Ensaio sobre as trevas dos que não dormiram

sábado, 1 de fevereiro de 2014

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          Uma amiga minha, que apresentarei como Susana, certa vez havia acabado de se formar e buscava seu primeiro emprego. Recebera uma ligação de um escritório de contabilidade, no número 225 da Avenida Nove de Julho. Era um prédio amarelo e feio, do qual ela até então nunca tinha ouvido falar.

          Susana não tinha religião. Apesar de ter sido batizada quando nascido, achava que Deus era um Saci Pererê universal. Uma lenda comum que justificava subjetividades incompreendidas pelo ser humano em toda a parte do mundo, e apenas isto.

          Parou seu carro no estacionamento, e colocou para fora do carro primeiro seu pé direito. Queria que sua vida profissional começasse do jeito certo. Uma superstição idiota para alguém que não acredita em nada(ou que quer acreditar que não acredita). Fizera sua entrevista.

          “Espero que não se incomode com o lugar...” seu futuro chefe dissera, e ela riu. Disse que tivera uma ótima impressão. Isto o deixara feliz, pois tinha dificuldades em conseguir funcionários.

          Susana começou na segunda feira seguinte. Tinha que conhecer o que havia dos principais clientes, e sua tarefa se estenderia para além do período normal de expediente. O dia correra silencioso, dado à quantidade de documentos que deveria tomar conhecimento.

          Ela trabalhou até que, por volta das 23:00 horas adormeceu. Dez minutos depois ouviu um som de tambor. Firme e forte. Bum, bum, bum-bum-bum... Ela acordou, e percebeu que aquele som vinha dos andares inferiores. Havia gritos, que pareciam ritos festivos. Tinha alegria.

          Bum, bum, bum-bum-bum. Ela começou a descer pelas escadas de emergência quando abriu a última porta e deparou-se com uma fogueira, muitos homens rindo, havia realmente uma festa. Havia um pelourinho, com um homem negro preso a ele, gritando de terror, conforme lhe davam pancadas com uma barra de ferro. O chão era de terra, quem diria, e manchado de carmim, sob a cabeça de um outro negro que, ainda vivo, tremia o corpo em grunhidos. Ela não entendeu o que via.

          Ela estava no ano de 2014, não tinha explicação para aquilo. Ouviu os gritos de uma mulher que era arrastada pelos cabelos. Os homens começaram a violenta-la, enquanto o homem preso assistia e gritava. Susana escondeu-se na saída de emergência por onde havia entrado, mas um negro musculoso, cujo corpo parecia sair do chão a agarrou pelas pernas implorando que ela o ajudasse. Seus olhos estavam furados. Ela correu.

          Mas encontrou no mesmo corredor por onde viera, um homem, branco, jovem, bonito, com bigodes, que estava acorrentado à uma parede. “Me solte”, ele dizia. Ela mexeu nas correntes. Perguntou-lhe o que estava acontecendo. Ele disse que o lugar era atormentado, que precisava fugir. Então chegaram as três mulheres ensanguentadas, que tentaram despir Susana.

          Susana desvencilhou-se e desatinou a subir as escadas. As paredes começaram a descascar, e ela começou a sentir cheiro de carne queimada, e então gritos. Ela abriu a porta do corredor do andar em que trabalhava, mas ouviu gemidos, gritos, grunhidos, sussurros e outros sons aterrorizantes. Havia fogo, e pessoas derretidas que caminhavam em sua direção. Ela se trancou no escritório, mas as pessoas batiam nas portas, e gritavam.

          O fogo entrou no escritório, e ela abriu saltou para a pequena sacada do prédio. A fumaça vinha de todos os lados, e as pessoas haviam derrubado a porta do escritório, e corriam em direção à porta de vidro, com os braços esticados implorando por ajuda. Susana, sentindo que o calor já fazia sua pele queimar, sem muito pensar, lançou-se do prédio. Numa imensa altura.
       
          É claro que ela atingiu a rua. E neste momento cujo impacto violento lhe tirara a vida, ela despertou.
Havia baba nos documentos. Recolheu suas coisas e saiu do escritório. Já no corredor, percebera que uma pessoa cruzara o corredor. Uma pessoa transparente, cujos pés não existiam. Ela partiu em silêncio, misturando “Pai nosso” com “Ave Maria”, e desejando não ter vivenciado o horror que testemunhara naqueles breves instantes de um sono de 5 minutos, que havia levado 40 minutos para acabar.
       
          Susana não desistiu do emprego. Ao contrário. Decidiu ajudar quem estava preso naquele lugar. Mas esta é uma outra história.

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FATO CURIOSO: Semana passada eu escrevi um conto para a história do Fantasma da Cantareira, e fiquei contente que, apesar de fazer tempo que não atualizava o blog, em um dia já tinha 100 visitas. Me deixou animado para fazer outra lenda urbana. Acabei escolhendo falar sobre o Edifício Joelma, e quando comecei a fazer pesquisas, descobri queno dia seguinte se celebraria 40 anos deste episódio tão triste. Fiquei inicialmente impressionado com a ideia desta coincidência, e talvez por causa dela, espero que, apesar de retratar o horror das almas que penam, ter respeitado o sofrimento das vítimas e suas famílias, e particularmente a história do solo do lugar, que antes que o prédio fosse erguido(em 1971) já havia abrigado muitas outras tragédias desconhecidas da maioria das pessoas.

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1 comentários:

Adilson disse...

Querido amigo Alex Pedro,
Foi com satisfação que li suas últimas publicações e, pode ter certeza que assim como eu, muitas pessoas admiram e gostam da maneira como se expressa com as palavras em seus textos. Meu incentivo sempre terá, e com relação ao CONTO, digo que foi uma coincidência bastante oportuna, o tema escolhido. Agora, fiquei curioso sobre as outras histórias que aquele local vivenciou, será que, por seu intermédio, teremos o relato? Antes que eu me esqueça, parabéns mais uma vez.

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