O destino de Henrique

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

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Henrique estava preso fazia nove meses e estava ansioso com a chegada do natal. Não estava feliz por ver sua família. Mas havia sido incumbido de realizar uma missão: assassinar um policial. Esta era a regra que teria que obedecer para integrar a facção criminosa de São Paulo, o PCC, e com isto, não ser assassinado dentro da cadeia.

                Henrique fora preso por matar um rapaz de dezenove anos por vingança. Cresceu na Brasilândia, bairro da periferia de São Paulo. Aos dezesseis anos conheceu Helena, com quem teve um filho, Marcos. Quando Henrique completou vinte e dois anos, seu filho tinha cinco.

                Ao contrário do que pensaria qualquer pessoa que ouvisse sua história, Henrique era um rapaz de boa família, classe média baixa. Vivia em casa própria, num bairro humilde, mas um bom bairro. Tinha uma motocicleta, e era com ela que ele estava na noite em que uma tragédia se abateu sobre sua família:

                Ele voltava do trabalho, por volta das dezenove horas, quando foi detido pela polícia, pois sua rua estava interditada. Um bandido estava em um bar, usando uma criança como escudo para fazer ameaças aos moradores. Jamais entendeu a história.

                Havia apenas uma viatura policial naquele momento, e o bandido cortou o pescoço do menino, largou-o no chão, e correu. E ele corria feito um animal que foge de um predador. Alguns tentaram segui-lo, como policiais correndo na viatura. Mas ninguém como Henrique.

                 Quando chegou perto de seu filho, o menino já estava inconsciente. Ele pegou a mesma faca, e correu até sua moto e começou a perseguir.

                Onde acabava o bairro, a favela começava. Lá estava ele, no encalço do bandido, como nem a polícia poderia alcançar. Passou com a moto por cima dele, e então desceu dela. Inconsciente pelo próprio ódio, ele deu uma única facada no coração do rapaz. E a policia surgiu neste momento, e o levou para a delegacia.

                Ao contrário do que pensava, os policiais e o delegado não o trataram mal, e no decorrer do processo, foram categóricos em justificar a insanidade do momento, e isto diminuiu sua pena para poucos anos de reclusão. Mas na cadeia a história fora bem diferente.

                O menino que ele matara era um membro da facção. Um membro irrelevante, percebeu Henrique, mas era um peão na obra do “partido”, e ele teria que substituí-lo. Com o mérito de seu bom comportamento, fora tranquilamente confiado a sair para passar o natal com sua família. Mas seu primeiro compromisso seria ligar à cobrar para um determinado telefone e receber as coordenadas.

                Recebeu um endereço onde um policial vivia, dinheiro e uma motocicleta, para matar e ir embora. Ali ele esperou, com medo, pela chegada do policial. Quando isto aconteceu, ele descobriu se tratar de um dos policiais que o defenderam na morte do assassino de teu filho. Ele deveria matá-lo, ou ele próprio morreria.

                Ele tinha as mãos nos bolsos, e num dos bolsos de seu moletom, um revólver carregado. O policial desceu do carro com um menino pequeno. Henrique puxou o martelo de sua arma, e começou a suar. Matar o assassino de seu filho no calor do momento poderia torná-lo capaz de ser indiferente aos outros, como haviam sido com ele próprio?

                O policial o viu e Henrique sorriu. Largou o revolver e desceu da moto. Cumprimentou-o, e agradeceu por tudo. O policial achou aquilo estranho, mas o abraçou. Henrique partiu para a casa de sua família.

                Fora uma noite feliz. Sua última.

O Conto da Vingança

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

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Havia duas crianças que viviam no meio de um bosque. O bosque estava próximo de uma cidade pequena, e todos sabiam que as crianças ali viviam, e nada faziam por elas.

Em tempo: as crianças estavam mortas. Mortas eram as duas crianças que viviam naquele bosque escuro em que as pessoas não ousavam entrar, porque tinham medo.

Viviam, diziam uns, permaneciam, diziam outros, e outros iam além, dizendo que “assombravam”. Pois que aquelas duas crianças, um menino e uma menina, eram transparentes e, embora não envelhecessem, pareciam interagir com uma rotina sobrenatural bastante curiosa: a menina parecia possuir dons de cura, pois era vista geralmente tratando animais desafortunados que se feriam, ou que fossem molestados por seu irmão.

Sim. Embora seja de conhecimento de muitas pessoas que espíritos não possuam habilidade de interferir no chamado “mundo material”, aquele menino conseguia agarrar pássaros e quebrar suas asas, atirar pedras e dar pauladas em pessoas que encontrasse, sem que nada pudesse causar-lhe quaisquer tipos de injúria.

Por isto é que “viviam” no bosque.

Perguntas não faltavam sobre eles. Ninguém nunca soube quando é que chegaram no bosque, e se ao chegarem ali, já fossem aberrações da natureza ou crianças comuns, pois suas vestes não asseguravam a ninguém um palpite de uma época: estavam nus. Pareciam índios, exceto pelos olhos azuis.

Seus olhos, ao contrário do resto do corpo, não eram transparentes. Eram de carne viva, e flutuavam sinistramente encarando quem os encontrasse. Mesmo os olhos da menina. Apesar de haver bondade em seus gestos, ela carregava no semblante uma expressão odiosa e ainda mais sinistra que a indiferença crapulosa do menino.

Certa vez um garoto da cidade, já adolescente, perdera-se pelo bosque. Teve o infortúnio de encontrar o menino pelado. O menino, sem muita dificuldade surpreendera o adolescente e lhe arrancou os braços. O adolescente sangrou muito, mas a menina o encontrou e o curou.


Grato, o menino lhe trouxera frutas. Ela as recebeu com suspeição. Em pouco tempo, tornara-se um hábito ofertar-lhe frutas. Semanalmente estava o garoto da cidade ali para lhe trazer presentes até que, certa vez, a garota permitiu que suas mãos, que antes lhe atravessavam, conhecessem a textura de sua pele.

O adolescente acariciou-a apaixonadamente, e a profanou, rasgando suas entranhas com brutalidade. Acuada em meio ao choque, não conseguiu retomar sua forma imaterial, e entre seus gritos, fora sufocada. Ele apertava seu pescoço.

O rapaz não fora grato por ela ter-lhe recolocado os braços. Sentia ódio das crianças e foi assim que chegou-se ao ensejo de sua vingança. Enforcou-a até a morte, atraindo o outro menino, que tentou dar-lhe pauladas na cabeça, mas o garoto da cidade percebera que no instante em que era agredido, o corpo do menino do bosque tornava-se derrotável.

Puxou-o pelo pulso e enfiou um estilete nos dois olhos  do menino do bosque, e depois rasgou suas bochechas, deixando à mostra a boca arreganhada da criança. Seus gritos agonizantes, inaudíveis para o menino cujo ódio ensurdecia, não deixaram-no notar que a menina, com sangue escorrendo pelas pernas, havia pegado um tronco fino e rígido e empalara, num golpe rápido, o garoto da cidade, que caíra no chão, violado, ferido e aterrorizado.

Enquanto o menino tirava o galho de seu cu, a menina curava seu irmão. Os dois em pé, vigorosamente transparentes, observaram o jovem gemer no chão, chorando, violado, despido. Com o canivete, o menino do bosque fez um corte profundo no pescoço do garoto da cidade, que sangrou até que seu coração parasse de bater. Ninguém jamais o encontrou.

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Um ano de "O Menino que não podia morrer"

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

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Há um ano atras eu publiquei neste blog o primeiro capítulo do conto "O menino que não podia morrer". Havia começado pensando que terminaria em doze capitulos, sintetizando uma idéia relativamente simples, e o que aconteceu foi que acabou se tornando quase um romance.

Um ano depois, eu to aqui pra aproveitar e dar uma notícia pra quem acessa o blog, e gostou da história. Estou revisando, e trabalhando melhor muita coisa que não soube aproveitar naquela ocasião, e está se tornando, devidamente, um romance do qual eu sinta muito orgulho.

Aproveito também para compartilhar algo. Para fazer esta revisão, eu converti a história para o formato Epub, para que eu pudesse ler em um tablet, com a vantagem de um livro impresso, para depois re-escrevê-lo. E estou aqui para compartilhar isso com quem mais quiser.

http://omeninoquenaopodiamorrer.4shared.com

E quero deixar um pedido a todos que visitam este blog. Eu preciso voltar a produzir mais, porque hoje tenho leitores que se interessam pelas minhas idéias, mas confesso que por uma série de fatores, acabo fazendo bem menos. Escrever um texto que as vezes leva três minutos para ser lido pode muitas vezes me tomar um dia inteiro. É desistimulante ter contar para pagar e criar, enfrentando a vida de uma pessoa normal, fazendo coisas que as pessoas normais apenas apreciam. Meu pedido é até simples: Compartilhem!

Escrevi poesias, cronicas sobre problemas sociais, contos repletos de humor negro, outros de terror e suspense. Sempre tem alguma coisa que um amigo seu pode gostar. Então, indiquem. É o que peço de presente de natal atrasado.

Quanto a revisão, a idéia é que seja um livro para publicar por alguma editora, então, se for para obter lucro com meu trabalho, acho justo me dedicar ainda mais para fazer um acabamento que, escrever e publicar, capitulo por capítulo, não me permitia fazer.

E tem D.I. Project. Desculpem pelo imenso atraso em publicar novos capítulos. Isso vai mudar. Esse fim de semana eu retomo o ritmo.

Um forte abraço a todos, e um 2013 maravilhoso, repleto de boas oportunidades, conquistas, e amadurecimento.

Alex Pedro

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