ROBIN WILLIAMS - SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

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          Em memória do ator Robin Williams, de quem permanecerei um grande fã, decidi assistir alguns filmes com ele que sempre foram referências, e que eu mesmo me perguntava porque ainda não tinha assistido. O primeiro é:

Sociedade dos Poetas Mortos

          Basicamente, o filme saiu três anos depois que eu nasci, e a fase consolidada de Robin Williams no cinema aconteceu paralelo ao meu crescimento. “Bom dia, Vietnã” saiu nos cinemas um ano depois do meu nascimento, e provavelmente levou 3 ou 4 anos para chegar no home vídeo. Logo, os anos noventa, com Hook, Jumanji, Uma babá quase perfeita, e etc definitivamente são filmes da minha geração. Robin Williams faz parte da minha vida cultural, e fico feliz de ter reservado alguns de seus trabalhos mais preciosos para a minha vida adulta, como é o caso deste, que nunca havia assistido.

          Vamos ao filme.

          Não assisti fazendo anotações, nem pretendo fazer uma crítica. Apenas compartilhar minhas impressões. O primeiro frame do filme começa com uma pintura de jovens estudantes. Uma boa forma de se introduzir o tema, seguindo por uma apresentação da escola, e a rigidez de seu método.

          E ai vem insegurança pra todo lado, jovens confiantes, mas intimidados pelos pais. Sei bem como é isso. É bem clara a relação em que os jovens crescem aparentemente felizes e bem resolvidos, conformados de que não realizarão sonhos. É interessante que a gente observe que o fato de a história se passar nos anos 50, não faz diferença alguma no conceito social da história. Isso acontece hoje, e acontecerá por décadas.

         Mas ai começam as aulas. E é tudo chato, perfeito, curricular. Cursos, estudos. Basicamente o conceito que funciona para se criar homens capazes de grandes coisas. Mas não necessariamente felizes. Até que surge John Keating, e suas primeiras lições realmente falaram comigo.

          Primeiro, que me senti imensamente grato quando ele pede para os alunos rasgarem a introdução do livro. Me senti grato por isto. Pois basicamente, eu escrevo com ou sem inspiração. E há uma diferença absoluta entre o que faço em cada situação. Quando faço sem inspiração, busco idéias, referências, e executo, para alguma finalidade específica. Quando crio algo inspirado, não procuro referência de linguagem, estética ou o que quer que seja: eu apenas abro o coração e aquilo sai.

          E isso é percebido por quem lê. Porque eu percebo quando leio isso em alguém. Já li livros repetidas vezes, livros que nem me causaram tanta emoção, ao passo que recomecei a leitura de livros que me causaram lagrimas ou surpresas, e me deparava com uma escadinha de fórmulas para se contar uma história, e me percebia deixando de lado. Aquilo não tinha alma, era algo produzido em série. Não era um bolo feito pela minha avó, mas um bolo pullman absolutamente sem graça quando começamos a comer o segundo pedaço.

          Rasgar as regras é uma forma de se libertar dos preceitos que as pessoas que não tem habilidade encontram de “codificar e decodificar” algo que simplesmente é uma manifestação da alma humana, a fim de “tentar” reproduzir. É o ator sem talento que defende que qualquer um pode ser um bom ator por buscar técnica. É o cara que faz um curso de desenho e diz a si mesmo que é um artista. É o cara que leu O Herói de Mil Faces, ou qualquer coisa do McKee, reproduz as ditas fórmulas que eles sugerem, e de dizem escritores ou cineastas.

          Os estudos são fundamentais para o desenvolvimento de um artista, seja qual for sua arte. Porque ele precisa descobrir o que já foi feito, para elevar sua autoestima sobre o que ele faz. Descobrir novas maneiras, “fórmulas”, e quem sabe, descobrir o que ainda não fora realizado por ninguém, e quem sabe, ser pioneiro. 

          Pessoas comuns podem sim se tornar escritores, atores, pintores competentes. Mas, pensando em um pintor, ele saberá reproduzir o rosto de alguém, ou fazer uma caricatura, ou replicar uma maçã, mas será apenas isto. Uma foto. Pra haver o brilho, a emoção na arte, ela vem de dentro, não de fora. Vem da alma, da vida que vivemos, não dos cursos que fazemos ou livros que lemos.

          Os verdadeiros professores no mundo das artes não ensinam como fazer alguma coisa. Não afirmam, eles estimulam, e apenas isto. E ali temos uma explicação consistente para a poesia. Segundo John Keating, médicos, advogados, todos amam, todos sofrem, todos sonham. A poesia(ou a arte), é a única maneira que o homem encontra de explicar, seja para si mesmo, ou para o mundo, o que ele sente. Isso não se aprende com métodos e teorias, mas com exercícios sobre si mesmo.

          Temos então um momento tocante, ao qual eu já havia feito em minha vida por inúmeras vezes. Os alunos são postos diante de fotografias de turmas de outrora. Quem eram eles? O que pensavam? O que desejavam e sonhavam? Quem amavam? Qual a sabedoria que o tempo e a vida lhes dera?

          O nosso próprio tempo vai acabar passando, estejamos nós vivendo a vida ou não. Um dia temos 12, no outro celebramos 40 anos. Carpe Diem. Aproveite o dia. O tempo vai passar de qualquer maneira. Estejamos nós fazendo o que desejamos ou não. Podemos ter um sonho que levaria 5 anos para se tornar realidade. Pensando de hoje para o futuro, cinco anos é tempo demais. Então desistimos.

          Mas aí os cinco anos se passam sem que tenhamos arriscado, ou praticado. O tempo que precisamos para realizar qualquer coisa que seja sempre vai passar, estejamos nós fazendo por merecer ou não. Essa é uma lição que infelizmente as pessoas costumam aprender tarde demais.

          Mas voltando ao Carpe Diem, ah, isso é tão mal interpretado pelas pessoas. Aproveitar o momento não significa fazer escolhas idiotas, ou “só se arrepender daquilo que não fez”. Mas entender que só se vive esta vida uma vez. Temos o livre arbítrio, mas as grandes decisões só podem ser tomadas uma única vez. Não tem a ver com impulsividade, mas com paz de espírito, e com a busca. 

          Atrevo a complementar Carpe Diem com “Follow your bliss”, o lema de Joseph Campbell. Busque sua felicidade. Requer sacrifícios, e não é sábio tentar viver algo que não foi vivido. Carpe Diem, o que não foi vivido ontem, não deve ser vivido hoje. Vamos aproveitar o hoje com o hoje, sem usá-lo pra reparar o passado. É perder tempo.

          Viver a adolescência nos 20, para viver os 20 nos 30, os 30 nos 40, e perder-se da própria personalidade. Temos que aceitar o que não tivemos e seguir. Isto nos torna mais sábios, e capazes de aproveitar as delicias da fase da vida em que nos encontrarmos.

          “Carpe Diem”, “Follow your bliss”, ou, mais moderno e irreverente “Continue a nadar!”, lema da peixinha Dory de “Procurando Nemo”. O filme segue com seus exemplos através dos jovens rapazes, culminando na trágica história de Neil, que sonhava ser ator, e no mesmo dia em que brilhara no palco, aplaudido e reconhecido por todos seus amigos, suicida-se. Salta de um extremo ao outro.

     
    É exatamente assim que acontece. É difícil demais viver de algo que basicamente é o resultado da ebulição da própria alma. As pessoas raramente entendem. As pessoas não percebem, que pena, que são todas artistas asfixiadas. Todo ser humano nasce pronto para ser poeta, ator, cantor, contador de histórias.
Todos já disseram que a própria vida daria um livro.

          Quantos escrevem? Todos já ouviram uma música e se imaginaram num palco cantando e dançando, todos já contaram uma passagem da própria vida, interessante, e gostaram da concentração daqueles que escutavam. Todos já se imaginaram fazendo algum discurso, todos já se imaginaram sendo entrevistados.

          Mas poucos fazem tudo isso. É o medo de que a poesia da própria vida não seja interessante para os outros, como vemos na cena em que o tímido aluno se recusa a recitar algo de sua autoria, até que o professor lhe tape os olhos e o faça descrever aquilo que vê.

          Impossível que exista algum ser humano cuja poesia não seja interessante. Seja ela sensível, divertida, erótica, profana, religiosa, não importa. Todos trazem dentro de si poesias fascinantes, que são sufocadas pela falta de fé em si mesmos, e a falta de professores que estimulem mais e ensinem menos.

          Tinha esperanças de que Neil fugisse de casa, mas não foi este o final que teve. Uma pena. Gosto de imaginar que, com todo o clímax do filme, todos aqueles jovens que subiram na mesa para ver o mundo por um novo ângulo, possam ter mantido, até o fim de suas vidas, a poesia viva.

          Parabéns a quem escreveu, a quem dirigiu, aos então jovens atores, e especialmente ao tal comediante cuja graça, definitivamente, estava em sua humanidade, muito mais do que em seu senso de humor.