A lenda do velho que ria, Parte 3

sábado, 3 de maio de 2014

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Arte de Tácio Melo Maciel
Era apenas terça-feira para a maioria das pessoas, exceto para senhor Polidoro que, com seus 93 anos, perdera sua esposa para um assaltante violento, que a baleara, e naquela tarde, ela fora enterrada. Sem que tivessem tido filhos, ele sentia mágoa, ódio, e não conseguia dormir.

Era doloroso que tenham tentado ter filhos por tantas vezes sem nunca terem tido sucesso. Agora, no fim da vida, ele olhava para trás e podia reconhecer: toda aquela história de amor de repente deixaria de existir quando ele morresse. Ele era a única testemunha viva daquela aventura particular entre ele e Emerenciana, sua falecida esposa.

Mas evidentemente que esta história de amor era seu ponto de vista sobre 68 anos de um casamento de sucessivas brigas, em que ele a traira por diversas vezes. Ela, Polidoro tinha certeza, sabia de seus deslizes e o perdoara. Em parte porque era seu dever de mulher, mas também porque lhe admirava. Ele era quase um pai para ela.

Tinham raiva dos amigos e irmãos que tiveram filhos e inevitavelmente, sua inveja, visível por todos, os fizera afastar das pessoas. E agora, não tinha ninguém. Poderia de repente, solitário, se reaproximar daqueles que rejeitara. Mas eles o estranhariam, e ele não iria gostar de saber que no final das contas ele precisaria daqueles a quem tanto rejeitou.

Frustrado, sentindo-se humilhado pela própria desgraça, levantou no meio da noite, e pôs-se a andar.

Desejara aquela bênção que era morrer. Já ouvira tantas histórias de que casais unidos pelo amor sobrevivente, quando separados pela morte na velhice, com ligeiro atraso, a própria morte tratava de uní-los novamente. Desejara isto, e rezava para que Deus o retribuísse os anos de comunhão dominical com este advento. Mas Deus não gostava dele. Deus era o pai de todos os outros, o pai daqueles que ele julgou errado por toda a vida e que agora, teria de procurar para curar-se da solidão. Deus era um patife miserável como todos eles. Não era misericordioso, era irônico e sagaz. Era como Polidoro pensava enquanto andava pelas ruas do centro, com o coração amargurado, pulsando ódio do mundo e pena de si mesmo.

Polidoro se sentou na calçada, na Avenida São João, em frente ao número 615 e chorou. Porque Emerenciana tinha de morrer primeiro? Existem mais viúvas que viúvos no mundo, talvez porque as mulheres sejam mais dispostas a viver com sofrimento, talvez já sejam solitárias no matrimônio. Foi então que, no meio da madrugada, algo terrível aconteceu.

Como se do meio do ar se abrisse uma cortina invisível, entre os véus transparentes surgiram um ser pálido, de pele lisa como a cera de uma vela. Era um homem jovem. Ele se apresentou para Polidoro. Era aquele de muitos nomes e muitas caras, e que poderia oferecer a Polidoro um desejo, contanto que não fosse a morte, e Polidoro, em troca, lhe daria sua mortalidade. Polidoro sentiu-se tentado, e negou-o. Mas a criatura branca dissera-lhe o que ele gostaria de ouvir: que melhor maneira de debochar de Deus, que segundo seu entendimento, só lhe causara sofrimento injustificável, do que interferir nos processos do homem, sua criatura?

Polidoro se esforçou para levantar da sarjeta, para então ajoelhar-se diante da criatura maliciosa, e então desejou reencontrar Emerenciana, no esplendor em que ela estaria em sua existência na eternidade. E viu.

Em uma terra de trevas, lama e lamentação, ela estava, com as mesmas vestes que vestia quando fora baleada. Suja, gritando e espraguejando, tal qual estava ele em vida. Sentia ódio dele, ódio pelos anos que passou ao lado dele, engolindo as traições, o ressentimento, os achincalhes e o comodismo que a fizeram viver uma existência servil e rancorosa. Sentia ódio de Polidoro, de Deus, e pena de si mesma.

A criatura começou a dar gargalhadas. A pele de Polidoro começou a tornar-se branca e lisa como a da criatura de muitos nomes enquanto ela ganhava a forma do corpo de Polidoro, dando gargalhadas de incomensurável prazer ao contemplar a desgraça do velho.

Sob a forma de Polidoro, a criatura riu até que o coração do corpo parasse e ela morresse. Polidoro, tomado por ódio, percebeu a ironia, e gritou. Sua boca tornara-se uma coisa medonha, rangando até o fim dos maxilares, com dentes compridos, finos, e brilhantes feito agulhas.

Polidoro se tornou uma criatura medonha, errante, com um propósito real desconhecido, a perambular aquele mesmo lugar por anos e anos. E a família enterrou o corpo da criatura pensando ser Polidoro, com a idéia de que o amor teria unido aqueles dois velhinhos na eternidade.

Continua...

DEIXE UM COMENTÁRIO. EU ESTAVA NA DÚVIDA SE REVELAVA A ORIGEM DELE OU NÃO, ENTÃO, QUEM LEU OS OUTROS, POR FAVOR, QUERO SABER O QUE ACHOU. :)

A lenda do velho que ria, Parte 1

A lenda do velho que ria, Parte 2

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