O Menino que não podia morrer

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Gilmar apoiava-se para cochilar na carroça velha naquele entardecer frio e nublado quando percebeu uma luz tão forte sobre sua cabeça e sentiu um estouro poderoso a menos de quinze metros dele. O chão tremeu, o cavalo correu, e ele próprio desnorteou-se por alguns segundos. Olhou para trás.



Sentada no banquinho de quatro pernas ao lado da cama, Dona Lira bocejava.
“Ele vai morrer”, pensou, olhando para o menino deitado na cama. Parecia o palpite de alguém sem esperança, mas aquela era uma mera questão de intuição.

 Hortência esperou por alguns instantes após a saída de Dona Lira, e trocou novamente a compressa do menino.
  - Pobre diabo, você. Não devia morrer... – tocou-lhe o rosto. – Se crescer vai ficar um homem lindo. – Acariciou o peito do menino – Nem tem pêlos ainda. Tomara que tenha pêlos no peito e nas coxas. – suas mãos desceram pela barriga, e pelas pernas. - Eu gosto de pêlos – disse, indiferente.

 A carroça atolou na lama. Gilmar pensou em gritar, mas a frustração era mais forte, ele respirou fundo, segurou o ar, e o soltou devagar. Olhou para o menino desconhecido. Será que deveria deixá-lo pelo caminho? Quem sabe alguém não o encontra e lhe oferece uma família... Não. Levariam-no para o abrigo. Faz quase sete anos que não aparecia alguma família para adotar algum deles. Este iria morrer ali, como ele próprio.

Quem olhasse para Tia Rute, veria uma velha de oitenta e poucos anos, arqueada, magra, descascando batatas, laranjas, arrumando camas, e tirando poeira de superfícies, e jamais imaginaria que na realidade se tratava de uma mulher de mais de cem anos, que pouco falava, e carregava histórias complexas, sem quaisquer testemunhas, além de sua prima, Lira.


  Na noite que antecedeu o encontro de Gilmar com o menino perdido no meio do mato, Tia Rute tivera um sonho que a deixara inquieta. Neste sonho, ela caminhava por um bosque, e havia sangue orvalhando as folhas das árvores, e pequenas poças, de um escarlate brilhante e escuro no chão. Era uma manhã clara. Ela não estava mais jovem do que era, no entanto, não andava com toda a limitação que tinha nos dias de hoje.

Com o passar dos anos, Gilmar aprendera a se irritar com as reações de Dona Lira e tia Rute, como acontece com os filhos quando os pais começam a ter manias de gente velha. Particularmente quando não havia qualquer razão aparente para alguma determinada reação. 
Enquanto cavalgava até a carroça, abandonada no caminho, ele pensou, incomodado. Porque não aceitaram que mudasse a posição da cama? Seria mais fácil cuidar de ambos os garotos. 
 
Os meninos seguraram a cama de ferro, leve como era, cada um de um lado ela levantou a cabeceira. O chão era de madeira, não queria riscar. Quando a puseram ao lado, percebeu algo embaixo da cama. Havia um desenho gravado com uma faca, embaixo da cama. Ela chegou perto, e percebeu que estava na altura do paciente. Os meninos indagaram, mas ela não soube responder. Aproximou-se e viu que eram letras que formavam o desenho. Sentiu ódio de si mesma por não saber ler.

Hortência estava nua dentro da tina com água morna. Em pé, derramava água quente pelos seios, e a espuma escorria pelas curvas de seu corpo, que se arrepiava sob o toque da menor brisa. E fora esta a visão de Gilmar ao chegar assustado da floresta. Ele arrancou a própria camisa sem desabotoar, e ajoelhou-se diante da garota. Beijou-lhe os pêlos pubianos, e esticou a língua para, com um único movimento, tocá-la em sua intimidade.

Estava Laio deitado, febril, num sono inquieto, e em cada lado La cama havia uma pessoa. Tia Rute do Lado esquerdo, e Dona Lira do lado direito. E ambas as senhoras pressentiam que pudesse haver mais alguém em sob os pés da cama. Dona Lira trocava compressas, enquanto Rute olhava com silenciosa raiva para o menino trazido por Gilmar.
  - Esse menino tem que sair desse quarto. Ele atrapalha. – disse Tia Rute, com uma voz quase masculina.


 Quando Dona Lira partira para a cozinha, Tia Rute permanecera no quarto por mais um minuto até respirar fundo, desafiada, e levantar-se, limitadamente, e andar devagar até a porta, cuja mão áspera e enrugada envolvera vagarosamente a maçaneta e a abaixou. Fazia onze dias que ela não saia do quarto, não fosse para banho, e necessidades, sempre sendo rendida por Dona Lira.


Sem muita satisfação, Gilmar montou no cavalo e partiu. Pela estrada, ele percebeu que terra vibrava com as passadas do cavalo, e percebeu as árvores chacoalhando. Ouvira som de urubus. A seu redor, sombras gigantes das aves sob um sol quente.
Quando olhou para cima, vira onze crianças, aparentemente mortas, voarem como a ave, poucos metros a sua distância, boquiaberto com o choque, uma gota de sangue quente pingou em sua testa e, no susto, sacudira a cabeça. Era apenas uma ilusão.
 Minutos depois ele estava na praça da cidade, a caminho da igreja.


 “Tia! Tia!” gritou um dos meninos que estavam no quarto com o menino trazido por Gilmar. Angustiada, correu até o outro quarto, e o menino estava de olhos abertos e a olhou com uma força que a arrepiou por inteira. Suas pupilas eram de um negro profundo, e ali ela mergulhara por um deslumbre aterrorizante aonde um Ser imenso a erguia do chão e com os braços, a partia viva, dividindo-a em duas partes.

 
  A noite estava escura, fria, e a luz branca da lua tornava o quarto de Gilmar, claro e com paredes pálidas. Havia passado das dez horas da noite e, como de costume, todos já estavam em suas camas. Gilmar estava deitado, inquieto, incomodado. Algo o perturbava. Algo o deixava confuso. Ouviu passadas macias no jardim. Caminhou silencioso até sua janela e, por uma fresta, vira três pessoas andarem em passos calmos. Eram duas mulheres de vermelho, e o terceiro tinha três metros e andava como se fosse...


  O padre entrou naquela que era uma das mais suntuosas casas da cidade. Ficava num lugar afastado, quase tanto quanto o orfanato, mas em uma direção totalmente oposta. Fora ali muitíssimo bem recebido pela governanta da casa, uma senhora negra, ex-escrava, com quem tinha uma forte ligação.
 - Anamaria, preciso falar com o Bartô Scheider...
 - Padre Onório, que boas noticia traz o senhor?
 O padre sorriu, e olhou para o papel em sua mão, entregue por Gilmar.
- Ah, minha  velha amiga, hoje o padre veio em busca de conselhos com o judeu.


Naquela manhã Gilmar tomara café no quintal, cuidando das galinhas, sem falar com ninguém. Naquela manhã, Hortência não sentara na mesa para tomar café. Andava com a caneca de um lado para o outro. Naquela manhã dona Lira servia as crianças na mesa, inquieta e pensativa. Naquela manhã tia Rute não tomara café.


"- O que pensa sobre isso, Padre? – indagou Sr. Schneider.
- Honestamente? Isso é grande demais pra se considerar uma impressão imediata. Teria isto alguma relação com aquelas macumbas africanas?
- Envolvendo Baal e Beliel? Pouco provável. Me parece mais algo como um...
- Pacto? – interrompeu o padre. – Não há morte. Ou, não houve."




Dezoito anos antes, Dona Lira era uma senhora com cabelos louros escuros. Era uma mulher madura, e restava ainda alguma mocidade, apesar de ver a si mesma desde nova como uma mulher cuja frigidez e a insegurança lhe seriam o grande ponto fraco. 
Ela olhava séria para o homem de cócoras que ria e conversava com o pequeno Gilmar, que naqueles dias tinha sete anos. O menino estava contente. Tia Rute sorria. Não era um sorriso necessariamente feliz, era um sorriso de êxito.


"Sua aparência era o acumulo do que sentia. Seus olhos traziam a mais profunda dor, a mais incompreensível solidão. Não tinha pele, era apenas uma superfície lisa, escura, sem qualquer semelhança com algo vivo. Não havia brilho em na superfície de seu corpo. Era opaco, e aquele rosto, quase uma fumaça homogênea portadora de um semblante triste. Não havia olhos, no entanto, havia aquelas duas fendas. Dentro delas havia uma luz fraca. Um orifício deformado por onde se ouvia um gemido triste, um lamento interminável. O menino entrara naquele mesmo ambiente." 


CAPÍTULO VINTE
No meio de uma sala estava um menino com os membros virados ao contrário. Os olhos brancos, com pálpebras vibrantes. Tinha seis anos. Estava de quatro, como uma aranha, e a cabeça pendurada como se não tivesse ossos no pescoço. Aquela boca arreganhada que agonizava, e fazia sons de gemidos que pareciam de prazer. “Me mate”, ele pensou dentro de sua cabeça. Arrancou o punhal do peito do camponês e foi em direção a criança, que levantou a cabeça de forma grotesca e disse.
          “Liberate tutemae ex inferis”.


 Tia Rute, com seus olhos já pouco confiáveis, aproximou-se para ver o menino de perto. Era uma criança linda, de pele radiante, olhos tão pretos que não se distinguia íris de pupila, sobrancelhas ligeiramente grossas, que emolduravam um olhar sério, mais penetrante do que poucos adultos.


 


Baal era um deus pagão, antigo, desde antes de se falar em Javé, assim como Beliel. Por vezes, confundidos. Paralelos, por exemplo no caso de Baal para muitos estudiosos, a Cronos, como Javé a Zeus... Ao passo que sacrifícios de animais, e mesmo humanos, eram freqüentes entre os seguidores “tribais” destas entidades, Javé, ou Jeová não fugia disto. Não se relatava nas escrituras perseguições dos “baais” contra os seguidores do deus de Abraão. Embora o contrário fosse injustificavelmente enaltecido. Injustificavel, alias, é um termo gentil.



Era a floresta, escura, e ele caminhava. Havia sangue pelas folhas das árvores, numa finíssima chuva escarlate. O sangue deixava o chão liso como uma neve tenebrosa que refletia a luz daquela lua cheia amarelo-escura, e também as crianças, muitas, que voavam em circulos, como urubus medonhos.



 Cavalgou ao norte, sempre norte. Havia uma estrela pequena e cintilante do céu do meio daquela tarde, e era em sua direção que ele seguia. Chegou até o vilarejo aonde o casarão de Mondego Valência se localizava. Era deserto, exceto pelas casinhas pequenas, em ruas irregulares e as casas eram todas térreas, e havia lá, isolada, com um campo aberto, aquela casa velha.


    - Quem é você?

    - Eu sou quem você acha que sabe quem sou, mas não sabe. – respondeu em latim.
    - E o que eu não sei? – o padre seguiu em latim.
    - Quem eu sou. Sabe quem não sou. Mas não sabe quem eu sou.
    - Você é o diabo?





CAPÍTULO VINTE E SEIS
 Tinha uma estátua de um anjo no fundo oposto à escada. Tinha asas imensas abertas. Segurava uma espada e a apontava para baixo, com o braço erguido alto. Seu rosto era misterioso. Poderia ser Gabriel, Miguel. Não era uma estátua bonita. Era uma escultura tosca de madeira, úmida, condenada. Próximo a ela havia uma gravação em madeira que reproduzia um demônio de muitas cabeças similar a gravuras de William Blake. Uma parede moderadamente grande com o que parecia ser uma biblioteca. O padre começou a folhear um livro. Era escrito a mão. Grego. Outro em latim. Outro tinha escritos em aramaico, hebraico, árabe. Uma coisa o padre percebeu. Tudo havia sido escrito pela mesma mão.



CAPÍTULO VINTE E SETE
 “Mikail?” Gilmar murmurou. Ele abriu os olhos. Gilmar ficou assustado. Mas não perdeu a calma. Aproximou-se, respeitoso.
          “O que está acontecendo?” ele perguntou, mas não recebeu resposta. O menino apenas o olhava concentrado, estudando cada poro do rosto do rapaz.
        -Cuidado pra não morrer! – ele disse olhando nos olhos de Gilmar, com seus olhos claros. Gilmar sentiu seu coração pulsar na testa, nas pontas dos dedos e na boca. O que deveria fazer?

Gilmar andou pela mata, silencioso, seguia mais a sua intuição do que a rastros propriamente ditos. Era sorrateiro. Enxergava meramente três metros a seu redor naquele bosque de arvores de cume tão fechados. Com o tempo, já não notava rastro algum. Apenas percebeu um vulto imenso diante dele, algo que não era ruim, tampouco era bom. Mas era poderoso. Era aquele macaco.




CAPÍTULO VINTE E NOVE
Algo tinha dado terrivelmente errado, e Dona Lira sabia disto e, embora negasse, sabia que tudo começara a mudar no dia em que impedira Tia Rute de sacrificar Gilmar. Gilmar era uma criança gentil, mas isto muitas outras que morreram também eram. Gilmar era carinhoso com ela. Isto também outras crianças eram. Proteger Gilmar foi a forma que ela encontrou de salvar a todas, ainda que de uma maneira tola.








Já faz muitas décadas que o principal jornal de uma cidade no interior no estado do Paraná ilustrou sua primeira pagina com uma foto sinistra de uma casa no meio do mato, e a manchete “CHACINA NO CARDEAL PEREGRINO”. A nota era surpreendente:
          "A quase três meses sem quaisquer sinais dos moradores do único orfanato do município e arredores, o Padre Onório resolvera visitar o Lar Cardeal Peregrino, e uma visão chocante o surpreendera: Todos estavam mortos de maneiras surpreendentemente violentas.


Há milhares de anos surgiram os primeiros, e uns eram bons, outros não. Mas todos eram vaidosos. O que faria um ser interferir na evolução de outro e se fazer reconhecido senão a ardência egoísta de algo que se reconhece sobre outros seres? Há um ser supremo, que é um véu espalhado por toda parte, e ele assiste, e sua inteligência nada mais é do que a soma de todas. Não é um deus, pois ele é também os elementos. Mas os deuses...


 Soube Mikail naquele instante, que a criatura queria usar a criança para tornar-se material. Neste momento ele entendeu o que havia acontecido. Séculos antes, no sacrifício final, Gilmar descobrira o que iria acontecer. Sem entender direito, impediu, e a ira do Antigo decaiu-se sobre seu espírito, que jamais conseguiu recuperar-se. Confundido pela criatura, tirou a vida de todos os outros e matou-se.



FINAL.

4 comentários:

Anônimo disse...

Paulo,

Começando a ler essa incrível história.Parabéns

Alex Pedro disse...

Espero que goste :)

Ever disse...

Comecei a ler, é incrível! Parabéns mesmo amigão! Compartilhado! :D

Luan Cavalcante de Sousa disse...

Parabéns.

Comecei a ler com a pretensão de ir até a metade hoje, mas me senti preso e acabei terminando sem perceber.

Muito bom (y)

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