles. Evidentemente, Carlos ficou rico outra vez. Não mais humilde, mas mais sábio que da outra vez.

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